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Østlandsforskning (Eastern Norway Research Institute)

6 Evaluations of individual institutes

6.3 Regionally anchored institutes

6.3.9 Østlandsforskning (Eastern Norway Research Institute)

Ao longo do presente texto o termo organizações patológicas da

personalidade vem sendo usado, e é mister esclarecer que ele foi cunhado por

Steiner, que o considerou expressivo para designar os fenômenos que abarcassem conjuntos estáveis e sólidos de defesas. Trata-se de sistemas bem organizados, descritos por vários analistas sob outras designações (algumas até semelhantes), e que conduziam à estagnação da análise e ao escasso crescimento psíquico. A utilidade do termo franqueou seu uso ao longo do texto antes de sua apresentação.

Steiner traça um “des-fecho” para as posições esquizoparanoide e depressiva diferente dos esperados. Um des-fechamento, no sentido de que não há resolução, mas fuga, e o vivenciar das posições é evitado com a “des- construção” da possibilidade de elaborá-las. Uma terceira “via” é postulada para as dores e desafios dessas posições. O termo via procura indicar que um movimento de saída das posições é viabilizado, embora não implique em ser um caminho útil. Talvez um labirinto, local em que há diversos falsos caminhos, seja mais adequado. Como analistas, sabemos que muitos caminhos são descaminhos ou saídas ilusórias. No caso do refúgio, a “via” lembra a ilha aonde Ulisses chega durante sua viajem de retorno a Ítaca, e fica tentado a lá permanecer e desistir do objetivo de chegar à sua casa e às pessoas que ama.

É possível traçar alguns paralelos: Ulisses afasta-se da guerra - posição esquizoparanoide, mas não sabe se irá suportar a posição depressiva e conseguir elaborá-la; reparar os danos que a longa ausência causara. A ilha e sua bruxa servem de metáfora para o refúgio (STEINER, 1997) e para o líder da

organização patológica descrito como o chefe da gangue ou da máfia por Rosenfeld. O conforto do refúgio corresponde à perda da possibilidade de se ligar aos objetos amados, mas humanos.

O refúgio lembra ambientes protetores. Ao incluir essa “construção” na dinâmica psíquica, viabiliza-se um estado mental em que as agruras das duas posições são evitadas. O self fica albergado num domínio cuja constelação de defesas26 propicia uma estrutura estável, arraigada, que não permite crescimento mental. Seria como outra posição.

O analista observa que refúgios psíquicos são estados mentais em que o paciente fica estagnado, isolado e fora de alcance, sendo possível inferir que estes estados surgem a partir da operação de um poderoso sistema defensivo. (STEINER, 1997, p. 18).

E mais adiante:

Como vimos, os refúgios variam tanto em sua estrutura quanto no tipo de ansiedade da qual se defendem. Alguns funcionam predominantemente como um refúgio contra as ansiedades esquizoparanoides de fragmentação e perseguição, enquanto outros são acionados para lidar com os afetos depressivos, tais como a culpa e o desespero. (STEINER,

1997, p. 118).

O The New Dictionary of Kleinian Thought (2011) menciona que Steiner em seu artigo intitulado Perverse relationships between parts of the self: A cilinical illustration, de 198127, trouxe pela primeira vez o termo organização patológica

para o vocabulário psicanalítico. Cita ainda, que o trabalho de Steiner foi um marco para o início de uma teoria compreensível que incorpora tanto o narcisismo patológico quanto o equilíbrio entre a organização patológica e as posições esquizoparanoide e depressiva28. Ele percebeu a variabilidade da organização por se tratar de conjuntos de defesas e trouxe uma denominação que facilita que sejam identificadas e, ao mesmo tempo, ressalta sinteticamente suas características. As organizações patológicas seriam um termo amplo que

serve para englobar tanto organizações narcisistas, como outras em que

26Vide introdução.

27Traduzido e revisado como Relações perversas nas organizações patológicas, em Refúgios

psíquicos, cit.

configurações obsessivas, histéricas, maníacas ou psicóticas predominam

(SPILLIUS; MILTON; GARVEY; COUVE; STEINER, 2011).

Refúgios são construídos para lidar com a destrutividade, problema inerente ao ser humano. As origens da destrutividade podem ser internas, externas ou mistas, mas, inapelavelmente, o indivíduo será por elas afetado, principalmente quando for ou estiver mais frágil, como na infância. Traumas, violência, descuido ou rejeição por parte do ambiente promovem a internalização de objetos violentos, os quais funcionarão como receptores pertinentes para a destrutividade individual. Steiner afirma que organizações defensivas são universais na constituição dos seres humanos e muitas daquelas às quais dedica sua pesquisa, eram capazes de dominar completamente o psiquismo. As organizações patológicas, conceito que Steiner usa numa acepção enraizada em Rosenfeld, são tanto uma demonstração da destrutividade quanto uma tentativa de lidar com ela. Essas organizações foram criadas em momentos de tremenda angústia e se apresentaram ao frágil indivíduo como uma salvação, e uma forma segura para lidar com a destrutividade.

Para seguir a explanação sobre os refúgios, Steiner (1997) utiliza alguns conceitos de Bion. Uma das principais diferenças entre a área psicótica e a área neurótica da personalidade pode ser reputada à intensidade e ao modo como a identificação projetiva é usada, pois para a área psicótica, ela tem a finalidade de descarregar qualquer aspecto indesejado do psiquismo em outro objeto. Ao invés de ser usada de forma comunicativa, mais fluída e reversível, como na área neurótica, nas áreas psicóticas a identificação projetiva é “pesada”, rígida, como via de mão única, em que o sentido de retorno está “proibido”29. Isso decorre da pouca tolerância em relação à realidade interna e externa, e torna esta tolerância ainda mais remota.

Outra questão é que aspectos desejáveis do objeto são também confundidos com o self. Nesse estado, com o funcionamento típico da posição esquizoparanoide, os objetos são apenas parciais e, através da projeção, pedaços do eu são alojados neles. A incorporação de partes desejáveis do objeto pelo ego também pode ocorrer, por intrusão no objeto ou por identificação maciça

com ele. Esses conceitos, por terem sido muito trabalhados por Meltzer (2008), serão examinados no capítulo dedicado ao seu trabalho.

Cabe lembrar que, a qualquer divisão do objeto, corresponde uma divisão no ego, o que aumenta a confusão e dificulta os esforços de reintegração, que envolveriam o lidar com tudo o que foi projetado, como pertencente e de responsabilidade do eu. Também implica na devolução dos aspectos do objeto, isto é, na separação e na perda do controle sobre tal objeto. O funcionamento psíquico menos integrado e a tendência a manter as projeções tornam mais fácil para uma organização patológica assumir a liderança e obscurecer áreas mais neuróticas ou sadias. A identificação projetiva exagerada também serve para atacar as capacidades de pensar30 e contribui para a proliferação do funcionamento psicótico: desagregado, com pouca capacidade para unir as percepções e vivências. Isso debilita a percepção dos objetos e do próprio self como inteiros e complexos, e enfraquece mais as áreas neuróticas.

Steiner aproveitou e estendeu o esquema de intercâmbio entre as posições esquizoparanoide e depressiva proposto por Bion, para mostrar que o refúgio seria uma posição entre elas, criando um modelo de equilíbrio triangular (STEINER, 1997, p. 46, 57). As organizações patológicas nas quais se inserem os refúgios estão nas fronteiras ou bordas das duas posições e, a partir dessa colocação separada, mantêm um rígido e estático equilíbrio. O autor indica, usando a notação utilizada por Bion e que remete a intercâmbios nas reações químicas, que do refúgio se pode ir e vir para as duas posições, mas há uma tendência a permanecer nele, evitando ambas.

O refúgio funciona em relação às duas posições básicas, mas como se fosse ele próprio uma posição, pois sua estrutura é marcada por uma organização patológica da personalidade.

As organizações patológicas embrutecem a personalidade, impedem o contato com a realidade e interferem no crescimento e no desenvolvimento. Em indivíduos normais, elas são postas em ação quando a ansiedade excede os limites toleráveis e são abandonadas novamente, quando a crise termina. Entretanto, permanecem potencialmente disponíveis e podem servir para por o paciente fora de contato, desencadeando um período de estagnação na análise se o

30“A personalidade psicótica e os problemas próprios da mesma obscureciam a personalidade não

psicótica e os problemas inerentes a esta” p. 55 e “não apenas o pensamento verbal sendo ele mesmo um elo de ligação é atacado, mas os fatores que contribuem para a coesão do próprio pensamento são igualmente atacados.” (BION, 1988).

trabalho analítico tocar em questões que estão na margem do tolerável.

(STEINER, 1997, p. 21).

Criar condições para lidar com a destrutividade é tarefa do desenvolvimento humano. Mas em situações em que a destrutividade seja intensa, podem ocorrer problemas para estabelecer uma distinção firme entre objetos bons e maus. A inveja que é parte essencial da destrutividade dificulta o reconhecimento dos bons. A confusão a respeito da natureza dos objetos impede o estabelecimento de uma genuína confiança nos bons. Além disto, os objetos “bons” criados pela divisão anômala entre bom e mal têm uma mistura de características onipotentes, negando sua maldade, e uma incapacidade para enfrentá-la. Por isso, são pouco humanizados, rígidos e incapazes de ajudar a lidar verdadeiramente com angústias. Ataques são efetuados para não perceber a bondade e a dependência dos objetos reais.

A necessidade de evacuar o excesso de destrutividade cria objetos impregnados de maldade ao redor do ego, o que, por sua vez, aumenta as projeções e os ataques à própria percepção (BION, 1988). Tais dificuldades podem ser pioradas pela deficiência de continência do ambiente: a escassez de objetos bons a serem introjetados obviamente aumenta a introjeção dos maus (STEINER, 1997, 2011). Vê-se que as organizações patológicas têm duas

funções principais: recriar uma divisão entre objetos protetores e objetos maus em face do colapso da divisão normal entre esses objetos. A outra função é criar uma rede de proteção contra a destrutividade que engendrou o colapso. Contudo, a organização expressa a destrutividade contra a qual

pretende se proteger (SPILLIUS; MILTON; GARVEY; COUVE; STEINER, 2011). As organizações patológicas são complexas, vindo a formar uma rede de relações composta por vários elementos que se originam tanto do self quanto de objetos para dentro dos quais foram projetados aspectos do self e, depois, reintrojetados dessa forma alterada. Essa estrutura coesa é atraente, e as outras áreas da personalidade que a elas se submetem podem não ser apenas vítimas. Podem relacionar-se com ela de várias formas, inclusive extrair ganhos e prazeres dessa espécie de escravidão.

Uma vivência de sofrimento severo, como a experiência de fragmentação psíquica, contribui para o estabelecimento de uma organização patológica. Cumpre recordar que Klein31 usou o termo fragmentação ou despedaçamento para falar de um splitting extremamente intenso (SPILLIUS, 2011), ou seja, uma projeção maciça, talvez sem possibilidade de reintrojeção. Uma espécie de explosão do self, quando a intensidade das vivências de sofrimento, ódio e desamparo fossem insuportáveis, e fosse preferível o desmantelamento como último e desesperado recurso para aplacar a dor. Com a violenta expulsão do que fosse percebido como ruim, o próprio self se despedaça, pois a toda projeção corresponde uma divisão no self. Klein (1982, 1991) exemplificou isso com o despedaçamento descrito no caso de Schreber. Apesar de os processos de cisão serem úteis e eficazes para lidar com muitas angústias, às vezes podem ser insuficientes, e a fragmentação patológica consiste numa defesa extrema, frente a uma intensa angústia persecutória, que ameaça a própria sobrevivência.

Bion (1988) descreve e caracteriza essa situação como uma exacerbação do funcionamento esquizoparanoide, causando um desmantelamento do self em minúsculas partículas (mesmo que algumas partes ainda permaneçam integradas). O self não pode mais ser destruído como um todo, mas fica aos pedaços, como se vê no que restou de Schreber depois de alguns surtos psicóticos (STEINER, 2011). As partes do self reduzidas a fragmentos são projetadas violentamente e podem se relacionar de modo caótico e mesmo aspectos das capacidades funcionais de órgãos sensoriais, como visão, audição, olfato, podem ser retalhados e contribuírem para o caos. Até as ligações que unem os pensamentos podem sofrer tal agressão. Bion (1988) relata que a consequência será a formação de objetos bizarros, pela união de fragmentos de self projetados em objetos, que assim adquirem características estranhas. Seu uso funcional normal fica prejudicado, e podem ser assustadores para o ego que não os reconhece mais. Tais objetos podem ser recolhidos por uma

31Klein também usa o termo para falar de estados não integrados e fragmentários no bebê recém-

nato:“ Eu diria que ao ego primitivo falta coesão, em elevado grau, e a tendência para a integração alterna com a tendência para a desintegração, a fragmentação em múltiplas parcelas”, em Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In: KLEIN, M.; HEIMANN, P.; ISAACS, S.; RIVIERE, J. (Orgs.). Os progressos da psicanálise, cit., p. 317.

organização patológica e sob seu domínio podem servir para coagir as áreas mais neuróticas do ego.

Se algum grau de cisão normal puder ser mantido para se preservar alguns objetos bons que possam ser reconhecíveis e fornecer proteção, ainda será possível que a fragmentação se limite. Mas se a inveja (KLEIN, 1991) tiver sido demasiada e tiver colocado em dúvida a bondade dos objetos, haverá poucos (ou frágeis) objetos bons aos quais recorrer. A confusão e o horror predominarão. Justamente nesses momentos uma organização patológica poderá ser acionada, como forma de escapar ao caos e ao desespero, e sua onipotência será confundida com proteção. O paciente pode se acalmar não por retornar ao normal, mas porque nele se estabeleceu a organização. Ela assumiu a situação caótica e trouxe uma espécie de calma, porém embasada numa grave distorção da realidade interna e externa.

Bion (1966, 1988) introduziu o conceito de continência para designar a capacidade de manter estados psíquicos no próprio psiquismo, com toda a magnitude emocional que eles possam oferecer. Trouxe a capacidade materna de conter as ansiedades do bebê como o protótipo da continência e o fato de a mãe ser capaz de exercê-la como a base para a criança desenvolvê-la. A continência implica, além do acolhimento do que foi projetado, na realização de um trabalho mental com o que foi projetado, sendo um processo psíquico ativo (BION, 1966, 1988). Assim, um bebê pode aprender a capacidade de continência, e a vivência do processamento mental das angústias, desde que tenha na mãe alguém capaz disso e que ela também possa lhe transmitir condições facilitadoras dessa função mental. Portanto, o paciente depende de seu analista para fazer isso por ele e com ele, e a emergência do refúgio tanto é desejada, quanto temida. No entanto, o refúgio mimetiza uma continência que foi importante ou foi a única encontrada nos momentos de caos e de fragmentação, e que é capaz de competir com a continência verdadeira.

A permanência no refúgio faz com que não se sofra a experiência de estar sozinho, e ter que fazer algo por si, não se percebe bem a perseguição ou a fragmentação, mas a falta de algo – uma continência verdadeira, objetos reais e confiáveis - está no horizonte e pode motivar tentativas de sair do refúgio (STEINER, 2011). Neste refúgio há uma vivência de uma relação narcísica

extrema, o que remete ao fato de que a onipotência decorre da fragilidade que se destina a encobrir. Assim, tendo o refúgio como horizonte, seu portador seguirá submisso. Como o rei do conto A roupa nova do rei , ele está despido das capacidades de sofrer perseguição ou perda (oscilação normal entre as posições esquizoparanoide e depressiva)32 e não vê como isso o empobrece, está nu ao vestir-se com um poder imaginário. Nesse estado, é difícil aprender com a experiência, o que ocorre com o rei na história. Só a criança que o vê sem a roupa e aceita esse fato consegue aprender algo (por ser a parte mais dependente e menos onipotente).

Habitar um refúgio pode dar a impressão de que se está num local onde não há angústia. Mas não se trata exatamente disso. A rede de defesas forma obviamente um apoio. Há algum equilíbrio, mas ele não é um equilíbrio saudável e por isso a qualidade do bem estar que proporciona é espúria e não convence o tempo todo. Por se tratar de uma posição (ou como se fosse), não se constitui num sistema absolutamente fechado, e muitos pacientes procuram ajuda e têm necessidade de obtê-la quase tão intensamente quanto têm necessidade de permanecer no refúgio. Steiner, no entanto, concorda com as pesquisas de O`Shaughnessy33 com pacientes com sistemas defensivos doentios e afirma:

Uma questão muito significativa surge de sua descrição sobre o destino da organização, quando o desenvolvimento ocorre realmente. Isso não significa que a organização foi desmantelada, mas que se desenvolveu uma cisão na personalidade e, apesar da existência ininterrupta das organizações patológicas da personalidade, uma parte do paciente, a que foi capaz de ficar em contato com seu objeto e com a realidade, foi reforçada. Uma parte onipotente do paciente continuou preferindo manter a identificação projetiva com os poderosos objetos destrutivos, sendo obstrutiva e desdenhosa para com os esforços realistas de desenvolvimento. (STEINER, 1997, p. 69).

Da citação anterior, percebe-se algo que Steiner considera outro elemento fundamental na sustentação e no poder das organizações patológicas. Elas permitem e dão guarida às relações perversas dentro da personalidade. Ele ressalta (como fez O`Shaughnessy) que uma parte do paciente pode ser capaz,

32Posição esquizoparanoide Posição depressiva, na acepção bioniana de equilíbrio dinâmico

entre elas.

33Refere-se ao trabalho dessa autora: Um estudo clínico de uma organização defensiva. In:

SPILLIUS, Elizabeth Bott (Org.). Melanie Klein hoje: desenvolvimentos da teoria e da técnica. 1. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1991, grifos nossos.

através da análise e de outras experiências, de ter maior contato com o objeto e com a realidade, mas, mesmo com esse progresso, persiste noutra parte a identificação projetiva com os objetos destrutivos. Steiner baseia-se no que Freud (1919) observou sobre o fetichismo, para compreender o teor perverso das relações da organização. Freud esclareceu que a perversão, assim como a neurose, seriam um compromisso formado a partir do conflito entre a pulsão, a defesa e a ansiedade. O ego faria uma espécie de barganha com o id, aceitando que certos atos perversos permaneçam egos sintônicos, e o id aceitaria a repressão de outras satisfações pulsionais.

Steiner utiliza o conceito de perversão de forma mais ampla do que a ligada à esfera da sexualidade. Ele diz que a perversão implica em falsear a realidade que é simultaneamente percebida e em não abrir mão das duas possibilidades, ou seja, da falsa e da verdadeira. Há condições para haver um insight mais profundo, mas este é deixado de lado e o acordo perverso, mantido. Steiner coloca:

Deveria enfatizar-se que não é simplesmente a coexistência da contradição que é perversa, porque tal contradição pode resultar, em última instância, em um nível mais primitivo, da cisão do ego. A perversão surge quando a integração começa, e tenta encontrar uma falsa reconciliação entre visões contraditórias que se tornam difíceis de manter separadas à medida que a integração prossegue. Tal reconciliação não é necessária quando a cisão mantém as visões contraditórias totalmente separadas e incapazes de se influenciar mutuamente. O problema surge somente quando a cisão começa a diminuir e há tentativa de integrar as duas visões. (STEINER, 1997, p.

112).

Steiner afirma que são encontrados elementos perversos no self carente, o qual, muitas vezes, pede e aceita a proteção e a exploração perversas, apesar de ter insight dos acontecimentos. A parte narcisista da personalidade pode ter

um poder desproporcional por controlar as partes sadias e por ir convencendo-as a fazerem vínculos perversos. Mesmo tendo insights sobre os

métodos cruéis da parte onipotente, através da vinculação perversa é possível que o paciente continue dando a liderança de sua personalidade à área narcísica. Não se trata de uma simples cisão, mas do reagrupamento de partes cindidas sob o comando da organização patológica, e o paciente não é apenas uma vítima inocente.

A saída do refúgio constitui um longo e difícil processo de elaboração. Ao emergir dele (ou tentar) o paciente se sentirá como alguém que vê a própria autoidealização exposta e ficará envergonhado e humilhado (STEINER, 2011). É difícil admitir o narcisismo e, nesses pacientes que o têm de forma tão exacerbada é mais duro ainda encarar essa situação. Eles não desejam admitir que pudessem ser ou ter em si tanto narcisismo. Se a admiração pela