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No início dos anos 2000, uma das principais polêmicas na divulgação da biotecnologia envolveu anúncios sobre clonagem. Em novembro de 2001, a empresa Advanced Cell Technology (ACT), com sede em Massachusetts, nos Estados Unidos, anunciou a primeira clonagem de células de embrião humano.2
Foram usadas as técnicas de transferência nuclear (o DNA de uma célula é inserido em um óvulo sem núcleo) e de partenogênese (o óvulo é estimu- lado para dividir-se como um embrião, porém sem necessidade de fecun- dação). O melhor resultado obtido foi um embrião com seis células, que morreu em seguida. Segundo a empresa, a intenção não era criar um ser humano clonado, mas utilizar o embrião para extrair células-tronco, a fim de tratar doenças.
Nos Estados Unidos, a divulgação da clonagem de células humanas, publicada no Journal of Regenerative Medicine, suscitou reações por parte da Casa Branca. No Brasil, o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, manifestou-se contrário ao fato através de porta-voz, enquanto o Ministério de Ciência e Tecnologia emitiu nota técnica afirmando que a clonagem humana para fins reprodutivos era proibida no Brasil. À época, a legislação em vigor (a chamada Lei de Biossegurança - Lei 8.974/95) conde- nava a intervenção de qualquer material genético humano in vivo, exceto para o tratamento de defeitos genéticos.
Teve início uma verdadeira competição pela clonagem humana, recheada de especulações. O termo em inglês race (corrida) foi amplamente empregado na mídia internacional para descrever o momento. Algumas figuras centrais embalaram a polêmica, como o italiano Severino Antinori e o cipriota Panayiotis Zavos, especialistas em reprodução humana. Antinori e Zavos anunciaram publicamente em janeiro de 2001 a intenção de realizar clonagem de embriões humanos para aplicação em reprodução assistida. Em 2002, Antinori afirmou que havia implantado embriões clonados em mulheres e que uma delas estaria
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2 O press release divulgado em 25/11/01 pela ACT está disponível no site da empresa
em <http://www.advancedcell.com/press-release/advanced-cell-technology-inc-act- today-announced-publication-of-its-research-on-human-somatic-cell-nuclear-transfer- and-parthenogenesis>.
grávida de oito semanas3. No entanto, os supostos bebês nunca vieram a
público. Em 2003, Zavos afirmou ter obtido clones de embriões humanos de quatro dias, com 8 a 10 células, submetidos a congelamento. Imagens de um suposto embrião foram divulgadas no artigo publicado na revista Reproductive BioMedicine.4 Zavos alegou que fora utilizada a técnica de transferência de nú-
cleo de célula somática, a partir do óvulo de uma mulher que pretendia engravidar por meio do procedimento. Anos mais tarde, Zavos afirmaria que um dos embriões chegou a ser implantado em uma mulher, mas não teria originado gestação.
A Clonaid e os Raelinos foram outras figuras centrais na corrida pela clonagem humana, num tempero que mistura religião e ciência. A empresa Clonaid foi fun- dada pelo francês Claude Vorilhon, que mudou seu nome para Rael. Ele lidera os raelianos, um grupo religioso que acredita, entre outras coisas, que os seres huma- nos foram criados por extraterrestres através de técnicas de engenharia genética. O website oficial do movimento afirma que existem mais de 60 mil seguidores em 84 países.5 A Clonaid anunciou o nascimento do primeiro clone humano em de-
zembro de 2002, uma menina chamada Eve, que nunca veio a público. A empresa chegou a anunciar a abertura de um laboratório de clonagem humana no Brasil no ano seguinte – a presidente da empresa, a bioquímica francesa Brigitte Boisellier, veio pessoalmente ao país para divulgar a notícia em coletiva de imprensa. Também foi amplamente noticiada a seleção de casais para experiência de clonagem hu- mana, aberta para inscrições de casais brasileiros. Na época, a empresa cobrava US$ 200 mil pelo serviço de clonagem.6
O início dos anos 2000 foi de fato movimentado para o noticiário sobre biotecnologia. Além de toda a controversa disputa envolvendo a clonagem de células humanas, uma série de fatos de destaque foi divulgada.
Em 2000, o coelho fluorescente do artista plástico brasileiro Eduardo Kac, pioneiro da bioarte que vive em Chicago, nos Estados Unidos, gerou polêmica
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3 A reportagem em que Antinori divulgou o feito foi publicada pela revista New
Scientist em 05/04/02 e pode ser acessada em <http://www.newscientist.com/article/ dn2133-cloning-pregnancy-claim-prompts-outrage.html>.
4 A imagem do suposto embrião humano clonado pode ser vista no artigo publi-
cado por Zavos em <http://www.rbmonline.com/4DCGI/Article/ Article?38%091%09=%20924%09>. É necessário fazer registro no site.
5 Informações no site oficial do movimento raelino, disponível em cerca de 40
idiomas, inclusive português: < http://www.rael.org>.
6 A Clonaid oferece seus serviços de clonagem humana ainda hoje na internet, em
internacional. Segundo Kac, a obra intitulada GFP Bunny incluía não apenas a criação de uma coelha com Green Fluorescent Protein (Proteína Fluorescente Verde, ou GFP), mas compreendia também o diálogo público gerado pelo projeto. Em 2001, a criação de um porco com focinho e cascos amarelos por pesquisadores norte-americanos ganhou espaço na mídia. Desde então, uma onda de animais geneticamente modificados com marcadores de cores vem sendo noticiada. Em 2008, o Nobel de Química foi dedicado à descoberta e ao desenvolvimento de proteínas fluorescentes coloridas, que, aplicadas à biotecnologia, constituem importantes marcadores para verificação do sucesso na inserção de genes.
Alba, a GFP Rabbit de Eduardo Kac (foto: Chrystelle Fontaine), e o porco geneticamente modificado, com patas e focinho amarelo (foto: Jim Curley / MU Extension and Agricultural Information)
O seqüenciamento do genoma humano, em 2001, teve ampla repercussão no noticiário. A divulgação de diversas pesquisas que associavam genes a doen- ças ou comportamentos também ganhou espaço. Uma onda de notícias sobre biotecnologia surgiu com a divulgação do seqüenciamento por pesquisadores brasileiros do genoma da bactéria Xylella fastidiosa – causadora de uma praga agrícola conhecida como amarelinho. O estudo ganhou a capa da prestigiada revista Nature, estampada pela primeira vez por uma pesquisa brasileira. Em 2002, o alvo das atenções foi a nova Lei de Bioterrorismo, estabelecida pelos Estados Unidos como desdobramento dos atentados de 11 de setembro de 2001.7
A clonagem de animais voltou à pauta com a morte da ovelha Dolly, em 2003. Pesquisas que demonstravam as frustrações na clonagem de animais, como chimpanzés, também ganharam presença no noticiário. Em janeiro de 2005,
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7 Informações no site do Food and Drugs Administration, do governo norte-america-
foi anunciado o primeiro animal doméstico clonado para fins comerciais, pro- duzido nos Estados Unidos. As imagens do animal, clonado a partir do DNA do gato de uma mulher texana que havia morrido, foram amplamente divulgadas na mídia. O serviço teria custado US$ 50 mil.
A presença da biotecnologia na mídia durante os anos 2000 também é marcada pela divulgação dos avanços em células-tronco – as mais recentes vedetes da comunicação de C&T, que invadem o noticiário nos últimos anos com um boom de informações. As células-tronco embrionárias foram o foco inicial das notícias, que acompanharam a divulgação do primeiro trabalho com células-tronco de pluripotência induzida (iPS) de camundongo, em 2006, realizada pela Universidade de Kyoto, no Japão, e os primeiros resultados com células humanas, obtidos em 2007.
O julgamento do Supremo Tribunal Federal que decidiu sobre o uso de embriões humanos nas pesquisas com células-tronco em maio de 2008 teve cobertura ao vivo em emissoras de TV e ampla repercussão nos veículos da mídia impressa, nos sites de notícias e nas rádios brasileiras num curto espaço de tempo. Em outubro, foi divulgada a obtenção da primeira linhagem de células-tronco embrionárias humanas no país, por pesquisadores da Universidade de São Paulo.
A autorização pelo STF do uso de células-tronco embrionárias em pesquisas científicas ocupou a capa de alguns dos jornais de maior circulação no país e ganhou cobertura ao vivo em emissoras de TV
O episódio chama atenção para dois aspectos da relação entre mídia e biotecnologia. Em primeiro lugar, é uma demonstração do papel de ‘cão de guarda’ assumido pela mídia: a atuação no acompanhamento de fatos deci- sivos para a sociedade – o que abre o risco para o denuncismo inconseqüen- te, mas também possibilita o acesso do público a informações com evidentes impactos sociais. Outro ponto de interesse é o fato de que a biotecnologia gera a necessidade do estabelecimento de regras que acompanhem o ritmo acelerado de suas descobertas e das questões sociais que elas colocam. Muitas vezes, a mídia é uma arena pública de embate entre os diferentes posicionamentos sobre o assunto. Um dos exemplos mais emblemáticos é o do ator Christopher Reeve, vítima de um acidente que o deixou tetraplégico, que foi um ícone na batalha para liberação das pesquisas com células-tronco nos Estados Unidos até sua morte, em 2004.
Neste sentido, fica evidente que a mídia acompanha não apenas os avan- ços científicos associados à biotecnologia, mas também noticia as mudanças no âmbito da legislação pertinente ao tema. Assim, as chamadas Leis de Biossegurança – a Lei 8.974/95 e, posteriormente, a Lei 11.105/05 – foram foco de atenção da mídia. As questões jurídicas associadas aos alimentos geneticamente modificados também foram alvo de interesse. A atenção dis- pensada para a lei de rotulagem (Lei 4.680/03), a aprovação de produtos para plantio e mesmo a composição e a pauta de reuniões da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) demonstra que muitas vezes o noticiário acompanhou episódios legais e burocráticos envolvendo o tema.