24 METHODS AND ANALYTICAL APPROACH
25.2 Phase 2: YES/YAS, ER/AR-CALUX and DR-CALUX screening for
25.2.1 YES / YAS results phase 2, dose response study
Como o sociólogo Anthony Giddens aponta, o público nutre uma relação ambivalente em relação à ciência, misturando entusiasmo e cautela. Na biotecnologia, não é diferente.
No destaque que confere ao assunto através dos meios de comunicação, é inegável que a mídia coloca a biotecnologia na pauta do dia, criando um ambiente que estimula a sociedade a pensar e opinar sobre o tema. No entanto, não há unanimidade no campo da comunicação sobre a dinâmica das influências entre aquilo que a mídia publica e as opiniões e atitudes do público: alguns estudos apontam que o enfoque dedicado à comunicação da biotecnologia impacta o posicionamento crítico do público, enquanto outros indicam que a abordagem da mídia apenas reflete tendências culturais, colocando em xeque a visão determinista de que os meios de comunicação atuam de forma imediata na definição da opinião pública sobre temas de C&T.
Pesquisas realizadas na Europa e nos Estados Unidos verificam que existe correlação entre a cobertura positiva da mídia sobre biotecnologia e atitudes positivas do público sobre o assunto. A presença de opiniões positivas no mesmo período em que foram verificadas reportagens de abordagem positiva, porém, não esclarece de que forma as informações divulgadas na mídia e os fatores culturais que envolvem o posicionamento social sobre o tema se influenciam mutuamente.8
No Brasil, estudo recente realizado com mais de 600 estudantes do ensino médio na cidade do Rio de Janeiro verificou que os jovens não atribuem aos genes papel preponderante na formação de características físicas e comportamentais, em oposição à análise de que a mídia geralmente expressa uma visão mais ligada ao determinismo genético.9
As correlações entre o conhecimento sobre temas científicos e o posicionamento crítico também são polêmicos. Estudo de meta-análise en- volvendo 193 pesquisas com amostragens nacionais conduzidas em 40 países desde 1989 indica uma pequena correlação entre a atitude positiva e o conhecimento de informações científicas, com pequenas variações entre as culturas e os campos da ciência. As percepções de risco quanto às aplicações clínicas da biotecnologia foram maiores entre aqueles com menor interesse e menor contato com informações sobre o tema. Já no campo da biotecnologia agrícola, diferenças semelhantes não foram observadas.10
O papel da mídia é relevante não apenas para o posicionamento social sobre a biotecnologia, mas também desempenha papel central nas atitudes individuais em relação à saúde. Hoje, vivemos uma tendência cada vez maior ao auto-cuidado: a busca ativa por informações, numa modalidade de consu- mo que tem na mídia sua principal fonte, orienta as ações do indivíduo sobre sua própria saúde. Neste contexto, o papel do especialista (o médico) e do Estado ficam reduzidos face à auto-orientação do indivíduo que, municiado
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8 MAESEELE, Pieter A. Science and technology in a mediatized and democratized
society. JCOM v. 6, n. 1, mar 2007.
9 MASSARANI, Luisa ; MOREIRA, Ildeu . Not in Our Genes! Um Estudo de Caso com
Jovens do Ensino Médio no Rio de Janeiro. Alexandria - Revista de Educação em Ciência e Tecnologia, v. 1, p. 51-76, 2008.
10 ALLUM, Nick ET AL. Science knowledge and attitudes across cultures: a meta-
por informações acessíveis nos veículos de comunicação, tira suas próprias conclusões, do diagnóstico ao procedimento terapêutico.
Nesse contexto, que o sociólogo polonês Zigmunt Baumann descreve como de “saúde 24 horas”, em que frente às toneladas de informações – não raro contraditórias – sobre o que comer, como dormir e quais protocolos seguir para ser saudável e longevo, o indivíduo se sente responsabilizado por sua saúde. Se, por um lado, o esclarecimento do paciente é positivo e desejável, ao mesmo tempo corre-se o risco, no outro extremo, do auto-gerenciamento da saúde. Sobretudo nos casos de enfrentamento da possibilidade de morte, a demanda por terapias não convencionais é mais expressiva e a vulnerabilidade do indivíduo à ação de charlatões é igualmente maior. Cabe ao jornalismo desempenhar seu papel de cão de guarda também neste aspecto.
O FDA define como fraude em saúde a promoção deliberada de tra- tamentos falsos com o objetivo de lucro. A atividade não é nova. Pelo menos desde o século XVII, terapias sem eficácia comprovada são divulgadas por meio de cartazes ou anúncios em jornais. Dos ungüentos e garrafadas, surgem panacéias contemporâneas, que alguns autores creditam serem estimuladas pela internet.
Outra dificuldade colocada pelas fraudes são os riscos de instrumentalização dos próprios meios de comunicação, como fica evidente na corrida pela clonagem humana no início dos anos 2000. O espaço que a mídia garantiu ao episódio, em que proliferam afirmações nunca comprova- das, motivou a adesão de indivíduos aos interesses comercias das empresas e clínicas envolvidas na polêmica. Outros exemplos também podem ser citados. Recentemente, uma pesquisa canadense denunciou as falsas propagandas na internet sobre clínicas que alegam oferecer terapias inovadoras com células-tronco.11
Em meio a fraudes que apelam para a esperança de pessoas que vêem a medicina não corresponder a suas expectativas, uma das tarefas da comuni- cação de C&T é olhar mais criticamente para as formas de regulação da infor- mação em saúde na internet e redobrar a atenção quanto às responsabilida- des do jornalismo científico sobre a correção e veracidade das informações divulgadas. A tarefa não é trivial – afinal, fraudes acontecem até no meio
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11 LAU, Darren ET AL. Stem Cell Clinics Online: The Direct-to-Consumer Portrayal of
científico, burlando a complexa rede de verificações criada pelos periódicos mais qualificados. O exemplo do sul-coreano Hwang Woo-Suk tornou-se uma referência: em 2006, ele foi desmascarado por haver publicado na revista Science trabalhos científicos falsos em que alegava haver criado células-tronco a partir de um embrião humano clonado.
Com a chegada da biotecnologia ao mercado, o número de empresas que oferecem serviços de genômica pessoal aumenta no mesmo passo em que se multiplicam as questões éticas envolvidas. O serviço de uso de infor- mação do genoma para cuidados médicos personalizados é ofertado na internet, num sistema em que a amostra de saliva utilizada nos testes é envi- ada por correio e o pagamento é feito com cartão de crédito. Os custos vari- am de cerca de mil dólares – para um serviço que utiliza a análise de SNPs (polimorfismos de nucleotídeos únicos), o que promete verificar cerca de 30 condições (de calvície a risco de Alzheimer) – a até US$ 350 mil, para uma transcrição do genoma. Mesmo que não seja uma situação de fraude, o caso exige reflexão: o acesso sem intermediação médica a um relatório de riscos, que pode incluir o desenvolvimento de doenças graves e com poucos recur- sos terapêuticos disponíveis, acrescenta mais um desafio ao contexto de auto- determinação em saúde. Na mesma linha, empresas oferecem serviços de genealogia por DNA, com custos que variam entre US$100 e US$900 para a busca pela origem de ancestrais.
Se as influências entre a mídia e o posicionamento social sobre a ciência ainda não estão delimitadas, o impacto das informações veiculadas na mídia sobre a saúde individual são suficientemente claras para justificar muita cau- tela, especialmente na biotecnologia.