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A percepção é determinada como o processo mental que permite a re- lação do homem com seu entorno. A partir dos sentidos, os indivíduos constroem uma representação, uma imagem. Pode-se salientar que a me- todologia de Lynch (2006) é uma interpretação dessa teoria. Em 1960, no seu célebre livro A Imagem da cidade, retoma-se a concepção da percep- ção como elemento estruturador. Essa percepção, segundo o autor, não é

2 Nota fornecida por Jean Paul Thibaud no Seminário Internacional URBICENTROS - “Morte e Vida dos Centros Urbanos, “ Maceió, 2011.

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abrangente e sim parcial, fragmentária, misturada “[…] com considerações de outra natureza. Quase todos os sentidos estão em operação, e a ima- gem é uma combinação de todos eles” (LYNCH, 2006, p. 2).

No seu livro, são estabelecidos dois conceitos: “imaginabilidade” e “legi- bilidade”. O primeiro é “a característica, num objeto físico, que lhe confere uma alta probabilidade de evocar uma imagem forte em qualquer obser- vador dado” (Ibid, p. 11). A “legibilidade” trata-se da clareza da paisagem, sendo que a partir das imagens constrói-se uma visão clara e organizada da cidade. Deine-se também como a visibilidade em “que os objetos não são apenas passíveis de serem vistos, mas também nítida e intensamente presentes aos sentidos” (Ibid, p. 11). O entorno, portanto, tem a capacidade de comunicar uma clara imagem de si mesmo e, ainda que a imagem varie de indivíduo a indivíduo, existem elementos em comum que emergem e permitem constituir grupos de imagens (SANZ, 1992).

Lynch (2006) também evoca que a imagem ambiental pode ser fragmenta- da em três componentes: identidade, estrutura e signiicado. Uma imagem primeiramente precisa da identiicação do objeto, descrito também como identidade, logo deve estruturar-se espacialmente ou paradigmaticamente, isto é, estabelecer uma relação com o observador e outros objetos. E, por último, o objeto precisa ter algum signiicado para o observador, tanto de conotação prática quanto emocional. Ressalta-se que a relevância na estru- turação da imagem é a percepção, elemento referente ao ser humano que é protagonista da visão analítico-perceptiva (SANZ, 1992).

Sendo o pioneiro na introdução da percepção, Lynch (2006) estruturou 05 (cinco) elementos que conformam a paisagem urbana, são eles:

– Vias: “os canais de circulação ao longo dos quais o observador se lo- comove de modo habitual, ocasional ou potencial” (LYNCH, 2006, p. 52). Podem ser expressas em ruas, alamedas, canais, ferrovias, etc.

– Limites: “elementos lineares não usados ou entendidos como vias pelo observador” (Ibid, p. 52). São as barreiras, as fronteiras que têm como papel separar visualmente duas áreas.

– Bairros: “regiões médias ou grandes de uma cidade, concebidos como dotados de extensão bidimensional” (Ibid, p. 52). Ao adentrar o bairro, o observador reconhece características dele e faz uma associação mental desse espaço. A identiicação é feita pelo lado interno, mas podem ser usa- dos como referência externa quando visíveis desde fora.

– Pontos nodais: “pontos, lugares estratégicos de uma cidade através dos quais o observador pode entrar, são os focos intensivos para ou quais ou a partir dos quais ele se locomove” (Ibid, p. 52). Exempliicam-se a partir de junções, cruzamentos ou convergências de vias, momentos de passagem, entre outros.

– Marcos: o observador não adentra neles, sendo externos e “objetos físi- cos deinidos de maneira muito simples: edifício, sinal, loja ou montanha” (Ibid, p. 53). Alguns deles se destacam pois podem ser avistados de diver- sos ângulos e distâncias.

O autor expõe que a visualização desses elementos depende das circuns- tâncias do modo de observação e, a disposição destes na conformação da paisagem urbana ocorre em conjunto e não isoladamente.

Gordon Cullen (2009), por sua vez, descreve a paisagem urbana como a arte de tornar coerente e organizado, visualmente, o emaranhado de edifícios, ruas e espaços que constituem o ambiente urbano (paisagem construída), buscando entender como as paisagens suscitam reações emocionais nas pessoas (público). Cullen busca, portanto, compreender o espaço urbano como um conjunto, que, ao ser percebido simultaneamente, ativa recorda- ções e emoções nos observadores.

Para estruturar esse conceito, Cullen (Ibidem) recorre a três aspectos. O pri- meiro é a ótica, entendida pela visão serial, a qual é formada por uma su- cessão de percepções sequenciais dos espaços urbanos para o observador que se locomove. Como exempliicado pelo autor, um transeunte durante seu percurso tem como primeiro ponto de vista a rua, a seguir, ao entrar em um pátio, revela-se uma nova visual e por im depara-se com uma outra

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imagem, um monumento. Ainda que esse aspecto tenha sido um grande aporte para a arquitetura, vale ressaltar que a visão serial não determina a observação natural do ser humano, a qual é abrangente e não controlada. O segundo fator é o local, que diz respeito às relações do sujeito com a sua posição no espaço, exempliicado pelo sentido de localização, “estou cá fora”, e posteriormente, “estou a entrar ali para dentro”, e inalmente, “es- tou aqui, dentro”. Essas percepções estão ligadas às sensações provocadas pelos espaços, sejam eles abertos, fechados, altos, baixos, etc. O terceiro aspecto abordado é o conteúdo, que se relaciona com a constituição da ci- dade, as suas cores, texturas, escalas e estilos que caracterizam os edifícios e os setores do tecido urbano.

Essa visão também é salientada por Yoshinobu Ashihara (1982) em El diseño de espacios exteriores, validando que as percepções dos indivíduos dentro dos espaços, são importantes para a coniguração da paisagem. Por sua vez, descreve que o espaço é uma resultante do conjunto de relações que vinculam o objeto com o ser humano que o percebe.

O espaço se forma por meio do conjunto de relações que vinculam um objeto com o ser humano que o percebe. Esta correspondência se estabelece, em primeiro lugar, por intermédio da ótica/visual, mas se nos movimentamos em um espaço arquitetônico participam também o olfato, a audição e o tato (Ibid, p. 10, tradução da autora).3

Segundo Lynch (2006), o ser humano usa “as sensações visuais de cor, for- ma, movimento ou polarização da luz, além de outros sentidos como o olfato, a audição, o tato, a cinestesia […]” (LYNCH, 2006, p. 5).

Ao longo deste trabalho serão exploradas as relações visuais e expostas as sensações provocadas.

3 Tradução do texto pela autora. Texto original: “[…] el espacio se forma por medio

del conjunto de relaciones que vinculan un objeto con el ser humano que lo perci- be. Esta correspondencia se establece, en primer lugar, por medio de la vista, pero si nos movemos en un espacio arquitectónico participan también el olfato, el oído y el tacto”. In: ASHIHARA, Yoshinobu. El diseño de espacios exteriores. Barcelona: Gustavo Gili, 1982, p. 10.