Contradições podem ser vistas em toda a parte. Nos EUA viu-se o presidente Clinton propor uma nova ordem mundial pela interligação dos mercados mundiais e livre comércio para aumentar o crescimento econômico e o consumo, ao mesmo tempo em que se via o vice-presidente, Gore, chamar os EUA de “civilização disfuncional” como resultado do crescimento do consumo. As idéias de Clinton, segundo Sessions (1995), são coerentes com a visão antropocêntrica e/ou econômica do mundo, com o Relatório Brundtland de 1987 e com a Rio 92 que promoveram o conceito de “Desenvolvimento Sustentável” como uma panacéia ambientalista. Muitos ambientalistas consideram a concepção de desenvolvimento sustentável um oxímoro, complementa Sessions. O que de fato acontece é que a maioria dos Americanos e dos habitantes dos países desenvolvidos recusa-se a enxergar a inconsistência fundamental entre seus desejos de proteção ambiental da biosfera e o crescimento e desenvolvimento econômico continuado que lhes proporcionam o mundo de confortos por meio do consumo. A própria mídia, que vem trabalhando consistentemente no “faça a sua parte, recicle”, ao mesmo tempo continua a incentivar o aumento do consumo, a propagação de estilos de vida nele baseados e outras práticas ambientalmente destrutivas. O problema que se apresenta, de acordo com Portilho (2005), é fixar limites para o consumo: além de não ser politicamente atraente, parece difícil se colocar em uso.
Bauman (1998) escreve que o objetivo de sobrevivência das gerações futuras implica em menos liberdade para elas na medida em que exige que as sua economia. E considera injusto que países como China, Índia e Brasil não tenham compromissos formais de redução (TRIGUEIRO, 2005, p. 243).
comunidades atuais limitem e apropriem-se antecipadamente as escolhas das gerações mais jovens e ainda não nascidas. Sen (2000) enfatiza que há muito vem sendo discutida a necessidade de se ir além das regras de mercado no contexto de proteção do meio ambiente. Algumas providências e muitas propostas têm sido colocadas em pauta para a regulamentação e provisão governamental de incentivos apropriados por meio de impostos e subsídios. Galbraith (1996), discorrendo sobre a atual economia de mercado, avalia que o seu indicador de sucesso está na sua competência em suprir bens de consumo e serviços em busca de um retorno de prazo relativamente curto, raramente se preocupando com ações e conseqüências de longo prazo, o que a impede de investir para amenizar os efeitos adversos de sua produção ou de seus produtos, o que significa que não assume a responsabilidade por danos ambientais. Por isso, para o autor, há necessidade de proteção atual e em longo prazo do planeta por meio de regulamentações como as destinadas a impedir a destruição ambiental.
Nas sociedades pré-modernas, aponta Slater (2002) referenciando Durkheim em um dos temas fundamentais de sua crítica à cultura do consumo, a regulamentação social para restringir as necessidades e os desejos humanos caminhava, lado a lado, com a escassez econômica. Foi a desregulamentação moderna e a produtividade industrial que liberaram os desejos humanos rumo ao infinito, trazendo preocupações em relação aos limites ecológicos, ao esgotamento dos recursos ambientais e à poluição do meio ambiente. Como aponta Tachizawa:
Um dos maiores desafios que o mundo enfrentará neste novo milênio é fazer com que as forças de mercado protejam e melhorem a qualidade do ambiente, com a ajuda de padrões baseados no desempenho e uso criterioso de instrumentos econômicos, num quadro harmonioso de regulamentação. O novo contexto econômico caracteriza-se por uma rígida postura dos clientes, voltada à expectativa de interagir com organizações que sejam éticas, com boa imagem institucional no mercado, e que atuem de forma ecologicamente responsável (TACHIZAWA, 2002, p. 23).
Bauman (2005) apresenta o seguinte questionamento: Como querer que as pessoas desenvolvam uma visão de futuro da sociedade quando elas vivem na maior parte do tempo em insegurança em relação ao seu trabalho e, consequentemente a sua renda? Nessas condições, as pessoas preferem pensar num hoje diferente para cada um a pensarem num futuro melhor para todos73.
Além disso, a maioria das pessoas foi treinada para não se preocupar com coisas que estão fora do seu controle (o que inclui as que estão além do seu alcance de tempo de vida), mas para concentrarem suas atenções e energias nas tarefas que estão ao seu alcance, grande parte relacionada às suas competências e às capacidades (individuais) de consumo.
Parece haver um consenso de que um dos caminhos possíveis é a regulamentação, o que de certa maneira é uma restrição à liberdade. Para Sen (2000), entretanto, a expansão da liberdade é o principal fim e o principal meio do desenvolvimento, pois consiste em eliminar tudo o que limita as escolhas e as oportunidades das pessoas. Sob esta ótica, o crescimento econômico é muito importante por expandir as liberdades, assim como a industrialização, o progresso tecnológico ou a modernização social, mas elas também dependem de outros determinantes, como os direitos civis, saúde e educação. Exemplificando, a solução do problema do crescimento populacional pode estar na expansão das liberdades das pessoas diretamente interessadas, ou seja, aquelas que são afetadas pela gestação e criação demasiado freqüente de filhos: as mulheres jovens. Para haver desenvolvimento é preciso que os benefícios do crescimento sirvam à ampliação das capacidades humanas, sendo as quatro mais elementares as seguintes: uma vida longa e saudável, instrução, acesso aos recursos necessários a um nível de vida digno e saudável e aptidão de participar da vida da comunidade. Sem essas, as outras possíveis escolhas ficam indisponíveis e muitas oportunidades na vida, inacessíveis. Além disso, como aponta Veiga (2006), um pré-requisito fundamental precisa ser expresso: para que suas
73 Como observou Walter Benjamin, o que leva homens e mulheres à revolta são memórias de antepassados escravizados, e não sonhos de netos liberados (EAGLETON, 2005, p. 245).
escolhas possam ser exercidas, para garantir seus direitos e para se envolver nas decisões que afetarão suas vidas, as pessoas têm que ser livres74.