• No results found

Mobile and web-based health solutions

1. CENTROSDEORIGEMDAAGRICULTURANEOLÍTICA

2. ÁREASDEEXTENSÃO

3. DOMESTICAÇÃOEDOMESTICABILIDADE

O sânscrito, por mais antigo que possa ser, é de uma surpreendente estrutura; mais completa que o grego, mais rica que o latim por seu refi namento notável supera essas duas línguas ao mesmo tempo que tem, com elas, seja nas raízes das palavras como nas formas gramaticais, uma afi nidade muito forte para que possa ser o produto do acaso. Tão forte que, na verdade, nenhum fi lólogo poderia examinar estas línguas sem adquirir a convicção de que elas brotam de uma fonte comum que, talvez, não exista mais. Há, de resto, uma razão similar, ainda que não totalmente limitante, para supor que o gótico e o céltico, mesmo que tenham sido misturados em um falar diferente, podem assim ter a mesma origem que o sânscrito. Além do mais poderíamos acrescentar a esta família o persa antigo se houvesse lugar aqui para debater de alguma forma sobre as antiguidades persas.

Sir William Jones

Troisième discours d’anniversaire

Société asiatique du Bengale (1786)

N

o fi m do paleolítico — idade da pedra lascada — há 12.000 anos, após centenas de milhares de anos de evolução biológica e cultural, as sociedades humanas haviam chegado a fabricar utensílios cada vez mais variados, aperfeiçoados e especializados, graças aos quais tinham desen- volvido modos de predação (caça, pesca, coleta) diferenciados, adaptados aos meios mais diversos. Essa especialização foi acentuada no neolítico — idade da pedra polida — e foi ao longo desse último período da Pré-história, menos de 10.000 anos depois, que várias dessas sociedades, entre as mais avançadas do momento, iniciaram a transição da predação à agricultura.

No começo dessa mudança, as primeiras práticas de cultura e de cria- ção, que de agora em diante chamaremos protocultura e protocriação, eram

Mar cel Mazo y er • Laur ence R oudart 98 Centro-Americano: (– 9.000/– 4.000 antes da presente Era) Área de domesticação secundária sul-americana: (– 6.000 antes da presente Era)

Centro Sul-americano: (– 6.000 antes da presente Era)

Centro Norte-americano: (– 4.000/ – 3.000 antes da presente Era)

Movimento de expansão da agricultura Limite atingido pela agricultura e datação

Centro Nova Guiné (– 10.000 antes da presente Era)

Centro Médio-oriental (– 10.000/9.000 antes da presente Era)

Centro Chinês

(– 8.500 antes da presente Era)

História das ag

riculturas no m

undo

99

Área secundária de domesticação da Ásia do sudeste. Fava, taro, Inhame, nabo (Brassica sp.),

lichia, banana, cana-de-açúcar. Centro Chinês. (– 8.500 antes da presente Era). Milheto, arroz, repolho, rami. Galinha, porco, boi.

Centro Neo-guineense. (– 10.000 antes da presente Era). Taro. Porco (?) Centro Médio-oriental. (– 10.000/– 9.000 antes da presente Era). Trigo, cevada, ervilha, linho, arroz lentilha. Cabra, carneiro, porco, boi, burro,

Camelo

Cavalo Iaque

Lebre

Área secundária de domesticação africana. Sorgo, milheto africano, arroz africano, ervilha bambara, inhame. Centro Norte-americano. (– 4.000/ – 3.000 antes da presente Era). Abóbora, chenopode branco (cenizo), sabugueiro (Sambucus L.) quinoa,

girassol, sempre-noiva (Polygonum sp.), cevadinha.

Centro-americano. (– 9.000/4.000 antes da presente Era). Pimenta, tomate, abacate, milho, abóbora, feijão, algodão, peru, pato.

Área secundária de domesticação Sul-americana. Algodão de fi bra longa, pimentão, batata doce, ananás, papaia, mandioca.

Centro Sul-americano (– 6.000 antes da presente Era). Batata, oca (Oxalis tuberosa),

quinoa (Chenopodium quinoa), tremoço.

Porco-da-índia, lhama, alpaca.

Coelho

Marcel Mazoyer • Laurence Roudart

100

aplicadas a populações de plantas e animais que não tinham perdido seus caracteres selvagens. Mas de tanto serem cultivadas e criadas, essas po- pulações adquiriram caracteres novos, típicos de espécies domésticas que estão na origem da maior parte das espécies ainda cultivadas ou criadas atualmente.

As regiões do mundo nas quais os grupos humanos, vivendo exclusiva- mente da predação de espécies selvagens, transformaram-se em sociedades vivendo principalmente de exploração de espécies domésticas, são fi nal- mente pouco numerosas, não muito difundidas e bastante afastadas umas das outras. Elas constituíam o que chamamos centros de origem da revolução

agrícola neolítica, entendendo que o termo “centro” designa uma área, e não

um ponto de origem. A partir de alguns desses centros, que nomearemos

centros irradiantes, a agricultura, em seguida, se estendeu para a maior parte

das regiões do mundo. Cada centro irradiante corresponde, assim, a uma área de extensão particular, que compreende todas as regiões ganhas pela agricultura oriundas desse centro. No entanto, certos centros não deram origem a uma área de extensão tão importante. Esses centros pouco ou

nada irradiantes foram, a seguir, englobados numa ou noutra das áreas de

extensão precedentes.

Nas áreas de extensão, novas espécies de plantas e de animais foram domesticadas, e certas zonas que forneceram um grande número dessas novas espécies domésticas constituem, a partir dos centros de origem, verdadeiras áreas secundárias de domesticação. As sociedades de cultivadores e de criadores oriundas dos centros de origem geralmente propagaram seu novo modo de vida colonizando passo a passo os diferentes territórios exploráveis do planeta. Agindo dessa forma, elas também encontraram sociedades de caçadores-coletores preexistentes, mais ou menos evoluídas, praticando às vezes, elas próprias, a protoagricultura e entre elas, algumas que, por meio desse contato, se converteram à agricultura.

Tanto nos centros de origem como nas áreas de extensão, as primeiras sociedades de agricultores se encontraram principalmente confrontadas a dois grandes tipos de ecossistemas originais: os ecossistemas arborizados mais ou menos fechados, nos quais elas puderam praticar diversas formas de cultivos de derrubada-queimada e acessoriamente a criação de animais. E os ecossistemas herbáceos e abertos, onde, ao contrário, elas desenvolveram amplamente criações pastoris variadas, associadas ou não a alguns culti- vos. Essas sociedades também encontraram diversos meios inexploráveis peloss cultivos ou criações, que continuaram virgens ou ocupados pelos caçadores-coletores.

Onde, quando e como a agricultura neolítica apareceu? Como se ex- pandiu pelo mundo? Quais são os mecanismos da domesticação? Tais são, resumidamente, as questões que nos propomos responder neste capítulo.

História das agriculturas no mundo

1 CENTROS DE ORIGEM DA AGRICULTURA

NEOLÍTICA

No estado atual das pesquisas, seis centros de origem da revolução agrícola neolítica — mais ou menos bem-confi rmados — são normalmente citados. Quatro entre eles foram centros amplamente irradiantes, como veremos mais adiante de maneira detalhada:

– o centro do oriente-próximo, que se constituiu na Síria-Palestina, e talvez mais amplamente no conjunto do Crescente fértil, entre 10.000 e 9.000 anos antes do presente;

– o centro centro-americano, que se estabeleceu no sul do México entre 9.000 e 4.000 anos antes da presente Era;

– o centro chinês, que se construiu, em princípio, há 8.500 anos, no norte da China, nos terraços de solos siltosos (loess) do médio rio Amarelo, e depois completou-se estendendo-se para nordeste e sudeste, entre 8.000 e 6.000 anos antes da presente Era;

– o centro neo-guineense, que provavelmente teria emergido no coração da Papuásia-Nova Guiné há 10.000 anos antes da presente Era. Dois outros centros de origem, pouco ou nada irradiantes, teriam se formado igualmente na mesma época. São eles:

– o centro sul-americano, que deve ter se desenvolvido nos Andes peruanos ou equatorianos há mais de 6.000 anos antes da presente Era. – o centro norte-americano, que se instalou na bacia do médio Mississipi

entre 4.000 e 1.800 anos antes da presente Era.

Por muito tempo reduziu-se a emergência da agricultura neolítica a um tipo de invenção e de generalização rápidas de uma nova técnica produtiva tornada necessária devido à insufi ciência dos recursos selvagens. Essa insu- fi ciência era resultante de um grande ressecamento do clima — teoria dos oásis — ou da rarefação da grande caça superexplorada por uma população humana já demasiado numerosa. Estudos arqueológicos mais recentes sobre os diferentes centros de origem da agricultura neolítica (J. R. Harlan, 1987) mostram não ser bem isso. A transformação de uma sociedade que vivia da predação simples e dispunha de instrumentos, de organização social e do savoir-faire necessários para uma sociedade que vivia principalmente dos produtos das cultivos e das criações — e contava com os meios materiais, de organização social e de conhecimentos correspondentes — aparece como um encadeamento complexo de mudanças materiais, sociais e cul- turais que se condicionam umas às outras e que se organizam por várias centenas de anos.

Marcel Mazoyer • Laurence Roudart

102