2.2 Greenhouse gases with solely anthropogenic sources
2.2.3 Hydrofluorocarbons (HFCs) at Zeppelin Observatory
O discurso de Foucault, ao descrever a construção histórica do corpo, teve impacto na corrente feminista que defende que a forma como os indivíduos são socializados, através de papéis masculinos e femininos, tem um efeito determinante na sua saúde e doença. Sendo múltiplas as áreas sobre as quais incide a crítica das feministas face à
6 Numa tradução livre significa “vigilância”. Expressão com origem na Idade Média referente a uma modelo arquitectónico de controlo institucional em que as pessoas estão distribuídas no espaço de tal forma que quem detém o poder pode observar, quase em simultâneo, todos aqueles que o não detêm e se encontram encerrados nesse espaço.
instrumentalização do corpo da mulher pela classe médica, segundo ideologias patriarcais, apresentamos de seguida, a título de exemplo, a sua perspectiva crítica no que respeita aos discursos sobre a gravidez:
«Podemos, seguidamente, ler os três aspectos-chave do nosso “pensamento mágico”, culturalmente determinado, sobre a reprodução: (1) é retirada a uma mulher grávida a propriedade do seu próprio corpo como se de uma maneira primitiva fosse reafirmada a sua disposição funcional em prol da espécie – ela deixa de ser uma pessoa definida através dos direitos de privacidade e torna-se um espectáculo biológico. Em muitos dos casos torna-se também num espectáculo erotizado, o emblema visual da mulher sexual; (2) a entidade que cresce nela, vinda dela, através dela (referida de várias formas como um pré-embrião, embrião, feto, bebé ou criança), tem uma espécie de direito ascendente (de produzir dor, de ser alimentado adequadamente, de nascer) que o corpo materno deve proporcionar; (3) que a situação de estar grávida é, para uma mulher, tão “maravilhosa” – ou numa outra perspectiva, excitante, plena, enchendo a alma de satisfação – que ela deve aguentar qualquer desconforto, humilhação ou dificuldade para experienciar este “acontecimento abençoado”. Esta passagem demonstra quão facilmente o corpo da mulher é “desconstruído” nas suas partes e peças culturalmente significativas: eis como o útero serve como metonímia do corpo de toda a família. Não só esta fragmentação reduz culturalmente a mulher a um corpo grávido objectificado, como também apoia como natural a manipulação científica da fertilização, implantação e gravidez.» (Balsamo, 1996: 89).
Nesse sentido, ao trabalhar para a conformidade das mulheres a papéis especialmente para elas traçados, a Medicina desempenha um papel muito importante para a reprodução da sociedade patriarcal. «Não é por acaso, argumentam as feministas, que quase toda a atenção médica dedicada às mulheres tem a ver com os órgãos reprodutivos e o seu ciclo de vida relacionado com a sua capacidade para terem filhos. (...) As marxistas-feministas afirmam que as origens do capitalismo, do patriarcado e da medicina se encontram entrelaçadas.» (White, 2003: 10).
1.5 O incessante movimento do olhar sociológico: a sociologia da saúde
Segundo White, entre os anos 70 e 80 começou a desenvolver-se entre os sociólogos uma nova perspectiva de relacionamento com a medicina passando a interessarem-se por desenvolver trabalhos na área da saúde e do mal-estar. Desse modo, os investigadores nos seus trabalhos deslocaram o seu enfoque para as relações entre as condições sociais quer como causas, quer como facilitadoras da doença, evidenciando que, apesar de poder haver causas biológicas para os problemas de saúde, provocados, inclusivamente, por agentes externos aos indivíduos (bactérias, vírus, etc.), são as
características sociais dos indivíduos que desempenham um papel predominante na determinação do seu estado de doença ou bem-estar. Com o desabrochar desta nova preocupação da sociologia, aparece uma nova designação para este ramo da sociologia: que nos países anglo-saxónicos designam por sociologia da saúde e do mal-estar, mas que em Portugal apelidamos somente como Sociologia da saúde.
Vemos, assim, que no incessante desenvolvimento da Sociologia como ciência, diversos têm sido os paradigmas por ela apresentados na tentativa de compreensão da acção social. Nesse processo, e mais recentemente, foi-se reconhecendo que as antinomias clássicas constitutivas da Sociologia (como o individual/colectivo, subjectivo/objectivo, material/ideal, macro/micro), têm hoje um papel pouco explicativo da acção social. Assim, um conjunto de sociólogos franceses, ultrapassando essas barreiras de análise, repescaram autores, voltaram a discutir-lhes os modelos e as teorias, abrindo assim, novos terrenos de investigação. «É a esta galáxia de esforços – diferentes em muitos sentidos, mas que põem igualmente uma série de problemas semelhantes – e, sobretudo aos seus universos conceptuais de referência, que nós chamámos as novas sociologias.» (Corcuff, 1995: 7). E essa é, como diz Giddens, uma das características da modernidade: «… não é uma adopção do novo, só por ser novo, mas a presunção da reflexividade generalizada – que inclui, evidentemente, a reflexão sobre a natureza da própria reflexão.» (Giddens, 1992: 30).
O desafio que ora nos propomos é o de tentarmos analisar a acção decorrente da inter-relação dos actores no mundo da saúde e da doença, saindo, como acima referimos, das perspectivas sociológicas apresentadas anteriormente e tentando, antes, seguir uma observação e grelha de análise no espaço da Sociologia pragmática dos
regimes de acção que dá primazia às tomadas de posição dos actores em situação – às
suas formulações críticas, tendo em conta o lugar onde estas são concebidas e traduzidas.
1.5.1 A construção social da doença
Em todas as situações do quotidiano, principalmente nas interacções de face a face, o corpo desempenha um papel fundamental na forma como nos relacionamos com os outros, com a realidade social em que nos inserimos. Por esse motivo, e uma vez que as condições relacionadas com o ser ou o parecer não são inerentes ao indivíduo, mas são antes socialmente produzidas no contexto das interacções sociais, é-nos fácil
compreender, também, que a noção de corpo saudável ou corpo doente remetem igualmente para uma formatação social.
Turner diz que «a doença é algo que nós fazemos, mais do que simplesmente aquilo que temos. Estar doente envolve interpretações, escolhas e acção» (1996: 205). Desse modo, por exemplo, quando categorizamos certos indivíduos como “gordos”, não estamos somente a rotular o aspecto ou estado desses indivíduos, mas estamos a definir quem eles são com referência àqueles que “não o são”. Por outro lado, hoje em dia, e de acordo com as indicações veiculadas por entidades com responsabilidade na saúde pública, quando se apelida alguém de «gordo» está-se implicitamente a dizer que não é uma pessoa saudável. No entanto, já houve épocas em que ter-se peso a mais era considerado um atributo de beleza. Basta recordarmos os quadros renascentistas e observar as curvas bem redondas e recheadas das mulheres neles retratadas.
Há décadas que os sociólogos e outros cientistas sociais têm vindo a demonstrar que a doença, a saúde e a morte não são somente ocorrências orgânicas, naturais e objectivas, mas que estão intimamente relacionadas com as características de cada sociedade, de cada época, revelando que a doença é uma realidade construída: «o que dantes era tratado como categorias “naturais” – doença e corpo – são agora inseridos no olhar da Sociologia da saúde e da doença. Essencialmente, os sociólogos argumentaram que essas categorias “naturais” são produto de actividades sociais e que não reflectem simplesmente realidades biológicas invariantes.» (Nettleton, 1995: 15).
São inúmeros os exemplos que ao longo dos tempos se têm utilizado para apontar a construção social de muitas das doenças das comunidades humanas. É uma evidência que já não escapa ao próprio conhecimento do senso comum. As campanhas que nas escolas, nos espaços hospitalares ou centros de saúde, ou mesmo nos espaços públicos abertos, são dirigidas à população, advertem os indivíduos para práticas que, a serem seguidas, podem prejudicar fortemente a sua saúde. Desde o consumo das substâncias tóxicas ilegais ou legais (tabaco, álcool e café7), passando pela ingestão de comida pouco saudável como a fast (fat) food, ao uso compulsivo do automóvel em prejuízo do exercício físico, só para assinalar alguns exemplos, alertam-se as populações para comportamentos que, a serem continuados, põem em risco a sua saúde e, consequentemente, o encurtamento do período de tempo de esperança da sua vida. Por
7 Não fazendo ainda oficialmente parte das substâncias tóxicas legais, há contudo uma corrente que se propõe incluir o café no conjunto destas substâncias.
exemplo, a Organização Mundial de Saúde diz: «Conhecemos suficientemente bem as causas do cancro para que possam ser prevenidos, pelo menos, um terço de todos os cancros (...) deixando de fumar, comendo comida saudável e evitando a exposição a agentes carcinogéneos.» (WHO, 1996).
Um outro exemplo nos chega de Fitzpatrick, quando nos apresenta a correlação entre a variação das taxas anuais de mortalidade nos EUA e os níveis de desemprego. Segundo este autor, e baseando-se em estudos levados a efeito por outros investigadores, essa correlação explica-se, em primeiro lugar, porque o desemprego reduz os rendimentos das famílias e, por consequência, o nível de vida material; em segundo lugar, porque o desemprego provoca nos indivíduos a perca de significado e sentido encontrado com o trabalho, dando lugar ao medo face ao futuro e à tensão no ambiente familiar. Estes dois factores têm como resultado uma maior vulnerabilidade face à morbilidade. A partir dos dados recolhidos nos EUA, e em resultados semelhantes encontrados a partir da análise de dados recolhidos no Reino Unido, país de Gales e Suécia, o aumento de desemprego de 1% ao manter-se durante cinco anos, foi estatisticamente responsável por cerca de 37000 mortes extra (Fitzpatrick, 2004: 12).
1.5.2 Doença real ou ideal, objectiva ou subjectiva
A língua inglesa tem três palavras a partir das quais se pode entender a complexidade do que é estar doente. Por um lado, tem uma expressão que refere a dimensão biológica da doença, disease, sem que por vezes o indivíduo que a «sofre» se sinta doente; por outro lado, uma palavra que refere a dimensão subjectiva da situação, sickness, isto é, o mal- estar sentido por alguém que está ou pensa estar doente, sem que por vezes o esteja, pelo menos biologicamente8; por outro lado ainda, existe a expressão illness que, havendo quem a tome como sinónimo de sickness, segundo a opinião de Turner (1996: 2), tem mais a ver com a perspectiva da doença na jurisdição da psiquiatria. A partir desta diferenciação entre disease/illness/sickness, estabelece-se a relação entre a doença física, real, objectiva; a doença, física ou não, mas do foro mental, e o ideal, imaginário, as representações sobre o estado de doença.
8 Quantas vezes, através de um simples check up de rotina não é detectada uma situação grave de doença, sem que o indivíduo fizesse qualquer ideia de que a tivesse, sendo, por outro lado, conhecidos casos de hipocondria em que os indivíduos imaginam que têm determinada doença sem que se lhe seja encontrada sintomatologia. Poderão ter outra, eventualmente uma mais grave, mas aquela que pensam ter, não lhes é detectada.
De uma maneira geral, nas sociedades ocidentais, há determinadas doenças sobre as quais pesam representações muito negativas e essas representações são reveladoras da ansiedade e medo dos indivíduos poderem a vir ser atingidos por essa situação de doença. Aliás, os eufemismos utilizados tanto pelos profissionais de saúde, como pelos
mass media quando se reportam, por exemplo, a uma situação de cancro (utilizando
normalmente a expressão “doença prolongada”), evidenciam quase sempre o estigma ligado a essa patologia.
As representações não são sistemas fechados que determinam as práticas, uma vez que conformam um conjunto aberto e heterogéneo que é continuamente refeito, ampliado, deslocado e problematizado durante as interacções entre indivíduo e indivíduo e indivíduos e meio (Moscovici, 1992). Tendo, pois, as representações uma base contextual e cultural, aquilo que provoca o mal-estar a um indivíduo numa determinada comunidade, pode não o provocar a outro indivíduo numa outra ou na mesma latitude, uma vez que «diferentes culturas coexistem e as diferenças culturais podem ser significativas na determinação da forma como os indivíduos interpretam e respondem aos seus sintomas.» (Harding; Taylor, 2002: 527). Daí que seja importante que, para o conhecimento do estado de saúde de uma determinada população, se tenha que lhe conhecer as representações, as crenças, as atitudes, as formas como experienciam e interpretam os sintomas.
Através de um estudo feito por Zola sobre a relação entre a cultura e os sintomas, podemos reforçar a ideia de que a sociedade objectiva é, em simultâneo, uma realidade subjectiva, quer dizer, interiorizada através da socialização:
«Não há dúvida de que, em parte por essa razão [questões culturais], é que muitos dos programas de saúde falham quando transpostos in toto para uma cultura estrangeira. Nessas condições, quando uma autoridade exterior chega e rotula uma condição de doença particularmente elevada e, como tal, como anormal e evitável, ela postula um padrão de avaliação exterior que, na sua maioria, é incompreensível para a cultura que o recebe. Para eles, simplesmente, não existe qualquer realidade cognitiva (...) Em tais circunstâncias não é somente o sinal por si ou a sua frequência que é significativo, mas o contexto social em que ele ocorre e em que ele é percepcionado e compreendido.» (Zola, 1977: 26).
1.5.3 Colectivo/Individual ou Indivíduo e Sociedade
«A sociedade é [...] encarada como o tecido plástico e em modificação das múltiplas dependências recíprocas que ligam os indivíduos uns aos outros» (Corcuff, 1995: 25). Assim, estima-se que o indivíduo não é uma entidade exterior à sociedade, nem a
sociedade uma entidade exterior aos indivíduos e, portanto, a sociedade não é encarada como a simples agregação das unidades individuais nem como um conjunto independente das suas acções.
Por outro lado, as sociedades diferem entre si. «Cada cultura oferece aos seus membros um padrão ideal de atitudes e de reacções que pode diferir entre as várias subculturas numa dada sociedade e é pressuposto que cada indivíduo aja em conformidade com esse padrão ideal» (Zborowski, 1960: 130), desempenhando o corpo um papel fundamental na forma como nos relacionamos com o outro, com a sociedade em que nos inserimos.
No estudo acima referido, e teorizando sobre a inter-relação da cultura com os sintomas, Zola rebate a ideia de que «um sintoma ou sinal de doença é nitidamente objectivo e reconhecível e que ele invoca níveis similares de atenção e reacção» (1997: 42). Pelo contrário, analisando a resposta a questionários sobre a dor, este autor chega à conclusão de que:
«O que emerge [… do estudo] é uma imagem dos irlandeses a limitarem e compreenderem as suas dificuldades e os italianos a alargarem e generalizarem as suas»; «enquanto a forma de ver dos italianos se expressa através destas festas, para os irlandeses ela exprime-se por factos. A sua vida tem sido descrita como tendo longos períodos de rotina de trabalho seguidos de episódios de loucas aventuras, de prolongados adiamentos de gratificação, de sexo e casamento, intercalados com breves e imediatos prazeres, como lutas e bebedeiras.»; «para os italianos, o grande número dos sintomas e a forma alargada das queixas (...) podem ser entendidos em termos da sua expressividade e expansividade, muitas vezes observada em escritos sociológicos, históricos e ficcionais. [...] Há algo mais do que real no seu comportamento, uma ‘ênfase dramática bem condimentada face às suas vidas’.»; «O comportamento dos irlandeses e dos italianos foi explicado em termos de dois dos mais gerais mecanismos de defesa das suas respectivas culturas – com os irlandeses a lidarem com os seus problemas negando-os e os italianos dramatizando-os (os anglo-saxões completavam o círculo colocando a ênfase na neutralização da sua ansiedade).» (Ibidem: 34, 38, 39, 40).
Alguns outros estudos evidenciaram igualmente que os tradicionais factores sócio-demográficos que, face a determinadas situações, influenciam a diferença de comportamento dos indivíduos, também interferem na sua forma de expressar o seu mal-estar enquanto pacientes. Estudos sobre a influência do género, idade, nível de instrução, etnia e mesmo a nacionalidade, ou a disposição geográfica, e por isso
climática, dos países, têm mostrado que estes factores determinam idiossincrasias também no mundo da saúde (Zborowski, 1960; Zola, 1977; Adam, 2003).
Vemos, pois, que o comportamento de cada doente não é somente influenciado pelas interpretações individuais de uma resposta apropriada aos sintomas. «Os pacientes que cresceram inseridos num modelo paternalista de cuidados de saúde podem sentir-se incapazes, ou não terem vontade de assumir o papel de consumidores de serviços de saúde ou de desafiarem a autoridade de um profissional de saúde. Em vez disso, muitos preferem permanecer passivos nos seus encontros com os profissionais de saúde» (Harding; Taylor, 2002: 528), encontrando-nos, neste caso, perante a perspectiva do doente parsoniano que assume obedientemente o seu papel de doente.
No entanto, a resposta à sensação de mal-estar físico pode ser tomada segundo uma perspectiva activa, após uma procura de informações, quer essa procura seja individual (através de livros ou, como é comum actualmente, da pesquisa na Internet), quer através do aconselhamento junto de familiares, colegas, amigos, ou do médico. Aquilo a que Freidson (1984) chamou de lay referral system, isto é, a rede de familiares e amigos que apoiam o «doente» leigo.
Vemos, pois, a importância que os padrões culturais e sociais têm no comportamento de cada indivíduo de per se:
«… o papel cultural e os padrões sociais das actividades fisiológicas humanas são tão vastos que podem, em situações específicas, actuar contra as mais directas necessidades biológicas dos indivíduos, indo mesmo a ponto de pôr em perigo a sua sobrevivência. Só o ser humano pode preferir a fome a ir contra uma lei de dieta religiosa ou pode abster-se de um procedimento sexual devido a regulações específicas sobre o incesto. O jejum e o celibato voluntário só existem onde a comida e o sexo preenchem outras funções para além das estritamente fisiológicas.» (Zborowski, 1960: 118).