O conceito de desenvolvimento sustentável coloca o homem no centro do universo, ou seja, o antropocentrismo persiste. De acordo com Ferry (1994), existem três maneiras de se ver as questões ecológicas. A primeira, menos dogmática e mais banal, mantém a visão antropocêntrica na medida em que busca proteger a natureza em função de seus interesses, ou seja, a natureza é periférica e não central e assim, não considerada um sujeito de direito e de valor absoluto em si mesmo. A segunda amplia o escopo ao atribuir significação moral a certos seres não-humanos ao considerar que todos os seres suscetíveis de prazer e dor devem ser considerados sujeitos de direito e tratados como tal. Observa-se um deslocamento do antropocentrismo ao se incluir os animais na esfera das preocupações morais, colocando-os em paridade com os homens. A terceira reivindica a inclusão dos direitos da natureza como um todo, incluindo suas formas vegetal e mineral. Assim, migra-se do antigo “contrato social” dos pensadores políticos para o “contrato natural” segundo o qual o universo inteiro se torna sujeito de direito. Sob essa ótica não é mais o homem o centro do universo e sim o cosmo e, como tal, deve ser defendido.
Certamente, a sustentabilidade é mais viável se a ótica adotada for esta última e, para isso, é preciso viver de outro modo, um modo mais ético e mais responsável para com todas as formas de vida.
3 PESQUISA DE CAMPO
As empresas, nos últimos anos, têm procurado integrar a variável socioambiental em suas estratégias por alguns motivos, entre os quais estão: a coerção que pode ter origem na intervenção estatal – por meio de leis e regulamentações -; as pressões de grupos - como os próprios movimentos sociais e Organizações Não-Governamentais -; a formatação da opinião pública pela mídia102 que tem se reportado, constantemente, aos problemas decorrentes do
102 Para citar alguns exemplos, a revista Veja, do Grupo Abril e com circulação semanal no Brasil, publicou as seguintes matérias nos últimos anos:
• Reportagem de capa: “O Planeta Pede Socorro: aquecimento da atmosfera, florestas destruídas, escassez de água limpa, derretimento das geleiras, extinção dos animais [...] Ah, tem mais: uma nuvem de poluentes cobre metade da Ásia, onde vive um quinto da humanidade”, em 21/08/2002.
• Reportagem de capa: “A Terra no Limite”, em 12/10/2005.
• Ponto de Vista: Stephen Kanitz – “O patrimônio líquido nacional: o endeusamento do PIB e do pleno emprego como meta política é a causa do aquecimento global, da destruição da ecologia, do desmatamento florestal, da poluição global e do crescimento exponencial do lixo”, em 15/02/2006.
• Entrevista com James Lovelock: “A vingança de Gaia: O aquecimento global já passou do ponto sem volta. A situação se tornará insuportável lá por 2040”, em 25/10/2006.
• Reportagem de capa: “Alerta Global: 7 megassoluções para o megaproblema ambiental”, em 30/12/2006.
• Entrevista com Alain Belda: “É hora de agir – O brasileiro presidente da Alcoa diz que as empresas precisam ajudar a combater o aquecimento global”, em 14/02/2007.
• A revista tem publicado, também, edições especiais sob o título de “Veja Ecologia”.
Já a revista Exame, voltada para o mundo dos negócios, do mesmo grupo e com circulação quinzenal, publicou recentemente as seguintes reportagens:
• Reportagem de capa: Ética – o que se fala no mundo corporativo e os verdadeiros dilemas, que pouca gente enxerga, em 14/05/2003.
• O ambientalista que convence o capital: quando Peter Seligmann fala, empresas como a Wal- Mart escutam – e agem. Entenda por quê, em 30/08/2006.
• Uma vitória da ecologia na China: Médico consegue que indústria pague pela poluição de rios e vira símbolo da luta ambiental no país, em 13/09/2006.
• Atrás do dinheiro verde: por que nomes como Alcides Tápias e Armínio Fraga estão se aventurando num mercado novo e pouco conhecido: o de créditos de carbono, em 11/10/2006. • Reportagem de capa: ONGs – Os novos inimigos do capitalismo, em 25/10/2006.
• Elas também querem os orgânicos: Gigantes como Unilever, Kraft e Danone tentam entrar num novo – e bilionário mercado, em 8/11/2006.
• Reportagem de capa: Aquecimento Global – as empresas vão salvar o planeta?, em 20/12/2006.
• Uma relação delicada: livro questiona o poder de fogo de públicos como clientes e ONGs na vida das empresas, em 31/01/2007.
• A revista tem publicado, anualmente, o Guia Exame de Boa Cidadania Corporativa que, em conjunto com o Instituto Ethos de Responsabilidade Social, avalia as empresas segundo critérios como: valores e transparência, meio ambiente, comunidade, governo e sociedade, entre outros.
uso intensivo dos recursos naturais do planeta e de suas conseqüências para o ambiente atual e futuro, bem como para a qualidade de vida das populações humanas e não-humanas (biodiversidade); e as pressões dos consumidores por ações mais responsáveis de parte dos fornecedores de bens e serviços de consumo.
No Reino Unido, de acordo com Ansell et alli (2006), as empresas são pressionadas pelas ONGs que combatem as modificações genéticas a não utilizá- las em seus produtos, além da obrigação legal das empresas de rotularem com códigos especiais os produtos que possuam organismos geneticamente modificados.
Observa-se, assim, como aponta Demajorovic (2003), um processo de aprendizado que se reflete nas teorias declaradas pelas empresas, bem como nas teorias em uso. A teoria declarada é encontrada nas declarações de missão ou programas que listam os objetivos das organizações em relação ao meio ambiente, saúde e segurança, procurando demonstrar a importância atribuída aos riscos socioambientais na estratégia corporativa. Essa teoria pode ser localizada nos boletins informativos das empresas ou em sites na Internet. O autor argumenta que a teoria declarada serve para indicar como os assuntos socioambientais são percebidos pela empresa. Quanto à teoria em uso, sua avaliação é mais complexa e as respostas das empresas são menos padronizadas, variando em função das percepções do corpo gerencial, dos riscos socioambientais e das oportunidades.