4. Refleksjon over kunstnerisk praksis
4.9 Viktigste erfaringer
“Quem vai a pé ao trabalho chega a criar para si um ambiente ao longo do seu caminho. Quem percorre o caminho em um veículo está privado de uma variedade de opções: paradas, acessos, contatos.” (ILLICH, 2004, p.44)
As mudanças nos meios de produção e formas de territorialização correspondentes, que favorecem grandes aglomerações urbanas, imprimem reflexos também nas relações humanas e uso dos espaços públicos das cidades, onde o ser individual passa a prevalecer
sobre o ser coletivo. Hirsch (2007, p. 166) atribui à vida pública o que chama de formas sociais, como sendo os objetos externalizados pelo ser humano nos quais se manifesta sua inter‐relação com os outros, como única maneira de tornar possível a sociabilidade diante das condições econômicas prevalentes.
Numa perspectiva mais ampliada, Sennett (1988, p. 58) cita o exemplo de cidades, onde coexistem um sem número de estranhos, e afirma que as relações sociais entre as pessoas se confinam aos limites da situação imediata do encontro, e dependem da identificação de um conjunto de semelhanças em termos de comportamento, linguagem, gestos e vestuário. Porém, esses encontros são vazios e impessoais, e mascarados pelas diferentes fantasias de personalidade. Defendendo que a sociedade tornou‐se um aglomerado de pessoas mergulhadas em si mesmas, ou que vivem em público, mas se ausentam da vida pública, Sennett diz que a possibilidade de prática coletiva acontece quando as pessoas se comportam na vida pública, falseadamente, apresentando sua personalidade. O problema é que a personalidade que usam não passa de um sistema camuflado de representação de si mesmos. Nas palavras de Sennett (1988, p. 271), “numa sociedade íntima, todos os fenômenos sociais, por mais que fossem impessoais em sua estrutura, eram convertidos em questões de personalidade, com a finalidade de adquirirem um sentido”.
A tendência ao isolamento explorada por Sennett, como a ausência de significados individuais nos espaços públicos, foi potencializada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação que “aumentaram amplamente o estoque de conhecimentos que os grupos sociais tinham uns dos outros, mas tornaram o contato efetivo desnecessário” (SENNETT, 1988, p. 344). Ainda, defende que os seres humanos precisam manter certa distância da observação íntima, que parte do outro, para sentirem‐se sociáveis. Quando não conseguem, o silêncio torna‐se a única forma de proteção. Ou, quando os contatos acontecem, o grau de aproximação pode desencadear disputas e conflito de personalidades. Nesse sentido, “a estrutura de uma sociedade intimista é dupla. O narcisismo se mobiliza nas relações sociais, e a experiência da abertura de sentimentos uns para os outros se torna destrutiva” (SENNETT, 1988, p. 321).
Na arquitetura e no urbanismo houve uma tendência à supressão da oferta de espaços que possibilitassem o encontro em público. Em lugar disso os espaços abertos passaram a ser concebidos em nome de facilitar o movimento, apenas com a finalidade de passagem, sem interrupções. Nesse contexto, as ruas da cidade adquirem a função peculiar de permitir a livre circulação, com um fim em si mesma, imprimindo à experimentação dos espaços urbanos uma experiência vazia. O fim da vida pública pode significar nesse caso “que, assim como alguém pode se isolar em um automóvel particular para ter ‘liberdade de movimento’, também deixa de acreditar que o que o circunda tenha qualquer significado além de ser um meio para chegar a finalidade própria da locomoção” (SENNETT, 1988, p. 29). Para Duarte, “ao tornar‐se um fim em si mesma a circulação passa a atuar como um vetor de dissolução da vida urbana, rompendo os vínculos tradicionalmente estabelecidos entre o homem e a cidade.” (DUARTE, 2006, p.29)
O culto contemporâneo ao individualismo mostra que:
O mito hoje predominante é que os males da sociedade podem ser todos entendidos como males da impessoalidade, da alienação e da frieza. A soma desses três constitui uma ideologia da intimidade: relacionamentos sociais de qualquer tipo são reais, críveis e autênticos, quanto mais próximos estiverem das preocupações interiores psicológicas de cada pessoa. (SENNETT, 1988, p. 317)
A proliferação de condomínios particulares para classes médias e altas que, geralmente, são construídos de forma apartada dos centros urbanos e até isolada do meio circundante é mais um exemplo de isolamento da vida pública.
Os bairros fechados têm trazido impactos socioambientais negativos, como barreiras urbanísticas, com diminuição da mobilidade em geral, sensação de impunidade e comportamento preconceituoso em relação a pessoas de outro grupo social, pelos moradores, especialmente a criança e o adolescente, ‘desacostumados’ a conviver com os diferentes, sensação de insegurança para pedestres nas ruas de acesso a esses locais, sempre com muros e desertas, serviços básicos encarecidos pelas formas de gestão do condomínio que não têm controle social, e perda das áreas rurais, fundamentais para a segurança alimentar a para diminuir as ilhas de calor no meio urbano.(BUENO, 2007, p. 23, nota 8)
Sob a perspectiva da sociedade intimista podemos depreender que a (re)produção indiscriminada de espaços urbanos concebidos para o automóvel gera ambientes hostis e não favorece a permanência nem estímulos sensoriais para as pessoas. Em outros tempos, as ruas, assim como as praças, parques etc. eram consideradas espaços públicos por excelência. Hoje elas se prestam a não mais do que espaços de passagem para os automóveis. É fato que o carro particular segrega. As pessoas andam sozinhas em seus automóveis, quase invariavelmente de vidros fechados. Não se relacionam com o meio ambiente envolvente e nem com as pessoas que estão do lado de fora, por estarem numa velocidade diferente e por estarem a sós, ausentes da vida em coletividade.