• No results found

5.4 Second Iteration

5.4.4 High-Fidelity Prototype

Rápido ou lento, o movimento pioneiro dos cultivos de derrubada-queimada chocava-se necessariamente a cada dia com uma fronteira intransponível: uma fronteira natural como um oceano, uma fl oresta incultivável como a taiga, uma formação herbácea ou uma barreira montanhosa. Podia ser também uma fronteira política, como o limite territorial de outra popula- ção, de um Estado ou de uma reserva natural. Em todo caso, a partir do momento em que não houvesse mais fl oresta virgem acessível, e se a po- pulação continuasse a aumentar como durante a fase pioneira, o excedente de população não podia mais ser absorvido pelo processo de subdvisão- -migração. Então, a densidade da população aumentava e consequentemente era preciso estender a cada ano a superfície desmatada, fato que levava necessariamente a derrubada de pousios cada vez mais jovens. Para com- pensar a redução do rendimento real que resultava disso era preciso realizar desmatamentos cada vez mais completos, cortando árvores que até então vinham sendo poupadas, de forma a estender a superfície efetivamente semeada. Chegava-se, assim, rapidamente à necessidade de proceder ao corte raso da vegetação cada vez mais frequentemente e, para compensar a redução dos rendimentos nada mais restava senão estender ainda mais a superfície submetida cada ano ao desmatamento. A partir desse momento, a duração do pousio diminuía rapidamente e o desmatamento se acelerava fortemente.

Essa aceleração do desfl orestamento, que acontece no momento em que a densidade da população ultrapassa um certo limite, permite com- preender como as fl orestas tropicais ainda virgens na metade do século, e colonizadas por populações que a cada geração dobrava estão hoje pra- ticamente destruídas. Em tais circunstâncias, a fase de desfl orestamento se encaixava muito próxima da fase pioneira, a ponto de se confundir

História das agriculturas no mundo

com ela. É por isso que muitos observadores achavam que os sistemas de cultivo de derrubada-queimada eram por natureza “desfl orestantes”. Com a exceção dos meios arborizados instáveis, muito frágeis para se reconsti- tuir após o desmatamento, o sistema de derrubada-queimada não era tão agressivo assim. Em geral, é o aumento da densidade da população e a redução da idade do pousio resultante que constituía a verdadeira causa do desfl orestamento.

Mas esse duplo processo de concentração da população e de desmata- mento não se produzia apenas quando os limites geográfi cos dos sistemas de cultivo de derrubada-queimada eram alcançados. Ocorria igualmente em regiões antigamente colonizadas e cultivadas, que se encontram muito afastadas da frente pioneira para que o processo de subdivisão-migração pudesse acontecer: para escapar do desmatamento e de suas consequências, para alcançar alguma nova “terra prometida” situada a centenas de km, as populações superpovoadas deviam então organizar expedições longínquas cada vez mais arriscadas que, por fi m, se tornavam impossíveis. Nessas regiões conquistadas no passado e cultivadas, o aumento da população conduzia, cedo ou tarde, a um desmatamento mais ou menos completo.

Assim, os sistemas de cultivo de derrubada-queimada continuaram a se estender durante os milênios, há milhares de km dos centros de origem da agricultura neolítica, enquanto o desfl orestamento começara desde muito tempo atrás nesses mesmos centros e nas regiões vizinhas mais antigamente cultivadas. Depois, o desmatamento se estendeu passo a passo em todas as direções, seguindo de muito longe e com séculos de atraso, a progressão das frentes pioneiras.

Mas a proximidade do centro de origem não era a única variável deter- minante da antiguidade do desmatamento em diferentes regiões do mun- do. A natureza do povoamento vegetal original representava também um papel importante: a frente pioneira conseguia progredir mais facilmente em uma formação vegetal regional quando esta era mais penetrável e mais fácil de se explorar. Quanto ao desmatamento que acontecia em seguida, a pouca resistência do ecossistema ao machado e ao fogo determinava a precocidade deste desmatamento. Foi assim que, na área de extensão da agricultura oriunda do centro de origem próximo-oriental, os primeiros meios desmatados foram fl orestas abertas e savanas arborizadas mais penetráveis e frágeis, que se estendiam sobre a zona subtropical quente e pouco irrigada da África sahariana e do Oriente-Próximo arábico-persa. Nessas regiões, o desmatamento começou desde o sétimo milênio an- tes do presente, e contribuiu sem dúvida para o ressecamento do clima que levou, no quinto milênio, à desertifi cação de uma boa parte dessas regiões.

Menos frágeis que as precedentes, as fl orestas folhosas das regiões temperadas quentes do entorno mediterrâneo resistiram por mais tempo.

Marcel Mazoyer • Laurence Roudart

152

Todavia, a destruição dessas fl orestas começou muito cedo, mais de 2.000 anos a.C., nas margens orientais do Mediterrâneo, e se estendeu progres- sivamente no oeste, no sul europeu e no norte africano, até os últimos séculos antes de Cristo. Foi nessa época que começaram a degradação e a destruição de áreas inteiras das fl orestas da Europa Central, mais vigorosas e resistentes que as fl orestas mediterrâneas. O desmatamento dessa zona aconteceu até os primeiros séculos d.C. Durante esse tempo, o desmata- mento se estendeu também ao sul do Saara. Desde o princípio de nossa era, as fl orestas caducifólias da zona tropical com uma única estação de chuvas começaram a ser savanizadas, e essa savanização continuou até um passado recente. Quanto às fl orestas perenifólias da zona equatorial úmida, elas começaram a recuar muito mais recentemente, e nos dias de hoje, uma parte delas ainda existe.