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Uma das primeiras atividades propostas ao grupo de professoras foi a análise de um fato bastante comum nas situações de ensino de Biologia. Propusemos a análise de uma situação hipotética em que um vídeo de divulgação científica apresenta, por meio de um narrador, as qualidades do guepardo29. Propositadamente, o texto foi construído

com argumentos teleológicos que enalteciam as qualidades do guepardo, apontando para a sua velocidade como principal causa de seu sucesso evolutivo; em outras palavras, o texto sugere que o animal foi projetado para alcançar grandes velocidades. O principal objetivo desta atividade era discutir como as professoras trabalhariam os argumentos teleológicos presentes em sala de aula.

Inicialmente, propusemos três questões (apresentadas no capítulo anterior) que pudessem evocar dados importantes sobre suas práticas como, por exemplo, a identificação dos argumentos teleológicos na situação proposta e a possibilidade de identificar como trabalhariam tal situação em sala de aula.

Vale destacar que na primeira pergunta - Você acredita que possa haver algo que comprometa o aprendizado de evolução no texto do narrador? - as respostas foram unânimes: todas responderam que sim, que percebiam no texto do narrador algo comprometedor. Entretanto, quando estas mesmas respostas foram analisadas mais profundamente revelaram um outro aspecto. As professoras analisaram o texto sob o ponto de vista da acuidade do conteúdo, isto é, não observaram os argumentos teleológicos como um fator complicador. Pelo menos é o que sugerem respostas como as das professoras Teodora, Teresa e Tarsila30: Sim. Pois as mutações ocorrem ao acaso

e o meio ambiente seleciona as características vantajosas. Sendo assim, os animais mais velozes sobreviveriam ao ataque de predadores, etc.

No fragmento acima podemos observar que as professoras, pelo menos a princípio, não prestaram atenção aos argumentos teleológicos, o que pode, em tese, estar em acordo com proposições anteriores que apontam para a não percepção dos argumentos teleológicos. As questões relativas ao pensamento teleológico estão entranhadas em tão alto grau nas Ciências Biológicas, que são naturalizadas. Permanecem invisíveis aos olhos das professoras ou ainda, são consentidas. Contudo, a última pergunta desta atividade - De que forma você reconstruiria este texto? - mostra um aspecto, no mínimo, interessante. Quando são chamadas a resolver este problema, 29 O texto original está disposto na íntegra no capítulo 2.

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Esta atividade foi realizada em grupo de duas ou três professoras. Nesta etapa os grupos foram formados aleatoriamente.

algumas professoras identificam o caráter problemático e intervêm de forma decisiva, indicando claramente o seu posicionamento, como ocorre com as professoras Talita e Tábita: Percebemos que a visão é muito reducionista, na medida em que [afirma que] o animal que foi projetado pela evolução para um determinado fim: que é atingir grandes velocidades.

No exemplo acima, o argumento teleológico não somente é reconhecido, como também é classificado como reducionista. Parece-nos que para as professoras, apontar o guepardo como fruto de um projeto, seria uma forma de simplificar o processo evolutivo. Em outras palavras, elas parecem lançar mão da noção de evolução como um processo de produzir formas mais complexas e entender que a finalidade expressa no projeto do guepardo como que minimiza esta possibilidade evolutiva. Cabe ressaltar que as opiniões emitidas nesta atividade não são unânimes, havendo algumas em que, ao invés de negar o argumento teleológico, reforçam-no. Por exemplo, as professoras Tainá e Ticiane reescrevem o texto com outros argumentos, igualmente teleológicos: O guepardo, por ser predador, topo de cadeia alimentar, ao precisar alcançar as presas, que também estavam evoluindo, sua informação genética modificou-se para adaptar o organismo e assim atingir grandes velocidades. (grifos nosso)

No texto acima, as palavras em destaque expressam os argumentos teleológicos utilizados pelas professoras. Atribuem uma causa propulsora para o aperfeiçoamento do animal: ... alcançar as presas que também estavam evoluindo. Segundo as mesmas docentes, este comportamento é o necessário para que o animal mude suas informações genéticas e assim [possa] atingir grandes velocidades.

As frases das professoras podem ser pensadas como expressões de explicações lamarckistas, o que, não significaria nenhuma incoerência com o próprio Lamarck, um progressista e teleológico. Segundo Barahona (1998:128), Lamarck pensava na progressão dos organismos mais simples avançando até os organismos mais complexos. A autora ainda diz que, para Lamarck, as adaptações eram apenas pequenos ajustes das espécies ao meio, que buscavam constantemente um aperfeiçoamento. Ou seja, havia no pensamento lamarckista uma finalidade que significava a melhora constante. Assim como Lamarck, as professoras optam por atribuir um sentido às transformações, talvez buscando enriquecer sua resposta conferindo-lhe um motivo. Ao justificarem as transformações do guepardo, as docentes lançam mão de um dos argumentos mais populares para a explicação evolutiva que, embora incorreto sob o ponto de vista das Ciências Biológicas, tem se mantido presente em diversos meios sociais, confundindo

leigos e estudiosos desta área científica. Uma possível alternativa para o entendimento correto, sob o ponto de vista biológico, não é tão atraente quanto os argumentos teleológicos e por isso mais complexa e difícil. Rumjanek (2004:15-15) em seu artigo “No íntimo, somos todos lamarckistas”, nos conta que o culto teleológico é intuitivo dentro de nossa lógica formal mecanicista. Destaca o papel dos livros didáticos no processo de naturalização das doutrinas lamarckistas. Segundo o autor, praticamente todos os livros de ciências, quando tratam dos seres vivos, adotam uma como dispositivo didático “o existir para servir a alguma função”. Ou ainda que “a natureza é sábia”.

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