• No results found

Antigamente, o Nilo — rio de origem equatorial, mas amplamente alimen- tado pelas chuvas tropicais do hemisfério norte — transbordava a cada ano entre julho e outubro. A inundação cobria durante várias semanas a maior parte do vale e do delta, com exceção das elevações e dos promontórios naturais. A altura da água, variável conforme o lugar e a importância da cheia, podia atingir vários metros. Os cultivos de vazante eram feitos após o recuo das águas, quando os solos estavam embebidos e enriquecidos pelos depósitos de aluviões, e a colheita acontecia na primavera. Os cultivos de cereais (trigo, aveia, milheto, no sul) e de linho, exigentes em elementos minerais, alternavam-se com os cultivos de leguminosas alimentares (ervi- lha, lentilha), ou forrageiras (trevo de Alexandria), que enriqueciam o solo.

História das agriculturas no mundo

A partir do sexto milênio anterior ao presente os sistemas de cultivo de vazante de inverno estenderam-se em várias etapas, ao ritmo da organiza- ção das bacias de vazante. Na época dos primeiros vilarejos, supunha-se que, na falta dessa organização, somente as margens da zona inundada fossem cultivadas após o recuo das águas. Num segundo momento, as ba- cias elementares de vazante foram formadas, com a construção de diques simples que fechavam as depressões naturais, independentes umas das outras, margeando a zona inundável. Esses diques permitiam, primeiro, reter a água das cheias nessas depressões tanto tempo quanto fosse neces- sário para umidifi car e para aluvionar o solo e, a seguir, para proteger os fundos das bacias assim organizadas e cultivadas contra eventuais retornos das cheias. Num terceiro momento, a construção de cadeias transversais de

bacias, escalonadas desde as ribanceiras do rio até as margens do deserto,

depois, a construção de cadeias longitudinais de bacias, escalonadas de cima para baixo, permitiram organizar os trechos do vale (na verdade, meios- -trechos), cada vez mais extensos.

Por fi m, a edifi cação progressiva de grandes diques protetores, ao longo do rio, e de grandes canais adutores ou evacuadores que religavam pouco a pouco as cadeias de bacias do alto vale, do médio vale e do delta, permitiam repartir de forma equânime as cheias insufi cientes e também amortecer as cheias excessivas distribuindo-as tão amplamente quanto possível. Grandes canais adutores permitiam, entre outros, estender as águas da cheia sobre “novas terras” raramente ou até mesmo nunca atingidas pela inundação natural. Essas grandes obras hidráulicas conduziam não a uma reestrutu- ração integral do vale e do delta e a uma gestão unifi cada da cheia, mas a um conjunto de reformas locais e regionais cada vez mais perfeitamente ligadas entre si e a uma gestão coordenada da cheia, graças a regras de uso da água e de um sistema de comando centralizado e hierarquizado.

Ainda que se trate apenas de uma hipótese, não comprovada, tampouco partilhada por todos os egiptólogos, é tentador pensar que as grandes etapas do desenvolvimento desses trabalhos hidráulicos e da gestão coordenada da cheia sobre frações cada vez mais extensas do vale coincidiram com as etapas do desenvolvimento de formas de organização social e política cada vez mais poderosas. Estas foram capazes de estender seu poder hidráulico sobre os seguintes territórios: vilarejos enfi leirados ao longo do vale e nas margens do delta no princípio do sexto milênio antes do presente; cidades-Estado que dominavam um pequeno trecho de vale, e depois as cidades-Estado mais poderosas que dominavam toda uma planície aluvial localizada entre duas passagens estreitas do vale, mais ou menos na metade desse milênio. Elas também foram capazes de estender seu poder hidráulico sobre os grandes reinos unifi cadores de numerosas cidades e que dominavam várias planícies aluviais, em seguida, a dois reinos — o do Alto Egito que corres- pondia ao vale propriamente dito, e o do Baixo Egito, que correspondia ao

Marcel Mazoyer • Laurence Roudart

178

Regiões cultivadas no passado

Altura do Nilo em Assuan

Lago Nasser Assuan Esna Nilo Assiut Mínia Fayum Menfi s Cairo Damiette Roseta Alexandria Mar Mediterrâneo Fonte: Ayeb H.

Bacia de alimentação do Nilo

Egito Líbia Arábia Saudita Tchad Tanzânia Burundi Ruanda

Zaire Quênia Somália Etiópia

Iêmen Sudão

Esquemas de trabalhos hidráulicos do Nilo egípcio

Reservatório da Barragem de Assuan Barragem de Esna N Cidade do Cairo Barragem de Edfi na Braço de Roseta Canal Behera Barragem Mohamed Ali

Bahr Youssef Canal Ibrahim

Canal Menufi a

Barragem de Nag Hammadi Barragem de Assiout

Canal Taufi ki Canal Ismalia Barragem de Faraskur Braço de Damiette

História das agriculturas no mundo

delta — na segunda metade desse mesmo sexto milênio. Finalmente, há pouco mais de 5.000 anos, a formação do Estado faraônico unindo esses dois reinos. Posteriormente, nos próximos 3.000 anos, mais ou menos 200 faraós pertencentes a trinta dinastias reinarão mais ou menos plenamente sobre esses Dois Reinos, sendo que os períodos de prosperidade (Antigo Império, Médio Império e Novo Império) coincidirão com uma forte concentração do poder, e os períodos de decadência (Períodos Intermediários e Época Baixa) coincidirão, ao contrário, com o declínio e queda do poder central.

Seja como for, os três antigos sistemas de cultivos de vazante de inverno estavam calcados sobre trabalhos hidráulicos coletivos, compostos pelos con- juntos de bacias, de diques e de canais, realizados, mantidos e utilizados sob a égide da autoridade hidráulica dominante que, conforme a época, atuava na escala do vilarejo, da cidade local ou do reino. Os sistemas de cultivos de vazante eram praticados por uma classe camponesa populosa, agrupada em vilarejos situados sobre os promontórios, as terras altas e os diques. Essa classe camponesa cultivava as parcelas de terra que lhes eram concedidas. Ela estava sujeita a penosos trabalhos ou corveias nos domínios do Estado, do Templo e dos altos dignitários. Os produtos dessas terras e os impostos em

espécies eram utilizados para subvencionar as necessidades do Faraó, de seu

palácio, da administração, do clero, dos soldados, dos trabalhadores e dos artesãos do Estado, e para construir palácios, templos, túmulos e pirâmides. Mas, em larga escala, estes também eram destinados a formar os estoques de segurança para enfrentar as irregularidades da cheia e da colheita, a estender e manter os trabalhos hidráulicos e as outras obras de utilidade pública.