Após termos situado esta metodologia no campo das investigações (com base na classificação de Graziano & Raulin, 1987), considerámos necessário descrevê-la mais pormenorizadamente de modo a facilitar a compreensão do estudo empírico realizado, bem como das razões que estiveram na origem da nossa escolha. Aqui pode-se encontrar uma definição do que é um estudo de caso; quais as características que, quanto a nós se salientam; e, por último, os tipos de estudo de caso existentes, tal como são sugeridos por Stake (1994).
3.1. Definição
Um estudo de caso pode assumir contornos mais simples ou mais complexos, pode desenrolar-se num curto espaço de tempo ou prolongar-se por vários anos, mas destaca-se por ser "uma unidade dentro de um sistema mais amplo" (Goode & Hatt, 1968; citado por Ludke & André, 1986).
Um estudo de caso pode ser levado a cabo sob diferentes pontos de vista e, assim sendo, podem ser estudos qualitativos, quantitativos ou a combinação dos dois. A este propósito Stake (1994) refere que o médico, por exemplo, estuda a criança porque a criança está doente - os sintomas da doença são de ordem qualitativa e quantitativa, mas predominam os registos de cariz quantitativo; o assistente social ao estudar a criança negligenciada considera os sinais qualitativos e quantitativos, predominando os registos qualitativos.
Para todos os efeitos, o mais importante não é a forma como o caso é investigado mas o próprio caso em si e o que este permite em termos de conhecimento.
3.2. Características
Uma das características presentes num estudo de caso é, sem dúvida, a sua singularidade. Embora possam existir outros casos semelhantes, um caso é sempre particular e único. A exploração dessa singularidade é de facto um aspecto a salientar neste tipo de metodologia.
Stake (1994) expõe vários domínios que no estudo de caso são interceptados pela singularidade: a natureza do caso; os antecedentes históricos do caso; o cenário físico onde tem lugar; os contextos que envolvem o caso como, por exemplo, o contexto político e económico; e as fontes de informação que possibilitam a realização do estudo.
Outro ponto a realçar no estudo de caso são as suas fronteiras. Para que se reconheça a "unidade dentro de um sistema mais amplo" é necessário definir bem os seus limites. Refere Stake (1994) que, quanto mais o caso estudado for específico, singular e confinado, maior é a sua utilidade epistemológica.
No entanto, a tarefa de delimitação das fronteiras do objecto de estudo nem sempre é fácil, já que se subentende a existência de relações entre o caso estudado e o sistema que o integra. Nem sempre é evidente onde começa e acaba a unidade de estudo, e onde começa e acaba o sistema: existem figuras, contextos e acontecimentos que deambulam nas suas fronteiras. Cabe assim ao investigador decidir e seleccionar o que constitui o caso e o que é significativo para a unidade estudada, com base nos objectivos previamente definidos.
Ao investigador interessa estudar a complexidade de determinado caso com fronteiras temporais (período de tempo alargado ou um episódio) e sociais (um indivíduo, um pequeno grupo, ou uma nação). Mas, mesmo tendo conseguido definir bem o que constitui o caso a estudar, depara-se com uma multiplicidade de subcasos. Se se escolhe um escola para efectuar um estudo de caso, nessa escola existem os grupos de alunos, os grupos de professores e de outros funcionários, e também as unidades individuais - um aluno, um
professor. O estudo de caso pode envolver ocasiões e contextos específicos - por exemplo, as festas - ou situações mais amplas e comuns - por exemplo as aulas ou os recreios. O investigador terá que decidir face à multiplicidade das informações e à pluralidade de domínios o que interessa realçar da complexidade de um caso. A selectividade dos dados é, portanto, fundamental.
Outra característica dos estudos de caso é que, pelo interesse em expor a sua singularidade e complexidade, são normalmente muito analíticos.
3.3. Tipos de Estudos de Caso
Os diferentes objectivos pelos quais os investigadores utilizam o estudo de caso traduzem-se, segundo Stake (1994) em três tipos de estudos de caso: a) intrínseco; b) instrumental; c) colectivo.
a) O Estudo de Caso Intrínseco
Subjacente a este tipo de estudo de caso está o interesse primordial em compreender um caso pela sua especificidade e singularidade. O que conduz o investigador a levar a cabo um estudo de caso intrínseco não é o estudo de determinado fenómeno ou conceito, nem o facto daquele caso poder ilustrar outros casos. São as características intrínsecas do próprio caso que despertam a atenção do investigador. Se um investigador se debruça sobre a cura para a sida e tem conhecimento de um indivíduo que, pelo menos aparentemente, se curou da enfermidade, então será de todo o interesse estudar esse sujeito em particular. Estes estudos de caso habitualmente não são escolhidos pelo investigador.
b^ O Estudo de Caso Instrumental
Quando um estudo de caso incide numa unidade com o intuito de compreender determinado fenómeno ou teoria, então está-se perante um estudo de caso instrumental. Como o termo instrumental sugere, o caso serve, aqui, como veículo para o estudo de algo. A unidade estudada constitui um
instrumento, um suporte de informação para o investigador e, como tal, assume um papel secundário face ao que ele permite conhecer. Porque se espera que forneça informações úteis sobre determinado assunto, é natural que grande parte destes estudos sejam seleccionados pelo investigador. Refira-se, porém, que muitas vezes não existem fronteiras rígidas entre os estudos de caso intrínsecos e instrumentais, e que os dois até se podem combinar o que impede uma distinção clara e precisa.
c) Os Estudos de Caso Colectivos
Situações há em que vários estudos de caso instrumentais são levados a cabo ao mesmo tempo. Quando isto se verifica está-se na presença de um estudo de caso colectivo. São, deste modo, vários estudos de caso realizados em conjunto e nos quais se acentua o menor interesse relativamente aos anteriores na especificidade do caso.