Accelerometer-Based Gait Analysis, A survey
4.2 Accelerometer Based Gait Analysis
Após a resenha dos estudos precursores e contemporâneos de polidez, pretendo, nesta seção, discutir brevemente sobre a imposição, como estratégia de polidez negativa, descrita por Brown & Levinson (1987), revisitadas, principalmente, por Lakoff (1973) e Leech (1983).
As estratégias de polidez negativa, em geral, voltam-se para a esquiva de quaisquer imposições ao interlocutor (BROWN & LEVINSON, 1987), apresentando, também, o objetivo de minimizar a impolidez em atos impolidos (LEECH, 1983), ou seja, preservar a
face do interlocutor. A partir das contribuições dos principais teóricos (LAKOFF, 1973; LEECH, 1983; e BROWN & LEVINSON, 1987) sobre as estratégias de polidez negativa, construí o quadro a seguir.
Quadro 7 – Estratégias de polidez relacionadas com a imposição Autor Estratégia/
Máxima Recomendação da estratégia
Lakoff
(1973) Estratégia 1: Estratégia 2: não seja impositivo ofereça opções Leech
(1983)
Tato: reduza o custo ao outro
Generosidade: aumente o custo a si próprio
Acordo: reduza o desacordo entre locutor e interlocutor
Brown & Levinson
(1987)
Estratégia 1: seja convenientemente indireto (polidez negativa) Estratégia 4: minimize imposições (polidez negativa)
Estratégia 6: desculpe-se, justifique-se (polidez negativa) Estratégia 7: impessoalize os interagentes (polidez negativa) Estratégia 8: generalize os atos de ameaça à face (polidez negativa) Estratégia 9: nominalize (polidez negativa)
Estratégia 4: use marcadores identitários (polidez positiva) Estratégia 5: busque o acordo (polidez positiva)
Estratégia 6: evite o desacordo (polidez positiva)
Estratégia 7: construa assuntos comuns (polidez positiva) Estratégia 10 ofereça e prometa (polidez positiva)
Estratégia 2 realize associações por meio de pistas (indiretividade) Estratégia 9 use metáforas (indiretividade)
Fonte: Elaborado por mim.
Da mesma forma, Lakoff (1973), Leech (1983) e Brown & Levinson (1987) abordam, direta ou indiretamente, a imposição, e isso ocorre da seguinte maneira.
Esquema 3 – Estratégias de polidez negativa
Fonte: Elaborado por mim.
Yule (2003), ao definir polidez, sempre a relaciona à distância/proximidade social entre os interlocutores. Para ele (ibid), isso pode ser mais ou menos marcado, como, no caso dos falantes de inglês, no uso do título e do último nome dos interagentes, em vez de apelidos ou prenomes. O autor (ibid, p. 60) exemplifica isso a partir das seguintes solicitações:
(a) Com licença, Sr. Buckingham, mas eu posso falar com o senhor por um minuto? (b) Ei, Bucky, tem um minuto?43
Apesar de apresentar exemplos pertinentes, Yule (ibid, p. 60-1) apenas ressalta que podemos, a partir dos enunciados, notar que há polidez marcada linguisticamente e isso
43 Tradução minha para o seguinte trecho: (a) Excuse me, Mr. Buckingham, but can I talk to you for a minute? (b) Hey, Bucky, got a minute?
Estratégias de polidez negativa (Brown & Levinson, 1987).
Seja direto Não pressuponha ou
suponha Não coaja o interlocutor
Comunique suas necessidades para não ferir as do outro Redirecione outras necessidades do interlocutor derivadas da face negativa
Não coaja o interlocutor
Dê opção ao interlocutor de não agir Minimize a ameaça
Minimize a ameaça
Deixe claros os valores dos interagentes
Deixe claros os valores dos interagentes
Minimize as imposições Marque deferência Minimize as imposições
(BROWN & LEVINSON, 1987).
Minimize a impolidez de atos impolidos (LEECH, 1983); nesse caso, atenua-se a invasão
ao reduzir o custo ao outro.
Não seja impositivo; ofereça opções (LAKOFF, 1973); nesse caso, essas estratégias oferecem
resulta em proximidade/distanciamento entre os interlocutores. No entanto, não analisa as marcas linguísticas, o que faço no quadro a seguir, conectando essa discussão à estratégia de minimizar imposições com relação à territorialidade dos interactantes.
Quadro 8 – Estratégias mais ou menos impositivas Elementos
linguísticos Enunciação (a) Enunciação (b)
Vocativo Sr. Buckingham (senhor + último
sobrenome) Bucky (apelido)
Marcador conversacional pré-
posicionado44
Com licença (moderador - cf.
KERBRAT-ORECCHIONI, 2006
[1943], p. 89)
Ei (denota intimidade) Verbo/locução verbal Posso falar (mais mitigado – menos
direto) Tem (menos mitigado – mais direto)
Locução prepositiva Adversativa (“posso falar, apesar de
estar invadindo o espaço”) Ausente (sem a preocupação de ser impositivo)
RESULTADO Estruturas mais formais, mais
distanciadas, mais mitigadas e menos
impositivas.
Estruturas menos formais, menos distanciadas, menos mitigadas e mais
impositivas.
Fonte: Elaborado por mim, adaptado de Yule (2003).
Ainda em relação à imposição, Kienpointner (2008, p. 26), ao comparar os povos anglófonos e hispânicos, percebe que, para os anglófonos, a preservação de território, tanto verbal quanto não verbal, é mais importante, isto é, o medo da intrusão é maior; os hispânicos, por sua vez, não prezam por tanto distanciamento, pois emocionalmente priorizam o desejo de afiliação com o interlocutor.
Semelhante à percepção dos brasileiros, Vizcaíno (2008, p. 294) chama a atenção para o continuum existente no nível de imposição que propiciamos ao nosso interlocutor, não havendo a mesma avaliação entre ordens (Fecha a porta45) e pedidos (Fecha a porta, por favor?45). O brasileiro, segundo Wilson (2011, p. 102), faz parte de uma cultura de não confrontação, sendo preferível, assim, o pedido à ordem.
A distinção entre esses dois recursos não deve se pautar exclusivamente em aspectos linguísticos (evidenciados na abordagem frástica do autor), mas ordem e pedido se revelam, inclusive, a partir dos aspectos extralinguísticos, paralinguísticos e não linguísticos (cf. GUMPERZ, 1982a,1982b, 1997 [1992a]).
44 Terminologia empregada por Marcuschi (1991, p. 68), ao discorrer sobre a posição dos marcadores (no início
do turno ou da unidade comunicativa).
45 Tradução minha para os seguintes enunciados: Cierras la puerta e¿Cierras la puerta, por favor?,
Ao discutir descortesia, Culpeper (1996, p. 357-8) estuda as estratégias de descortesia positiva e negativa, fazendo parte desta a violação do espaço do interlocutor, seja no plano literal ou metafórico (não minimizamos as imposições). A definição de Culpeper (2010, p. 3233) para descortesia é bastante esclarecedora. Para ele (ibid), é considerada descortês toda ação negativa relacionada a reações, interlocutores e contexto específicos. Não desejamos, portanto, o interesse na manutenção da face do nosso interlocutor (CULPEPER, 1996, p. 354). Percebo, assim, duas situações que seriam consideradas impolidas em nosso país com relação à imposição: (1) a aproximação severa (não adotarmos a estratégia de polidez negativa) e (2) o distanciamento severo (adotarmos a estratégia de polidez negativa de forma exacerbada).
No primeiro caso, o de ameaça à face, entendo que há, em alguns casos, a tentativa de ser agradável, porém, acontece nessa interação o que Meier (1995, p. 387) denomina “superpolidez” [overpoliteness]46, que consiste no exagero ao adotar, por exemplo, essa estratégia de polidez, implicando inconveniência. Já o segundo caso pode refletir receio de invadir o território do outro, significando, em outra possível percepção, pouco envolvimento com o interlocutor.
Nos capítulos 4 e 5, discutimos de maneira mais verticalizada acerca da imposição como estratégia de polidez, seja na perspectiva linguística (capítulo 4) ou na perspectiva não linguística (capítulo 5).