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A origem deste estudo está intimamente relacionada com as observações, experiências e práticas surgidas no decurso do projecto em que trabalhamos, no Bairro de S. João de Deus, bairro este situado na parte oriental da cidade do Porto.

O Projecto "naScER e creScER" é um dos muitos projectos desenvolvidos a nível nacional no âmbito do Programa Ser Criança, da Direcção Geral de Acção Social, e é promovido pelo Centro Claretiano de Apoio à Infância, Juventude e Família - instituição que também promove o Projecto de Luta Contra a Pobreza no Bairro de S. João de Deus.

O Projecto "naScER e creScER", que teve início em Abril de 1997 pretende, genericamente, intervir o mais precocemente possível sobre factores de risco. É constituído por quatro Acções que se destinam, predominantemente e de forma mais directa1 a: mulheres grávidas, crianças dos 3 aos 6 anos de

idade, e mulheres responsáveis pelos cuidados prestados a crianças. Essas Acções são as seguintes:

Acção n°1: Criação e funcionamento de um Atelier de Actividades Lúdico-Educativas para 15 crianças, entre os 3 e os 6 anos de idade, do Bairro de S. João de Deus;

Acção n°2: Formação/Informação no âmbito do Desenvolvimento e Educação Infantil para mulheres responsáveis pelos cuidados prestados a crianças;

1 Dizemos predominantemente porque, em vários momentos deste Projecto e, sempre que

possível, as actividades desenvolvidas no âmbito das Acções alargavam-se a um maior número de crianças (mesmo de outras faixas etárias), e às famílias dos utentes. Alturas houve em que as mesmas estavam abertas à população residente em geral.

Acção n°3: Formação/Informação para grávidas e que inclui Preparação Psicoprofiláctica para o Parto, a partir do 6o mês de

gravidez;

Acção n°4: Investigação sobre a temática da resiliência em crianças de meios caracterizados pela pobreza2.

Desde há algum tempo que o tema das crianças em risco se nos tinha vindo a afigurar como um desafio, no sentido de uma maior compreensão sobre este assunto. Contudo, a nossa visão sobre este tema era que crianças de meios socialmente desfavorecidos - como é o caso do Bairro de S. João de Deus - estavam, quase na generalidade, sujeitas a elevados factores de risco ambiental, e que os seus efeitos negativos ao nível do desenvolvimento eram dificilmente contornáveis. Apesar do conhecimento das Teorias da [Educação Compensatória e, apesar das críticas que lhes eram apontadas - e com as quais estávamos de acorde e supostamente sensibilizados - não podemos deixar de admitir que os primeiros passos neste terreno foram dados no sentido de quebrar o ciclo desses efeitos negativos, fornecendo experiências diferentes daquelas a que estas crianças estavam habituadas, ou seja, enquadradas na perspectiva da Educação Compensatória.

Contudo, a observação e a experiência diária com as crianças que frequentavam o referido Atelier começaram por nos fazer questionar as nossas convicções na medida em que aquelas crianças - em alguns casos mais notoriamente que noutros - não pareciam estar tão afectadas quanto pressupúnhamos à partida, pelos diversos factores de risco que sabíamos fazer parte das suas vidas. É neste momento que fazemos a descoberta de um conceito até então desconhecido para nós: RESILIÊNCIA.

As primeiras leituras efectuadas despertaram-nos interesse e motivação sobretudo sobre o conceito de resiliência entendido como o desenvolvimento positivo apesar das adversidades do meio. Como já foi anteriormente

Dado que o momento em que frequentámos o Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Educação da Criança - Intervenção Precoce - coincidiu com a elaboração deste Projecto pareceu-nos que a ligação entre estas duas situações seria vantajosa nos dois sentidos e, assim, surgiu esta Acção.

exposto, apesar de a definição de resiliência poder apresentar variações, ainda que dentro do mesmo quadro conceptual, esta foi a definição que mais nos interessou3

Então porque é que, face ao risco, umas crianças são vulneráveis e outras lhe parecem resistir? Porque é que umas parecem sucumbir às adversidades, enquanto que outras conseguem manter desempenhos e percursos positivos do ponto de vista desenvolvimental? O que está por detrás da resiliência? Quais os factores envolvidos na resiliência? Que características apresentam as crianças resilientes? Quais os factores de risco a que estão sujeitas? E quais os factores que, eventualmente, as protegeriam? Que diferenças e que semelhanças existem relativamente a estes factores entre estas e as outras crianças?

Todas as questões implicavam saber se naquele grupo de crianças existiam crianças resilientes. Embora este fosse uma amostra reduzida, seria possível, ali mesmo, encontrar crianças resilientes?

Queremos salientar que assumimos o estudo de caso aqui exposto como um estudo exploratório sobre os factores de risco e de protecção envolvidos na resiliência e na vulnerabilidade. Os dados obtidos circunscrevem-se ao grupo analisado e constituem pistas e sugestões no âmbito da compreensão do fenómeno da resiliência e da vulnerabilidade.

É também necessário realçar que os resultados deste estudo se referem a um único período de avaliação dos indicadores da resiliência e da vulnerabilidade, bem como, dos factores de risco e de protecção que consideramos na nossa análise.

3 Admitimos, no entanto, que muitas das crianças sujeitas a elevados factores de risco

sucumbem face ao peso desses factores, e acrescentamos que se nelas próprias, ou à sua volta, existirem factores que a protejam, o rumo do seu desenvolvimento pode dar-se dentro dos parâmetros considerados normais, e conseguirem mesmo ter desempenhos acima do normal, como poderemos constatar mais à frente.

Na nossa opinião, e de acordo com o que alguns autores têm referido, avaliações feitas num único período de tempo são insuficientes para designar crianças resilientes" (Farber&Egeland,1987) ou vulneráveis - acrescentamos nós. A literatura tem demonstrado a existência de flutuações nos comportamentos resilientes - indivíduos que num dado período de desenvolvimento manifestam comportamentos resilientes podem, num outro momento, apresentar padrões de comportamento menos adaptativos. Assim sendo, a determinação mais rigorosa e completa dos indivíduos resilientes passa pela avaliação dos mesmos, ao longo de vários períodos do desenvolvimento. Consideramos que o mesmo pode ser dito relativamente aos indivíduos vulneráveis.

Pelo exposto, sublinhe-se que designação e identificação de crianças resilientes e vulneráveis neste estudo não constitui uma classificação absoluta e definitiva. Assumimos ser possível haver alterações no estatuto de criança resiliente ou vulnerável aqui proposto, se outros estudos forem realizados no futuro. A resiliência e a vulnerabilidade resultam da interacção entre os factores constitucionais e ambientais ao longo do tempo e não podemos prever como esses factores se irão combinar ao longo da trajectória desenvolvimental das crianças que constituem a nossa amostra.

Saliente-se, portanto, que o uso da nomenclatura - crianças resilientes e crianças vulneráveis - se prende essencialmente com questões de simplificação da leitura e tratamento dos dados. Até porque este é um estudo exploratório, com avaliações efectuadas num único período de tempo e, consequentemente, os resultados obtidos neste estudo apenas apontam tendências - no sentido da resiliência ou da vulnerabilidade.