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CHAPTER 3 Development of a work process for condition management

3.5 Data processing

teóricas e metodológicas

Conceito de Cultura Variável ‘tempo’ Inspiração teórica (principais autores) Escola Funcionalista Britânica Conceito de cultura aproxima-se do conceito de sociedade. Cultura é o conjunto de relações sociais e seus conteúdos. Ênfase nas funções e na integração das

manifestações culturais.

Perspectiva

sincrônica da cultura. Busca das relações presentes entre as manifestações culturais Reação ao evolucionismo; Escola Racionalista Francesa (Malinowski e Radcliffe-Brown)

Escola Busca de relações Perspectiva Escola Racionalista

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Por exemplo, sobre a introdução do paradigma interpretativo na matriz disciplinar da antropologia, Oliveira (1988, p. 64) nos diz: “Com a introdução pelo paradigma hermenêutico de alguma desordem na matriz disciplinar – constituída, originalmente, pelos paradigmas orientados pelas ciências naturais –, o que se viu foi uma sorte de rejuvenescimento da disciplina, e isso graças ao aumento da tensão entre os paradigmas

circunscritos na matriz: se já havia esta tensão entre os primeiros paradigmas, com a inclusão do último ela aumentou em escala, dinamizando extraordinariamente a antropologia de nossos dias. Portanto, nunca é demais insistir que a hermenêutica não veio erradicar os paradigmas, hoje chamados tradicionais, mas para conviver junto a eles, tensamente, constituindo uma matriz disciplinar efetivamente viva e produtiva”.

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Certamente, outras ciências sociais contribuíram aos estudos sobre cultura organizacional. Para efeito dos argumentos desta tese, delimitou-se a discussão aos paradigmas antropológicos, alguns dos quais têm bases

Estruturalista Francesa estruturais na mente humana, que governariam o comportamento. Ênfase na distinção entre os modelos manifestos de cultura x modelo inconsciente essencialmente sincrônica da cultura Francesa; lingüística saussuriana (Lévi- Strauss). Antropologia Interpretativa Conceito semiótico de cultura; cultura como sistemas de símbolos e significados. Perspectiva diacrônica da cultura. Considerar a historicidade é uma condição ao conhecimento. Filosofia hermenêutica; distinção entre ciências da natureza e ciências do homem; pós- modernismo. Antropologia Histórico- cultural Ênfase na construção histórica de padrões culturais, e no relacionamento entre a cultura e o indivíduo. O particularismo histórico propunha o

estudo diacrônico das culturas como

condição à derivação de leis gerais.

Reação ao evolucionismo;

distinção entre ciências da natureza e ciências do homem (Boas, Benedict; no Brasil, Freyre)

Visto isso, pode-se sugerir a apropriação seletiva de idéias e teorias oriundas desta matriz por teóricos organizacionais, que deveriam identificar, entre as idéias que caracteriza cada

paradigma, aquelas cujo potencial de contribuição (ou explicação) às discussões sobre cultura organizacional – seja com interesses mais gerencialistas, seja com interesses mais críticos – seria maior. Por exemplo, inspirada no racionalismo iluminista, a tradição antropológica britânica de cunho funcionalista e sincrônico produziu idéias sobre a cultura que, ao abordarem macro-questões como as funções das instituições culturais, foram associadas à

antropologia social, ou à abordagem antropológica que se concentra no estudo das sociedades

management e intervenções culturais –, baseado nas análises funcionais de manifestações

culturais, como mitos e ritos. Diferentemente, a tradição antropológica diacrônica americana sempre se ocupou da cultura como sistemas de significados e conhecimento, valores e símbolos. Trata-se da antropologia cultural, fundada por Boas e posteriormente reformulada por Geertz (1989), cujas propostas têm o potencial de redefinir o projeto intelectual e

científico da antropologia. Ao viabilizar as perspectivas teórico-metodológicas de

diferenciação e fragmentação (MARTIN, 1992), a antropologia geertziana poderia revelar as clivagens interpretativas (JAIME JÚNIOR, 2002) que caracterizam os modelos culturais impostos por meio das práticas do symbolic management.

De fato, a apropriação das idéias antropológicas pelos teóricos organizacionais aconteceu seletivamente, e limitada em grande extensão aos referenciais funcionalista e interpretativo (SCHULTZ E HATCH, 1996; MARTIN, 2002). No contexto desta polarização, entretanto, os teóricos organizacionais assimilaram premissas e referenciais teóricos que não colocavam a

mudança cultural como um tema central, o que implicava a construção de conceitos de

cultura que, se não desconsideravam totalmente sua dimensão dinâmica, assumiam-na apenas tacitamente. Ao se apropriarem do referencial antropológico, “os proponentes dos

paradigmas funcionalista e interpretativo oferecem representações mais ou menos estáticas que ignoram o fluxo e as descontinuidades que [...] constituem a vida cotidiana nas

organizações. Apesar de funcionalistas e interpretativistas reconhecerem a relevância das origens históricas, ambos os paradigmas retratam a cultura organizacional por meio de representações estáticas, tais como padrões, mapas, programas, metáforas, imagens e temas”

(SCHULTZ E HATCH, 1996, p. 535). Na prática, a seleção destes paradigmas também condenou a um esquecimento as outras tradições antropológicas, bem como questões mais amplas que perpassam o debate social; em especial, a tensão entre as perspectivas sincrônicas e diacrônicas de análise dos fenômenos sócio-culturais. Por exemplo, a tradição estruturalista francesa – em cujo contexto o debate sincronia versus diacronia assumiu uma importância teórica fundamental – defende uma perspectiva (ou um projeto) essencialmente sincrônico e racionalista, porém extremamente abstrato, o que a excluí das discussões sobre a cultura organizacional. Certamente, a apropriação do referencial antropológico pelos teóricos organizacionais merece uma discussão mais aprofundada, capaz de sugerir explicações à desvalorização histórica da temática da mudança cultural no contexto desta

Na realidade, podemos sugerir ter sido a mudança cultural um tema secundário na matriz disciplinar da antropologia, desde o movimento de reação às perspectivas diacrônicas dos evolucionistas, que estudavam a mudança cultural em grande escala. Como foi discutido no capítulo anterior, uma das questões básicas que entrincheiram os antropólogos, a oposição entre diacronia e sincronia, foi resolvida (ou não..) de maneira diversa por cada tradição. Como explica Schwarcz (2001), os fundadores dos paradigmas que compõem a tradição moderna da antropologia – as Escolas Francesa, Britânica e Histórico-cultural Norte-

americana – abdicaram do estudo histórico e diacrônico das sociedades ao perceberem que os arquivos dos grupos que estudavam eram extremamente pobres ou inexistentes, o que

impediria o desenvolvimento de análises aprofundadas e confiáveis de sua história. Em especial, as tradições sincrônicas européias se desenvolveram como uma reação às teorias evolucionistas. Segundo Durkheim (1972), por exemplo, era necessário o estabelecimento de um método para explorar os fenômenos coletivos; método este que deveria distanciar-se do método comparativo empregado pelos evolucionistas, cujas teorias ele acusou de serem estritamente filosóficas e sem fundamentação empírica suficiente. Inspirados em Durkheim, os fundadores das tradições antropológicas sincrônicas advogavam a construção de uma ciência objetiva, inspirada no racionalismo das ciências naturais; ao recusar a especulação filosófica, a antropologia deveria ser empiricamente fundamentada.

De fato, os paradigmas de tradição européia – Estruturalista e Funcionalista – excluíam a mudança cultural como conseqüência de escolhas teórico-metodológicas primordiais consolidadas ao longo de seu desenvolvimento. Por exemplo, a perspectiva antropológica funcionalista é essencialmente sincrônica, isto é, preocupada com a análise dos grupos humanos em suas dimensões atemporais. Os antropólogos funcionalistas partiam do

pressuposto de que o que o etnógrafo faz é o estudo de como as sociedades se mantém, e não de como evoluem, dando à mudança cultura um status pouco privilegiado em suas

pesquisas10. De acordo com os fundadores da tradição funcionalista, a objetividade do

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Apesar do seu foco na sincronia – isto é, na manutenção do grupo social enquanto tal – a tradição

antropológica funcionalista inclui estudos e teorias a respeito da mudança cultural, que se torna um tema também relevante no contexto colonial, caracterizado pelos contatos entre os ‘povos nacionais’ e os ‘povos tribais’, o chamado ‘contato interétnico’. Como diz Oliveira (1964, p. 13), “verificamos, assim, que a constante busca de refinamento metodológico e conceitual que se nota nos estudos de contato interétnico [...], pode ser considerado também – e sobretudo – como o resultado da perene frustração dos etnólogos em bem compreender a estrutura e a dinâmica das relações entre povos de etnia distinta, inseridos numa situação determinada: a situação de contato”. No que diz respeito ao contato interétnico, os estudos alinhados à tradição britânica dão à noção de ‘instituição social’ um relevância fundamental, articulada originalmente em Methods of Study of Culture Contact in África, de Malinowski (1938), e mais tarde no clássico The Dynamics of Culture Change, também de

conhecimento antropológico deveria ser garantida por meio da adoção da etnografia como método privilegiado por meio do qual se poderia captar a ‘racionalidade’ da sociedade. Fazê- lo significaria identificar as funções de suas manifestações culturais. Os funcionalistas

reconheceram que antropólogos de gerações anteriores – leia-se, os evolucionistas – não iam a fundo no que dizia respeito a suas tentativas de compreender efetivamente os povos dos quais falavam. A objetividade do conhecimento antropológico dependia da apreensão do papel de cada manifestação cultural no contexto da sociedade sendo analisada; o que contrastava com os pressupostos metodológicos dos evolucionistas, que recorriam a arquivos históricos considerados pobres e incompletos e não praticavam a etnografia. Assim, a perspectiva sincrônica – centrada no presente, isto é, na história presente do grupo estudado – também era uma maneira de se garantir a objetividade do conhecimento antropológico, além de demarcar fronteiras com a História. Entretanto, ao isolarem a variável tempo, os funcionalistas

desenvolveram referenciais teóricos pouco úteis à compreensão da mudança cultural. Ao construir “fotografias” das culturas por meio da busca das racionalidades e funções das manifestações culturais, a essência do pensamento funcionalista acabava destacando o equilíbrio entre as instituições culturais e a coesão da cultura como um todo, em detrimento do conflito e da mudança (GODDARD, 1982).

Alinhada a um projeto antropológico denominado “moderno”, a tradição sincrônica européia, mais especificamente o funcionalismo, foi a inspiração para grande parte dos estudos sobre a cultura organizacional; em especial, os estudos de integração com interesses gerencialistas. Pode-se sugerir algumas explicações para este fenômeno. É possível dizer que a gestão é tradicionalmente caracterizada pela pressuposição da existência de uma racionalidade

superior nas organizações, a visão dos gerentes. Como Brabet (1993) descreveu, baseada em

amplas pesquisas, as premissas do modelo instrumental tem influenciado historicamente a gestão nos Estados Unidos e na Europa. Segundo este modelo, a empresa é um instrumento racional de produção cujas estratégias são definidas pela direção em função das pressões do mercado e do setor. A função dos gerentes é implementar as estratégias, procurando os

visão: “A preocupação em apreender a realidade resultante do contato interétnico valendo-se da análise de instituições correspondentes, i.e., pela aceitação tácita do princípio de que as instituições atuam umas sobre as outras segundo suas respectivas naturezas (as instituições religiosas tribais seriam modificadas pelas ação da instituição religiosa ocidental, as econômicas por suas recíprocas e assim por diante) leva o pesquisador a minimizar a influência dos agentes alienígenas naquelas esferas formalmente fora de seus respectivos campos de ação. Assim, o missionário ou o administrador afetariam a ordem tribal apenas naquelas esferas

relacionadas com o sistema religioso ou com o sistema de chefia. [...] A verdade é que o espírito inglês não trouxe para os estudos de contato interétnico o melhor de seus esforços teóricos e metodológicos ...” Posteriormente, os trabalhos de funcionalistas britânicos sobre a “mudança social” centravam-se nos mecanismos sincrônicos de mudanças inerentes às sociedades tribais, desconsiderando as especificidades

melhores resultados econômicos e a melhor performance de seus empregados. Segundo este modelo, as organizações devem ser formatadas racionalmente e os empregados devem se envolver com o projeto coletivo, proposto pela alta direção. Assim, os indivíduos são vistos como seres motiváveis, ou parcialmente condicionáveis por meio de técnicas derivadas de conceitos comportamentais de estímulo-resposta.

De acordo com o modelo instrumental, os gerentes acreditam ser possível fazer com que os indivíduos se adaptem aos padrões desejados de comportamento, medindo as repostas a cada estímulo e comparando-as às metas e aos investimentos realizados. A administração é baseada na idéia de que um sistema social harmonioso gera eficiência econômica e vice-versa,

enquanto os conflitos são vistos como disfuncionais ao sistema. Um ambiente harmonioso, sem questionamentos ou resistências e com um alto grau de conformidade por parte dos indivíduos aumenta a produtividade da empresa. Os administradores, portanto, devem estimular os processos sociais considerados mais apropriados aos objetivos organizacionais. Pressupor a existência de uma racionalidade superior implica a passividade dos indivíduos diante da gerência, que possui a capacidade e a visão global necessária para guiá-los em direção do sucesso geral. Segundo Barley e Kunda (1992), a popularidade das teorias da cultura organizacional representa o reaparecimento do discurso do controle normativo. Na opinião dos autores, os administradores, operando segundo a lógica da racionalidade superior e do controle, adotaram a retórica da cultura para que pudessem alcançar suas metas. Por meio da retórica da cultura, os administradores são vistos como líderes que tem o papel de formatar fenômenos culturais e processos sociais, instituir normas e valores e, então inspirar e motivar os empregados. De fato, o interesse teórico e prático na cultura organizacional pode ser visto como mais uma manifestação da racionalidade superior da administração, em uma versão normativa. Neste contexto, o surgimento do tema cultura organizacional no discurso gerencial relaciona-se a uma busca por novas ferramentas de controle social para aumentar a

produtividade. A criação de contextos sociais adequados que favorecessem a produtividade em organizações era uma meta principal para administradores, cuja preocupação era

desenvolver tecnologias efetivas de intervenção na realidade cultural (BARBOSA, 1999; MASCARENHAS, KUNDA E VASCONCELOS, 2004).

Devido ao seu foco em interpretações consistentes de manifestações culturais, a abordagem

de integração à cultura era mais adequada aos objetivos de se promover um ambiente

harmonioso, que permitisse melhor desempenho organizacional por meio de padrões de comportamento considerados adequados pela direção. Ao mesmo tempo, o referencial

funcionalista sincrônico era visto como aquele mais adequado às discussões gerencialistas. Associado às manifestações culturais organizacionais, o conceito de função – visto pelos funcionalistas como um instrumento para se desvendar sociedades aparentemente caóticas – era útil aos administradores à medida que lhes dava ferramentas capazes de comparar os elementos constitutivos da culturas, manipular seus significados e os comportamentos esperados. Neste sentido, o rito, ao possuir funções de aglutinação social, permitia que administradores reforçassem aqueles valores e comportamentos que lhes pareciam mais apropriados. Como resultado deste movimento, e devido à sua convergência com os interesses gerenciais, a abordagem funcionalista de integração à cultura organizacional rapidamente se tornou predominante. Os interesses diários e práticos da administração implicavam tornar concreta a idéia da cultura organizacional, uma variável que pudesse ser manipulada pelos administradores. Neste sentido, a cultura se torna autônoma, algo que pode ser formatado pela equipe gerencial para maximizar os resultados de uma organização. De fato, a abordagem funcionalista de integração é uma manifestação de como os administradores podem adaptar a temática da cultura às suas necessidades. Neste contexto, a abordagem sincrônica à cultura era especialmente apropriada aos objetivos dos teóricos, entre os quais, a comparação entre culturas. Como discutem Schultz e Hatch (1996, p. 535):

A natureza estática da análise funcionalista faz possível se comparar várias culturas e se mostrar as diferenças e similaridades entre elas. […] Para fazer tais comparações, o pesquisador precisa “congelar” a cultura ao representar suas características numa maneira estática. Alguns pesquisadores funcionalistas reconhecem o desenvolvimento e estágios de aprendizagem nas culturas; entretanto, argumentamos que este

desenvolvimento segue fases previsíveis e determinísticas, como, por exemplo, o ciclo de vida da cultura em três estágios (nascimento, meia-vida e maturidade), descrito por Schein (1985). Na realidade, a análise funcionalista resulta em um modelo estático que conecta os elementos da cultura organizacional, mesmo quando o estudo centra-se na transformação através dos estágios de desenvolvimento cultural.

Ao mesmo tempo, e como uma reação à apropriação de teorias e conceitos funcionalistas aos estudos sobre cultura organizacional, teóricos menos alinhados aos interesses gerenciais buscaram questionar o conjunto de propostas genericamente denominadas symbolic

management por meio do aporte à tradição interpretativa, denunciando um suposto ‘desvio’

do que seria uma tentativa de revolução paradigmática na área de Estudos Organizacionais (BARLEY, MEYER E GASH, 1988; BARLEY E KUNDA, 1992; MARTIN, 2002). Segundo

Oliveira (1988) a antropologia interpretativa é um paradigma que representou uma reação a um projeto anterior de antropologia – freqüentemente denominado moderno –, que tinha suas raízes no culto ao objetivismo e ao racionalismo, típico da Ilustração. Ao analisarmos os paradigmas modernos – entre os quais o funcionalismo –, percebemos que buscam construir um referencial coerente que permita entendimentos amplos e gerais sobre o funcionamento do universo social. Enquanto os antropólogos estruturalistas buscavam estruturas inconscientes que explicassem todos os nossos padrões de comportamento ou culturas, os funcionalistas construíram um corpo teórico com o qual poderiam analisar e comparar todas as culturas. De fato, as proposições dos teóricos do symbolic management inserem-se neste contexto. Ambas estas correntes européias de pensamento encontram suas raízes no racionalismo francês, que tem em As regras do método sociológico, de Durkheim (1972; orig. 1895), o marco inicial de um amplo esforço para construir uma “verdadeira ciência natural dos fatos sociais”

(OLIVEIRA, 1988, p. 73). Neste sentido, até a tradição histórico-cultural norte americana não representava uma ruptura com o projeto racionalista moderno; o particularismo histórico seria um método complementar à busca de leis gerais sobre as dinâmicas sociais.

Diferentemente, a tradição interpretativa é freqüentemente associada a uma perspectiva antropológica pós-moderna, em cujo contexto são travadas discussões significativamente diferentes daquelas típicas da escola racionalista francesa e do estruturalismo, por exemplo (OLIVEIRA, 1988b; CALDEIRA, 1988). As contribuições da tradição antropológica interpretativa – da mesma forma que as contribuições dos estudos de fragmentação e diferenciação da cultura organizacional – freqüentemente acontecem por meio do

questionamento implícito de diversas premissas e das conclusões generalizantes e abrangentes das outras teorias ou paradigmas. Assim, exacerba-se a desconfiança de Boas na derivação de teorias abranges sobre a cultura por meio de sua desconstrução. Como propõe Geertz (1989), a antropologia deveria deixar de ser uma ciência experimental e assumir-se uma ciência interpretativa, cujo objetivo não é chegar a uma equação simplificada das dinâmicas do universo social. No esteio destas idéias, teóricos organizacionais armaram-se de etnografias, entre outros estudos apoiados em outras abordagens metodológicas, para denunciar as injustiças no contexto organizacional (estudos críticos de diferenciação), a ambigüidade e as contradições nas organizações (estudos descritivos de fragmentação), as implicações da diversidade cultural (estudos de fragmentação e diferenciação descritivos), entre muitos outros temas. Certamente, os tipos de estudos apontados pelos parêntesis não dão conta da

complexidade teórico-metodológica e de interesses que caracteriza o pólo interpretativo11 do campo da cultura organizacional (MARTIN, 2002). Neste contexto, boa parte destes estudos assume tacitamente o objetivo de denunciar as simplificações conceituais e empíricas

empreendidas por teóricos funcionalistas do symbolic management (KUNDA, 1992; KUNDA E VAN MAANEN, 1989).

Da mesma forma que a tradição européia, os paradigmas americanos não privilegiaram a mudança cultural, apesar de terem incluído o tempo como uma das dimensões fundamentais ao reconhecimento das especificidades dos grupos humanos estudados. De tradição moderna, a Escola Histórico-cultural Norte-americana de Boas originou-se das críticas deste autor às abordagens diacrônicas dos evolucionistas, que, segundo Boas, eram etnocêntricas, pois partiam de pressuposições a respeito da evolução das manifestações culturais que não deveriam ser tomadas a priori, mas sim como resultado de um estudo minucioso e histórico. Com a proposta do particularismo histórico, Boas propunha o ‘método básico das ciências sociais’, que deveria ser indutivo, e não dedutivo, como assumiam os evolucionistas. Assim, Boas sugere a inadequação da perspectiva linear assumida no âmbito dos estudos

evolucionistas sobre a evolução cultural da humanidade. Não deveríamos considerar a

humanidade como imersa em “uma cultura”, que teria o mesmo destino, mas sim a existência de “várias culturas”, que deveriam ser estudadas em suas particularidades históricas como precondição para a dedução de leis gerais. Posteriormente, entretanto, a perspectiva relativista inovadora de Boas se desenvolveu com base na sua decepção ao ter que renunciar ao estudo diacrônico das culturas em sua última fase intelectual, ao perceber a pobreza dos arquivos históricos e a conseqüente impossibilidade de se chegar a conhecer “como a cultura de cada