75 3.6 Evaluation utilization
5. Unravelling evaluation processes: focusing on decisions about rather than decisions from
5.4 Decisions and evaluation in higher education
Podendo ser compreendida como um trilhar metodológico, a cartografia apesar de se destacar no Brasil, nas áreas de Psicologia e Educação, tem adentrado à Comunicação nos últimos anos. Como apresenta Aguiar (2011, p. 13) foram contabilizados no site da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), até janeiro de 2011, dez trabalhos da área de comunicação. Nestes estudos, tem se construído mapas de relações, enfrentamentos e cruzamentos entre forças, agenciamentos, jogos de subjetivação que reúnem apontamentos e reflexões do que propomos fazer/ser durante uma pesquisa, que vão além de uma análise midiática dos fatos.
Apresentada por várias dimensões e por autores de várias áreas, a cartografia é abordada pelo viés rizomático pelos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995), Suely Rolnik (2007) a partir da psicoanálise e em uma perspectiva comunicacional Martín-Barbero (2004) e Nestor Garcia Canclini (1997). Nas formulações de Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995), as reflexões da cartografia estão intimamente ligadas aos agenciamentos e ao enfrentamento dos dispositivos definidos por Foucault (1984) como estratégias da relação de força que amparam certos tipos de saber e que são sustentadas por eles. Nesse sentido, Kastrup e Barros (2010, p. 77) nos atenta que a “cartografia, enquanto método, sempre requer, para funcionar, procedimentos concretos encarnados em dispositivos”. Para Kastrup e Barros (2010, p.81) “o dispositivo é, dessa forma, sempre uma série de práticas e de funcionamentos que produzem efeitos”. Assim, eles mantêm o caráter e a busca da interpretação e da compreensão, mas objetivam intervir junto com estes, na medida em que é realizado um duplo movimento entre os sujeitos.
Na cartografia social, assim como na cartografia tradicional ligada ao campo de conhecimento da geografia que aborda os estudos dos territórios de forma precisa, são construídos mapas dos territórios, porém em outros níveis.
O termo “cartografia” utiliza especificidades da geografia para criar relações de diferença entre “territórios” e dar conta de um “espaço”. Assim, “Cartografia” é um termo que faz referência à ideia de “mapa”, contrapondo à topologia quantitativa, que categoriza o terreno de forma estática e extensa, uma outra de cunho dinâmico, que procura capturar intensidades, ou seja, disponível ao registro do acompanhamento das transformações decorridas no terreno percorrido e à implicação do sujeito percebedor no mundo cartografado” (KIRST; GIACOMEL; RIBEIRO; COSTA; ANDREOLI, 2003, p. 92).
Nesse sentido, a cartografia social reúne na constituição dos seus mapas os enfrentamentos, as resistências, potencialidades e os jogos de objetivação e subjetivação que atravessam os sujeitos. Martín-Barbero (2004, p. 10) define que os mapas constituídos nas
pesquisas cartográficas não são terrenos, mas sim “mapas noturnos”. O autor defende que estes tipos de mapas
...mudam o lugar a partir do qual se formulam as perguntas, para assumir as margens não como tema, mas como enzima. Porque os tempos não estão para síntese, e são muitas as zonas da realidade cotidiana que estão ainda por explorar, zonas em cuja exploração não podemos avançar se não apalpando, ou só com um mapa noturno. (MARTÍN-BARBERO, 2004, p.18).
Desta maneira, os mapas permitem experimentações mais ancoradas ao real e aproximam as relações constituídas pelos sujeitos durante a realização da pesquisa, ou seja, os afetos e desejos que movem o pesquisador. Segundo Deleuze e Guattari (1995, p. 26), o “mapa não reproduz um inconsciente fechado sobre ele mesmo, ele o constrói”. Ele é
[...] aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 26).
Na experiência de pesquisa com os jovens do assentamento Barra do Leme foi imprescindível durante a aproximação do campo a constituição destes mapas. Inicialmente, tinha em mente que iria encontrar novas possibilidades de convívio e de aprendizagem, mas não me dava conta das provocações e transformações sobre as minhas próprias visões sobre o cotidiano e a juventude rural.
Talvez não seja possível, neste trabalho, dar conta do desejo que me moveu a imergir neste objeto, mas sei que os mapas que os constituem têm muito da convivência com os jovens e os moradores do assentamento Barra do Leme. As primeiras idas a campo, foram momentos de descoberta exigente, em que me deparei com outros modos de vida do meio rural, outras relações com a terra e outras narrativas que me apontaram claramente a construção de novos mapas traçados a partir dos ritmos, dos processos e do tempo da pesquisa. Muitas das questões, informações que tinha sobre as oficinas audiovisuais, as quais os jovens do assentamento participavam, foram se reconfigurando no convívio com eles.
Assim, novos olhares foram apresentados no cotidiano, alguns bem diferentes daqueles pré-concebidos antes de adentrar o objeto-pesquisado, que tinha como foco principal as relações dos jovens com o audiovisual. Na convivência com os jovens, visitantes e moradores do assentamento percebi a riqueza que era as atividades de teatro desenvolvidas por eles, há doze anos. O grupo de teatro, denominado Caricultura, articula no assentamento a realização de diversos processos artísticos e comunicacionais, a exemplo a xilogravura e a
exibição de filmes para a comunidade. Todas as atividades tinham como foco o cuidado com a terra, a educação, a arte e a cultura no campo.
Ao pensar cada área trabalhada no assentamento com os jovens como mapas, agreguei novas linhas à pesquisa e permiti que meu próprio olhar e corpo sentissem que o que movia a realizar a pesquisa, não era a análise da conjuntura e dos resultados que um trabalho de uma organização social ou de um programa governamental propiciava a juventude rural. Mas, mais do que isso, encontrar as potências destas ações que geram uma ação política, e que perpassam outra ordem, reunindo indecisões, afetos e envolvimento sócio-político não só dos jovens, mas também dos sujeitos que coordenam as ações.
A partir dos mapas que foram se constituindo, a cartografia acompanhou os processos em cursos, estreitando os laços afetivos e definindo como um “rizoma” múltiplas possibilidades de entradas e de processos que se transformaram na pesquisa, pois assim como se modificam os sujeitos, as relações por ele produzidas se transformam. O rizoma para Deleuze e Guattari (1995, p. 22), “tem formas muito diversas, desde sua extensão superficial ramificada em todos os sentidos até suas concreções em bulbos e tubérculos”. Ele se conecta a qualquer ponto e se diferencia do pensamento arborescente por não ter eixos centrais, mas linhas de fuga e de ruptura. Comparado a uma “erva daninha” não se sabe onde ele vai parar, e em qual intensidade ele afeta os corpos, pois cada corpo é afetado de uma maneira, embora se encontre em um mesmo caminho.
Todo rizoma compreende linhas de segmentaridade segundo as quais ele é estratificado, territorializado, organizado, significado, atribuído, etc.; mas compreende também linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem parar. Há rupturas no rizoma cada vez que linhas segmentares explodem numa linha de fuga, mas a linha de fuga faz parte do rizoma. Estas linhas não param de se remeter umas às outras (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 26).
Nessa perspectiva rizomática, percebe-se que o pesquisador tem maiores possibilidades de fazer da sua pesquisa um “desdobramento criativo” (ROSÁRIO 2008, p. 206). Todavia, assim como as demais pesquisas, ele precisa estar atento aos limites de sua experimentação. Fischer (2008, p. 234) alerta, que a “regra é nunca esquecer um limiar/limite”, ou seja, é preciso estar atento ao momento de parar mesmo caminhando de maneira aberta e livre na pesquisa. Ao possibilitar o desenvolvimento de uma pesquisa em que o pesquisador não foge do seu objeto, não oculta sua intervenção naquele meio, a cartografia vai de encontro aos paradigmas estruturalistas, e encontra em sua abordagem alguns pontos que devem ser considerados.
Para aqueles que sempre trabalharam com métodos tradicionais, esse modo de atuar da cartografia, nos primeiros momentos podem assustá-los. Diferente de outros métodos, a cartografia não têm um plano pronto e definitivo, e também, o pesquisador ocupa outro lugar, não aquele do detentor do conhecimento, mas do aprendiz, que diariamente está fazendo novos percursos, criando novas relações e construindo novos processos de ensino- aprendizagem. Na cartografia, os planos vão se definindo a partir da observação e experiência com o objeto, que se dão a partir da criação de novas metodologias de aproximação e das diferenças da/na coletividade que compõem a pesquisa.
A escolha da cartografia e da pesquisa-intervenção para conduzir esta pesquisa, partiu do desejo de conhecer as ações desenvolvidas pela ACARTES e o Projeto Arte e Cultura na Reforma Agrária com os jovens rurais, realizar intervenções68 com eles. Tal escolha também se dá face às especificidades dos interlocutores da pesquisa, que vivem em processos de transição de espaços, ora estão em Itaitinga, nas formações da ACARTES, ora estão no assentamento ou morando em outra cidade. Essa trajetória de ambos faz parte das maneiras de atuação da ACARTES e do Arte e Cultura na Reforma Agrária, agrupada as singularidades e particularidades de suas vidas no assentamento.