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Em seu primeiro discurso poético, Balaão é levado a contemplar a extensão do acampamento israelita e a força de Israel. Ele compartilha sua sorte com esses e conclui que, certamente esse povo não foi escolhido para ser execrado.

Sakenfeld530 entende que:

A avaliação do conteúdo dos quatro oráculos mostra que os dois primeiros falam diretamente de Balaão e Balaque e, portanto, requerem o contexto de prosa narrativa para o entendimento. Os oráculos três e quatro, no entanto, são de âmbito geral, sem referência à narrativa em que são incorporados. Alguns estudiosos, portanto, propõem origens diferentes para os dois pares de oráculos. Geralmente eles sugerem que o terceiro e quarto são mais velhos, e que são poemas independentes de bênção ele foram incorporados à história. Propõe-se que oráculos um e dois foram criados especialmente para a história, talvez em imitação de três e quatro. A data da composição dos oráculos também tem sido muito discutida; muitos estudiosos hoje olham para o período da monarquia já em um contexto provável, mas o debate continua. Este debate é ocasionado em parte pelas inúmeras dificuldades textuais nos oráculos que fazem a tradução incerta. Dificuldade em determinar os referentes de alusões poéticas agrava ainda mais o desafio de interpretar esses poemas.

ba'Am-%l,m, ql'b' ynIxen>y: ~r'a]-!mi rm;aYOw: Alv'm. aF'YIw:

7

530 SAKENFELD, Katharine Doob. Journeying With Gos A Commentary on the Book of Numbers. Grand

156

laer'f.yI hm'[]zO hk'l.W bqo[]y: yLi-hr'a' hk'l. ~d,q,-yrer>h;me

7. E ergueu [recitou, voz] Balaão o seu Mashal [provérbio] e disse: desde Arã me guiou Balaque rei de Moabe desde montanhas de Qedem [montanhas de Oriente]: vem [vai] amaldiçoa para mim Jacó vem [e vai] atemoriza [execra] Israel.

hw"hy> ~[;z" al{ ~[oz>a, hm'W lae hBoq; al{ bQoa, hm'

8 8. Como amaldiçoarei [maldirei] não amaldiçoou [maldisse] e como El? atemorizarei [execrarei] não atemorizou [execrou] YHWH?

!Kov.yI dd'b'l. ~['-!h, WNr,Wva] tA[b'G>miW WNa,r>a, ~yrIcu varome-yKi

9

`bV'x;t.yI al{ ~yIAGb;W

9. Pois desde cabeça [s] das penhas [Porque de cume de rochas] o vejo [verei], e desde outeiros [colinas] o contemplo [contemplarei]; eis que povo que só [solitário] residirá, e nas [entre] nações não será se incluíra.

tAm yvip.n: tmoT' laer'f.yI [b;ro-ta, rP's.miW bqo[]y: rp;[] hn"m' ymi

10

`WhmoK' ytiyrIx]a; yhit.W ~yrIv'y>

10. Qual medida [quem calculou] pó [a poeira] de Jacó e número a quarta parte de Israel? Que morra meu fôlego [a minha pessoa] de morte dos justos [corretos] e que seja o meu fim [final] como o deles.

Para Alonso Schökel531

O poema se divide em uma introdução histórica, a visão presente, uma invocação. A visão poderia significar um simples ver: povo apartado e numeroso, porém as palavras tomam um sentido oracular. Povo apartado por Deus, eleito, único; povo abençoado com a fecundidade antes de receber a Terra Prometida. Na invocação final, uma espécie de bem-aventurança, o advinho deseja compartilhar a sorte deste povo honrado...

Tosato, acredita que esse texto de 23.7-10 deva ser ligado com o texto de 23.18-

24, e conclue a datação dos poemas diz ele: “Em conclusão, estes dois poemas oferecem

um exemplo muito claro do período bíblico de poesia pré-exílico (do Reino do Norte, provavelmente). E por isso, constitui um critério últil para o estudo da antiga prosódia Hebraica.”532

531

ALONSO SCHÖKEL, Luis. Pentateuco II Levítico, Números, Deuteronomio. Madrid: Cristiandad, 1970. p. 214.

532 TOSATO, Angelo. The Literary Structure of the First Two Poems of Balaam (Nm XXIII 7-10, 18-24).

157 Verso 7. Em um tom de voz mais elevado, Balaão recita seus versos. Ele

aF'îYIw:

e ergueu recitou (literalmente levantou, recitou) seus versos, falando, lembram Jz 9.7

ar"_q.YIw:AlàAq aF'îYIw:

“e ergueu a voz dele e clamou”, ou Gn 29.11

&.b.YE)w:Alàqo-ta, aF'îYIw:

“e ergueu a voz dele, e pranteou”. O que aconteceu aqui é que se “levanta” a recitação

em vez da voz. Em Is 14.4 “Em voz alta, recita este motejo”, ou seja, o que é recitado

em voz elevada, em voz alta, referindo-se a um pronunciamento profético.

Vale a pena notar que, ao apresentar os textos hebraicos das orações de Balaão e sua tradução, a primeira oração exibe desenvolvimento interno e, consequentemente, pode ser dividida em duas partes: (1) Nm 23.7-8 caracterizam a relação de Balaão com o seu candidato a empregador, Balaque, o rei moabita, Balaão informa ao rei moabita, o que ele pode e não pode fazer por ele; e (2) Nm 23.9-10 transmite o genuíno sentimento de temor de Balaão no poder dos israelitas e na extensão do acampamento militar israelita.

No verso de abertura, somos informados de que Balaão foi chamado de Arã

~r'a]-

!mi

. A extensão geográfica precisa de

~d,q,-yrer>h;me

“desde montanhas de oriente” não pode ser determinada, mas se poderia qualificar como uma palavra paralela para Arã.

Yahuda533 defende que a tradução certa para esse versículo seria mesmo qedem e não

montanhas do leste. Nós acreditamos que a tradução correta é mesmo “desde montanha

de oriente”, conforme Francisco534.

Há mais do que uma tradição bíblica sobre a identidade étnica de Balaão, como explicado em Notas de Nm 22.5. Esta questão será discutida em pormenor mais adiante, onde as inscrições de Balaão de DA na Transjordânia será citada como uma vertente de que Balaão seria provavelmente um transjordaniano, talvez um amonita ou edomita. E, no entanto, há pouca justificativa para leitura “Edom” em vez de Aram neste verso.

O termo hebraico

ynIxen>y:

“me guiou

, por vezes tem a conotação de uma “visita guiada” conforme. 1Sm 22.4

ba'_Am %l,m,ä ynEßP.-ta, ~xe§n>Y:w:

“E os guiou perante o rei de

533

YAHUDA, A.S. The Na e of Balaa s Ho ela d. Journal of Biblical Literature Vol. 64, No. 4, 1945. p. 549.

534 FRANCISCO, Edson de Faria. Antigo Testamento Interlinear Hebraico-Português – Volume 1 –

158 Moabe” (ATI-2) 1Rs 10.26

~l'iv'WryBi %l,M,Þh;-~[iw>

bk,r<êh' yrEä['B. ‘~xen>Y:w:

“... e os guiou nas cidades de o carro de guerra, e com o rei em Jerusalém”. (ATI-2).

As instruções de Balaque a Balaão são informadas retoricamente. O adivinho foi solicitado pelo rei de Moabe para pronunciar execrações contra Israel. Temos duas formas enfático-imperativas,

hr'a'

“amaldiçoa”. O primeiro,

WrAa

, ocorre na Canção de Débora em Jz 5.23, onde a profetisa desabafa sua ira contra os moradores de uma

cidade que não conseguiu atender a chamada para a batalha contra os cananeus:

zArOme

WrAa

“Amaldiçoai Meroz”;

zArOme hyb,v.yOO rAra' Wrao

“amaldiçoai amaldiçoar os que

habitam dela” “execreta Meroz!”.

O sentido deste verso possivelmente é que foram designados para este povo bênção e vitória, isso seria a insistência de El e YHWH e não a maldição e desgraça. Balaão insiste que, sem um pronunciamento divino de acusação contra Israel, ele não tem poder para amaldiçoar este povo. Esta compreensão do texto emerge das duas

primeiras formas verbais que ocorrem no versículo 8,

bQoa,

“maldirei” e

hBoq

“maldisse”.

Algo semelhante é expressado em 1Rs 19.10

tAaªb'c. yheäl{a/ Ÿhw"åhyl; ytiaNE÷qi

aNO‚q; •rm,aYOw:

, “E disse: Enciumar-se me enciumei por YHWH, Deus de Tsevaote” (ATI- 2), essa estrutura zelosa poderia ser preferível do que ambas as formas,

bQoa,

“maldirei” e

hBoq

“maldisse” como é apresentado ao longo das narrativas de Balaão

que podemos supor que a utilização desses vocábulos em último caso foi pretendido para transmitir uma nuance especial.

O significado preciso é que as imprecações que Balaão sabia como pronunciar tão bem seriam ineficazes porque YHWH não havia autorizado a sua pronúncia contra Israel. Em uma palavra, Balaão não tinha recebido nenhuma autorização de El ou YHWH e foi impotente para agir. A relação entre o adivinho e os deuses em religiões gentias, bem como entre Balaão e YHWH, no presente caso, foi de subserviência à autoridade divina. Magia não funcionaria sem a autorização divina. Esta é a nuance transmitida pela utilização de

hBoq

“maldizer”, um passo a mais no caminho para desgraça do que amaldiçoar.

159 Verso 9. Na segunda parte do poema, versículos 9-10, a transição dos versículos 7-8 para os versículos 9-10 é dramática, porque neste momento, Balaão não está mais falando da perspectiva de adivinho, o seu ofício, mas está expressando suas próprias percepções e reações. Ele permanece no temor do que vê, ele olha de cima para baixo, por cima do acampamento israelita. Certamente este povo está dispensado de maldição divina, pois é uma força poderosa de valentes. A partícula

yKi

“porque” é tomada como

temporal “quando, como”, e o versículo 9a como subordinado, como se dissesse “Como

eu eis que ele”. conforme Sl 8.4

^ym,v'â ha,är>a,-yKi(

“Como eu contemplo os teus céus.” O verso 9, em particular, é um do mais evasivo em toda a Escritura, porque a

forma,

bV'x;t.yI

“se incluíra” é exclusivo para o presente verso. Esta forma incomum,

juntamente com

dd'b'l.

“solitário, sozinho”, poderiam ser interpretados em termos teológicos e sociológicos, mesmo politicamente e geograficamente. Uma possível

interpretação seria a de que Israel não é “contado” ou “contados” entre as nações por

causa da sua relação peculiar com YHWH, que o diferencia ou o separa de outros povos. Malat535 entende que o vocábulo

dd'b'

tem o sentido de “independente, não alinhado.” “Assim o que Balaão estava realmente vendo em sua visão era uma nação auto-suficiente inteiramente independente de outras nações.” Fohrer536 acredita que:

“Os elementos cruciais são o lado religioso da eleição de Israel por YHWH e a separação associada a essa eleição (Nm 23.9b).

O povo de Israel estava destinado a conquistar sua terra sem o apoio de aliados. Isto sugere ainda que

!Kov.yI

“residirá,habitará” aqui tem a nuance de “acampados” e o que deixara Balaão extasiado era o acampamento militar israelita. Este é,

provavelmente, o sentido de

!kevo

“o que residia” na narrativa de Nm 24.2, onde Balaão

vê os israelitas acampados, segundo as suas tribos, e é movido a elogiar o povo.

Verso 10. O sentido deste verso é que o acampamento israelita é vasto além da medida. Ele expressa paralelismos AB: (a) verbais

hn"m'/rP's

, “calculou/número” e (b) nominal

rp;[]/[b;ro

“poeira/quarta parte” que é único, porque o hebraico

[b;ro

“quarta parte” é de difícil de tradução.

535 MALAT, A. Amm lebadad Yiskon: A report From Mari and na Oracle of Balaam. The Jewish Quarterly

Review, New Series, vol. 76 No 1. Pennsylvania: University of Pennsylvania Press. 1985. p. 49.

536

160 O paralelismo de

hn"m'/rP's

ocorre em representação idealista de 1Rs 3.8,

`bro)me

rpEßS'yI al{ïw> hn<±M'yI-al{) rv<ôa]

“... que não é calculado e nem é enumerado por causa de abundância” (ATI-2) e 8.5

`bro)me WnàM'yI al{ïw> Wr±p.S'yI-al{) rv<ôa]

“... que não eram

enumerados, e nem eram calculados por causa de grande quantidade.” (ATI-2) e em Gn

13.16 podemos ler

`hn<)M'yI ^ß[]r>z:-~G:) #r<a'êh' rp:å[]-ta, ‘tANmli vyaiª lk;äWy-~ai Ÿrv<åa]

#r<a'_h' rp:å[]K; ^ß[]r>z:-ta,( yTiîm.f;w>

“E fixarei a tua semente como a poeira de a terra: que se pudesse alguém para calcular a poeira a terra, também a tua semente seria

calculada.” (ATI-1) Isso produz a metáfora de pó como uma quantidade imensurável,

como as estrelas do céu e a areia da praia. Adicionando a nuance de uma nuvem de poeira, teríamos alusão a numerosas forças de Israel, levantando uma enorme nuvem de poeira. Essa cena é retratada em Jr 4.13, ao descrever os exércitos babilônicos: “Eis que sobe, o destruidor como nuvens; os seus carros como tempestade; os seus cavalos são

mais ligeiros do que as águias. Ai de nós! Estamos arruinados!” (ARA). Essa linha de

interpretação produz uma metáfora que descreve um povo abençoado como o pó, com o seu exército em marcha agitando uma enorme nuvem de poeira que não pode ser medida.

Aqui, pode não ser o número de israelitas, ou a quantidade de poeira que as forças de Israel estão levantando ou o que está sendo contado ou numerado, mas sim a vasta extensão do terreno ocupado pelo acampamento militar israelita, como observado por Balaão das alturas. Essa interpretação tem a vantagem de dar expressão à dimensão visual tão evidente nos poemas de Balaão e, ao mesmo tempo, projeta uma força de combate israelita poderosa.

No final do primeiro poema de Balaão, o termo crucial é

~yrIv'y

geralmente traduzido em uma vertente moral ou religiosa como “corretos”. Tal situação destaca mais uma vez a representação idealizada de Israel como uma nação segura nas suas habitações, numerosos como o pó da terra e que não há neles injustiça. Este versículo poderia expressar o que todo verdadeiro israelita desejava, a morte da pessoa na disposição correta, cuja família iria continuar através das gerações na Terra Prometida Gn 15.15

`hb'(Aj hb'îyfeB. rbEßQ'Ti ~Al+v'B. ^yt,Þboa]-la, aAbïT' hT'²a;w>

“E tu irás aos

161 teus pais em paz; serás sepultado em velhice boa”.537 Poderíamos no entanto, apoiar

uma linha alternativa de interpretação. Este poema e as outras orações de Balaão, falam de um Israel heróico, destinado a ser vitorioso; um povo capaz de confiar em suas próprias forças, sem o apoio de aliados. É razoável supor que

rv"+Y"h; rp,seä-l[;

“... no livro de o correto?”, em Js 10.13 e também em 2Sm 1.18

`rv")Y"h; rp,seî-l[; hb'ÞWtk.

hNEïhi tv,q"+ hd"ÞWhy>-ynE)B. dMeîl;l. rm,aYO¨w:

“e disse para ensinar aos filhos de Judá arco: Eis que o que escrito no livro de o Correto”538. A palavra

~yrIv'y

apresenta, assim, uma

ampla gama semântica na dicção bíblica. Cox539 diz:

Balaão tinha compreendido o princípio que uma vida justa infalivelmente conduz os homens à verdadeira prosperidade e paz. É este princípio, esta convicção, que subjaz a imagem brilhante de seus oráculos. Não era um verdadeiro princípio, um princípio sobre o qual nós vemos Deus agir ao longo de todo o curso da história humana? ...Ele provou ser um verdadeiro profeta, um homem realmente ensinado e inspirado por Deus.

YHWH concede vitória e poder apenas para aqueles que em sua visão merecem, pois ele é um juiz justo. É nesta base, que os israelitas heróicos podem ser mencionados

como

~yrIv'y

“o correto ou o valente”, que colhem vitória, porque YHWH está com

eles em suas batalhas.

Balaão expressa seu forte sentimento de identificação com os israelitas corajosos, afirmando que ele estaria disposto a compartilhar com eles a morte.

O vocábulo

yvip.n:

“nefesh” para Wolff540:

...seria neste verso um pronome usado no lugar de “eu” “a minha pessoa”. Balaão conclui o seu oráculo (Nm 23.10): “Que eu morra da morte dos justos!”. Nefesh está pela pessoa cuja vida se encontra em jogo. Partindo daí, na poesia nefesh pode estar em paralelo com o simples pronome, tendo quase o mesmo sentido.

Em resumo, o primeiro poema de Balaão começa com o relacionamento entre Balaão e seu empregador, Balaque. Balaão insiste que ele é dirigido por YHWH e não é

537 FRANCISCO, Edson de Faria. Antigo Testamento Interlinear Hebraico-Português – Volume 1 –

Pentateuco. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012. p.45.

538 Ibidem., p. 14

539 COX, Samuel. Balaam: An Exposition and a Study. London: The Expositor, 2d series, V. 1883. p.117. 540

162 livre para amaldiçoar um povo que é obviamente abençoado. Balaão está impressionado com a capacidade independente das forças israelitas, que não têm necessidade de aliados, e também está impressionado com a vastidão do acampamento militar israelita. O poema termina com louvor para o heroísmo israelita.