• No results found

Unobtrusive User-Authentication on Mobile Phones using Biometric Gait Recognition

6.5 Data collection

Após discutir, no capítulo anterior, as diversas competências em jogo na experiência interacional dos estudantes de português como segunda língua, inicio, neste capítulo, minucioso detalhamento descritivo-narrativo de minha experiência microetnográfica. Para tanto, valho-me dos registros realizados por mim durante todo o processo de pesquisa com a finalidade de ser fiel às ações de todos os sujeitos envolvidos neste estudo. Ressalto, antes de tudo, que os dados do estudo-piloto, utilizados no capítulo 1, tiveram a função tão somente de ilustrar o referencial teórico. A partir do capítulo 2, comecei a utilizar os dados de minha pesquisa, gerados e analisados à luz da etnografia e da articulação teórica entre sociolinguística interacional, sociopragmática, sociocognição e estudos socioculturais.

Sem ter tido contato direto no curso de Mestrado com as teorias sobre polidez, procurei, já no primeiro ano do curso de Doutorado, sistematizar meus estudos na reflexão acerca dos estudos precursores da polidez (LAKOFF, 1973; LEECH, 1983; BROWN, 1979; e BROWN & LEVINSON, 1987) pela ampla ressonância no contexto intercultural, preocupando-me não apenas com o entendimento dos aspectos teóricos, mas, principalmente,

78 CAVEDON, N. R. Método Etnográfico: da etnografia clássica às pesquisas contemporâneas. In: SOUZA, E.

L. (Org.). Metodologias e analíticas qualitativas em pesquisa organizacional: uma abordagem teórico- conceitual. Vitória: EDUFES, 2014.

com a necessidade de me posicionar criticamente em relação ao legado deixado pelos estudiosos nesse campo, possibilitando-me, assim, refinar ainda mais o meu olhar investigativo, aplicado ao ensino de português como L2.

Percebi, ao longo de minhas leituras, a possibilidade de rediscutir o que propuseram Brown & Levinson (1987) sobre a minimização dos atos impositivos, por constatar haver, indiretamente, em outras estratégias (maiores detalhes nos capítulos 4 e 5), a recomendação de igualmente ajustarmos, a depender de nossa intencionalidade, a escolha por ações mais ou menos impositivas79. Toda essa reflexão se sincronizaria com meu projeto inicial de doutoramento: estudar os limites territoriais não verbais (a proxêmica), ampliando-se, porém, para a perspectiva verbal.

Em coerência com meu percurso acadêmico, mantive interesse em investigar os aspectos sociointeracionais vigentes na troca conversacional entre brasileiros nativos e estrangeiros falantes de espanhol como primeira língua, representados, respectivamente, pela professora e pelos alunos do curso de português como segunda língua oferecido pelo NEPPE (Núcleo de Ensino e Pesquisa em Português para Estrangeiros), da Universidade de Brasília (UnB).

Sobre essa instituição, convém ressaltar que foi criada em outubro de 2012, a partir do encerramento das atividades do PEPPFOL (Programa de Ensino e Pesquisa em Português para Falantes de Outras Línguas), que havia sido fundado no ano de 1990. Esse núcleo oferece, bimestralmente, cursos iniciantes, intermediários e avançados de português para estrangeiros, havendo também cursos específicos para hispanofalantes no nível iniciante e no intermediário, destinados a contemplar necessidades específicas desse grupo.

Realizar pesquisa no NEPPE foi muito gratificante para mim, pois já havia encontrado lá espaço fértil para interagir com professores, coordenadores e estudantes na ocasião em que cursava o Mestrado, além de já ter feito parte do corpo docente dessa instituição, que reúne ensino e pesquisa, integrados na finalidade de

coordenar, supervisionar e promover o ensino por meio de oferta de cursos de Português para Estrangeiros, incluindo cursos regulares bimestrais ou intensivos nos períodos de recesso; fortalecer e incentivar a pesquisa científica na produção de conhecimentos na área de Português para Estrangeiros; e constituir-se parceiro do estágio curricular, extracurricular e de outras atividades práticas que devem ou

79 Após a leitura de Brown & Levinson (1987), essa percepção confirmou-se a partir da experiência que tive em

sala de aula em relação à presença de modalização de atos impositivos na interação entre professor e alunos. Para Mattos (2001, p. 5), a etnografia educacional deve considerar a observação das ações dos sujeitos por longo período de tempo para que possamos, após essa etapa, selecionar determinado processo interacional microanaliticamente relevante.

podem ser cumpridas por estudantes da Universidade de Brasília ou por grupos de professores em serviço80.

Por fim, para que eu pudesse, de fato, programar meu ingresso no campo de pesquisa, tive de optar por caminhos metodológicos que me permitiram planejar com segurança todas as minhas ações e que me trouxeram maior clareza do percurso a ser trilhado. Logo, em virtude de meu estudo ser de natureza sociopragmática e sociocultural e valer-se da microanálise de excertos interacionais, estou convicto de que a etnografia ofereceu condição sine qua non para a geração dos dados81.

Sobre etnografia, destaco, preliminarmente, ser o termo herança dos estudos antropológicos e referir-se ao estranhamento do pesquisador em relação ao modus vivendi de determinada comunidade. Segundo Duranti (1997), a etnografia procura estabelecer relação de distância e proximidade, investigando determinada comunidade com olhar mais objetivo, mas sem perder de vista a identificação e a empatia, importantes também na atividade de campo. O ajuste dessas lentes (nem tão perto, nem tão distante), segundo o autor (ibid), possibilita a atuação do etnógrafo não apenas como intérprete, mas especialmente como mediador entre as diversas vozes: os sujeitos integrantes de dada comunidade, o etnógrafo e as escolhas teóricas.

Assim, após essa tomada de decisões, consegui reunir tanto os interesses aplicados quanto os teóricos, conduzidos pelo fazer microetnográfico, a fim de consolidar os primeiros passos para a concretização desta pesquisa, a partir da negociação da estratégia minimize a

imposição (BROWN & LEVINSON, 1987).

Assim, este capítulo discute a sintonia existente entre os estudos etnográficos e sociopragmáticos (seção 3.1) para, após isso, detalhar a experiência etnográfica: o acesso e o ingresso ao campo de pesquisa (seção 3.2); os participantes do estudo (seção 3.3); a organização do ambiente e da rotina (seção 3.4); as observações preliminares (seção 3.5); o grupo focal, a geração de dados e o visionamento (seção 3.6); e a sistematização das etapas da pesquisa (seção 3.7).

80 Todas as informações relativas ao NEPPE, e não somente as que foram citadas diretamente neste capítulo,

foram encontradas no sítio http://www.neppe.unb.br/index.php/br/instituicao.

81 Com relação a esse conceito, Johnstone (2000, p. 22) esclarece serem os dados o resultado de observação e

análise de aspectos já naturalizados nas práticas cotidianas. Etimologicamente, o termo dado significa coisas dadas [things given], sendo, coerentemente, a concepção adotada nesta investigação por compreender que os dados se constroem (são gerados) no decorrer da pesquisa, e não coletados antes desta, como se, assim, já estivessem prontos.

3.1ETNOGRAFIA E SOCIOPRAGMÁTICA: EM BUSCA DO DIÁLOGO TEÓRICO-METODOLÓGICO