Nesta etapa, foram apresentadas às professoras situações de ensino, retiradas do registro de práticas de licenciandas no exercício de suas regências no estágio supervisionado, em que explicações teleológicas e antropomórficas são utilizadas. O propósito desta atividade era a análise e discussão dos argumentos teleológicos utilizados pelas licenciandas. Nosso intuito era discutir situações de aula bastante comuns nas quais as professoras se identificassem. A proximidade que estas situações traziam ao seu cotidiano poderia nos ajudar a compreender como as docentes mobilizavam seus saberes, provocando um diálogo acerca dos argumentos teleológicos.
A princípio, as professoras discutiam as situações sob o ponto de vista das Ciências Biológicas, até que a professora Tarsila percebeu o caráter antropomórfico de uma das falas das licenciandas e destacou: “o parasita quer que... há uma intencionalidade”. A professora percebeu a intencionalidade, atribuída ao parasita, na fala da licencianda. Segundo Hempel (apud Tamir& Zohar, 1991), uma explicação teleológica pode ser considerada um caso especial de antropomorfismo. Acreditamos que, neste contexto, especificamente, a recíproca seja verdadeira. Quando validamos uma explicação que se norteia pela volição de um ser desprovido de raciocínio, ao atribuirmos esta característica humana, estamos em certa medida, justificando e trazendo um propósito para a sua ação. Talvez possamos acreditar que a professora, ao reconhecer o caráter antropomórfico da fala da licencianda esteja, indicando o mau uso destes argumentos, ainda que não explicitamente mencione este caráter. É o que indica a fala seguinte da professora Tainá “eu acho que, elas não foram felizes nos seus argumentos”.
Como vimos em outros momentos, as professoras consideram as explicações teleológicas demasiadamente reduzidas ou muito “econômicas” para explicar os processos biológicos, acreditando que há certo cerceamento do aprendizado. Essa opinião aponta uma contradição no entendimento das professoras, porque, por exemplo, Teresa havia dito que o uso da explicação teleológica “ajudava” o aluno entender. Ao tentar compreender a contradição docente, pensamos que quando as docentes se referem à “economia” que o pensamento teleológico traz, estão operando em uma outra perspectiva, como um fator que impede o desenvolvimento do raciocínio do aluno, que cerceia e limita o aprendizado. Para elas, no ensino fundamental a possibilidade de explicar, usando a teleologia, é produtivo porque se aproxima do objetivo do ensino e soluciona logo a situação de aprendizado. Além disso, as docentes não consideram problemático se houver algum tipo de “comprometimento conceitual” (ou cerceamento) neste caso, porque os alunos do ensino fundamental não teriam “capacidade cognitiva” para entender o assunto em sua totalidade.
É bem provável que as docentes reprovem o uso do pensamento teleológico, como uma tentativa inconsciente de se aproximar das Ciências Biológicas (porque se referenciam nesta ciência) e tolerem os erros, em algumas situações, porque o tema está ligado ao ensino fundamental. É possível ainda supor que já tenham naturalizado o pensamento teleológico e, por isso, nem chegam a percebê-lo. Por fim, não podemos desconsiderar que quando apóiam o uso pensamento teleológico, as docentes estejam seduzidas pelo “conforto” que estes argumentos trazem. Tanto a fala da Tainá, que vem logo a seguir, quanto à de Teresa mais ao final do capítulo, reforçam nossa interpretação. Como veremos, para algumas professoras, como Ticiane, a rejeição do pensamento teleológico é mais radical e nem no ensino fundamental deve ser usado.
Vejamos, por exemplo, quando as professoras defenderam as explicações teleológicas como mais apropriadas para os alunos do ensino fundamental, como relata a professora Tainá: Se ela estivesse dando aula para uma turma de 6º série, eu até entenderia questão da luz, mas é uma turma de 3º ano. Esta perspectiva é confirmada pela professora Teresa: a intenção na fala da professora torna o conhecimento limitado.
Entretanto, nem todas as professoras concordam com o argumento de que em um nível mais elementar, o uso do pensamento teleológico seria indicado. Para a professora Ticiane, o que hoje traz aparentes benefícios, amanhã pode trazer grandes prejuízos: Já na turma de 6º série se deveria passar o conceito certo, sabe por quê? Porque depois
ela vai arrastar este conceito até a faculdade. A professora destaca que, utilizando as analogias com argumentos teleológicos estamos subestimando o potencial das crianças e, o que destaca como mais prejudicial, provocando uma compreensão errônea que compromete sua aprendizagem até níveis de formação mais especializados. Podemos deduzir que, implicitamente, ela reconhece que nem mesmo na universidade esta compreensão foi abalada.
Após um primeiro momento em que discutimos coletivamente as situações de regência das licenciandas, passamos a analisar as situações de forma individual. Neste momento cada docente emitiu sua visão das situações vivenciadas pelas licenciandas.
A análise da primeira pergunta – O que você acha das afirmações das licenciandas A e B? – desta atividade mostrou novamente, talvez por conta no debate realizado anteriormente, que as professoras consideram que a explicação teleológica provoca certa redução nas possibilidades de aprendizagem. A professora Teodora assim se pronunciou: As licenciandas economizaram muito na linguagem, [e com isso] reduziram no conhecimento. No entendimento das professoras, esta “economia” representa prejuízo para o aprendizado dos alunos. Esta perspectiva empobrecedora que o argumento teleológico provoca, ao ser colocado de forma simplificada nas analogias antropomórficas, reaparece na fala da professora Thais: O modo de linguagem é muito simples e acaba limitando o aprendizado. E como foi uma aula para uma turma de 3º ano ela [a licencianda] não deveria ter explicado desta forma.
A pergunta número dois - Que conceitos evolutivos estão expressos na afirmação da licencianda?- revelou certa fragilidade das bases biológicas da formação das professoras. Boa parte das respostas não está de acordo com o que se considera biologicamente correto. Em algumas situações as professoras expressaram pequenos equívocos no que diz respeito às teorias Darwinistas e Lamarckistas. Não são raras as respostas, como a da professora Ticiane, que descrevem como sendo darwinista a fala das licenciandas, somente porque abordou o tema adaptação: Darwin, porque as duas falam de adaptações que ambas [o parasita e a bromélia] têm para sobreviver. A maior parte das respostas dadas pelas docentes indica que Lamarckismo é o conceito evolutivo estruturante na fala das licenciandas. De certa forma, este aspecto pode ser explicado se levarmos em consideração a concepção de evolução progressista e linear apresentada pelas professoras (como visto na sessão inicial deste capítulo) e comum também ao lamarckismo. Ou ainda, quando apresentam respostas que expressam hesitação ao apontar o conceito evolutivo estruturante, como podemos observar no relato da
professora Teresa - Ambas tentam expressar adaptações fisiológicas dos seres vivos - quando não se posiciona, o que sugere a ambigüidade.
Na terceira questão - Há algum objetivo na ação do parasita ou da planta em relação ao ambiente? - indagávamos as professoras sobre propósitos, se havia ou não finalidades nas situações apresentadas pelas licenciandas. É interessante notar que as respostas apontam para uma clara negativa destas finalidades. Para as professoras, as situações não expressam intencionalidade.
Entretanto, quando solicitamos que suas respostas fossem justificadas, as mesmas nos retornaram com construções teleológicas, como podemos notar na resposta dada pela professora Talita: Porém, ambos têm esse comportamento para sobreviver. Ao justificar sua resposta, a docente o faz lançando mão de argumentos teleológicos, um comportamento dirigido para a sobrevivência do organismo. É possível notar o mesmo aspecto na justificativa apresentada pela professora Tércia: Ambos os objetivos visam à sobrevivência. Caponi (2002:58) nos conta que em meados do século XIX, o célebre fisiologista alemão Ernest Brüke comparou a teleologia com uma mulher da qual o Biólogo não poderia prescindir, mas com a qual não queria ser visto em público. Talvez possamos tomar emprestada a analogia proposta pelo fisiologista alemão para tentar compreender as respostas apresentadas pelas docentes. Sob o ponto de vista da Biologia, o pensamento teleológico não está exatamente correto, entretanto, tentando reproduzir um saber mais próximo do saber acadêmico, é possível que as professoras tenham se posicionado de forma contrária ao pensamento teleológico, ignorando-o. Entretanto, quando solicitadas a justificar suas respostas, deixaram vir à lume a teleologia que utilizam em sua prática cotidiana.
Por fim, no último questionamento desta etapa - Como você explicaria este tópico? - que visava estimular as professoras a reconstruir as falas apresentadas pelas licenciandas, dois aspectos nos chamaram a atenção. O primeiro deles é que, quando chamadas para modificar uma explicação teleológica, muitas não o fizeram; reescreveram os textos com outros argumentos, mas ainda assim teleológicos, como nos mostra o relato da professora Tábita. O parasita mantém o hospedeiro vivo para que o mesmo sobreviva, pois necessita do hospedeiro. O parasita se beneficia do hospedeiro, porém o mantém vivo.
A professora reescreve o texto, porém mantém o argumento teleológico quando aponta para a sobrevivência do hospedeiro como uma ação arquitetada pelo parasita. Até que ponto podemos pensar que as professoras usam a explicação teleológica
pedagogicamente – como um recurso que auxilia a aprendizagem dos alunos – ou porque já a naturalizaram de tal forma que ela se torna a única explicação para os processos biológicos? Isto é, o pensamento teleológico está tão entranhado na forma de pensar o conhecimento biológico escolar, que nem mesmo o percebemos como um elemento que precisa ser problematizado.
O segundo aspecto a destacar é que, ao invés de propor uma explicação pautada nos fundamentos evolutivos, as professoras desviam a atenção para outros aspectos do texto que não abrangem os aspectos evolutivos. É o que aponta o relato da professora Tércia:
No parasitismo estabelece-se uma relação desarmônica entre duas espécies diferentes, na qual uma utiliza a outra para obter alimento prejudicando-a. B - No inquilinismo estabelece-se uma relação harmônica entre duas espécies onde não há prejuízo para nenhuma, uma espécie utiliza a outra apenas com suporte.
Em nenhum momento a professora destaca ou leva em consideração os aspectos evolutivos do tema.