• No results found

CAPÍTULO 4: Impacto económico y social en la vida de las mujeres prestatarias de MIDE en Santa Cruz de Sallac

4.2 Impacto social

4.2.1 Cambios materiales indirectos

4.2.1.3 Alimentación, transporte, educación, vestimenta y salud

Ao considerarmos a educação enquanto constructo social, as questões de gênero, também se constituem em categorias analíticas desse social. Para tanto,

29Expressão utilizada para se referir à rede de pesquisadores dos programas de pós-graduação

verificamos que as relações de gênero, construídas ao longo da história das mulheres no Brasil, foram alicerçadas no poder entre os sexos. Principalmente, quando se refere à divisão sexual do trabalho, cerne das diferenças estabelecidas entre as profissões femininas e masculinas.

Scott (1995, p.72), ao discorrer sobre o movimento feminista inglês, enfatiza a sua questão nuclear, “... o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo”. Na mesma direção, Louro (2008) afirma que

Ao dirigir o foco para o caráter fundamentalmente social, não há, contudo, a pretensão de negar que o gênero se constitui com ou sobre corpos sexuados, ou seja, não é negada a biologia, mas enfatizada deliberadamente, a construção social e histórica produzida sobre as características biológicas. (LOURO, 2008, p.21).

Em sintonia com o pensamento da autora, tomamos como necessárias ao apreender o conhecimento produzido sobre Didática as discussões sobre o gênero dos autores, interrogando quem são os pesquisadores que têm interesse em temáticas relacionadas à área e compreender os seus desdobramentos no contexto da educação escolar, na efetivação de políticas públicas, nos investimentos na produção do conhecimento nessa área, assim como, desvelar como essa questão se relaciona com a constituição, visibilidade e consolidação do campo investigativo da Didática.

Vale ressaltar que nessa pesquisa somos conscientes do tratamento do sexo enquanto variável, porém, enxergamo-la por meio da categoria gênero que não é natural ou biológica e sim, sócio-histórica.

No geral dos três programas, as publicações da área da Didática são feitas, em sua maioria, por mulheres, conforme exposto na Tabela 8.

Tabela 6 – Gênero sexual dos autores.

Programa Feminino % Masculino % Total

PPGED A 54 42,9 72 57,1 126

PPGED B 26 70,3 11 29,7 37

PPGED C 10 83,3 2 16,7 12

Total 90 51,4 85 48,6 175

Embora tenhamos a maioria dos artigos como elaboração de autoras, identificamos que, no PPGED A, temos uma diferença na relação gênero e produção acadêmica, em que 57,1% dos autores são do sexo masculino, para 42,9% do sexo feminino. Isso pode ser consequência do fato de um professor, em específico, ter produzido 14 dos 43 artigos (32,6%), influenciando os percentuais obtidos quanto ao gênero na autoria na área da Didática, no referido programa.

Os resultados obtidos confirmam a tendência evidenciada no estudo da arte feito por Vieira e Maciel (2007) sobre dissertações e teses da área da Educação constantes no Banco da Capes. Os autores mostraram que a elaboração de 75% das dissertações e teses analisadas foram feitas por mulheres.

A relação de maioridade feminina no magistério no Brasil é construída historicamente, mas a ascensão das mulheres no ensino superior e, mais especificamente, na pós-graduação é mais atual. Esse fato tem acompanhado a inserção da mulher na universidade e nos remonta a décadas anteriores.

Os resultados de uma pesquisa realizada pelo Inep/MEC e a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM),que enfoca a trajetória da mulher no contexto da educação brasileira, mostram que o crescimento do número de mulheres mestres e doutoras é bastante expressivo ultrapassando no início da década de 2000 o número de homens com os mesmos títulos.

Algumas pesquisas realizadas no Brasil, ao analisarem a relação entre gênero e ciência, trazem resultados explicitando que áreas como educação, saúde, psicologia vinculadas às humanidades têm uma concentração maior de mulheres, em detrimento às áreas das ciências exatas e das engenharias, nas quais o predomínio é dos homens (MELO e OLIVEIRA, 2006), ou seja, “as escolhas das mulheres continuam a recair preferencialmente sobre áreas do conhecimento tradicionalmente femininas [...]”. (BRUSCHINI; LOMBARDI; UNBEHAUM, 2006, p.70) (Grifos nossos).

Essas tendências de concentração nos cursos por área/gênero têm permanecido no contexto educacional brasileiro e podem ser confirmadas nos resultados do Censo da Educação Superior (2013). Considerando os 10 maiores cursos de graduação em números de matrículas por gênero, tem-se no gênero feminino a escolha pela Pedagogia, 1º lugar com o maior ingresso (568.030), e o masculino o 1º lugar em Direito (355.020). Se analisarmos o número de matrículas do gênero masculino, considerando todas as engenharias, teremos um total de 553.863

matrículas, indicando a maior expressividade de escolha masculina pela área de exatas.

Podemos com o exposto, de certa forma, projetar que as ocupações profissionais por gênero daqui a 5, 10 e até 15 anos, considerando o tempo para concluir o curso e o tempo de atuação na área de formação, não serão diferentes do quadro que temos hoje, com poucas possibilidades de superação por parte das mulheres, pois as condições objetivas nas quais se engendram as lutas por melhores ocupações permanecem as mesmas ou com poucas mudanças.

Explicitando o seu entendimento sobre o processo histórico de constituição das profissões masculinas e femininas, Louro (2008, p,17) discorre que “A segregação social e política a que as mulheres foram historicamente conduzidas tivera como consequência a sua ampla invisibilidade como sujeito - inclusive como sujeito da Ciência”.

Essa invisibilidade feminina em outras profissões contribuiu para a sua inserção no magistério onde a sua atuação é decorrente do tratamento político, social, econômico e cultural da profissão docente sobre uma base ideológica, com raízes na relação de tensão entre o público e o privado. Por isso, a atuação na docência (magistério) como “vocação” ou “dom” ainda se faz muito presente e, neste sentido, constata-se o grande destaque para as características femininas educadas socialmente sob a égide da naturalização como, por exemplo, o amor fraternal/incondicional, o zelo, a prontidão ao cuidado do outro.

Neste contexto, o processo de feminização da profissão docente não se limita “apenas à presença massiva de mulheres na profissão docente” mas, principalmente, a aproximação das práticas escolares, das atividades e dos significados e dos sentidos atribuídos a esta profissão ao universo feminino independentemente de quem os corporifica, ou seja, não é uma questão de tipologia de sexo masculino ou feminino, de ser um professor ou professora e, sim, da concepção de gênero que subjaz à atuação dessa profissão.

Entendemos que as apropriações das significações sociais do gênero feminino continuam a servir aos propósitos políticos e econômicos de vincular o trabalho do professor e a sua prática à esfera do “doméstico” imputando ao ato produtivo do professor uma distância entre a significação social de ser professor e o sentido que ele atribui a sua profissão e, consequentemente, desvalorização e alienação.

Essas considerações se fazem pertinentes para desvelarmos as contradições, as congruências e as relações que podem ser estabelecidas com o conhecimento produzido sobre didática – nosso objeto de estudo e as dimensões políticas, sociais, culturais e econômicas desse contexto histórico.