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3
 Metode

3.3
 Undersøkelsens datatilfang

Na primeira parte desta dissertação, foi realizada uma primeira aproxi- mação das “arquiteturas que geram espaços abertos e coletivos”, em que pudemos abordar sobre temas relacionados à conformação de es- paços pela arquitetura em especial os de caráter público e coletivo e também sobre a busca pela boa relação do edifício com o espaço ur- bano (ZEIN, 2014), entendida como uma das principais qualidades des- ta arquitetura, que apontam valores no modo de “fazer cidade”. Nesta segunda parte, será realizada uma aproximação um pouco maior, com o intuito de identificar obras reais de estudo por meio de um processo de reflexão acerca de possíveis características projetuais comuns e con- ceitos subjacentes.

Entende-se que as “arquiteturas que geram espaços abertos e coleti- vos” concretas aparecem como inflexões à grande maioria da produção de arquitetura atual, em especial na realidade brasileira e latino-america- na, onde há uma tendência maior ao “fechamento” dos edifícios em re- lação ao espaço urbano, com raras proposições de espaços de caráter público, de livre acesso e apropriação. Desta forma, estas arquiteturas aparecem como exceções ao modus operandi atual, e serão elas que buscaremos como inspiração. Mas afinal onde estão localizadas as ar- quiteturas de que estamos falando? Seria realmente possível identificar qualidades ou características particulares para este tipo de arquitetura?

Tendo estas questões em vista, considera-se que esta investigação teve início antes mesmo do ingresso ao mestrado, por meio de experiências anteriores, leituras e visitas a obras, que contribuíram para a formu- lação do objeto e reconhecimento de obras que interessavam a esta pesquisa. Desta forma, será realizada uma breve digressão refletindo sobre esta experiência anterior, para depois apresentarmos a busca por obras contemporâneas de estudo desta dissertação, que consistiu em levantamento em quatro áreas (São Paulo, demais cidades brasileiras, cidades latino-americanas, demais cidades no mundo), e seleção final de três obras como estudos de caso: Praça das Artes (2012) em São Paulo, Brasil; Museu da Memória e dos Direitos Humanos (2009) em Santiago, Chile; Sony Center (2000) em Berlim, Alemanha. Como apoio teórico, serão abordadas algumas contribuições de autores que foram importantes para o início desta investigação, tais como Portzampac (1997)10, Guerra (2014)11, Gehl (2006)12, Jacobs (2003)13, Bentley et al.

(1999) e Hertzberger (2006)14.

“Inquietações” anteriores ao mestrado: quadra aberta e as estra- tégias para vitalidade urbana

Este processo de investigação não foi linear. Tiveram idas e vindas, apro- ximações e distanciamentos do objeto de estudo, como toda pesquisa acadêmica. Contudo, considera-se que explicar o processo ajuda a tornar claro de onde viemos e para onde vamos. Pois bem, como disse Zein em algumas das orientações, todos nós partimos de algum lugar quando co- meçamos qualquer trabalho, pois toda pessoa acumula experiências de vida, inquietações e conhecimentos que muitas vezes estão guardados, porém afloram em determinado momento, se forem estimulados. Acredi- tando neste princípio, o processo de investigação acerca das obras de es- tudo, iniciou desta maneira, de forma intuitiva, acreditando que ao começar o processo, as questões e objetos de interesse saltariam naturalmente.

10 PORTZAMPARC, Christian de. A terceira era da cidade. Tradução Denio Munia Benfatti. Óculum, Revista Universi-

tária de Arquitetura e Urbanização, n.9, p.34-49, ago., São Paulo, FAUPUCCAMP, 1997.

11 GUERRA, Abílio. Quadra Aberta: uma tipologia urbana rara em São Paulo. In: COTRIM, Márcio; SILVEIRA, José

Augusto Ribeiro da. Lugares e suas Interfaces intraurbanas: a cidade vista por meio de suas diferentes escalas. João Pessoa: F&A Editora, 2014.

12 GEHL, Jan. La humanización del espacio urbano: la vida social entre los edifícios. Barcelona: Reverte, 2006. Esta

obra foi publicada originalmente em 1971, com o título em dinamarquês: Livet mellem husene, 1971.

13 JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Esta obra foi publicada origi-

nalmente em 1961, com o título em inglês: The Death and Life of Great American Cities.

14 HERTZBERGER, Herman. Lições da Arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Esta obra foi publicada original-

No ingresso ao mestrado, mesmo ainda não tendo um objeto de estudo claro, alguns edifícios despertavam o meu interesse. Refletindo sobre o caminhar na cidade, alguns lugares pareciam convidar à entrada, ao percurso e à apropriação de seus espaços, enquanto outros não. Al- guns lugares da cidade se destacavam em relação a outros devido a ca- racterísticas particulares. Estas inquietações, aparentemente aleatórias, já existiam antes do ingresso ao mestrado, porém só ficaram evidentes após o início deste trabalho. Pode-se dizer que o embrião do interesse pelo estudo das “arquiteturas que geram espaços abertos e coletivos” nasceu ainda durante a graduação, em primeira viagem para a Europa, por meio de um curso de extensão: Arquitetura Urbana na Europa (Ber- lim, Paris, Amsterdã, Roterdã) no ano de 2006.

Neste curso, foram visitadas diversas obras, porém algumas delas se destacavam mais do que outras e pareciam ser mais receptivas ao acesso e uso do público. Muitas destas obras geravam espaços pú- blicos, onde a permanência era livre, bem como o percurso por seus espaços intersticiais que se fundiam ao espaço urbano da cidade. Uma das indagações que ocorreu naquela época foi: por que não havia mui- tos exemplos de arquitetura deste tipo no Brasil ou em especial em São Paulo? Ainda que fosse possível encontrar algumas obras modernas na cidade de São Paulo, abertas ao público, como por exemplo, o Conjun- to Nacional, Masp, Centro Cultural São Paulo, galerias do centro, entre outros casos, como o Ministério da Educação (MEC) no Rio de Janeiro; raras vezes encontravam-se obras contemporâneas com estas caracte- rísticas. Esta constatação despertou certa frustação, uma vez que havia e há ainda hoje um processo de “fechamento” das cidades brasileiras, no qual os edifícios geralmente são projetados dissociados e desarticu- lados do espaço urbano, onde há pouca criação de espaços de caráter público de livre acesso, gerados conjuntamente com a arquitetura. Em contrapartida, esta constatação também despertou uma vontade de se reconhecer obras deste tipo: abertas, acessíveis, permeáveis e coleti- vas, que foram sendo procuradas nos passeios cotidianos pela cidade de São Paulo e em viagens que vieram depois, às quais, sempre que possível, eram registradas por fotos.

A partir desta primeira experiência e inquietação em relação à recepti- vidade e permeabilidade da arquitetura, no ano de 2007 foi iniciado o

Figura 3.1.01: Conjunto Nacional, São Paulo.

Foto: Daniel Ducci.

Figura 3.1.02: MASP, São Paulo.

Fonte: Foto da autora, 2016.

Figura 3.1.05: Espaços públicos gerados por obras em Berlim – Alemanha.

Fonte: Fotos da autora, 2006 e 2012.

Figura 3.1.04: Galeria do Rock, São Paulo.

Fonte: Foto da autora, 2015.

Figura 3.1.03: CCSP, São Paulo.

Figura 3.1.06: Espaços públicos gerados por obras em Barcelona – Espanha.

Fonte: Fotos da autora, 2006 .

Figura 3.1.07: Espaços públicos gerados por obras em Paris – França.

Fonte: Fotos da autora, 2006.

Figura 3.1.08: Espaços públicos gerados por obras em Paris – França.

Figura 3.1.09: Espaços públicos gerados por obras em Nova York – Estados Unidos

Fonte: Fotos da autora, 2011.

Figura 3.1.10: Espaços públicos gerados por obras em Londres – Inglaterra

Fonte: Fotos da autora, 2012.

Figura 3.1.11: Espaços públicos gerados por obras em Londres – Inglaterra

Figura 3.1.12: Espaços públicos gerados por obras em Amsterdã e Almere, Holanda.

Fonte: Fotos da autora, 2012.

Figura 3.1.13: Espaços públicos gerados por obras em Santiago do Chile.

Fonte: Fotos da autora, 2015.

Figura 3.1.14: Espaços públicos gerados por obras em Santiago do Chile

Trabalho Final de Graduação (TFG) com o seguinte tema: “Intervenção Urbana Santa Cecília: Proposta de Articulação entre o Espaço Público e Arquitetura”. Neste trabalho foi proposta uma arquitetura em miolo de quadra urbana no bairro da Santa Cecília, São Paulo. Para a realização deste trabalho, foram consideradas as inquietações da viagem da Eu- ropa, que despertaram uma vontade de se criar uma quadra permeável com miolo de quadra de acesso e uso público, envolvido por edifícios de uso misto privado.

A ideia de se realizar uma quadra permeável foi inspirada no conceito de “quadra aberta”, mencionado em conhecido texto de Christian de Portzampac (1997) “A terceira era da cidade”. Neste texto, Portzampac (1997) apresenta a cidade contemporânea como uma “Terceira Era”, ao mesmo tempo contígua e contrastante ao que ele denominou por “Pri- meira Era” equivalente à cidade tradicional, e a “Segunda Era”: a cidade moderna. O autor aponta que a “Primeira Era” foi marcada pela cidade que parte de seus vazios, do não construído. A quadra é tradicional e um esquema único define a configuração da cidade:

[...] a cidade é vista, compreendida, percorrida, planificada segundo os vazios dos espaços públicos, vazios estes definidos por suas bordas cheias, construídas: as insulae, as quadras (ilots) [...] A coesão da forma da cidade na 1ª Era é dada pela dimensão coletiva e comunitária. (PORT-

ZAMPAC, 1997, p.38).

Segundo Portzampac, a “Segunda Era” propõe a cidade a partir dos ob- jetos cheios, em que o edifício é elemento autônomo na quadra urbana, baseada no pensamento moderno e contrapondo-se a era precedente. A “Terceira Era”, por sua vez, inicia-se no momento em que as dinâmi- cas da cidade e demandas econômicas e sociais mudam. A cidade contemporânea é plural, complexa e não existe mais a predominância de um estilo sobre os outros, o que permitiria inúmeras soluções para um único objeto. A morfologia urbana pode ser caracterizada por uma “quadra aberta”, uma combinação da “Primeira e Segunda Era”, em que as edificações possuem critérios de afastamento entre si, ocupando o perímetro da quadra, onde o miolo é permeável.

Em publicação recente, Guerra (2014) menciona que Portzampac (1997) não se propôs a inventar a “quadra aberta”, pois esta não é uma ideia nova, mas estava preocupado “em dar sentido histórico e consistência conceitual

Figura 3.1.15: Imagens do projeto de arquitetura apresentado no Trabalho Final de Graduação.

Fonte: Arquivo pessoal, 2007.

Figura 3.1.16: Imagens da maquete do projeto apresentado no Trabalho Final de Graduação.

Fonte: Arquivo pessoal, 2007.

Figura 3.1.17: Croquis da Primeira e Segunda Era da Cidade e croqui explicativo da quadra aberta.

para um fenômeno urbano que acontecia de forma crescente em diversas grandes cidades” (GUERRA, 2014, p.114). Fazendo uma comparação à realidade brasileira onde a “quadra aberta” é exceção, Guerra aponta que em São Paulo são encontrados alguns bons exemplos, tais como o Centro Comercial do Bom Retiro (1960), Cetenco Plaza (1960), Centro Empresarial Itaú (1980) e Brascan Century Plaza (2000). As obras citadas por Guerra foram visitadas pela presenta autora durante a graduação, porém ainda que estas se mostrassem como “exceções”, principalmente enquanto qua- dra permeável, não se percebia com tanta clareza uma articulação entre a arquitetura e o espaço público. Os exemplos apresentados por Guerra apontam um caráter urbano, de liberação do solo e continuação do espa- ço urbano, porém, pode-se questionar se os espaços públicos gerados foram projetados de forma associada à arquitetura ou são resultantes de uma disposição de volumes, em que a edificação não é determinante para a configuração e uso do espaço. Entende-se que a permeabilidade física é importante, porém esta não garante a “vitalidade” do espaço público e urbano. Será que a elaboração conjunta e a interação entre a arquitetura e o espaço público interferem na “vitalidade” do espaço público? O que garante a “vitalidade” dos espaços públicos conformados por edifícios? Entre essas reflexões sobre a “quadra aberta” e a “vitalidade” dos espaços públicos, foram consultados outros referenciais, como Gehl (2006), Jane Jacobs (2003), Bentley et al. (1999) e Hertzberger (2006).

Segundo Gehl (2006), a vida entre os edifícios é um processo, que depende de estímulos físicos e de atividades que funcionem como incentivos para integrar pessoas nos espaços públicos. Em seu livro: “La humanización del espacio urbano: la vida social entre los edifícios”, o autor apresenta algumas diretrizes, destacando a importância de se considerar a escala do pedestre nos projetos de arquitetura e urbanismo, com estímulos para o encontro e socialização de pessoas, por meio de espaços públicos para caminhar, lugares para sentar, bordas ou áreas de transição para parar e acomodar, entre outros fatores. Os conceitos mencionados nesse livro continuam a ser exploradas por Gehl em outros livros mais recentes, como “Cidades para pessoas”15 e “A cidade ao nível dos olhos: lições para os plin-

ths”16, que apontam a relação entre o tratamento dado ao andar térreo dos

edifícios e os efeitos da esfera de influência da rua e dos espaços públicos.

15 GEHL, Jan. Cidades para pessoas. São Paulo, Perspectiva, 2013.

Jane Jacobs (2003) em seu livro clássico “Morte e vida de grandes ci- dades” menciona a ideia dos “usos combinados” e dos “olhos para rua” como estratégias para a “vitalidade urbana” e combate à insegurança dos espaços públicos, uma vez que os usuários poderiam atuar como a própria vigilância natural. Para isso, a autora ressalta a necessidade da presença de usuários transitando ininterruptamente nos espaços e a necessidade de uma diversidade de usos nas edificações que se inter-relacionam aos espaços públicos da cidade. Segundo a autora, os usos principais funcio- nariam como âncoras para atração de indivíduos em determinado lugar, entretanto, isolados tenderiam a ser ineficientes para a “vitalidade” urbana, em alguns casos até ocasionando desequilíbrios de horários de uso ou sin- tomas de decadência urbana. Em contrapartida, os “usos principais combi- nados” atrairiam as pessoas em horários diferentes e poderiam promover a “diversidade derivada”, termo que explica o surgimento de atividades secundárias, tais como os comércios e restaurantes, que usufruem da mo- vimentação de pessoas gerada pelos usos principais e conseguem manter usuários transitando ininterruptamente nos espaços urbanos.

Quanto mais complexa for a mistura de grupos de usuários – e daí sua eficiência –, maior será o número de serviços e lojas necessários para pinçar sua clientela dentre todos os tipos de grupos de pessoas, e conse- quentemente maior será o número de pessoas atraídas (JACOBS, 2003,

p.178). Na década de 1960, Jacobs (2003) procurava chamar a atenção para a questão da segurança, devido à multiplicação de casas de luxo que criavam o que ela denominou por “ilhas urbanas”. Nos dias atuais, ana- logicamente, podemos comparar aos novos empreendimentos imobili- ários das cidades brasileiras que atuam como verdadeiras “fortalezas”, criando muros e desestimulando a fruição pública. Entretanto, falar de “segurança” e “vitalidade” é algo muito subjetivo, principalmente por não sabermos ao certo como garantir a “vitalidade” em si de espaços, mas alguns autores ainda se arriscam em sugerir algumas possibilida- des por meio de princípios para estratégias projetuais.

Uma dessas referências seria o livro “Entornos Vitales – hacia um diseño urbano y arquitectónico más humano – Manual Prático” de Bentley et al.(1999), que apresenta um manual prático de desenho urbano e arqui- tetônico com destaque de sete princípios para se atingir uma “vitalidade urbana”: um ambiente construído que promova uma estrutura democrá-

tica que enriqueça o poder de escolha de seus usuários (BENTLEY et al, 1999, p. 9). Segundo os autores, o projetista tem uma participação importante sobre o ambiente construído e isto deve ser traduzido por meio de “ideias projetuais”. Desta forma, apontam-se sete qualidades ou princípios práticos para se atingir uma “vitalidade” urbana, a partir dos conceitos de: permeabilidade, variedade, legibilidade, versatilida- de, imagem visual apropriada, riqueza perceptiva e personalização. Dois princípios abordados por Bentley et al. (1999) foram referenciais no estudo acerca da “quadra permeável” e “vitalidade urbana”, que seriam os conceitos de permeabilidade e legibilidade. Para os autores, a legibilidade é uma qualidade que faz com que um lugar seja mais bem compreendido, em que a distribuição das atividades, forma física e elementos arquitetônicos contribuam na organização e estruturação perceptiva dos espaços. Algumas das diretrizes de legibilidade aborda- das nesse livro são baseadas nas contribuições conceituais de Gordon Cullen17 e Kevin Lynch (2010)18, como por exemplo, na menção aos

elementos chaves de Lynch: nós, limites, vias, zonas e marcos.

Segundo Bentley et al. (1999), a permeabilidade física e visual, por sua vez, é uma das qualidades indispensáveis para que os espaços sejam receptivos e “a vitalidade de um lugar pode medir-se através de sua ca- pacidade de ser penetrado, ou que através dele, ou dentro dele se possa circular de um local a outro” (BENTLEY et al, 1999, p.12, tradução nossa). Para os autores, os lugares acessíveis que dispõem de opções de per- curso público oferecem maiores alternativas para os indivíduos. Por outro lado, se todos os espaços fossem acessíveis, não haveria privacidade. Desta forma, torna-se necessário haver espaços de caráter público, pri- vado e zonas de inter-relação entre ambos, que permitem alternativas de transito entre esferas, sendo que a permeabilidade física e visual pode ou não existir simultaneamente. Os autores mencionam que, quando há alguma limitação no acesso físico de um espaço público para um espaço privado, o contato visual pode ser mantido e enriquecer a esfera públi- ca, no entanto, uma permeabilidade visual utilizada incorretamente pode produzir uma confusão já que nem todas as atividades que ocorrem na

17 CULLEN, Gordon. Paisagem Urbana. Lisboa: Edições 70, 1994. Esta obra foi publicada originalmente em 1961,

com o título em inglês: Townscape.

18 LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2010. Esta obra foi publicada originalmente em

esfera privada são igualmente privativas. Assim, os autores consideram necessário estabelecer uma clara distinção ou gradações de privacidade entre espaços nos projetos arquitetônicos e urbanos.

Hertzberger (2006) em “Lições de Arquitetura” se propõe a estimular e despertar uma mentalidade arquitetônica para a prática consciente que considera a esfera pública e a apropriação coletiva, por meio da forma convidativa, aquela que possui mais afinidade com as pessoas. Com isso, o autor apresenta conceitos teóricos que são exemplificados por meio de projetos e obras reais, fazendo uma ponte entre teoria e prática. Para Hertzberger (2006) o projeto de arquitetura deveria fornecer o má- ximo de “incentivos” para associações e acomodações de indivíduos, no qual a forma arquitetônica é projetada como uma estrutura flexível de referência, que pode ser interpretada e apropriada pelos usuários. Se- gundo ele, a forma arquitetônica como “estrutura de referência” remete à ideia do “coletivo”, tornando-se polivalente, uma vez que esta pode adaptar-se a novos usos e aparências, como por exemplo, a praça rebai- xada do Rockefeller Center, em Nova Iorque, que no verão é uma praça de alimentação e no inverno torna-se uma pista de patinação no gelo.

O processo de investigação no mestrado: a identificação das obras e suas “qualidades” comuns

Considerando os aportes citados, as reflexões e inquietações pré-exis- tentes, e passados sete anos da graduação, a pesquisa partiu da mo- tivação de estudar e identificar no campo da pesquisa em projeto de arquitetura, obras que fossem permeáveis, receptivas aos indivíduos e integradas à cidade, e num primeiro momento, elas foram denominadas como “arquiteturas urbanas”. Pode-se dizer que este tipo de arquitetura abrange uma gama muito grande de edifícios que possuem qualidade de ser urbano, visto que conseguem estabelecer algum tipo de relação positiva com o espaço urbano. Porém, quais seriam propriamente estas características de projeto ou qualidades da “arquitetura urbana”? Tendo esta questão em vista, embora ainda sem nenhum recorte espe- cífico, foi realizada uma busca livre em revistas, livros e internet, bem como em fotos de viagens, na busca pelas “arquiteturas urbanas”, con- forme uma intuição de relevância, entretanto, ainda não havia clareza de

quais eram as “qualidades” que as caracterizavam como tal. Assim, num segundo momento, já com algumas obras encontradas, Zein me ques- tionou por que havia identificado estas obras ao invés de outras. Desta forma, foram realizados croquis com as características identificadas nas obras selecionadas, e que apontam uma ativação do “reconhecimento referenciado” (ZEIN, 2011), por meio de critérios pré-concebidos, porém implícitos, que induziram a determinadas escolhas de obras, conforme mostram os croquis ao lado.

A partir deste exercício, percebe-se que os espaços abertos gerados pela arquitetura desempenhavam papel fundamental na relação e arti- culação da arquitetura com a cidade. Em alguns casos estes espaços