5.4 Second Iteration
5.4.1 Theoretical Background
As performances dos sistemas de cultivo de derrubada-queimada variam muito em função da duração da rotação e da importância da biomassa do ecossistema cultivado. Por performance entendemos o volume da produção por unidade de superfície (o rendimento por hectare ou por quilômetro qua- drado) e o volume da produção por trabalhador (produtividade do trabalho). Para ilustrar isso, consideremos, por exemplo, uma importante fl oresta tropical cuja biomassa aérea original elevava-se antes de qualquer desma- tamento acima de 500 toneladas por hectare, e que se encontrava num primeiro tempo desmatada e cultivada a cada cinquenta anos. Suponhamos que após cada desmatamento a biomassa tenha se reduzido a 50% da biomassa original (ou seja, 250 ton/ha), e que após 50 anos de pousio se reconstituiu em 90% dessa última, (450 ton/ha). Assim, cada derrubada- -queimada reduz em cinzas mais ou menos 200 toneladas de biomassa aérea por hectare desmatado. A biomassa das parcelas cultivadas ou em pousio oscila então em torno de uma média da ordem de 350 toneladas por ha (70% da biomassa original). Nessas condições, os solos cultivados, muito bem alimentados em matérias orgânicas e minerais, permitem obter rendi- mentos muito elevados. Mas como a superfície efetivamente semeada, entre os cepos e as árvores que continuaram de pé, não ultrapassa a metade da superfície submetida ao desmatamento, o rendimento aparente não excede a 1.000 kg de grão por hectare submetido ao desmatamento, enquanto o rendimento real pode atingir 2.000 kg por hectare, efetivamente semeado. O que é bastante elevado, se considerarmos o fato de que isso aconteceu sem a ajuda de fertilizantes externos.
Conforme foi visto, em tal sistema é preciso dispor de 50 ha de cultivos e de pousios de todas as idades para cada hectare desmatado. O rendimento real de 2.000 kg por hectare semeado e o rendimento aparente de 1.000 kg por hectare desmatado corresponde a um rendimento territorial de 1.000 kg para 50 ha de fl oresta periodicamente cultivada, ou seja, 20 kg por hectare, ou ainda 2.000 kg por quilômetro quadrado. Admitindo que as necessidades de base da população se elevam a 200 kg por pessoa e por ano, deduz-se que a densidade máxima da população permitida por esse sistema é da ordem de 10 habitantes por quilômetro quadrado. Sobre esses 1.550 ha de fl oresta cultivada a cada 38 anos, o vilarejo ma — sobre o qual já falamos — produzia cada ano 30.000 kg de arroz descascado o que permitia nutrir 150 habitantes do vilarejo (P. Gourou, op. cit.). Isso correspondia precisamente a uma densidade populacional de 10 habitantes por quilômetro quadrado de fl oresta cultivável.
Consideremos agora que essa mesma fl oresta tropical, originalmente rica, seja desmatada a cada 25 anos; a biomassa oscila entre 30 e 60% da
História das agriculturas no mundo 1) Rotação de 50 anos em meio arbóreo 2) Rotação de 25 anos em meio arbóreo 3) Rotação de 10 anos em meio arbóreo
4) Rotação de savana de 5 anos Biomassa em toneladas por hectare
Biomassa original 500 ton/ha
Biomassa em toneladas por ha
Biomassa em toneladas por hectare
Biomassa em toneladas por hectare
Biomassa máxima 450 ton/ha Biomassa média 350 ton/ha
Biomassa mínima 250 ton/ha
1º Derrubada-queimada 2º Derrubada-queimada Anos
Biomassa original: 500 ton/ha
Biomassa máxima: 300 ton/ha Biomassa média: 225 ton/ha
Biomassa mínima: 150 ton/ha
Anos
Anos
Anos Biomassa original: 500 ton/ha
Biomassa máxima: 100 ton/ha Biomassa média: 55 ton/ha
Biomassa mínima: 10 ton/ha
Biomassa original: 500 ton/ha
Biomassa máxima: 10 ton/ha Biomassa média: 5,5 ton/ha
Biomassa mínima: 1 ton/ha
Marcel Mazoyer • Laurence Roudart
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biomassa original (ou seja, entre 150 e 300 ton/ha), a biomassa destruída a cada derrubada-queimada é de 150 toneladas por hectare. A biomassa média não ultrapassa 225 toneladas por hectare (ou seja 45% da biomassa original). A queimada, produzindo menos cinzas que no caso precedente, tem como consequência uma queda no rendimento real, de 2.000 kg para 1.400 kg por hectare efetivamente semeado.
Para manter um rendimento aparente de 1.000 kg (por hectare submetido ao desmatamento), é preciso aumentar a superfície desmatada e semeada, o que equivaleria levar a abater não 50, mas 70% da vegetação. Com um rendimento territorial de 1.000 kg para cada 25 ha de fl oresta periodicamente cultivada, ou seja, 4.000 kg por quilômetro quadrado, a densidade máxima de população permitida pelo sistema é de 20 habitantes por quilômetro quadrado de fl oresta cultivável.
Consideremos enfi m que essa fl oresta, anteriormente de porte elevado e pujante, agora se encontra reduzida a um estrato arbustivo desmatado e cultivado a cada dez anos. Para obter um rendimento aparente tão elevado quanto possível, faz-se um corte raso que destrói quase inteiramente a biomassa arbustiva, e em seguida semeia-se entre os troncos a quase tota- lidade do terreno. A biomassa total desta pequena fl oresta periodicamente cultivada oscila entre uma dezena a uma centena de toneladas por hectare, e a biomassa reduzida a cinzas a cada desmatamento é da ordem de 90 toneladas. O rendimento real cai para 800 kg, o que corresponde a um rendimento territorial de 700 kg para cada 10 ha de afolhamento e permite suprir as necessidades de base de uma população da ordem de 35 habitantes por quilômetro quadrado de fl oresta cultivável.
Se a densidade populacional ultrapassa esse nível, a frequência dos des- matamentos aumenta ainda mais, e a duração do pousio cai para menos de 5 ou 6 anos, e até a pequena fl oresta tampouco terá mais tempo para se reconstituir. O pousio permanece então como um estrato herbáceo e a biomassa oscilará em menos de uma tonelada por hectare na estação morta, a uma dezena de toneladas no máximo em plena estação. Os cultivos de derrubada-queimada tornam-se impraticáveis, mas podem ser substituídos por cultivos temporários em alternância com um pousio herbáceo de média duração, à condição, todavia, que se disponha de instrumentos necessários para desmatar uma superfície com vegetação herbácea, e de novos métodos de renovação da fertilidade.
Como mostra essa análise, quanto mais a densidade da população não ultrapassar um certo patamar, que varia conforme o meio, menos os cul- tivos de derrubada-queimada levarão em geral à destruição de biomassa arborizada ou à redução importante da fertilidade. Esses cultivos, por sua natureza, não são promotores de desmatamentos ou de degradações. Ao contrário, quando a densidade da população ultrapassar nitidamente esse patamar, chega-se necessariamente ao desmatamento e à impossibilidade de
História das agriculturas no mundo
continuar a praticar esse gênero de cultivo. Assim, enquanto as sociedades de cultivadores de derrubada-queimada em expansão demográfi ca dispuserem de reservas fl orestais virgens, elas as conquistarão passo a passo, de forma a manter a densidade da população nos limites que permitam uma adequada reconstituição da biomassa e da fertilidade. E é graças a essa dinâmica pio- neira, não desfl orestadora, que esses sistemas de cultivo puderam perdurar por tanto tempo na maior parte das regiões do mundo. Mas esgotando-se as reservas fl orestais virgens, o prosseguimento da expansão demográfi ca se traduz necessariamente por um aumento da densidade populacional, o que conduz rapidamente ao desfl orestamento.