Vimos que, de maneira geral, a passagem do pousio arborizado de longa duração a um pousio herbáceo de média ou curta duração tem como pri- meira consequência o desaparecimento ou a redução de cinzas obtidas após as queimadas, e também uma redução da camada de folhas mortas e, consequentemente, do teor em húmus do solo. Essa redução acarreta uma queda da capacidade de estocagem de água e sais minerais do solo, e uma diminuição da quantidade de minerais provenientes da mineralização do húmus. A redução da fertilidade resultante varia muito conforme o clima. Após o desmatamento, a taxa de húmus residual é mais baixa se o clima for mais quente: em regiões temperadas frias é possível se manter a 1 ou 2%, enquanto nas regiões quentes cai para menos de 1%.
Além do mais, em alguns climas quentes de estação seca acentuada, nos solos nus e excessivamente aquecidos, os coloides argilosos se desidratam, o que reduz ainda mais a capacidade de estocagem em minerais fertilizantes desses solos. Essa desidratação leva igualmente a um endurecimento do solo pouco favorável ao enraizamento das plantas cultivadas. Enfi m, em certos terrenos desmatados, como a água não é mais absorvida pelas raízes das
História das agriculturas no mundo
árvores, um lençol se forma nas profundezas. Na estação seca, esse lençol sobe por capilaridade, carregando para a superfície óxidos de ferro que se cristalizam em contato com o ar no momento da evaporação. Com isso cimentam todos os materiais endurecidos do solo formando uma espécie de carapaça. Essas carapaças, ou couraças lateríticas, são absolutamente estéreis (Ph. Duchaufour et al., 1994).
A erosão
Num meio desmatado, as águas da chuva tocam diretamente o solo sem que sua queda tenha sido amortecida pela vegetação. Além do mais, o es- coamento pela superfície do solo encontra geralmente menos obstáculos. Nessas condições, o escoamento das águas aumenta e se acelera, enquanto sua infi ltração diminui. Nas regiões acidentadas que recebem fortes chuvas, o escoamento ganha uma amplidão tamanha que é capaz de provocar cheias catastrófi cas, que arrancam o solo e transportam enormes massas de terra que acabam por se acumular nos vales baixos e nos deltas. Todavia, a erosão não causa apenas efeitos destruidores e negativos. Ali onde ela acontece, o desencape dos horizontes lixiviados e empobrecidos do solo acaba por rejuvenescê-lo. No entanto, os depósitos de aluviões e de coluviões que se formam na base das encostas e nos vales podem contribuir para ampliar e enriquecer as terras cultiváveis.
As primeiras manifestações desse tipo de mudança do regime de es- coamento das águas apareceram nos vales do Tigre e do Eufrates, nas pro- ximidades do centro irradiador do próximo oriente, no sexto milênio, em seguida ao desfl orestamento de suas bacias hidrográfi cas. Um regime de cheias violentas se estabeleceu nesta época, apesar da pluviometria não ter aumentado. Houve um verdadeiro “dilúvio” que se prolongou durante mais de mil anos. Nas regiões temperadas quentes do entorno mediterrâneo, onde a cobertura vegetal era frágil e as chuvas, sem serem muito importantes, eram muito violentas, pois se concentravam em alguns meses, a amplitude desses fenômenos era bem conhecida. O desnudamento das encostas e a formação de solos esqueléticos, os estragos causados pelas cheias, a for- mação dos sulcos da erosão, o aprofundamento dos vales de montante, o assoreamento dos vales de jusante e dos deltas, e o aterramento dos golfos continuam desde a Antiguidade. Desse modo, muitos dos antigos portos do entorno mediterrâneo encontram-se atualmente no interior das terras... Nessas regiões, a erosão e a degradação da fertilidade se combinam para tornar não cultiváveis as partes maiores expostas ou as mais frágeis dos terrenos desmatados, que são então utilizados como pastagem. Somente as zonas que conservam um solo bastante profundo, rico e úmido continuam sendo cultivadas (ver Capítulo 6).
Marcel Mazoyer • Laurence Roudart
154
Os antigos tinham uma consciência aguda desse desastre ecológico. Assim, na Critias, Platão estabelece uma comparação entre o mundo rural que circundava a Atenas de sua época (século V a.C) e esse mesmo lugar, mais ou menos mítico, 9.000 anos atrás. Essa comparação ilustra bem os fenômenos que acabamos de evocar:
Naquele tempo, a terra de nossas paragens ultrapassava em fertilidade todas as outras, de modo que era capaz de alimentar um exército numeroso dispensado dos trabalhos da terra. [...] Mas numerosos e grandes dilúvios ocorreram durante esses 9.000 anos, e a terra que rolava dos lugares elevados não se expandia como em outros lugares para formar um aterro notável, mas, rolando continuamente, ela desaparecia no fundo do mar. Desde então [...] tudo o que a terra tinha de rico e de cultivável escorreu por todos os lados e, do território da Ática, nada mais resta hoje senão seu corpo descarnado. Naquele tempo, as montanhas da Ática, que agora só podem nutrir abelhas, eram cobertas por fl orestas profundas. Havia então belas árvores, cultivos e prodigiosas pastagens para os rebanhos. A cada ano, o país aproveitava ao máximo a água que provinha de Zeus, pois, ao invés de deixá-la se perder escorrendo rumo ao mar como hoje, ela possuía boas terras que a recolhia e a conservava em seu seio. Esta água que ela havia absorvido e trazido dos lugares elevados rumos às profundezas, proporcionava um curso inesgotável às fontes e aos rios.
Luminoso!
Nas regiões temperadas frias, onde as chuvas são melhor distribuídas ao longo do ano e onde a cobertura vegetal e os solos apresentam maior relevância, esses fenômenos de erosão são realmente muito menos pro- nunciados. Ao contrário, nas regiões tropicais com uma única estação de chuvas, quando o terreno é acidentado, pode-se observar fenômenos de erosão análogos àqueles das regiões mediterrâneas. Nas regiões tropicais úmidas, como as regiões de monções que recebem vários metros de água por ano, o desmatamento das encostas reforça mais os fenômenos de erosão já gigantescos, o que explica a geomorfologia particularíssima dessas áreas. Os rios de grande vazão dessas regiões transportam quantidades imensas de sedimentos e materiais aluvionais que se acumulam em dezenas de metros nos largos vales com fundo plano e nos vastos deltas com baixa declividade. Vales e deltas submergem durante uma boa parte do ano e constituem terrenos privilegiados para a rizicultura aquática.