3. Forskningsdesign
3.2 Det performative paradigmet
parece ter sido mais um interstício por onde novas ideias e novas referências influenciaram Cataguases.
Pelo depoimento de Ofélia Resende21, não é difícil imaginar que nas aulas de música, pintura e boas maneiras, os hábitos e o gosto incutidos na formação desses professores, educados no padrão europeu, influenciasse no que era ensinado. O que nos permite supor que, mais que as reivindicações culturais desses estrangeiros enquanto moradores e cidadãos cataguasenses, o papel de educadores assumido por eles, tenha corroborado a disseminação do gosto europeu na cultura local. Para Bourdieu, a reprodução do capital cultural se dá na relação entre estratégias das famílias e a lógica específica da instituição escolar. O capital cultural transmitido pela família é considerado como uma espécie de capital herdado, enquanto o capital cultural transmitido via instituição de ensino, por ele denominado de capital
adquirido, é chancelado pelo título escolar. O que percebemos, pela proposição de
Bourdieu, é que nas camadas mais abastadas, o título escolar torna-se um título de nobreza cultural:
O peso relativo da educação familiar e da educação propriamente escolar (cuja eficiência e duração dependem estreitamente da origem social) varia segundo o grau de reconhecimento e ensino dispensado as diferentes praticas culturais pelo sistema escolar. A nobreza cultural possui, também, seus títulos discernidos pela escola, assim como sua ascendência pela qual é avaliada a antiguidade de acesso à nobreza. (BOURDIEU, 2010, p. 9)
Voltando a Cataguases, a transposição do capital cultural em capital simbólico chancelado pelo título escolar, é novamente evidenciada por Ofélia. Na sua fala, ela enaltece o alto grau de instrução dos Vieira Rezende: das mulheres que estudaram em importantes internatos da época e dos homens que ostentavam o diploma de formação em direito. O acesso à instrução por renomadas instituições de ensino da
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Ofélia era filha de Afonso Henrique Vieira de Rezende (1863-1934), irmã de Enrique de Rezende integrante mais tarde do Grupo Verde, neta do Coronel José Vieira de Rezende e Silva (1829-1881) e bisneta do Major Joaquim Vieira da Silva Pinto (1804-1880).
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época seria outro nexo que aproximaria alguns dos habitantes de Cataguases da elite originaria do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Belo Horizonte.
Eu, Odete fomos todas as duas estudar no Sion, em Petrópolis. Colégio pioneiro no Brasil, onde estudavam as filhas do Presidente da República, Senador, Deputado: a fina flor do Rio de Janeiro! Nós fizemos o curso no Sion. Não davam diploma não! Naquele tempo, gente granfina achava que diploma era coisa de subalterna! O Colégio não dava título, mas dava instrução acima de qualquer ginásio, de qualquer curso clássico. A gente falava francês como o povo francês, né. Porque eram freiras francesas, todas. Nós só tínhamos duas brasileiras. Você tinha necessidade de falar francês pra você se comunicar [...] aprendemos francês como qualquer francesa [...] Ali é o diploma do meu pai, já faz cem anos agora... Naquele tempo, a gente obter um diploma era uma coisa muito séria, muito difícil, era um galardão de glória! Só tinha duas Faculdades: uma em Recife e outra em São Paulo. Ele fez em São Paulo... Não, não sou intelectual, não. Eu sou uma esforçada. Eu me casei, não fui feliz com meu marido, tive que desquitar... tive que abraçar a vida e trabalhar também, né. Porque até então eu tinha ocupação de gente rica: não fazia nada... Até 35 anos eu não fiz nada. Depois tive que entrar na vida dura. Aí fui me registrar... Veio a lei do registro: quem não tinha o curso de professorado inscrevia-se no registro. Estabeleceu no Rio um curso muito bonito. Os franceses eram grandes professores credenciados pela Sorbonne, sob direção do ilustre Embaixador... Organizaram um curso para aperfeiçoamento de professor de francês, professor brasileiro de francês. Eu fiz extensão universitária, eles deram então o diploma como terminado.
Ofélia Resende, professora.
Memória e Patrimônio Cultural de Cataguases, vol. I, 1988, p. 55.
De 97 biografias e depoimentos verificados22, 53 tiveram acesso ou a formação secundária ou, ainda, à superior. Dados através dos quais é possível perceber que o investimento na educação escolar não foi privilégio somente dos Vieira Rezende, mas de outras famílias da cidade, certamente das famílias ricas [QUADRO 10].
22Dados levantados a partir de biografias escritas pelo memorialista Levy Simões da Costa (1977) e no trabalho de memória
oral que fazem parte dos três volumes de Memória e Patrimônio Cultural de Cataguases publicados em 1988, 1990, 1996, respectivamente.
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Nome Grau de Instrução
Secundário Superior
1. Altamiro Peixoto Técnico em Indústria Têxtil - Inglaterra
2. José Ignácio Peixoto Colégio São José, Ubá.
3. Manoel Ignácio Peixoto Filho Cataguases
4. João Ignácio Peixoto Cataguases
5. Abílio César Novaes Faculdade de Direito de Belo Horizonte em 1910
6. Afonso Henrique Vieira de Rezende Colégio do Caraça Faculdade de Direito de São Paulo em 1886.
7. Antônio Martins da Costa Colégio Mineiro, Ouro Preto Escola de Farmácia em Ouro Preto
8. Antônio Januário de Miranda Carneiro Colégio do Caraça.
9. Antônio Lobo de Rezende Filho Estudou em Ouro Preto, Juiz de Fora. Faculdade de Direito de Belo Horizonte em 1914.
10. Artur Vieira de Rezende e Silva Colégio do Caraça Frequentou por três anos a Escola de Minas em Ouro Preto 11. Astolfo Dutra Nicácio Colégio do Caraça. Faculdade de Direito de São Paulo em 1888. 12. Astolfo Dutra Nicácio Neto Grupo Escolar de Cataguases
13. Astolfo Vieira Rezende Colégio Caraça Direito na Faculdade de São Paulo em 1892 14. Caetano Mazzei Mauro Secundário em Além Paraíba. Escola de Engenharia do Rio de Janeiro (interrompido) 15. Camillo Nogueira da Gama Colégio Pedro II no Rio de Janeiro em 1920. Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro em
1925. 16. Domingos Basílio de Paiva Alcântara Poliglota e Filósofo com diploma expedido por Dom Pedro II
17. Domingos Fernandes Tostes Colégio Caraça. Escola de Minas e de Farmácia de Ouro Preto 18. Édison Vieira de Rezende Colégio Granbery, Juiz de Fora. Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro 19. Enrique Resende Colégio Anglo-Brasileiro do Rio de Janeiro. Matemática em Ouro Preto; Faculdade de Engenharia de Juiz
de Fora em 1924
20. Fenelon Barbosa Cataguases. Faculdade de Direito de Niterói em 1935
21. Gabriel Monteiro Ribeiro Junqueira Colégio Biolchini em Petrópolis. Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1902. 22. Homero Cortes Domingues Colégio São Vicente em Petrópolis
23. Jacy de Abreu Lopes Colégio Leopoldinense. Escola de Farmácia de Minas Gerais em Belo Horizonte em 1939
24. Joaquim Gomes de Araújo Porto Estudou na Escola Régia em São João Nepomuceno
25. José Esteves Colégio Leopoldinense. Farmácia na Escola de Farmácia de Leopoldina 26. José Fabrino Oliveira Baião Secundário em Belo Horizonte quando ganhou bolsa para estudar em Paris
27. Manoel Afonso da Costa Cruz Ginásio Municipal de Cataguases. Faculdade Federal de Belo Horizonte em 1938 28. Navantino Santos Ginásio Mineiro de Barbacena. Faculdade Livre de Direito de Belo Horizonte em 1905 29. Nelson Soares Dutra Secundário em São João Nepomuceno
30. Norberto Custódio Ferreira Secundário em Ouro Preto. Faculdade de Direito de São Paulo 31. Ottônio Alvim Gomes Secundário em Visconde do Rio Branco. Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro 32. Pedro Dutra Nicácio preparatório no Colégio Abílio em Niterói. Ginásio São José de Ubá. Terminou o Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. 33. Sandoval Soares de Azevedo Colégio Mineiro, Ouro Preto, terminando em Belo Horizonte. Faculdade de Direito de Belo Horizonte (1914) 34. Tito Vieira de Rezende Ginásio São José de Ubá. Faculdade de Direito do Rio de Janeiro 35. Vanor Ribeiro Junqueira Ginásio Leopoldinense. Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1922
36. Walter da Rocha Werneck Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1922
37. Walter Santos de Carvalho Cataguases
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Alguns dos colégios listados, como o do Caraça e o Pedro II, gravitaram entre as instituições de ensino mais representativas do século XIX, fazendo parte, segundo Sodré, de uma primeira tentativa de sistematização do ensino após a Independência:
O regime de descentralização fundado no Ato Adicional permitiu por outro lado, deixando a iniciativa às províncias, que o ensino médio fosse monopolizado pela área privada; é típico do tempo do Caraça, colégio fundado pelos lazaristas, em 1820, no interior de Minas Gerais... Educadores leigos, paralelamente, nas províncias e na capital organizaram colégios, alguns dos quais ganharam renome. Em 1837 surgia o Colégio Pedro II: seu curso de sete anos e a amplitude de seu programa revelava a tendência ao ensino universalista e enciclopédico que constituiu traço dominante no nível médio entre nós. (SODRÉ, 1988, p. 43)
Tais instituições tinham como característica uma educação de tipo aristocrático, destinada à preparação de uma elite. Assim, o ginásio preparava para as escolas superiores e estas, formando bacharéis e doutores, tinham por missão manter o indivíduo não nas ocupações habituais, mas de elevá-lo em dignidade social,
39. Ofélia Resende Colégio Sion em Petrópolis
40. Ecila Lobo Escola Normal de Cataguases
41. Eva Comello Grupo Coronel Vieira
42. Alberico Dutra de Siqueira Belo Horizonte na Escola de Comércio
43. Manoel das Neves Peixoto Estudou em Juiz de Fora e Belo Horizonte. Formou-se em Direito e m Ciências Políticas e Sociais em 1935. 44. Marita Guimarães Costa Cruz Cataguases; Colégio Interno Imaculada em Colégio Nossa Senhora do Carmo em
Leopoldina
45. Silvia Mendonça Leite Estudou até o segundo ano na Escola Normal 46. Stella Abrita Alves Estudou na Escola Normal (internato) 47. Terezini Massena Guimarães Escola Normal, Cataguases.
48. Ascânio Lopes Quatorzevoltas Ginásio Municipal de Cataguases. Faculdade de Direito de Belo Horizonte (incompleto) 49. Antônio Martins Mendes Secundário em Cataguases. Faculdade de Direito do Rio de Janeiro em 1929 50. Rosário Fusco de Souza Guerra Secundário em Cataguases; Faculdade de Direito do Rio de Janeiro 51. Guilhermino César da Silva Secundário em Cataguases. Faculdade de Direito de Minas Gerais em Belo Horizonte. 52. Francisco Ignácio Peixoto Secundário em Cataguases. Faculdade de Direito do Rio de Janeiro
53. Humberto Mauro Engenharia em Belo Horizonte (interrompido)