Não se dispõe de uma descrição metódica dos sistemas de cultivos de va- zante de inverno nos tempos faraônicos. Mas as informações fragmentárias relativas a esse passado longínquo e a perpetuação, até o princípio do século XX, de sistemas hidroagrícolas desse tipo, bem-estudadas por engenheiros do século XIX, permitem expor, a título de hipótese, os princípios de orga- nização e de funcionamento desses antigos sistemas.
Nas bacias enchidas com as águas das cheia uma após a outra a partir da metade de julho, que fi cavam submersas em mais de um metro de água durante quase dois meses e eram esvaziadas ao fi nal de outubro, era possí-
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vel plantar toda uma série de cultivos de vazante de inverno como cereais (cevada de inverno de seis fi leiras, trigo amidoreiro, Einkorn cultivado), le- guminosas alimentares (lentilha, ervilha), leguminosas forrageiras (ervilhaca, cizirão) e uma planta têxtil (o linho). A esses cultivos foram acrescentadas mais tarde outras plantas de tipo forrageiro (trevo de Alexandria, alfafa etc.).
Em fi ns de outubro ou princípios de novembro, após a vazante, começava o ano agrícola. Se o solo ainda estivesse úmido, a semeadura era realizada sem preparo do solo. Todavia, como nesse clima a camada superfi cial do solo se ressecava e endurecia muito rapidamente, as últimas parcelas se- meadas deviam primeiramente ser revolvidas com a pá, e os torrões mais grossos deviam ser quebrados com uma marreta. Os grãos, semeados à lanço, eram recobertos com terra passando um galho ramifi cado puxado à mão, ou por uma ou duas passagens de arado escarifi cador. Para facilitar a germinação dos grãos, o solo já semeado era compactado pelo pisoteio do gado, ou eventualmente rolando sobre ela um tronco de palmeira. O arado escarifi cador, herança da Mesopotâmia, é um instrumento escarifi cador que, diferentemente do arado (charrua), não revolve o solo (ver Capítulo 6). Até 4.000 anos antes de nossa Era, tratava-se de um simples instrumento de madeira puxado à mão. Posteriormente, os arados escarifi cadores foram atrelados a animais de tração (bois, vacas e asnos) e sua ponta era eventual- mente guarnecida com um sílex. Terminada a semeadura, os cultivos de vazante eram geralmente abandonados até a colheita. Podia ocorrer, porém, que esses cultivos recebessem uma irrigação complementar, devido às suas necessidades particulares (cultivos implantados tardiamente, cultivos de ciclo longo como o trevo de Alexandria...) ou ainda devido à insufi ciência do período de submersão da parcela.
Conforme o cultivo e a latitude, as colheitas aconteciam entre março e maio, ou usando uma pequena foice para os cereais, ou simplesmente arrancando a produção, como no caso do linho. Os caules de cereais eram cortados em sua parte superior pelos ceifeiros, seguidos de perto pelas co- lhedoras que catavam as espigas e as acomodavam em grandes cestos, que eram em seguida transportados em lombo de burro até as áreas de debulha próximas do vilarejo. A debulha era realizada utilizando-se longas varas (palmas, por exemplo) ou por pisoteamento de animais (bois e asnos), ou ainda, mais tarde, pela passagem repetida de uma máquina de debulha, constituída por uma armação de madeira munida de dentes ou rodas de pedra. O grão era separado da palha com a ajuda de forquilhas, peneirado e depois armazenado no vilarejo em altos silos cilíndricos de barro ou de esteiras de palha. Após a colheita, a parcela era liberada para o pastejo de cabras e ovelhas até a cheia seguinte.
Se as pastagens naturais situadas nos baixios, nas margens do rio e vizinhas aos pântanos foram relativamente abundantes no início, pouco a pouco acabaram sendo reduzidas pela progressão das infraestruturas e dos
História das agriculturas no mundo
Semeadura após escarifi cação do solo
Semeadura após preparo com a enxada Arrancando o linho
Colheita do trigo Carregadores de espigas
Ordenha de uma vaca leiteira Ceva ou engorda forçada de um grou
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cultivos, a ponto de se tornarem insufi cientes. As rotações dos cultivos de vazante de inverno deviam, portanto, permitir alimentar perenemente, e de maneira relativamente equilibrada, não somente as pessoas mas também os animais. Assim, ao lado dos cereais, leguminosas e linho, cujo produto principal era destinado aos homens e o sub-produto (palhas e folhagens) consumido pelos animais, as rotações permitiam também um espaço para as leguminosas forrageiras. Nessas condições, uma prática conveniente, ainda amplamente realizada nas épocas recentes consistia em estabelecer diferentes rotações bienais do tipo:
Ano 1 Ano 2
novembro maio julho outubro novembro maio julho outubro Cereais de inverno cevada trigo Pequeno alqueive cheia Leguminosas alimentares Lentilha Ervilha Pequeno alqueive cheia planta têxtil linho leguminosas forrageiras trevo cizirão
A presença de leguminosas nessas rotações permitia suprir o principal fator limitante dos rendimentos de cereais: a ausência de nitrogênio. Na verdade, os sedimentos e as águas da cheia não proporcionavam muito mais que 20 kg de nitrogênio por hectare ao ano (T. Ruf, 1988), enquanto um cultivo de trevo de Alexandria aportava ao solo de 40 a 80 kg de nitro- gênio de origem atmosférica. Mais tarde, as leguminosas forrageiras e os resíduos das leguminosas alimentares foram utilizados na alimentação de animais confi nados, cujos dejetos eram misturados à terra e em seguida transportados em lombo de burro às terras de cultivo. Além disso, os outros resíduos de cultivo, em particular as palhas de cereais, eram pastejadas imediatamente após a colheita e os dejetos animais eram diretamente restituídos ao solo. De qualquer maneira, nesse sistema desprovido de utensílios efi cazes para enterrar as leguminosas e os resíduos de cultivo, apenas os animais eram capazes de transformar essas matérias vegetais em adubos imediatamente utilizáveis.
Essas rotações bienais que alternavam cereais “exigentes” e leguminosas “enriquecedoras” estão no âmago da tradição agronômica de origem egípcia que será veiculada na Europa pelos agrônomos gregos, latinos, árabes e, enfi m, pelos partidários da “nova agricultura” nos séculos XVI, XVII e XVIII. Essas rotações prefi guram as rotações intensivas que se desenvolverão na
História das agriculturas no mundo
Europa ocidental quando da “primeira” revolução agrícola do século XVI ao XIX (ver Capítulo 8).
A alimentação do povo egípcio era essencialmente baseada em cereais, trigo e cevada, consumidos na forma de pão, bolos ou cerveja, e nos legumes secos, lentilhas, ervilhas e, mais tarde, favas originárias da Índia. Também incluía peixe, frutos (uvas, fi gos e tâmaras), legumes e diversos tipos de óleo vegetal (óleo de rícino, de oliva e mais tarde de gergelim e cártamo). O vinho e a carne eram reservados às categorias privilegiadas da população.