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A identificação de crianças resilientes e de crianças vulneráveis na amostra seleccionada fez-se a partir de duas variáveis: estatuto de risco e nível de desenvolvimento.

A primeira variável - estatuto de risco - surge da necessidade de avaliar o estatuto de risco das treze crianças que compõem a nossa amostra, já que, os factores de vulnerabilidade e de protecção não têm efeitos em populações de baixo risco (Rutter,1990).

As crianças da nossa amostra residem todas no Bairro de S. João de Deus, na Cidade do Porto. Este é um meio onde prolifera a pobreza e a pobreza "...fornece inevitavelmente uma plenitude de factores de stress..." (Cicchetti&Garmezy, 1993,p.497)

Embora soubéssemos com alguma segurança que estávamos perante um grupo de crianças que, quase na generalidade, pertencem a famílias onde a privação económica e social é evidente, foi necessário avaliar se estávamos, efectivamente, na presença de crianças com estatuto de alto risco.

Assim, a variável estatuto de risco constitui uma variável de triagem entre as crianças de alto e de baixo risco e, no âmbito deste estudo, como se pode ver, só interessava prosseguir com as crianças de alto risco.

A segunda variável - nível de desenvolvimento - constitui a variável que considerámos como indicadora da resiliência e da vulnerabilidade.

Partindo da definição da resiliência como "o processo, capacidade ou resultado de uma adaptação bem sucedida face a desafios ou circunstâncias ... Bom resultado face a estatuto de alto-risco..." (Masten.Best&Garmezy, 1990,p.426) procedemos à avaliação do nível de desenvolvimento através de

uma escala de avaliação do desenvolvimento estandardizada. Foram resultados dessa avaliação que explorámos como indicadores da resiliência e da vulnerabilidade: definimos um valor que separava os resultados e, daí, considerámos que as crianças cujo nível de desenvolvimento estava acima desse valor, apontava no sentido da resiliência, e as crianças cujo nível de desenvolvimento estava abaixo, apontava no sentido da vulnerabilidade.

1.2. Instrumentos

A avaliação das variáveis definidas neste primeiro momento de recolha de dados foi realizada através de dois instrumentos - Escala de Avaliação do

Estatuto de Risco a partir da Life Event Checklist (Werner&Smith,1992) e Escala de Avaliação do Desenvolvimento de Ruth Griffits.

1.2.1. Escala de Avaliação do Estatuto de Risco

Para avaliar o estatuto de risco das crianças da nossa amostra utilizámos a Escala de Avaliação do Estatuto de Risco que foi construída a partir da Life

Event Checklist (Werner & Smith, 1992).

Esta escala consiste numa listagem de 24 eventos geradores de stress5 e

serviu para identificar e quantificar os eventos geradores de stress ocorridos na vida das crianças da nossa amostra. Existe ainda uma parte destinada a assinalar a idade da criança aquando da ocorrência dos eventos (ver Anexo I). Este dado permite contextualizar cronologicamente os acontecimentos, o que se insere no quadro das recentes perspectivas teóricas acerca do desenvolvimento e que consideram nas suas análises o factor tempo, isto é, "o estádio de desenvolvimento em que uma experiência de vida particular ocorre" (Anthony, 1982).

Este instrumento cobre diversas situações desde as condições económicas, ambiente familiar, perda ou afastamento de membros familiares, psicopatologia dos pais, etc..

Gostaríamos de salientar que tanto na abordagem ecológica como na abordagem do ciclo de vida é enfatizada a interdependência das vidas, ou seja, "eventos críticos ocorridos na vida de uma geração tocam as vidas de outra geração" (Moen&Erickson, 1995,p. 175).

Consideramos, portanto, que a recolha - através de uma Life Event

Checklist - de eventos de vida que pressupõem elevados níveis de stress (e

que dizem respeito a todo o grupo familiar) está também enquadrada dentro desta perspectiva da interdependência das vidas.

Enquadrada na abordagem ex post facto tão comum aos Estudos de Caso, esta escala permite obter uma análise discriminada de vários eventos que, pela sua natureza, serão uma fonte de stress para a criança e sobre os quais ela não tem controlo6 Na opinião de alguns autores (por exemplo,

Masten et ai, 1988; citado por Luthar, 1991,p.602) o uso, em exclusivo, de eventos geradores de stress sobre os quais os sujeitos não têm controle (por exemplo, ausência prolongada da mãe) tem a vantagem de evitar confusões com possíveis resultados desses mesmos sujeitos (por exemplo, reprovação escolar como evento gerador de stress quando, simultaneamente, o sucesso escolar é usado como indicador da competência).

Uma das críticas que tem sido apontada a este tipo de instrumento é que, muito embora ele permita saber com alguma exactidão o tipo de eventos, o seu número e quando ocorreram, não possibilita, mesmo assim, ter conhecimento do significado desses eventos para a pessoa. O uso complementar de entrevistas pode ajudar a colmatar esta deficiência. Para além disso, a entrevista pode também permitir obter conhecimentos mais aprofundados sobre os factores de stress e seus efeitos - tanto os que estão referidos na Life

6 Refira-se que existe um evento " problemas no infantário" sobre o qual teoricamente a criança

pode ter algum controlo; todos os outros eventos constituem situações sobre as quais a criança não tem controlo.

Event Checklist, como outros não contemplados - bem como sobre factores de

protecção que possam mediar o impacto das experiências geradoras de stress.

Convém ainda explicar, no âmbito desta escala que, para além da tradução que fizemos da Life Event Checklist (Werner&Smith,1992) também seleccionámos os itens relativos à faixa etária estudada. Enquanto a versão original foi aplicada, no estudo de Kauai, a indivíduos entre os 30 e os 32 anos de idade, a nossa amostra é constituída por crianças entre os 3 e os 6 anos de

idade.

Alguns dos estudos que recorrem a este tipo de instrumento (casos há em que têm a designação de Life Events Questionnaire, em vez de Life Event

Checklist, como em Garmezy,Maten&Tellegen,1984) optam por confinar a sua

análise ao período de um ou dois anos imediatamente antes do preenchimento da Life Event Checklist. No nosso caso, este período abrange toda a vida da criança, desde o seu nascimento, incidindo portanto em eventos recentes, bem como em acontecimentos mais distantes no tempo. Porque as crianças são muito pequenas, optou-se por esta abordagem (como na investigação citada de Werner e Smith) com o intuito de tentar captar o maior número de elementos que podem afectar o normal funcionamento familiar e que são susceptíveis de provocarem stress na criança.

A contagem do número de eventos registados permitiu avaliar o estatuto de risco da seguinte maneira:

crianças de baixo-risco - aquelas cujo total de factores assinalados foi inferior a quatro.

crianças de alto-risco - aquelas cujo total de factores assinalados foi igual ou superior a quatro.

Porque "parece haver uma medida de acordo entre autores cie que 4 ou mais factores de risco estarão certamente correlacionados com o aparecimento de desordens" (Rae-Grant,1998, p.42) foi este o valor que usámos na definição do estatuto de risco. Desta forma, usámos um critério de risco múltiplo, já que

nos concentrámos na quantidade de eventos geradores de stress e não em tipos específicos de risco como, por exemplo, a psicopatologia ou o desemprego dos pais das crianças analisadas.

1.2.2. Escala de Avaliação do Desenvolvimento

Para avaliar o nível de desenvolvimento das crianças da nossa amostra utilizámos a Escala de Desenvolvimento de R. Griffiths (1986, versão 2-8 anos de idade) numa adaptação provisória realizada por Castro & Gomes (1996) na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

A Escala de Desenvolvimento de R. Griffiths (1986) permite obter informações sobre o Quociente Global e os Sub-Quocientes Parciais de Desenvolvimento das crianças. A versão utilizada é constituída por 216 itens e, por cada ano de idade que a criança tenha, são-!he apresentados 36 itens sob a forma de tarefas que tem que resolver. Estes itens estão distribuídos por seis sub-escalas, a saber: A- locomotors; B - pessoal-social; C- audição e fala; D-

coordenação óculo-manual; E- performance; F- raciocínio prático. Existindo um

total de 36 itens para cada sub-escala, a cotação é efectuada em meses fazendo corresponder a cada item dois meses de idade.

No final obtém-se uma Idade Mental em meses tanto para cada sub- escala, como para o geral, que permite calcular respectivamente os Sub- Quocientes (que correspondem às seis sub-escalas descritas), e o Quociente Geral de Desenvolvimento.

Foi através do Quociente Geral de Desenvolvimento fornecido por este instrumento que se chegou ao Nível de Desenvolvimento das treze crianças da nossa amostra.

Como já referimos, tomámos neste estudo como indicador da resiliência e da vulnerabilidade o estatuto de alto-risco conjugado com o nível de desenvolvimento - calculado a partir dos valores de Quociente Geral de

Desenvolvimento.

Sabendo que nesta escala está previsto a média deste quociente ser de 100 pontos, com um desvio padrão de 15 pontos, partimos do pressuposto que um Quociente Geral de Desenvolvimento igual ou superior a 100 apontava no sentido da resiliência; sendo que os resultados abaixo desse valor sugerem a vulnerabilidade. Considerámos também que à medida que os valores obtidos se afastam para níveis superiores ou inferiores a 100, mais apontam a tendência no sentido da resiliência ou da vulnerabilidade, respectivamente. Neste enquadramento, um quociente geral de desenvolvimento de 112 valores, por exemplo, é mais indicativo da resiliência do que um quociente geral de desenvolvimento de 103 valores. E, um quociente geral de desenvolvimento de 89 valores é mais indicativo da vulnerabilidade do que se os valores foram de 95.

1.3. Procedimento

1.3.1. Escala de Avaliação do Estatuto de Risco

A Escala de Avaliação do Estatuto de Risco foi aplicada às mães e/ou responsáveis7 pelas treze crianças da nossa amostra.

Este instrumento foi incluído na entrevista realizada junto das mães e/ou responsáveis pela criança que é constituída por quatro partes distintas: Questionário de Caracterização da Criança e dos seus Contextos de Vida; Escala de Avaliação do Estatuto de Risco; Descrição da Criança Feita pela Mãe; Escala de Avaliação das Respostas a Situações Disciplinares.

As entrevistas realizadas com as mães e/ou responsáveis pelas crianças decorreram durante os meses de Setembro e Outubro de 1998. Foram conduzidas individualmente, com cada mãe e/ou responsável pela criança, e

7 Refira-se que 4 das 13 crianças objecto deste estudo vivem com famílias não biológicas e

que nestes casos se prosseguiu a entrevista com a pessoa que está encarregue pelos cuidados diário prestados à criança (com a qual vivem): em três crianças foram as tias, e noutro a vizinha. Com as 9 crianças que vivem em famílias biológicas foram as mães que nos forneceram os dados necessários.

tinham a duração média de duas horas cada uma. Antes de iniciarmos cada entrevista explicámos às mães e/ou responsáveis pelas crianças que as informações por elas fornecidas se destinavam a ser analisadas no âmbito deste estudo; que se garantia o anonimato das pessoas envolvidas; e que não era obrigatório a responder a todas as questões. Também perguntámos se não se importavam que fosse usado um gravador para registar a entrevista. Contudo, salientámos, que se houvesse informações que não quisessem que fossem gravadas se desligaria o gravador. Todas as mães e/ou responsáveis pelas crianças deram autorização para utilizar o gravador e desta foram as entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas.

1.3.2. Escala de Avaliação do Desenvolvimento

A administração da Escala de Avaliação do Desenvolvimento de R. Griffiths (1986) decorreu entre Novembro e Dezembro de 1998. Esta tarefa foi levada a cabo por cinco psicólogas das quais se tinha referências da sua experiência na avaliação de crianças feita através desta escala.

Por forma a tornar a situação de avaliação o menos constrangedora possível para as crianças, esta situação foi-lhes previamente apresentada pela educadora - que assumimos como uma pessoa próxima, familiar e da confiança da crianças - como sendo uns jogos divertidos que iam poder fazer.

O clima que antecedia a avaliação pareceu-nos descontraído, pois, quando as psicólogas entravam na sala das crianças ouvia-se quase que em uníssono "hoje sou eu, não sou?!", "Eu! Eu! hoje deixe-me ser eu!".

As crianças foram avaliadas individualmente noutros do mesmo edifício (mas que também lhes eram familiares),8 de modo, a controlar algumas

variáveis externas como sendo: a reactividade originada pela possível

8 Uma sala foi a "sala das grávidas", como é conhecida, e que é a sala onde se faz a preparação

p s ^ o p r S t S para o parto. A segunda sala foi o gabinete das técnicas utilizado quando se faz.a mais do que uma avaliação em simultâneo.

observação dos seus colegas, da educadora ou da auxiliar de acção educativa; a interrupção por parte dos colegas; o barulho que poderia eventualmente dificultar a capacidade de atenção por parte da criança a ser avaliada; e até mesmo como forma de evitar a resposta antecipada por algum colega. Para além disso, o facto da aplicação da escala ser realizada a cada criança individualmente evita situações aprendizagem antecipada da resolução das tarefas apresentadas na escala por observação dos colegas.

2. Segundo Momento: Caracterização dos Factores de Risco e de