6 Evaluations of individual institutes
6.3 Regionally anchored institutes
6.3.8 Østfoldforskning (Østfoldforskning)
Herbert Rosenfeld (1968, 1988) realizou uma investigação fundamental sobre personalidades com características narcisistas. Os ângulos abordados por ele são uma das bases para o desenvolvimento do conceito de Steiner sobre refúgios psíquicos e também podem ser pensados como um dos alicerces mais consistentes para a compreensão das organizações patológicas da personalidade. Suas ideias sobre relações objetais narcísicas e sobre organizações defensivas estáveis são centrais no desenvolvimento do trabalho de Steiner. A introdução do conceito de narcisismo remonta a Freud (191012). Há elementos interessantes em seu estudo sobre Leonardo da Vince. Freud descreveu como o artista se relacionava com seus alunos, como se fossem ele próprio, e deles cuidava como fora ou gostaria de ter sido cuidado e amado por sua mãe. Portanto, embora se servindo de um objeto para amar, era a si mesmo que Leonardo amava, pois o objeto era depositário do peso de sua transferência e identificação.
Em Sobre o Narcisismo: uma introdução,13 Freud menciona que o primeiro tipo de escolha objetal de uma criança recai sobre as pessoas que são sua fonte de alimento, cuidados e proteção e chama esse tipo de ligação de anaclítica. Diz, porém, que há outro tipo de amor em conformidade com outro tipo de relação: o narcisista. Os aspectos narcísicos descritos por Freud ajudam na compreensão dos fenômenos envolvendo questões que Rosenfeld mostrará. Pode-se dizer que Rosenfeld é responsável por enriquecer o estudo do narcisismo, pois ele
12Leonardo da Vince e uma lembrança de sua infancia. (1910). In: OBRAS completas. Edição
Standard. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1974. v. XI.
descreve vertentes patológicas deste, que fornecem ferramentas valiosas para o trabalho clínico.
Freud (1914) destaca o narcisismo como componente importante e inevitável do ser humano, mas não o isenta de problemas. Pela força do narcisismo, o indivíduo está sujeito a escolher para amar objetos que tenham ressonância com seu próprio eu. Apesar de crer que as escolhas narcísicas são comuns, principalmente nas mulheres, Freud coloca que as relações narcísicas poderiam levar a complicações nas relações objetais, tanto que cita as perversões sexuais como exemplo cabal de escolhas narcísicas. Ele esclarece as diferenças entre as escolhas:
Uma pessoa pode amar:
1-Em conformidade com o tipo narcisista: a) O que ela própria é (isto é, ela mesma); b) O que ela própria foi;
c) O que ela própria gostaria de ser;
d) Alguém que foi uma vez parte dela mesma.
2- Em conformidade com o tipo anaclítico (de ligação): a) A mulher que o alimenta;
b) O homem que a protege. (FREUD, 1974, v. XIV, p. 107).
Juntando a esses itens um pouco da visão kleiniana, nota-se que escolhas do tipo narcisista são ligadas aos mecanismos da onipotência, da autoidealização, da negação de dependência e se sustentam na projeção e no splitting de partes indesejadas, sobre outros objetos. São, portanto, baseadas na posição esquizoparanoide e não têm compromisso com a aceitação da realidade, das diferenças entre objetos, nem limites. Também são encontrados nas defesas maníacas. Um paciente que estabeleça com seu analista esse tipo de relação desejará incorporar os aspectos desejáveis do analista e negar que precise dele. Poderá como mostra Rosenfeld, entrar em severos estados confusionais com o analista.
No outro tipo de vinculação, a busca é pela vivência de uma boa relação real com um objeto que sustente e proteja. Embora se esteja levando em conta os aportes de Melanie Klein às teorias das relações de objeto para pensar o narcisismo, os esclarecimentos feitos por Freud, além de fundadores, oferecem um ótimo diferencial como guia.
Lembramos que Cintra e Figueiredo (2004) ressaltam que Melanie Klein cunhou o termo posição esquizoparanoide e a descreveu ricamente, como uma primeira forma de organização do caos mental: manter separados bons e maus objetos, para ir criando a distinção entre eles dentro do mundo mental. Com isto, assegura-se uma diferenciação e consegue-se um rudimento de organização com a sensação de que os bons objetos estão a salvo dos maus. Ressalta-se que neste período, e na posição esquizoparanoide, as vivências de bem e mal são marcadas pela onipotência. O objeto não é visto como autônomo, mas como parte do self, o que caracteriza o tipo de relação de objeto parcial e narcísica. Neste momento, o self não está suficientemente integrado. O objeto serve como fornecedor de tudo que é necessário e também como depositário do que não é desejado (ou não pode ser suportado). Nesse tipo de relação, as angústias vivenciadas são esquizoides: de fragmentação, e paranoides, isto é, há o medo e preocupação consigo mesmo: ser atacado ou destruído.
A projeção é frequente e se constitui num mecanismo propício para a mente primitiva14. Ela faz com que, continuamente, o que não é desejável seja projetado, o que gera nesse caso a percepção de um objeto contendo coisas ruins. Na posição esquizoparanoide não há preocupação ou consideração com o objeto, a preocupação é de se preservar e de sobreviver. Por outro lado, o objeto importa, e muito, como provedor ou depositário. O aspecto amado do objeto é mantido afastado o mais possível de seu aspecto odiado e, assim, em contato com o aspecto vivido como bom, há um estado de intenso prazer e idealização. Quando houver uma inversão, um desprazer, o contato será com o objeto odiado, e a vivência será inapelavelmente ruim. Mas, à medida que a criança se desenvolve e torna-se mais capaz de suportar esses estados, diminuindo as projeções e aumentando a percepção da realidade, há um abrandamento deles.
A ocorrência de introjeções firmes dos bons objetos e a permanência e sequência delas asseguram o predomínio dessas experiências e permitem mudanças. O objeto passa a ser visto como mais inteiro e menos idealmente bom ou mau. Passa a haver a percepção da ambivalência em relação ao objeto e a
14Mas a comunicação pela identificação projetiva, mesmo primitiva, é a ferramenta básica de todo
entendimento e empatia humanos, como Bion (1997) e Meltzer posteriormente (1990, 1995, 1998, 2004) demonstram.
necessidade de protegê-lo. Esse é o início da posição depressiva: o medo de perder ou de ter danificado os bons objetos, o receio de não ser capaz de reparar os estragos perpetrados a eles, pois agora se percebe que o objeto atacado, quando era visto como mau, era o mesmo que, no momento de gratificação, era visto como bom. Essa experiência carrega a tristeza pelo dano acarretado ao objeto (mesmo que em fantasia), o medo de sua perda e a consideração pelo objeto pode começar a ser vivenciada. Se tudo isso não for suportado, pode ocorrer um retorno ao funcionamento esquizoparanoide, e a impossibilidade de elaborar a posição depressiva. Essa impossibilidade pode ser revertida, e se dar em graus variáveis.
As patologias narcísicas que Rosenfeld pesquisa (e que fazem parte das organizações patológicas da personalidade) revelam os elementos descritos por Freud como caracterizando as escolhas narcísicas, mas de forma tão rígida e inflexível que uma verdadeira relação de objeto fica extremamente difícil. A autoidealização e a negação de separação com o objeto são buscadas e estabelecidas como uma verdade dentro do ego. Portanto, algum grau de ruptura com a realidade é necessário. Também há uma séria dificuldade de construir e perceber o próprio self, uma vez que as qualidades desejadas são obtidas pela identificação projetiva com o objeto ideal, e não por desenvolvimento real das mesmas no self. Vejamos as palavras do autor:
Na identificação projetiva, partes do eu entram onipotentemente no objeto, por exemplo, na mãe, para se apossar de certas qualidades consideradas desejáveis, e se proclamam, por conseguinte, o objeto ou o objeto parcial. A identificação pela introjeção e pela projeção ocorre em geral simultaneamente.
Nas relações de objeto narcísicas, as defesas contra todo reconhecimento de separação existente entre o eu e o objeto constituem uma parte predominante. A percepção da separação conduziria a sentimentos de dependência do objeto e, consequentemente, à ansiedade. A dependência do objeto implica amor por ele e reconhecimento de seu valor, o que ocasiona agressividade, ansiedade e sofrimento, por causa das frustrações inevitáveis e suas consequências. Além disso, a dependência estimula a inveja, quando se reconhece a bondade do objeto. As relações de objeto narcísicas onipotentes evitam, por conseguinte, tanto os sentimentos agressivos causados pela frustração como toda percepção da inveja. ...
A inveja apresenta características onipotentes; parece que ela contribui para as relações de objeto narcísicas, enquanto a inveja propriamente é, a um tempo, expelida e negada. Em minhas observações clínicas de pacientes narcísicos, a projeção de características indesejáveis no objeto desempenha um papel importante. O analista amiúde se representa nos
sonhos e fantasias como uma latrina ou como um colo15. (ROSENFELD,
1968, p. 194-195).
Desta forma, nem objeto e nem self são vistos na realidade, mas sob a ótica de idealizações, projeções etc. Relações desse tipo tendem a ser estáveis: abandoná-las seria temerário, pois, além de provocar inveja, levariam ao medo e ao desamparo, com penosos sentimentos de dependência. A personalidade que engendrou fortes relações narcísicas evita, portanto, sair delas.
Isto leva à lembrança de que Joan Riviere em 1936, estudando pacientes difíceis, relatou o uso por estes de sistemas defensivos altamente organizados, dirigidos contra as dores da posição depressiva. Ela conclui que tal tipo de sistema é baseado numa rede de relações de objeto parciais, narcísicas e extremamente estáveis. Estas podem fazer com que a análise fique estagnada e, obviamente, estanquem o crescimento do indivíduo. O The New Dictionary of Kleinian Thought descreve suas contribuições como um preâmbulo para as concepções contemporâneas das organizações patológicas:
A confiança de Riviere nos conceitos kleinianos de defesas maníacas e da posição depressiva, limita as primeiras formulações, mas suas contribuições pioneiras têm feições que prefiguram outras concepções mais contemporâneas sobre organizações patológicas: as defesas muito coesas e intrincadas que produzem uma organização narcísica de personalidade resistente ao contato emocional; o controle exercido sobre o analista e o convite ao conluio; o equilíbrio rígido e firmemente defendido à custa de prejudicar o desenvolvimento na análise e na vida em geral; e a necessidade de que o analista seja capaz de compreender imaginativamente (e intuitivamente) as subjacentes ansiedades primitivas do paciente, para evitar reações que impeçam a análise, em face às quais o processo poderia ser estrangulado. (Tradução livre). Riviere´s reliance on Klein`s concept of the manic defences and the depressive position limits this first formulation, but her early contribution has features that prefigure more contemporary conceptions of pathological organisations: the tightly knit defences that yield a narcissistic personality organisation resistant to emotional contact; the control exerted over the analyst and the invitation to collude; the rigid, closely guarded equilibrium at the cost of the development in analysis and in life in general; and the need for the analyst´s imaginative understanding of the patient´s underlying primitive anxieties to avoid impatient reactions in the face of the stranglehold on analytic progress.
(SPILLIUS; MILTON; GARVEY; COUVE; STEINER, 2011, p. 198).
Destacam-se os aspectos maníacos, como o controle, a resistência ao contato emocional, a rigidez do equilíbrio mantido à custa de impedir o desenvolvimento psíquico, organizados num sistema coeso. Mostra a personalidade narcísica convidando o analista a se aliar a ela, partindo de defesas forjadas para evadir-se da posição depressiva. Embora não se trate de uma posição esquizoparanoide, cujas características são descritas por Rosenfeld quando ele constrói seus modelos de organizações patológicas, o sistema de defesas maníacas também é estavelmente organizado e imensamente onipotente.
Outra questão que Riviere já anteviu foi a necessidade de que o analista tenha tato e compreensão, isto é um grande acolhimento , sem o que o processo analítico fica estagnado ou inviável. Sem mencionar explicitamente uma organização patológica, Riviere oferece um perfil possível para estas e comprova que elas podem ocorrer não exatamente como na posição esquizoparanoide, mas com um conjunto de defesas tão organizado e característico que emula uma posição16.
A autora (RIVIERE, 1982) partiu do estudo das relações precoces de bebê e mãe e fez um delineamento do que há de rico e também conflitivo nelas, encontrando elementos que dão uma compreensão fundamental ao narcisismo infantil. O frágil ego do bebê mantém equilíbrio psíquico à custa de uma relação objetal peculiar que seria narcísica. Essa se constitui de vivências em que um objeto é tudo para o self, e a ele pertence. Por causa dela, o bebê sente que tudo de bom e de que necessita está disponível e faz parte dele (ao menos temporariamente). A concomitante necessidade de dissociar-se do desconforto e do desprazer é tão importante que é preciso também, para manter o narcisismo preservado, que uma relação com um continente fora do self ou afastado do núcleo deste, que receba o indesejável, esteja sempre disponível. Essa relação assegurará (em parte) a cisão normal entre bom e mau na mente infantil e permitirá que, gradualmente, em contato duradouro com bons objetos e bom ambiente, o bebê estabeleça um bom objeto interno seguramente diferente do mau.
16Melanie Klein havia pensado numa posição maníaca ao estudar os quadros maníaco-
Riviere pensa que sofrimentos como fome, frio, desconfortos físicos no ambiente extrauterino (e outros sofrimentos) são percebidos pelo bebê e não podem ser simplesmente aniquilados por uma alucinação ou simples projeção. Requerem algo para onde possam ser seguramente enviados, isto é, para um continente específico.17·Isso será efetuado através da identificação projetiva (KLEIN 1982, 1991, BION, 1988, 1966).
Observa-se que a manutenção do equilíbrio narcísico depende, entre outros fatores, da existência subjacente e estável de uma relação de objeto, para que este seja o detentor do indesejável. E que, por outro lado, o mecanismo de divisão permita que uma parte do Self fique fortemente identificada com os aspectos bons do objeto, tendo assim seu bem-estar assegurado. Para Riviere, Klein e Rosenfeld, isso ocorre porque, no início da vida, as percepções de self e objeto são confusas e flutuantes, mas já estão ocorrendo. Interessa lembrar que Tustin (1990) e Mitrani (2007), ao falarem do ritmo de segurança, também postulam uma diferenciação nascente entre mãe e bebê, ocorrendo paralelamente à experiência de fusão entre ambos.
Riviere crê que a dependência do bebê em relação ao objeto é tão grande que ele confunde sua necessidade com o próprio objeto. Some-se a isso a dificuldade de percepção e a não integração de vários aspectos do ego e teremos mais motivos para a confusão.
Os bons objetos precisam estar afastados dos maus, portanto, quando o bebê estiver vivenciando sofrimentos e experiências agressivas, ele precisará de um local razoavelmente separado dele onde os bons objetos fiquem seguros. Depois, para serem reencontrados, requerem um objeto a ser reencontrado18 que os forneça, isso é, um continente externo. Riviere diz:
Contudo, a experiência objetiva desenrola-se na mesma direção da fantasia, pois a experiência constante da criança é que suas satisfações e seu alívio de estímulos dolorosos internos ou externos lhe chegaram da mãe externa, na medida em que ela é apreendida. Assim, desde o
princípio, qualquer necessidade interna inexorável é referida como uma exigência imposta à mãe externa; ela e a necessidade são uma só coisa. (Uma agressiva reação de ansiedade também constitui um
17Lembramos o desenvolvimento disso feito por Bion (1988, 1966), mas ressaltamos que Riviere
parte, fundamentalmente, da noção de objeto bom e provedor de Melanie Klein.
18Em Sobre a gênese do conflito psíquico nos primórdios da infância. In: KLEIN, M; HEIMANN, P;
apelo à mãe externa). Se ela não a satisfaz, é tão inexorável quanto à necessidade interna; fica identificada, pois, com a necessidade e a dor internas. Portanto, este é o mais profundo nível de projeção: a privação e a necessidade internas são sempre sentidas como frustração externa. Uma situação interna de necessidade e tensão é necessariamente tratada como externa, em parte porque a ajuda tem vindo e vem (experiência) e, portanto, deve vir (onipotência) de uma agência externa. (RIVIERE, 1936, 1982, p. 57-58).
Riviere mostra que a identificação narcísica e as relações de objeto que elas engendram atestam a carência do ser humano e sua completa dependência de outro, e o fato de que um narcisismo sadio seja vital. Este implica numa percepção; ainda que parcial, de outro objeto e a aceitação dessa relação, que se alterna e também pode se sobrepor à vivência de ser este objeto.19. O que pode constituir obstáculo ao desenvolvimento é o fato de essas relações, ao invés de principiantes, se tornarem as principais e substituírem outras relações com objetos mais inteiros e reais ao longo da vida.
Rosenfeld afirma, em concordância com Klein e Riviere, que desde o início existe uma necessidade de um objeto externo, onde o self busca apoio e com o qual estabelece uma relação que, embora tenha características fusionais, teria uma nascente diferenciação.
Freud considerava o sentimento oceânico, o desejo de união com Deus ou com o Universo uma experiência narcísica primária... Balint (1960) foi mais longe ao sugerir que a descrição de Freud do narcisismo primário deveria chamar-se de amor de objeto primário. Pessoalmente acredito
que se teria evitado muita confusão, se reconhecêssemos que as inúmeras condições clínicas observáveis que se assemelham à descrição de Freud do narcisismo primário, constituem, de fato, relações objetais primitivas. (ROSENFELD, 1968, p. 194).
Rosenfeld comprovou, através dos atendimentos que realizou a pacientes psicóticos e fronteiriços, que, diferentemente do que Freud pensava, esses desenvolviam intensa transferência. Outros analistas, kleinianos ou não, também trataram de pacientes desse tipo. Entre estes, Bion explicitou, aprofundando linhas de pesquisas de M. Klein, que a forma principal de comunicação e relacionamento entre a mente primitiva e o mundo, se fazia através da identificação projetiva. Tomou como modelo a relação do bebê com sua mãe, e
19Este raciocínio segue o pensamento Kleiniano, e tem correspondência com a visão de Frances
trabalhou com pacientes graves, incluindo esquizofrênicos, e com grupos de pacientes afetados por traumas20.
Esses pacientes mostravam atitudes onipotentes para com as pessoas em geral e principalmente para com seus terapeutas. Em fantasia, faziam exigências insaciáveis a seus objetos, confundiam seu self com o de outras pessoas, colocavam outros dentro de si e se colocavam dentro de outros. Rosenfeld (1988, 1968) percebeu que não apenas pacientes francamente psicóticos faziam aquele tipo de relações narcisistas e transferência, o que corroborava a percepção de Klein (1982) de que as posições esquizoparanoide e depressiva faziam parte do funcionamento psíquico de todo ser humano. Rosenfeld também documenta, como Bion (1988), a percepção da coexistência e o funcionamento de áreas psicóticas e neuróticas, convivendo numa personalidade. Ao analisar um paciente aparentemente neurótico, poderiam ser encontrados núcleos de funcionamento psicótico e, da mesma forma, pacientes psicóticos também poderiam mostrar áreas neuróticas.
Rosenfeld (1988, 1968) descreveu constelações de defesas organizadas que servem para projetar fortemente o que não se deseja e se identificar maciçamente com o desejável, apoderando-se e/ou entrando no objeto (em fantasia). Isso pode levar a estados confusionais e/ou de despersonalização. Concluiu que essas organizações eram de natureza profundamente narcisista e classificou-as em dois tipos: narcisismo libidinal e narcisismo destrutivo.
A descrição anterior refere-se ao narcisista libidinal e, para completá-la, adicionam-se alguns elementos. O paciente vive como se tudo que houvesse de bom no analista pertencesse a ele e estivesse sempre à sua disposição, não havendo percepção de separação entre ambos. Se houver alguma percepção de separação, o paciente pode se enfurecer ou se sentir traído. Sendo detentor de tudo o que seja bom e desejável, os sentimentos de precisar do outro ou de ter inveja dele por suas qualidades são negados e escamoteados. Há triunfo e controle sobre o objeto.
20BION, W. Experiências com grupos. Rio de Janeiro: Imago, 1975; Estudos psicanalíticos
revisados. Rio de Janeiro: Imago, 1988; BLÉANDONU, G. Bion a vida e a obra. Rio de Janeiro:
Rosenfeld afirma, amparado em sua experiência, que tanto a identificação por projeção quanto por introjeção estão ocorrendo simultaneamente, o que traduz um primitivismo oral, como diriam Klein e Meltzer, e a possibilidade da persistência desse tipo de relações implicará na impossibilidade de elaborar a inveja do objeto21 e de desenvolver capacidades reais para si. O que ocorreu - o apoderar-se em fantasia dos valores do outro -, não permitirá uma construção de valores próprios e, com o tempo, será possível o paciente recear jamais poder