CHAPTER 3 Development of a work process for condition management
3.4 Data collection
Como se discutiu no primeiro capítulo, o pensamento antropológico tem sido desenvolvido com base em diferentes abordagens teóricas e metodológicas, em diversas escolas de pensamento ou paradigmas. Como sugere Laplantine (1988), no contexto acadêmico da antropologia – ou ainda, no contexto da cultura acadêmica antropológica –, estes paradigmas ainda podem ser associados a algumas tradições geograficamente localizadas e que compõem a matriz disciplinar da antropologia. Esta se mostra significativamente fragmentada. Assim, estas tradições são contextos culturais distintos nos quais os antropólogos desenvolveram suas idéias, ambientes acadêmicos cujos interesses dominantes eram (e são) diferentes. Mas o que significa toda esta diversidade de idéias e abordagens? Pode-se dizer que o desenvolvimento concomitante de diferentes escolas de pensamento foi a base para a formação da matriz
disciplinar da antropologia, como discutida por Oliveira (1988).
O conceito de matriz disciplinar (OLIVEIRA, 1988; OLIVEIRA, 2000) surge como uma crítica às idéias de Kuhn (1970), em A estrutura das revoluções científicas. A tese de Kuhn gira em torno do conceito de revolução científica, que diz respeito à supressão de um
paradigma prévio por um novo, quando o antigo não mais dá conta da crescente complexidade dos fenômenos estudados pela ciência. Segundo Kuhn (1970), uma revolução científica não é um momento de acumulação, ou de aperfeiçoamento de teorias já existentes. Este processo não é cumulativo, já que as idéias do paradigma antigo são substituídas por novas premissas e suposições, o que faz incompatíveis os dois referenciais. A partir da revolução científica, desenvolve-se o novo paradigma em um contexto renovado de ciência normal5. Apesar de ter
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O conceito de ‘paradigma’ insere-se numa tradição de discussões filosóficas sobre as ciências e seu desenvolvimento. Diversos são os autores que fizeram contribuições fundamentais à nossa compreensão das dinâmicas de produção do conhecimento científico, entre os quais destaca-se Thomas Kuhn. Estas discussões sugerem ainda idéias importantes sobre o que diferenciaria as dinâmicas das ciências naturais das dinâmicas das ciências sociais. Em seu livro A estrutura das revoluções científicas, Kuhn (1970) afirma que os paradigmas das ciências naturais se sucedem em uma dinâmica que abrange ainda os conceitos de ‘ciência normal’ e ‘crise’. Para Kuhn, um paradigma é o referencial compartilhado por uma comunidade científica específica e utilizado como base consensual dos processos de construção de um corpo de conhecimento. Os paradigmas são desenvolvidos
sido muito celebrado, A estrutura das revoluções científicas de Kuhn também foi criticado6 (SCHULTZ E HATCH, 1996; BURREL E MORGAN, 1994). É particularmente importante notarmos as diferenças entre as dinâmicas das ciências naturais, ou hard sciences, e as dinâmicas das ciências do homem, ou soft sciences. Segundo Oliveira (1988), nas ciências sociais, em geral, os conceitos de crise e de revolução científica não encontram sustentação por estas ciências se caracterizarem pelo desenvolvimento simultâneo de escolas de
pensamento distintas, ou paradigmas. Na antropologia, em particular, a existência simultânea de diversos paradigmas relaciona-se ao fato da comunidade científica adotar premissas e desenvolver, ao mesmo tempo, idéias conflitantes ou incompatíveis entre si, de forma que exijam a tomada de partido dos cientistas7.
Assim, pode-se dizer que a revolução científica de Thomas Kuhn não acontece necessariamente no contexto das ciências sociais, já que o desenvolvimento de novos paradigmas não requer o abandono de estruturas de pensamento e linhas teóricas anteriores. Ao contrário, paradigmas antropológicos diferentes são articulados sistematicamente no contexto da comunidade científica da disciplina, eles coexistem e são ativos, apesar do destaque que um ou outro paradigma pode ter, dependendo do período histórico ou do centro científico. Na antropologia, os paradigmas discutidos no capítulo anterior convivem
adotados pela comunidade cientifica, com pouca ou nenhuma contestação. Durante este período, o paradigma indica aos cientistas o que é interessante investigar e como fazê-lo, limitando os aspectos considerados relevantes à investigação. Na fase de ciência normal, os cientistas limitam-se a resolver os enigmas e
incongruências que os fenômenos vão lhe revelando, mas sem que isso implique a reavaliação do conjunto de premissas adotado. Entretanto, Kuhn mostra que os fenômenos investigados apresentam uma complexidade crescente, o que dificulta a resolução dos enigmas até que os cientistas se deparam com uma crise, quando os problemas teóricos e empíricos recentes não podem mais ser resolvidos dentro do paradigma original. A crise pode ser bastante longa, de forma que o paradigma original seja progressivamente desacreditado devido à sua incapacidade de resolver uma quantidade crescente de desafios. Surge então a necessidade de uma outra estrutura básica de pensamentos, que dê conta das novas complexidades, e baseado na qual os novos problemas podem ser adequadamente resolvidos. Esta é a revolução científica: um novo paradigma passa a estruturar o trabalho dos cientistas, e o período da ciência normal pode ser então restabelecido. Assim, a tese de Kuhn gira em torno do conceito de revolução científica, o que, nas ciências naturais, diz respeito à supressão de um paradigma prévio por um novo. Este novo paradigma deve responder adequadamente não somente às questões antigas, já resolvidas no âmbito do paradigma antigo, como também os desafios insolúveis dentro do referencial antigo. Por fim, deve-se salientar que, para Kuhn, uma revolução científica não é um momento de acumulação, de aperfeiçoamento de teorias já existentes. Este processo não é cumulativo, já que as idéias do paradigma antigo são substituídas por novas premissas e suposições, o que faz incompatíveis os dois referenciais. A partir da revolução científica, desenvolve-se o novo paradigma em um contexto renovado de ciência normal. A noção de Oliveira (1988; 2000) de matriz disciplinar da antropologia é uma crítica a esta última característica da revolução científica, como descrita por Kuhn (1970).
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Para uma discussão mais completa sobre a co-existência de paradigmas na Teoria das Organizações, vide Schultz e Hatch (1996) e Burrel e Morgan (1994).
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Como colocou o autor:“Entendo, portanto, que aquilo que poderíamos chamar de crise, [...] só se observaria nos termos em que Kuhn a coloca, a saber, quando um paradigma sucede ao outro no processo histórico de transformação da ciência; ou melhor, das ciências duras, ou hard sciences. [...] Diria apenas [...] que a antropologia moderna está constituída por um elenco de paradigmas simultâneos, ou para usar a expressão de
simultaneamente e são encontrados muitas vezes, em harmonia ou em tensão, dentro de uma mesma instituição científica. Para dar conta desta constante interação e articulação entre os paradigmas, Oliveira (1988) discute o conceito de matriz disciplinar da antropologia: esta seria a estrutura teórica ampla da disciplina, formada pela justaposição de seus paradigmas em constante tensão. Os movimentos dos elementos desta estrutura, como a introdução, a
valorização, a desvalorização e a articulação de paradigmas, estão por detrás da vivacidade da antropologia8. De fato, a matriz disciplinar da antropologia foi a origem dos diversos
referenciais teóricos – distintos e conflitantes – assimilados por teóricos da cultura
organizacional9. A tabela 4 resume esquematicamente a “matriz disciplinar” da antropologia, colocando lado a lado as grandes tensões entre os paradigmas:
Tabela 4
MATRIZ DISCIPLINAR DA ANTROPOLOGIA