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Värdegrunder i Ryssland

In document Visning av Volum 64 (sider 136-144)

Durante anos, a teoria da degenerescência hereditária similar (direta ou indireta) ou que tenha sofrido algum tipo de metamorfose na história de vida familiar teve grande influência na Psiquiatria (Pessotti, 1999). É fato que a hereditariedade exerce grande influência na eclosão de uma determinada condição. No entanto, corre-se o risco da promoção de uma profilaxia eugenista, quando se adota uma visão linear de causa e efeito. Essa visão tende a ser ainda mais reducionista ao não levar em questão que não é somente a carga genética que é transmitida entre as gerações, mas uma série de papéis e regras estruturados a partir de laços consangüíneos, afetivos e de um sobrenome em comum.

Pode-se perceber como o fator hereditário é, ainda, objeto de uma série de dúvidas, para a sociedade em geral, quanto ao papel da família na ocorrência de um episódio psicótico num de seus membros, o que contribui para o aumento dos conflitos na dinâmica familiar. Nesse momento, é preciso analisar que, conforme Freud (1917/1976), como todo ser humano nasce com suas tendências ancestrais à eclosão de um determinado quadro (psico)patológico, quando se considera a hereditariedade como o fator exclusivo, pouco se pode fazer para alterar seu rumo diante da expectativa de prognóstico incapacitante. Deve-se sempre suspeitar da possibilidade de co-existência de outras etiologias, a fim de se obter alguma compreensão acerca do(s) motivo(s) que tornam um determinado membro da família mais vulnerável a adoecer do que os demais.

Por outro lado, embora os conflitos presentes no ambiente familiar possam contribuir para as recidivas, cada vez mais se questiona a visão anterior, que colocava a família como o fator ou um dos principais fatores causais de desencadeamento de uma psicose, por ser o primeiro lugar de desenvolvimento das relações do sujeito com o mundo. A mudança da visão sobre a relação entre família e psicose vem sendo cada vez mais ampliada pela compreensão de que as implicações da dinâmica familiar na subjetividade de cada um de seus membros vão muito além do que as noções tradicionais de saúde e doença comportam.

Cada vez mais se reconhece a importância da intersubjetividade familiar na constituição subjetiva e, conseqüentemente, do que essa noção implica no que tange aos desdobramentos do sofrimento psíquico de cada membro. Não se trata, portanto, de culpabilizar a família como causadora da psicose, mas de investigar o que, na trama das relações anteriores e atuais, se reproduz e o que isso pode ter a ver com o modo do sujeito se fazer sujeito na psicose.

Lacan (2002a) indicou que, entre todos os grupos humanos, a família desempenha um papel primordial na transmissão da cultura. Observou que “se as tradições espirituais, a manutenção dos ritos e dos costumes, a conservação das técnicas e do patrimônio são com ela disputados por outros grupos sociais, a família prevalece na primeira educação, na repressão dos instintos” (p. 13). A família preside os processos fundamentais do desenvolvimento psíquico, com a organização das emoções, segundo tipos condicionados pelo ambiente. Transmite estruturas de comportamento e de representação cujo jogo ultrapassa os limites da consciência, estabelecendo, entre as gerações, uma continuidade psíquica.

Para Costa (2003), a família não existe como conceito único, universal, aplicável a todas as manifestações vinculares do tipo familiar. A família, seja qual for, tenha a configuração que tiver, consiste no meio relacional básico para a constituição de vínculos com o mundo. De acordo com o autor, ela abrange algumas características, a saber: repetição e continuidade; construção dos afetos e das emoções humanas (da saúde à patologia); sentimento de "eu" e de existência; sentido de intimidade, pertinência e diferenciação. Tais características, que remetem à vinculação entre os membros, tendem a ser colocadas em questão diante da psicose.

A família, em geral, se sente perdida, buscando um outro modelo de referência a partir do qual possa balizar suas ações. Comumente, a ocorrência de uma crise psicótica é uma experiência traumática para o sujeito e sua família. Com o decorrer do tempo, muitas vezes, o ambiente doméstico adquire delicadas nuanças, quando o primeiro passa a ser visto exclusivamente como um doente por seus familiares e, esses, percebem-se a si próprios como responsáveis ou não por aquele, de acordo com o tipo de vínculo que entre eles sentem existir.

Muitas vezes, quando um familiar diz que não tem tempo de conversar com o “doente”, é possível que haja uma suposição de que a iniciativa e a manutenção de um diálogo não farão diferença alguma. É possível, ainda, que, após a vivência de grandes dificuldades na interação com esse membro, não se queira mais ou não se acredite ser mais possível a existência de um diálogo. Sentindo que a imagem que se tinha sobre um filho, mãe ou irmão está morta, os familiares necessitam fazer um trabalho de luto em relação ao investimento depositado. Logo, se no início do quadro há esperança de que a pessoa retorne ao estado prévio de saúde, com o decorrer do tempo uma realidade frustrante tende a se constituir. Gradativamente, a família vai reconhecendo que sua dinâmica passa a ter características diferentes das de outras famílias, em especial no que tange às expectativas quanto ao desempenho do membro psicótico.

O padrão que se desenvolve na dinâmica familiar após um episódio psicótico precisa, muitas vezes, ser reavaliado quando se torna opressor, não possibilitando a construção de novos desejos e formas de interação. A partir do momento em que pacientes e familiares podem conferir um significado a essa vivência – de sua eclosão à busca de assistência especializada – tentam reorganizar, por sua vez, todo seu estilo de vida para a assimilação das prováveis mudanças psicológicas e socioeconômicas que o processo de adoecimento acarreta. Toda uma nova rede de significados é desenvolvida para o alcance de um estado de relativa harmonia, numa

tentativa de diluição dos conflitos e traumas presentes no cotidiano dos envolvidos, através da revisão dos projetos de vida pelo reconhecimento de que os desafios decorrentes de todo esse processo de adoecimento possivelmente exigirão metas mais realistas.

Tomar conhecimento da maneira como os membros de uma família se falam (ou não se falam) e como interagem na presença uns dos outros permite levantar considerações quanto ao significado inconsciente das relações que estabeleceram e mantêm. Certa cota de mitologia familiar é necessária para se preservar alguma comunicação entre os membros, de forma a resguardarem redes de lealdade – ainda que patologizantes – a partir das quais ficam demarcadas para cada pessoa uma missão ou missões a cumprir na vida, em resposta aos desejos, expectativas, temores e fantasias intergeracionais (Berenstein, 1988; Sterian, 2001a).

O mito familiar, de acordo com Eiguer (1995), é definido como um relato, uma história que implica um conjunto de crenças partilhadas por toda a família, eventualmente transmitida há gerações. A história contada serve para confirmar as crenças. O relato pode, todavia, servir para torná-lo mais agradável, substancial e, principalmente, mais crível. O mito tem um caráter alegórico de resolver contradições referentes a idéias e dificuldades familiares, ajudando a preservar o equilíbrio homeostático. Inclui, freqüentemente, elementos interpretativos e racionalizações, mas sua pretensa verossimilhança não muda o problema. Trata-se de uma convicção partilhada de forma a garantir a estabilidade e a eficiência dos vínculos.

Não se deve pensar em questionar um mito, sob pena de sofrer sanções familiares. Recusá-lo é, para os membros da família, recusar a dependência, o amor familiar. Quando um mito é posto em dúvida por um dos integrantes, outra instância mítica se instaura, em movimento de apropriação da nova situação. O questionamento denota a possibilidade de se criticar uma verdade adquirida, desde que, para isso, nasça um novo mito (Bucher, 1986; Eiguer, 1995).

Alguns mitos se referem à função dos membros, aos seus papéis, ao que são capazes de fazer ou ao poder que exercem sobre os demais. Aquele que decide as regras e as impõe aos outros, mostra-se, em geral, o mais fraco ou submisso. O filho que desencadeia as brigas pode ser apresentado, paradoxalmente, como o mais pacífico. O portador do sintoma tende a ser descrito como o mais perturbador. Todos esses casos são acompanhados de exemplos para fortalecer as hipóteses sobre as funções de cada membro (Bucher, 1986; Eiguer, 1995).

O papel mitificado é, muitas vezes, o do psicótico, considerado como extravagante, anormal. Opõe-se ao papel do normal atribuído a algum outro membro, o que pode ser facilmente detectado nas comparações sobre o desempenho de cada filho. O mito tende aqui a preservar rigidamente tal distribuição de papéis executados pelos membros em questão, o que pode reverberar para uma cumplicidade masoquista (Eiguer, 1995). Contudo, conforme abordado, ainda que o mito seja patologizante à primeira vista, tem a função de preservar a realidade outrora conhecida, assim como a visão que se tinha sobre cada integrante do grupo familiar.

Configurado o fenômeno psicótico, o conflito que se instala possivelmente exige modificações severas nas relações constituídas entre os membros. No decorrente e necessário processo de revisão de papéis e funções familiares, culpas e acusações costumam ser comuns. Esta situação favorece a que os familiares diminuam a capacidade do integrante com quadro psicótico de discernir e estabelecer relações de respeito e companheirismo, fundamentadas na compreensão de suas necessidades. Podem também não valorizar seu desejo de ocupar um outro lugar na dinâmica familiar que não seja o de doente.

Berenstein (1988) indicou que pode ser observada, em grupos familiares com um integrante com transtorno mental, uma subversão do critério de saúde e doença. Geralmente, quando há uma crise no funcionamento mental de uma pessoa, os elementos do seu grupo familiar se definem como sadios em oposição ao integrante definido como doente. Entretanto, ainda que o grupo familiar se torne dividido entre sadios e doentes, a última divisão é ocupada por um só integrante. A família tende a se queixar de que esse integrante – o doente mental, o psicótico – é a causa do desequilíbrio na parcela “sadia”.

Os critérios de saúde e doença ficam superpostos ao de normalidade e anormalidade, assim como aos de adaptação e desadaptação. Saúde e doença, normalidade e anormalidade constituem séries dicotômicas. Se não se analisar em que se contrapõem, essas séries passam a se constituir como categorias absolutas e naturais. Com isso, o grupo familiar tende a não perceber o código de valores a partir do qual outorga o significado de um comportamento como sendo sadio ou doente, bem como a não questionar seu código de valores (Berenstein, 1988).

A fragmentação dos sintomas ou mesmo de possíveis etiologias associadas pode ter como conseqüência a reintrodução das oposições entre o normal e o patológico, originárias do discurso psiquiátrico tradicional. Saúde e doença se constituem a partir de

suas inter-relações. Contudo, a falta de apoio social, os estigmas, as privações econômicas e sociais são aspectos que tendem a contribuir para a manutenção de ambas enquanto pólos dicotômicos.

Com essa divisão entre sadios e doentes, as famílias passam por uma série de situações conflituosas, podendo se sentir sem recursos suficientes para lidar com o integrante com quadro psicótico (McGorry & Edwards, 2002). Para que esse sujeito não se torne o ícone do sofrimento familiar, faz-se relevante para a equipe, da instituição à qual pacientes e suas famílias recorrem, a análise da constituição desse sofrimento a partir da dinâmica que se estabelece entre os membros.

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