Pode-se pensar que a estruturação mais extensa de partes do vale em bacias tenha começado na metade do sexto milênio, sob a égide das primeiras cidades-Estado. Pequenos trechos do vale, ou melhor, meios-trechos de vale, situados de ambos os lados do rio, teriam sido organizados em uma sucessão de bacias mais ou menos quadrangulares, separadas por diques e escalonadas conforme o declive do terreno. Esses trechos de vale assim organizados podiam ser protegidos das fortes cheias por um dique longi- tudinal que permitia elevar os diques naturais existentes nas margens e, se necessário, por um dique transversal reforçado, situado na montante. Cadeias de bacias transversais
Essas sucessões, ou encadeamento de bacias podiam ser transversais. Nesse caso, as bacias se sucediam, abaixando-se, desde os diques existentes na margem e os espessos solos lodosos do centro do vale até as margens do deserto. Aberturas feitas nos diques de margem desembocavam diretamente na primeira bacia mais elevada, que assim podia alimentar com água da
Marcel Mazoyer • Laurence Roudart
186
cheia as bacias que se sucediam em nível inferior. Mas a ordem segundo a qual as bacias eram preenchidas não era aleatória: começando sempre pela primeira, mais central, que funcionava como bacia de decantação. Nela os lodos se acumulavam a ponto de transbordar no tempo de cheias menores. Para evitar essa deterioração do sistema hidráulico, era necessário encher as bacias afastadas, começando pela última (G. Alleaume, 1994). Porém, a fertilização por meio do lodo e o soerguimento das bacias mais afastadas tinham seus limites: com o tempo, a totalidade da cadeia de bacias podia elevar-se a ponto de limitar a sua utilização durante cheias excepcional- mente volumosas, provocando assim uma crise no sistema hidroagrícola.
A organização das bacias e o modo de repartição da cheia não defi niam apenas a distribuição anual da água, mas também comandavam a reparti- ção espacial do lodo e, em longo prazo, sua acumulação diferenciada e a arquitetura aluvial do vale.
Cadeias de bacias longitudinais
Para alimentar em água as bacias aterradas por depósitos aluvionais, mesmo em época de cheias fracas, foi preciso desviar a água do rio muito mais acima, na montante, e levá-la para as bacias por meio de longos canais de condução de cheia. Esses canais partiam dos diques das margens e os pon- tos de captação de água do rio se encontravam abaixo do nível das cheias mais baixas. Cada um desses canais alimentava uma cadeia longitudinal de bacias escalonadas de cima para baixo. Nos lugares onde o vale era largo e côncavo, essas bacias eram às vezes subdivididas transversalmente. A fraca inclinação dos canais permitia estender a área inundada tão longe quanto possível. No entanto, essa inclinação deveria ser sufi cientemente importante para garantir um escoamento bastante rápido da água a fi m de evitar o entupimento dos canais pelos sedimentos e pela lama. (G. Hamdan, op. cit.).
Quando da subida da cheia, os canais vertiam a água para as bacias onde ela atingia, nos anos propícios, uma altura de 1,2 a 1,5m. Essa água era retida durante quarenta ou sessenta dias e depois, em meados de outubro, os diques eram abertos e a água escorria para um canal evacuador de cheia ou um coletor natural antes de se juntar novamente ao leito do rio. Como regra, o enchimento das bacias começava pela jusante. Todavia, quando a cheia era fraca, enchiam-se primeiro as bacias situadas na montante, esvaziando-se em sucessivas bacias inferiores. Desse modo, a água da cheia servia então várias vezes.
O desenvolvimento progressivo desses diferentes sistemas de bacias permitiu estender as superfícies cultivadas para a maior parte das terras compreendidas entre os as saliências da margem do rio e as margens do deserto, exceto os pântanos não drenados e os locais permanentes de água.
História das agriculturas no mundo
Tanque elementar na borda do vale
Cadeia transversal de bacias
Cadeia longitudinal de bacias
Dique Canal de entrada Dique Elevações de terra Tanque de vazão
Diques naturais de margem
Nível alto das águas de cheia Diques de margem aumentados
Figura 4.3. Esquemas de ordenamento das bacias de vazão
Deserto ocidental (Planalto líbio)
Vale Deserto oriental (Cadeia arábica) Aluviões antigos Aluviões recentes Plataforma Pré-cambriana Base sedimentar Terciário Cretáceo
Marcel Mazoyer • Laurence Roudart
188
Graças a esses ordenamentos, a população pôde aumentar e os vilarejos, construídos sobre as elevações de terra naturais e sobre os diques artifi ciais, se multiplicaram na parte central de vale. Mas essa progressão não foi certamente contínua: as fases de expansão foram entrecortadas por crises hidráulicas e demográfi cas de grande amplitude.
Se a formação das primeiras bacias isoladas umas das outras estava ao alcance das comunidades camponesas dos vilarejos, o mesmo não aconte- cia com a formação sistemática de um segmento do vale. Esse gênero de formação exigia a mobilização de numerosos trabalhadores provindos de vilarejos afastados entre si, um abastecimento dos canteiros de obras em víveres e instrumentos, ou seja, um certo planejamento dos trabalhos, o que supunha a existência de uma instância central de decisão e de coor- denação. Teria sido essa necessidade que conduziu, ao longo da segunda metade do sexto milênio, à constituição de cidades-Estado, cada uma delas dominando as comunidades camponesas e administrando o sistema hidroagrícola de um trecho do vale? É provável. A questão é, no entanto, saber como essas cidades-Estado, dispondo não somente de poder político militar e religioso, mas também de competência e poderio hidráulicos foram capazes de constituir-se.
Podemos imaginar que os vilarejos vizinhos se agruparam e concordaram em edifi car, em pequena escala, sistemas hidroagrícolas complexos, e que as categorias sociais encarregadas de exercer as funções de organização desses trabalhos se arrogaram pouco a pouco o poder político, monopo- lizando o conhecimento hidráulico. Mas podemos também imaginar que tais vilarejos ou federações de vilarejos foram conquistados militarmente e submetidos a um poder político e militar exterior que se apropriou das competências hidráulicas preexistentes. Em todo caso, é pouco provável que um poder político já constituído tenha podido, por si só, inventar e impor técnicas hidráulicas às comunidades camponesas, por sua vez sem experiência no assunto. De que ciência inata ou revelada uma tecnocracia poderia aproveitar ensinamentos que não fossem da própria prática? No entanto, é certo que, uma vez constituído, um poder hidráulico pode pro- gressivamente adquirir uma experiência acumulativa quanto à concepção das obras, a organização de sua construção e da gestão da água, e que sua capacidade em comandar o ordenamento de conjuntos hidráulicos cada vez mais vastos vai aumentando.
Assim, desde o sexto milênio antes do presente, as comunidades cam- ponesas, as federações de comunidades e os principados pré-dinásticos sem dúvida contribuíram com o ajuste da organização econômica, políti- ca, militar e religiosa, as técnicas hidroagrícolas elementares, os métodos administrativos e, quem sabe, até mesmo a escrita, amplamente utilizados na época faraônica.
História das agriculturas no mundo