Tomando por base o breve questionário apresentado às professoras na primeira etapa da pesquisa, discutimos as respostas dadas às questões propostas. Ao optarmos por trabalhar com estas questões de forma individual e escrita, desejávamos levantar preliminarmente como as professoras de Biologia entendem e trabalham o conceito de evolução e suas conexões em sala de aula. Julgávamos interessante iniciar pela discussão sobre suas idéias acerca do tema evolução para provocar a discussão com as explicações teleológicas.
A análise da primeira pergunta - O que significa dizer que um animal é mais evoluído do que outro?- indica que a maioria das professoras considera existir alguma característica positiva relacionada à evolução. A partir de suas respostas, vemos que este processo é compreendido como sinônimo de “algo melhor” e não apenas como uma “novidade”, independente da sua natureza. Assim, os seres que evoluem se encontram mais capacitados a sobreviver no meio em que se encontram, seja porque são complexos seja porque têm maiores possibilidades de se adaptarem ao meio em que vivem. Tal visão se reflete, por exemplo, na fala da professora Teresa: Um animal é mais evoluído que outro quando possui uma organização mais complexa.
Outra visão presente nas respostas diz respeito ao entendimento de complexidade como adaptação individual, ou seja, a complexidade de cada indivíduo atua como uma espécie de arsenal de possibilidades evolutivas, como expressou a professora Talita: Existem adaptações que fazem com que os animais tenham ou não habilidades para viverem, por exemplo, em um local. Quanto mais complexo for o ser, mais chances ele tem de se adaptar aos novos ambientes. Palavras como: variações, adaptações e complexidade, repetidas seguidas vezes nos depoimentos, nos fizeram crer que as professoras consideram que o ser “mais evoluído” é aquele que apresenta um
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Optamos por denominar todas as professoras por nomes iniciados pela letra “t” em referência à teleologia.
maior número de estruturas, como aponta a professora Temis: É que na escala evolutiva ele [animal mais evoluído] é um animal que apresenta um nível maior de complexidade: tecidos, órgãos, sistemas e está bem adaptado. Neste sentido, podemos perceber que as professoras entendem evolução como variações que caminham em um sentido: a melhora e a complexidade; o acúmulo de variações anatômicas e fisiológicas que o indivíduo adquiriu ao longo de sua história; e a reserva de possibilidades.
Boa parte dos conceitos evolutivos expressos pelas professoras não correspondem, pelo menos sob o ponto de vista conceitual, a visão compartilhada por uma porção significativa da comunidade científica atual, porque representa uma noção progressiva e linear de evolução biológica. É provável que tal visão seja fruto da confusão entre o sentido biológico do termo “evolução” e aquele empregado em outras esferas sociais. Entretanto, se considerarmos o esforço argumentativode autores como Stephan Jay Gould em seu livro Lance de Dados, vemos o quanto o enraizamento desta noção encontra-se também no meio científico das Ciências Biológicas. Como o autor aponta que a concepção de evolução é muitas vezes tomada como progresso, mesmo entre ilustres cientistas, não pode nos surpreender que esta conotação também esteja presente na maioria das respostas das professoras.
A análise da segunda pergunta - As espécies de mamíferos são mais evoluídas do que as espécies de bactérias? - ratificou nosso entendimento acerca do posicionamento das professoras em relação à ligação entre complexidade e evolução. Na resposta dada pela professora Ticiane: Os mamíferos são mais evoluídos porque apresentam estruturas mais complexas, que permitem adaptar-se a diferentes habitats (...), podemos evidenciar claramente a relação entre complexidade e adaptação. Esta perspectiva é confirmada pela professora Teresa:
A organização dos mamíferos é mais complexa do que a das bactérias, desde a estrutura celular, em que as bactérias são procariontes, unicelulares etc. No curso da evolução, os mamíferos adquiriram um grau de complexidade maior com células eucariontes formando tecidos, sistemas com funções definidas, adaptações a vários tipos de ambientes.
Vale também destacar que algumas respostas expressam um caráter intencional na evolução como, por exemplo, na resposta apresentada pela professora Teodora: As espécies de mamíferos são mais evoluídas citologicamente, por possuírem órgãos e sistemas organizados, [e] conseguiram evoluir mais do que as bactérias (grifo nosso).
A resposta acima sugere uma intencionalidade e uma direcionalidade: uma vontade intrínseca no processo evolutivo dos mamíferos, algo que os impele a um ganho progressivo. Parece-nos que a professora fala de uma visão progressiva do processo evolutivo, na qual os seres menos complexos ocupam a base de uma suposta escada e no cume estão os organismos mais complexos, como os mamíferos. Este posicionamento assemelha-se à encontrada na grande Escala do Ser proposta pelos gregos (Souza, 1999).
A referida fala assume uma posição emblemática no contexto do trabalho por expressar o caráter teleológico implícito na resposta da professora. Vale lembrar que até então, as professoras não haviam tido qualquer tipo de contato com os aspectos mais teóricos do pensamento teleológico. Isto nos sugere que o pensamento teleológico está presente no discurso cotidiano das professoras, ainda que não tenham percepção disso. A nosso ver, a fala da professora aponta ainda para a íntima relação entre teleologia e progresso, quando indica a maior complexidade dos mamíferos como ponto mais alto desta suposta escada evolutiva. Em outras palavras, para a professora, as melhorias evolutivas seriam a forma com que se manifesta o caráter intencional ou finalista do processo evolutivo.
Na terceira pergunta - Ao longo da história da vida várias espécies de mamíferos deixaram de existir. Por quê? Explique - os dados nos mostram outros aspectos interessantes. As informações fornecidas pela primeira pergunta nos sugerem que as professoras consideravam evolução como variação e complexidade, isto é, quanto mais complexo, maiores as possibilidades de adaptação. Já a terceira pergunta requeria das professoras questionamentos mais elaborados: se seguíssemos um raciocínio de que os mamíferos seriam os mais complexos, logo, os mais evoluídos, por que muitos deles foram extintos? As professoras apontaram à ausência de certas adaptações, como sendo a principal causa de sua extinção, como relata a professora Ticiane: Porque no meio da evolução aqueles que não tinham capacidade de adaptar- se às novas condições ambientais foram deixando de existir, sendo selecionados aqueles que poderiam adaptar-se melhor e conseguiram passar sua informação genética a seus descendentes (grifo nosso). Ou ainda Temis: Eles deixaram de ter características favoráveis para viver naquele ambiente (adaptações) logo sofreram a seleção natural.
Esta última afirmação traz dados para refletirmos, em confronto com respostas anteriores. As professoras parecem ter lançado mão da relação entre complexidade,
adaptação e existência de estruturas, demonstrada nas respostas à primeira pergunta. É possível supor também que as respostas confirmam a noção de evolução como sinônimo de progresso com que operam. Quando a professora Temis afirma: Eles deixaram de ter características favoráveis para viver naquele ambiente, pode estar sugerindo que certos mamíferos deixaram de acumular novidades evolutivas, ou que deixaram de ganhar complexidade. Isto significa, em outras palavras, que alguns mamíferos estacionaram na chamada corrida evolutiva e, por conta disto, foram extintos.
Outro ponto que gostaríamos de destacar é o caráter intencional que aparece na resposta da professora Tércia: Porque não conseguiram se adaptar a determinadas mudanças ocorridas no ambiente com o decorrer do tempo. Quando Tércia diz: “Porque não conseguiram se adaptar...” pode estar, de certa forma, reforçando a idéia de que há certo controle exercido pelos próprios seres sobre o processo de evolução das espécies. A nosso ver, estas palavras podem facilmente ser substituídas pelas seguintes: porque não obtiveram as modificações necessárias. Desta forma, fica mais aparente a intenção de mudança por parte dos mamíferos, ou seja, um projeto foi desenvolvido e o objetivo não foi alcançado.
Por fim, os dados da quarta pergunta - Dentre os seres vivos, os órgãos e sistemas humanos são aqueles que atingiram o mais alto grau de organização. Você concorda? Explique - ratificam a visão de evolução como progresso. Se os mais complexos são também os mais evoluídos, e os mamíferos ocupam o posto de mais complexos, nós seres humanos e mamíferos, somos aqueles que detêm os sistemas mais avançados, ou seja, somos a última versão em termos de modernidade e eficiência na escala evolutiva. A resposta de Temis, representa bem a noção de evolução como progresso, considerando especialmente os seres humanos:
Concordo, porque somos seres muito organizados, nosso cérebro é bastante desenvolvido, apresentamos sentidos desenvolvidos como a visão, tato, olfato, audição, nosso corpo é uma “máquina” que funciona muito bem, com todos os sistemas trabalhando em conjunto.
Assim, a professora Teresa leva em consideração os mamíferos como um todo:
(...) Ao nível de órgãos e sistemas, diria que os mamíferos possuem órgãos e sistemas que atingiram o mais alto grau de organização.
Em resumo, podemos organizar o entendimento das professoras sobre evolução em dois grupos: evolução como sinônimo de complexidade e evolução como
conseqüência de progresso. Cabe destacar que a noção de evolução que trabalham em ambos os grupos não a tomou a partir do conceito de população.
Embora ambos tenham pontos comuns, podemos dizer que quando as professoras entendem evolução como sinônimo de complexidade, o processo evolutivo é visto de forma linear. São considerados organismos mais evoluídos aqueles que, ao longo do tempo, acumularam um grande número de modificações anatômicas e fisiológicas. Para as professoras, são mais evoluídos os organismos mais complexos, aqueles que possuem maior diversidade de estruturas. Esta argumentação sugere que quanto maior a diversidade de estruturas, maiores são as possibilidades de mudanças evolutivas. Desta forma, a diversidade de estruturas atuaria como uma espécie de manancial de possibilidades evolutivas, justificando o título de ser mais complexo, como aqueles que têm maiores chances de sobreviver.
Na evolução como conseqüência de progresso, o processo evolutivo é visto de forma linear e contínua. Nesta perspectiva, os organismos mais simples - entendam-se mais simples aqueles que detêm o menor número de estruturas, logo, os menos complexos - ocupam a base de uma suposta escala evolutiva. Neste contexto, a seleção natural é o meio pelo qual o progresso se dá, em outras palavras, é usada como uma espécie de ferramenta utilizada de forma intencional para apurar os grupos, selecionando características que de alguma forma possa tornar os indivíduos mais aptos para aquele ambiente.