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No que concerne ao conhecimento do mundo que nos rodeia, podemos considerar que existem várias fontes de conhecimento. Essas fontes fornecem

instrumentos para a leitura do real e podem em alguns casos servir até de orientações e condutas para a vida, como, por exemplo, a religião.

A Ciência é uma dessas fontes, embora não constitua o único veículo para aceder ao conhecimento. Em 1970, G.C. Helmstadter (citado por Graziano & Raulin,1989) definia seis métodos de aquisição de conhecimento: tenacidade, intuição, autoridade, racionalismo, empiricismo e ciência. Estes

métodos diferem quanto à natureza do processamento da informação e quanto à aceitação de que a informação daí emanada é verdadeira. Assim, a ordem apresentada representa também um continuum relativamente a estas dimensões do nível mais baixo para o mais elevado de exigência É assim possível compreender a diferença entre, por exemplo, o conhecimento com origem autoritária - em que a respeitabilidade da fonte das informações implica a aceitação dos conhecimentos, como é o caso das escrituras bíblicas - e, com origem científica - em que tanto o processamento dado às informações, como a aceitação dessas informações como verdadeiras, ou seja, como conhecimento, oferecem outras exigências.

Apesar do conhecimento científico estar sujeito a graus elevados de exigência quanto aos pontos apresentados (natureza do processamento da informação e aceitação das informações como verdadeiras), é possível distinguirem-se dentro do método científico diferentes níveis de constrangimento, tanto na forma como a informação é processada ao longo das várias fases da investigação científica, como também, nos controlos impostos relativamente à validade e, consequente aceitação dos conhecimentos. Por níveis de constrangimento entende-se o grau de limites ou controlos que o investigador estabelece para qualquer uma das fases do processo da investigação (Graziano & Raulin, 1989). Refira-se que uma investigação científica se compõe por várias fases a saber: a formulação de

ideias ou problemas para a investigação; a definição do problema ou hipótese a investigar; o estabelecimento de procedimentos a utilizar; a recolha dos dados; a análise dos dados; a sua interpretação; e ainda, a comunicação da investigação.

Segundo Graziano e Raulin (1989) existem na Ciência vários métodos que nos permitem conhecer o real e que podem ser caracterizados quanto ao seu nível de constrangimento. Assim, e do nível mais baixo para o nível mais elevado de constrangimento, temos então a Observação Naturalista, o Estudo de Caso, a Investigação Correlacionai, a Investigação Diferencial e a Investigação Experimental. Sendo que: na Observação Naturalista e no Estudo de Caso o investigador preocupa-se com a identificação de contingências, ou seja, com a relação de probabilidade entre variáveis; na Investigação Correlacionai o investigador preocupa-se com a direcção e ligação das relações entre duas ou mais variáveis; na Investigação Diferencial, por sua vez, o investigador procura determinar diferenças entre grupos estudados; por fim, na Investigação Experimental são as questões de causalidade entre variáveis que movem o investigador.

Deste modo, os controlos aplicados numa investigação do tipo naturalista (em que o investigador observa os sujeitos, com o menor grau possível de interferência, no seu meio natural) são substancialmente menores e mais flexíveis do que os necessários numa investigação experimental (em que o investigador manipula variáveis à procura de relações de causalidade entre elas).

Acrescente-se, ainda, que cada um destes métodos subentende, por sua vez, e correspondentemente, diferentes níveis de constrangimento para cada

uma das fases expostas.

Coloca-se então a questão de sabermos que metodologia usar - de baixo ou de elevado constrangimento - para o estudo de um determinado fenómeno. Como já enunciámos, nas primeiras fases de qualquer investigação científica o investigador procura definir o objecto de estudo colocando, inicialmente, várias questões que gostaria de aprofundar e, após o refinamento destas questões

iniciais chega, na maior parte dos casos, a um problema ou hipótese que pretende analisar1. Assim, decidir o tipo de metodologia a aplicar depende da

complexidade das questões colocadas inicialmente. Se são complexas e precisas, então as consequentes fases da investigação irão exigir um maior controlo e precisão - o que só se consegue fazer empregando metodologias de elevado constrangimento. Se, por outro lado, forem de menor complexidade, os procedimentos poderão então ser mais flexíveis e com menores exigências ao nível do controlo imposto na recolha, análise e interpretação dos dados - sendo mais adequada a aplicação de metodologias de baixo constrangimento.

Vejamos os seguintes exemplos.

Suponhamos que pretendemos saber se crianças pequenas (entre 3 e os 6 anos) manifestam comportamentos ecológicos (ligados à protecção do ambiente) e que manifestações são essas. Neste caso, a melhor opção será o uso de metodologias de baixo constrangimento. Assim, poder-se-ia fazer um estudo de caso em que se iria observar um grupo de crianças2 - num

infantário, por exemplo - de forma a perceber da existência ou ausência desses comportamentos, e na ocorrência destas manifestações, proceder-se-ia à sua descrição e caracterização.

Se, e ainda tomando o mesmo exemplo, o que quisermos saber é se os documentários televisivos sobre a matéria implicam a manifestação destes comportamentos. Então, o mais adequado é a utilização de uma metodologia de elevado constrangimento na qual se procura saber se A (documentários televisivos) causa B (comportamentos ligados à protecção do ambiente). Para

isso teríamos que, para além de outros cuidados e preceitos metodológicos, manipular a variável independente - documentários televisivos - e ver o seu efeito na variável dependente - comportamentos ecológicos. Isto implicaria a presença de dois grupos de crianças: num grupo manipula-se a variável independente, ou seja, as crianças seriam submetidas aos referidos documentários televisivos, e no outro grupo a variável independente não é

1 Estudos há nos quais a formulação de hipóteses pode não existir.

manipulada. A avaliação dos comportamentos dos dois grupos de sujeitos permitiria, deste modo, testar a hipótese inicialmente colocada. Os procedimentos levados a cabo exigem um elevado nível de rigor e controle de forma, também, a que as interferências de variáveis externas sejam mínimas, ou estejam perfeitamente identificadas e quantificadas. As variáveis externas são factores externos à investigação e que podem exercer influência, tanto no comportamento do sujeito, como no do observador, reduzindo a validade do estudo. Para minimizar estes efeitos o investigador recorre a métodos sistemáticos aos quais se denomina por controlo na investigação.

Contudo, há ainda no seio da comunidade científica divergências quanto à validade dos resultados conforme têm origem nas investigações de baixo ou elevado constrangimento.

Assim, há quem coloque em causa o interesse das metodologias de baixo constrangimento argumentando sobretudo a sua falta de rigor científico e, consequentemente, a relativa validade das informações, preferindo ou defendendo, portanto, as metodologias de níveis de constrangimento elevado.

Há, por outro lado, quem defenda o uso das metodologias de baixo constrangimento com base no fundamento de que as metodologias de elevado constrangimento não avaliam efectivamente o comportamento dos sujeitos pois os contextos de observação e avaliação do comportamento são criados para esse efeito pelo investigador, o que as reveste de um carácter artificial e

desfasado dos contextos reais de vida dos sujeitos.

Como já foi anteriormente referido, a escolha da metodologia a usar numa investigação depende, em primeiro lugar, da complexidade das suas questões e, assim sendo, haverá casos em que é mais adequado escolher metodologias de baixo constrangimento, e noutros casos são as metodologias de elevado constrangimento que mais satisfatoriamente dão resposta às questões

colocadas. Assim, consideramos descabido defender um ou outro tipo de metodologia, até porque situações existem em que é aconselhável o uso de ambas numa relação de complementaridade. Assim vejamos os seguintes exemplos:

quando a investigação a fazer incide numa nova área em estudo na qual existem poucos dados, o procedimento mais ajustado poderá consistir, inicialmente, numa investigação de baixo constrangimento donde se recolhem dados novos, descritivos e contingências acerca de determinado fenómeno e que, à posteriori, podem ser usadas como ponto de partida para a elaboração de questões a aprofundar de uma forma mais rigorosa e controlada através de metodologias de níveis mais elevados de constrangimento;

outro exemplo de que o uso de uma metodologia não invalida a aplicação de outra e que a sua conjugação poderá ser vantajosa na validade dos resultados diz respeito à situação em que, após uma investigação de constrangimento elevado, se procede a um estudo de caso com o objectivo de verificar se os resultados obtidos em laboratório se verificam em contextos naturais.