• No results found

Contudo, muitos outros progressos participaram desse formidável desen- volvimento da rizicultura aquática: o transplante do arroz previamente semeado e cultivado em viveiros de pequena dimensão, encurtou o tempo de ocupação do arrozal e facilitou o aumento do número de colheitas anuais.

Marcel Mazoyer • Laurence Roudart

168

A utilização da tração animal e posteriormente da tração motorizada para lavrar, misturar e aplainar o solo antes da transplantação contribuiu também para que se ganhasse um tempo precioso. Enfi m, a seleção de variedades que não fossem foto-periódicas (ou seja, pouco sensíveis à duração relativa do dia e da noite, e logo cultiváveis em todas as estações e em latitudes variadas), e de variedades de ciclo vegetativo muito curto, permitiu efetuar mais de três cultivos de arroz por ano.

Da superfície de água natural aos vastos ordenamentos dos vales e dos deltas, toda uma gama de sistemas hidráulicos nasceram combinando diversamente quadros rizícolas, terraços, diques, eclusas, barragens de derivação, barragens-reservatórios, canais de irrigação e de drenagem. Os grandes conjuntos hidráulicos das regiões rizícolas têm uma arquitetura diferente daquela dos grandes vales das regiões áridas, mas possuem a mesma envergadura e deles surgiram formas de organização social e política comparáveis (ver Capítulos 4 e 5).

Notemos, contudo, que as grandes civilizações hidrorizícolas da Ásia das monções começaram a se desenvolver mais de dois milênios depois das civilizações hidroagrícolas dos vales do Indo, do Tigre, do Eufrates e do Nilo. Na China, as primeiras cidades-estados hidráulicas teriam aparecido dois mil anos antes de Cristo. Nas regiões do médio rio Amarelo, situadas próximas ao centro de origem chinês. Essas cidades foram unifi cadas num primeiro embrião de império sob a dinastia Shang (séculos XVII-XI a.C.). Porém, os historiadores somente falam de uma verdadeira civilização hidror- rizícola a partir do período seguinte (séculos XI-III a.C.), durante os quais uma dezena de reinados hidráulicos e construtores de muralhas teriam se constituído e combatido até que o mais poderoso dentre eles, o reino dos Quing (de 249 a 206 a.C.) impôs sua supremacia e sua administração a toda a China, da Grande Muralha até o Cantão.

Na Índia, o arroz era cultivado a leste 2.000 anos a.C., mas a primeira civilização hidroagrícola do vale médio do Gange só surgiu 800 anos a.C. A emergência dessa civilização foi seguida pela penetração ariana que começara vários séculos antes, mais ou menos 1.500 anos a.C. Vindos do norte do Irã onde seus rebanhos exploravam as estepes pouco produtivas e pouco propícias ao cultivo, as tribos de pastores arianos invadiram pre- cedentemente o vale do Indo onde acredita-se terem provocado a destrui- ção das grandes cidades hidráulicas que ali existiam (Mohendjo-Daro e Harappã). Depois, passando pelo Pendjab, colonizaram em ondas sucessivas as grandes fl orestas quase intactas do vale do Gange e do noroeste da Índia, ainda ocupadas por comunidades de caçadores e pescadores que às vezes praticavam cultivos temporários com o sistema de derrubada-queimada. Assim procedendo, os imigrantes tiveram que abandonar o nomadismo pas- toril, se sedentarizar, adotar o complexo cultural da fl oresta tropical úmida (dentre eles Oryza sativa), e estender durante vários séculos seus desmata-

História das agriculturas no mundo

mentos antes de dar fi m ao ecossistema arborizado. Logo após se formaram os primeiros sistemas agrários pós-fl orestais e as primeiras cidades-reinos hidráulicas do vale do Gange. No sexto século antes de Cristo, um desses reinos, (o Moghada) começou a submeter e a unifi car seus vizinhos para formar, no quarto século antes de Cristo, um império que ocupou todo o vale do Gange e dois séculos mais tarde, se estendia do Indo até o golfo de Bengala, e do Himalaia aos três quartos da península do Deccam.

Durante o primeiro milênio d.C, toda uma série de outras cidades estados hidráulicas e rizícolas se constituíram, de maneira autônoma ou por dis- persão, na península indo-chinesa, no Japão, na Indonésia até Madagascar. Se a China exerceu uma infl uência técnica e comercial sobre muitas dessas civilizações, a Índia lhes forneceu com frequência certos elementos de sua cultura (escrita, religião, arte, política e administração).

5 PROBLEMAS DE DESENVOLVIMENTO DOS

ATUAIS SISTEMAS AGRÁRIOS FLORESTAIS

Na maior parte das regiões do mundo outrora arborizadas, os sistemas de cultivo de derrubada-queimada cederam lugar, depois de muito tempo, a outros tipos de sistemas: sistemas hidroagrícolas das regiões áridas, siste- mas com alqueive em associação a criação animal das regiões temperadas, sistemas de cultivo com enxada com ou sem criação animal das regiões tropicais, sistema hidrorrizícolas das regiões tropicais úmidas etc.

Todavia, os sistemas de cultivo de derrubada-queimada continuam a existir nas fl orestas intertropicais ainda em nossos dias. No entanto, devido à insufi ciência de seu instrumentos e de sua produtividade, esses sistemas estão hoje ameaçados pela concorrência econômica das agriculturas mais poderosas. Além do mais, sua existência é questionada pelos avanços rápidos do desfl orestamento. A questão de sua sobrevivência e de seu aperfeiçoa- mento, e a questão do desenvolvimento de sistemas pós-fl orestais capazes de substituí-los é colocada de maneira urgente. Os conhecimentos adquiri- dos neste capítulo nos permitem analisar os problemas atuais dos sistemas fl orestais, e de conceber estratégias de desenvolvimento a eles convenientes.