2.1 Climate gases with natural and anthropogenic sources
2.1.4 Volatile organic compounds (VOC)
Da pesquisa realizada em revistas especializadas na temática do ensino superior, observa-se a existência de alguns artigos que incidem na questão da identidade; contudo, eles são construídos sobretudo na perspectiva dos actores sociais que integram o ensino superior: alunos, docentes, profissionais. Não parece, portanto, ser tarefa fácil esta de mobilizar o conceito de identidade para o espaço do ensino superior.
Por isso, o desafio a partir deste momento é tomar este conceito e aplicá-lo, não a um sujeito-indivíduo, mas a um sujeito-não-indivíduo. As acções desenvolvidas pelos indivíduos dentro de uma organização, na comparação entre diversas organizações, podem ser personificadas e tomadas como acções da organização. Os indivíduos que nelas se envolvem vão mudando, vão-se sucedendo, e a organização permanece. Pode, nesse sentido, ser constituída como objecto de análise sociológica e entendida como sujeito.
Em estudo já referido anteriormente, Bathmaker et al mobilizam a questão da identidade para a análise do ensino pós-secundário no Reino Unido. Concluem que, em alguns casos, a relação entre as instâncias de poder e as concepções de identidade no ensino superior foi construída de forma complexa: por exemplo, os colleges de ensino adicional continuaram a construir a sua identidade como educação adicional, em vez de se conceberem como prestadores de ensino superior. Tal acabou por perpetuar o sentimento de pertença a uma cultura de formação adicional. «Como a prestação de ensino superior expandiu e assumiu um papel mais significativo tanto em pensamento como em financiamento dos colleges, o elo a um claro sentido de identidade sobre “quem somos” começou a perder-se» (2007: 9).
É com António Magalhães que, de forma mais sustentada, se vêem conjugados os conceitos de identidade e de ensino superior. Na sua análise sobre diversas realidades de formação superior, observa que «a educação superior parece estar a assumir simultaneamente múltiplos e diversos selves: ensino universitário, ensino terciário, ensino pós-secundário, educação politécnica/vocacionalizante, educação
fundada na investigação» (2006: 15), sendo que «estes diferentes tipos de identidade ocasionam, por sua vez, tipos institucionais ‘confusos’: Instituts Universitaires de Technologie (França), Fachhochschulen (Alemanha), universidades resultantes da transformação dos politécnicos (Inglaterra), as resultantes da incorporação dos cursos de Enfermagem e de Formação de Professores nas universidades da Suécia, ou, em Portugal, as Universidades Politécnicas recentemente propostas» (2006: 15). É o Estado-Nação quem de certa forma retrai um pouco a construção de uma identidade do ensino superior ainda mais “esquizóide”, consequência da modernidade complexa que a sociedade vivencia. Contudo, incorre-se no perigo de fragilizar ou pôr em causa a identidade ao se perder o controle sobre a sua função reguladora e deixando-a na mão de outros, tais como o mercado e «dispositivos do tipo dos do mercado na coordenação dos sistemas educativos» (2004: 29), como o sugere Magalhães.
A crise de identidade que Magalhães identifica é decorrente de uma alteração que vem pôr em causa a ligação entre a estrutura e a cultura, conforme era apresentada anteriormente: «o presente dilema do ensino superior no que diz respeito à sua identidade reside precisamente no facto de a massificação do ensino superior ter iniciado um divórcio entre a sua narrativa fundacional e a sua existência nos actuais contextos» (2004: 82). Pressões de ordem económica, política e financeira fizeram com que as orientações das instituições de ensino superior e do próprio ensino superior no seu todo passassem a ser outras, diferentes e diversificadas, e mais adaptadas às necessidades do mercado.
O paradigma da modernidade, que se aborda anteriormente com Giddens, também interfere na definição da identidade do ensino superior, segundo o autor: «os dilemas actuais são novos e jamais existentes: devido ao aumento da procura de ensino (pela coorte de idade tradicional e por estudantes mais velhos), e devido à proliferação das expectativas sociais e das pressões económicas e políticas» (Magalhães, 2006: 15) a ponto de o ensino superior se confrontar com uma crise de identidade.
Dada a diversidade de objectivos e de formas que se podem encontrar nas instituições de ensino superior, alguns autores, como o refere Magalhães (2004: 196) apontam antes para uma crise de adaptação do que para uma crise de identidade
institucional do ensino superior. Contudo, os discursos e as políticas definidoras do ensino superior justificam o enfoque na identidade e não tanto na adaptação.
Na reflexão em torno da (crise de) identidade do ensino superior, Magalhães chama a atenção para o facto de haver diversos discursos em torno das universidades, pela pluralidade de campos de acção em que as mesmas estão envolvidas – o tecnológico, o profissional e o humanístico são alguns deles. Apesar dessa diversidade, se havia consenso antigamente em torno da identidade do ensino superior, «hoje esse consenso está a fragmentar-se, num processo que induz não só uma pluralização de discursos incomensuráveis sobre e dentro do ensino superior, mas também, e em que, ao mesmo tempo, um discurso específico assume uma posição central, agregando sentidos em torno de uma nova identidade do ensino superior: a narrativa empreendedora/empresarialista e da narrativa do mercado» (2006: 27). O novo paradigma do ensino superior é, no entender do autor, causa e sintoma da sua crise de identidade.
Nesse sentido, António Magalhães afirma que «o ensino superior está a mudar a sua natureza através do estreitamento das suas relações com a sociedade» (2006: 33). Decorrente disso, concorda-se que a identidade do ensino superior deve ser olhada atendendo ao contexto político, social e económico em que decorre a mudança. No entanto, antes de ser dado esse passo, importa saber, dentro do cenário do ensino superior e que mormente é olhado apenas na vertente universitária, como se constitui o outro lado da identidade do ensino superior – o politécnico.
As diferentes realidades que progressivamente se vão fazendo sentir no ensino superior serão elas próprias impulsionadoras de identidades diversas. Assim sendo, como fica definida a identidade do ensino superior, descaracterizado perante o que era antigamente? A crise do paradigma sociocultural da modernidade é de tal forma intensa e extensa que cresce também o “dilema esquizóide” do ensino superior (Magalhães, 2004).
A leitura de António Magalhães incide justamente sobre esse dilema: «o foco na pluralização do ensino superior em educação pós-secundária, terciária, universitária, politécnica, etc., torna mais aguda a necessidade de encontrar um minimum que lhe possa fornecer os componentes que façam dele, de facto, educação
superior» (2006: 33). A resolução desse impasse passa por quatro ideias-chave que o autor enumera: 1) a procura de conhecimento (ou de aplicação do conhecimento), por parte de professores e estudantes, e a acção educativa provocada por essa procura deverão ter uma forte ligação entre si; 2) a heterogeneidade do ensino superior é sinónimo de sensibilidade à diversidade e à conjugação de actividades de ensino, investigação e aplicação de conhecimentos, sendo que a sua identidade deve ser construída a partir do que distingue as IES de outros tipos de organizações (empresas, por exemplo); 3) tomar a transdisciplinaridade como um ponto fundamental para a produção e desenvolvimento de conhecimentos, mais ainda quando é cada vez maior a confluência de saberes e mais ténues os limites entre algumas áreas de conhecimento (não pondo contudo em causa as mais tradicionais ou clássicas); 4) a educação superior desempenha um papel chave no momento actual, pautado pela grande produção e difusão de conhecimento e que fomenta a reflexividade (segundo Giddens), devendo constituir-se como um estímulo à própria consciência social. Esta é, pelo menos, a interpretação que se faz das indicações dadas pelo autor.
Aproveitando o exemplo de Azevedo, pode-se de certa forma fazer a analogia entre o processo de socialização do indivíduo (e o seu papel na construção da sua individualização e, portanto, identidade) e o processo de construção social da identidade dos dois subsistemas de ensino superior (ou de um, em concreto). Azevedo diz: «se a criança cresce acreditando que é única ou especial, em adulto tenderá a pensar sobre si da mesma forma. Assim, não só a relação passa a ser mais individualizada como, também, fomenta mais individualismo» (Azevedo, 1992: 114). Ora, não será de certa forma um processo semelhante, este da socialização em ambiente de exclusividade, aquele que sucedeu ao subsistema universitário, qual filho único que, anos depois desse estatuto estar enraizado, vê surgir um “irmão”, fora das suas mais longínquas expectativas?
Para se conseguir mobilizar com sucesso este conceito para o campo do ensino superior, concordante com a proposta deste trabalho, pensa-se ser importante primeiro precisar o identificador que se constitui aqui como objecto de análise. Frequentemente se chama instituição a um estabelecimento de ensino. Por outro lado,
o conceito de estabelecimento remete para a ideia de edificação, em termos físicos, quando o que interessa para esta reflexão é o que representam em termos simbólicos e culturais. Por essas razões, propõe-se o seguinte e derradeiro ponto deste capítulo dedicado à definição do suporte teórico deste trabalho.