2. METHODOLOGY
2.1 T HE CASE STUDY AREA
Nesta subseção o objetivo é aprofundar a análise dos dados para testar os pressupostos levantados no decorrer do texto. Serão empregadas duas técnicas de análise multivariada: a correlação linear simples e a regressão linear múltipla.
A correlação de Pearson permite verificar como as variáveis independentes estão relacionadas entre si e com as variáveis dependentes. O esperado é que exista uma baixa correlação entre as variáveis independentes, para evitar a multicolinearidade, ou seja, o fato de uma variável entrar no modelo de regressão não em razão de sua força para explicar a variável dependente, mas em virtude da sua associação com outra variável independente.
5.2.1 Análise da Correlação entre as Variáveis do Modelo de Gestão
Os resultados da correlação de Pearson realizada com as variáveis independentes podem ser observados na tabela 5.10. Constata-se que, de modo geral, as correlações são fracas, embora em alguns casos sejam significativas. Este resultado afasta parcialmente a probabilidade de haver multicolinearidade entre as variáveis independentes. Vale chamar a atenção para o fato de que apesar das correlações apresentarem intensidade de fraca a moderada, algumas delas são estatisticamente significativas ao nível de 5% e 1%.
Tabela 5.10 Correlação das Variáveis do Modelo de Gestão
1 2 3 4 5 6 1 autonomia 1 2 integração 0,166 1 3 orient. emp. 0,186 ,401(**) 1 4 inicitativa ,306(*) 0,059 0,151 1 5 rede ,243(*) 0,182 0,24 ,357(**) 1 6 contexto 0,146 0,148 0,126 ,378(**) ,287(*) 1 * p 0.05 ** p 0.01 Fonte: Autor.
Como se pode notar na tabela 5.10, a autonomia das subsidiárias se apresenta significativamente correlacionada, ao nível de 5%, com a iniciativa das subsidiárias e com a inserção em redes de negócio no estrangeiro. Isto é, quanto mais autônoma a subsidiária, maior a possibilidade de esta empreender iniciativas próprias. No entanto, a esta altura da análise, é prematuro atestar que tais iniciativas possam ser reconhecidas e bem avaliadas pela corporação.
Além disso, a autonomia estimula as subsidiárias a participarem de redes de negócio no estrangeiro, que por sua vez alimenta as possibilidades de iniciativas, como se pode perceber no resultado da correlação entre redes e iniciativas (.357; p 0.01). Isto indica que as iniciativas tendem a ser orientadas para mercado, não só em razão da inserção das redes, mas em decorrência de sua relação com o contexto competitivo. Uma vez que as subsidiárias avaliam como ainda incipiente a inserção nas redes, o contexto competitivo, ou seja, a localidade da subsidiária parece ter grande importância para as iniciativas das subsidiárias brasileiras no estrangeiro.
Outro resultado que merece destaque é a correlação entre orientação empreendedora e a integração entre matriz e subsidiárias (.401; p 0.01), ou seja, quanto maior a integração, maior a orientação empreendedora, o que faz sentido, porquanto a disseminação das diretrizes de uma postura empreendedora somente é atingida se houver a possibilidade de uma comunicação e confiança efetiva entre as unidades. Se a empresa não conseguir estabelecer fortes vínculos de comunicação, confiança e colaboração entre os pares de diferentes unidades, a orientação empreendedora não é perpetuada, por maior que seja o anseio da alta direção.
É interessante notar que a iniciativa das subsidiárias apresenta uma correlação não significativa com a orientação empreendedora, o que mostra, em primeiro lugar, a natureza distinta das duas variáveis: as iniciativas sendo o empreendedorismo próprio da subsidiária e a orientação empreendedora uma diretriz da matriz. Denota, além disso, a possibilidade de rebeldia das subsidiárias, pois mesmo sem uma orientação empreendedora intensa, as subsidiárias tomam iniciativas próprias, em prévio desacordo com as diretrizes corporativas.
5.2.2 Análise da Correlação entre as Variáveis de Competências e do Modelo de Gestão
A tabela 5.11 apresenta a matriz de correlação das variáveis dependentes com as variáveis independentes como uma prévia dos resultados da regressão linear múltipla.
Tabela 5.11 Correlação entre Variáveis de Competências e Modelo de Gestão
Competências Desenvolvimento Distintivas Transferência Reconhecimento e Utilização
autonomia -0,017 .-0,141 0,216 integração 0,266* -0,128 0,222 orient. emp. 0,136 -0,051 0,355** inicitativa 0,114 -0,088 0,556** contexto -0,094 0,185 0,446** rede 0,326** .-0,262* 0,430 * p 0.05 ** p 0.01 Fonte: Autor.
O desenvolvimento de competências distintivas mostra-se positivamente correlacionado com a inserção em redes no estrangeiro. A inserção nas redes no exterior seria o subsídio para a criação de competências diferenciadas, pois é uma aplicação peculiar da competência para uma situação ímpar que só existe devido à dinâmica da rede externa do país estrangeiro.
O desenvolvimento de competências também aparece correlacionado com a integração com a matriz. Como observado na análise descritiva, grande parte das competências desenvolvidas nas subsidiárias eram constituídas de competências não-locais provenientes da matriz, que em solo estrangeiro sofriam algum tipo de adaptação. A integração também se faz necessária para o alinhamento das competências organizacionais da subsidiária com as diretrizes estratégicas da corporação. Mesmo para aquelas competências desenvolvidas de maneira independente, a integração funciona como um suporte para o desenvolvimento de competências, uma vez que existe tanto a compreensão da matriz como a possível colaboração explicita ou tácita das contrapartes corporativas.
A transferência de competências da matriz para as subsidiárias apresenta uma correlação significativa, porém negativa e fraca, com a inserção em redes de negócios, ou seja, quanto maior a inserção da subsidiária em redes de negócios no estrangeiro, menor a transferência de competências da matriz para as subsidiárias. A partir do momento em que a subsidiária passa a desenvolver estratégias de negócio muito estreita com o mercado local, seu distanciamento quanto à arquitetura de competências organizacionais e alinhamento estratégico funcionam como barreiras para a transferência de competências da matriz para a subsidiária.
Quando combinado com o desenvolvimento de competências, o resultado acerca da transferência de competências oferece uma possível explicação para o entendimento do processo de desenvolvimento de competências nas subsidiárias. A grande maioria das subsidiárias brasileiras no exterior desenvolve suas competências pautadas em competências não-locais advindas da matriz, cuja diferenciação e relevância são dependentes da inserção na rede de negócios no estrangeiro.
O reconhecimento das competências pela corporação, ou seja, a transferência reversa das competências apresenta-se como a variável mais alinhada aos construtos elaborados do modelo de gestão. Existe uma moderada e significante correlação entre o reconhecimento de competências e as variáveis de orientação empreendedora, iniciativa das subsidiárias, contexto competitivo e rede de negócios.
A correlação positiva entre a orientação empreendedora indica que o desenvolvimento desse fator no modelo de gestão aumenta a probabilidade da corporação aceitar as competências da subsidiária, uma vez que a própria diretriz impulsiona a criação de competências no exterior.
Como já comentado anteriormente, a iniciativa das subsidiárias não impulsiona diretamente o desenvolvimento de competências distintivas, porém a iniciativa aparece correlacionada com a transferência reversa de competências. O resultado é inesperado porque, pela correlação com a inserção em redes no estrangeiro, o esperado era a
presença de iniciativas de mercado, porém essa correlação desperta a atenção para a possibilidade de iniciativas globais que seriam muito mais orientadas para a negociação da posição estratégica da subsidiária dentro da arquitetura corporativa. Portanto, além das iniciativas de mercado, tal resultado chama a atenção para as iniciativas globais de subsidiárias dentro das corporações multinacionais brasileiras.
Os dados mostram ainda uma correlação positiva entre o contexto competitivo e o reconhecimento de competências. Uma das possíveis explicações para este resultado é que, com fortes instituições de apoio, dinamismo da concorrência e consumo exigente, o contexto competitivo local acaba fornecendo significativo respaldo para as competências e, conseqüentemente, para uma premência maior do reconhecimento corporativo.