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6
 Tillits-, begeistrings- og fornuftsargumentasjon

6.1
 Ethos – tillitskapende argumentasjon

Para além de experimentação estética, Um homem com uma câmera é um vislumbre do que viria a ser a sociedade socialista, uma projeção utópica de um projeto social que convida o espectador a ser agente da trama e entender que o cinema era mais capaz mostrar a realidade do que o olho nu. O olhar subjetivo do aparato tecnológico, nesta obra, está a serviço da linguagem universal do cinema proposta por Vertov e da propagação do cidadão ideal do regime.

Figura 15. O cameraman. Um homem com uma câmera (1929), Dziga Vertov. Fonte: archive.org.

Pode-se eleger como protagonistas, o cameraman e sua câmera, que conduzem o olhar do espectador pela trama, além do próprio cinema, um trabalho de manufatura como todos os outros, e o povo soviético, mostrado em verdade.

A presença do homem e de sua câmera observando tudo é benéfica e essencial, pois é o meio mais preciso de se conhecer o regime. O cameraman também atua como professor ao revelar como se faz cinema.

Em Klier, por outro lado, a mensagem revelada é o poder das máquinas de vigiar que observam o cotidiano público e privado constantemente. O aparato tecnológico, neste caso, está a serviço do controle social.

operador, uma pessoa para conduzi-la. Em vez de familiaridade com o olho-sujeito, o filme provoca um estranhamento, pois não tenta esconder o olhar mecanizado que conduz quase toda a narrativa visual.

O trabalho de Klier lembra que todos estão sob vigilância, mas, ao mesmo tempo, convida o espectador a assistir o reality show que acontece diante das câmeras de vigilância e se tornar um dos vigias na torre panóptica, ou um cúmplice do "gigante". O filme reforça que o ideal do cinema para libertação humana proposta por Vertov e outros cineastas soviéticos não deu certo. A inovação estética e tecnológica contribuíram para o oposto, a vigilância.

Ao dar adeus ao cameraman, O gigante de Klier torna-se uma antítese de Um homem com uma câmera de Vertov.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise das duas obras mostra que a consciência de que o aparato tecnológico obedece à ideologia vigente é o que fornece ferramentas ao artista para que ele desenvolva um trabalho de relevância em conexão com seu tempo e possa optar pela subversão, ou não, do status quo.

Figura 17. Diagrama de considerações finais, 2016. Fonte: elaborado pela autora.

No caso de Vertov e seus contemporâneos, a tentativa de alcançar a objetividade e o empenho de promover um ideal estabelecido pela classe dominante foram legitimadas pelas impactantes mudanças sociais e avanços tecnológicos de sua época.

Um homem com uma câmera enfatiza a superioridade da máquina em relação ao corpo humano, baseado na ideia de potência e neutralidade do aparato tecnológico. Vertov se empenhou pelo cine-verdade e pelo olhar objetivo do aparato, para retratar a realidade da Rússia e de seus cidadãos, sem parcialidade. Para isso, elegeu como protagonistas de sua obra o operador (ou cameraman) e a câmera. O filme em si é um produto industrial do regime soviético e o operador de câmera faz parte do proletariado. O aparato permite que ele acesse pontos de vista até então impossíveis para registrar a sociedade de maneira fidedigna.

É importante frisar que não havia ingenuidade no olhar de Vertov. Sua opção por adotar estilos de narrativas experimentais, explorando a linguagem em detrimento do que poderia ser comercial ou mais acessível ao público, comprovam isso.

A gramática cinematográfica (GRANJA, 1981) estabelecida por Vertov – e aplicada por Klier – continua servindo de base para a produção audiovisual contemporânea, mesmo após o cinema digital. A linguagem híbrida documentário- ficção, as questões referentes à autoria da produção e à audiência dos filmes, levantadas por Vertov nos anos 1920, podem ser vistas, por exemplo, nos vídeos disponibilizados em redes sociais. O arquivo coletivo de produções cinematográficas, idealizado pelo diretor russo, é hoje uma realidade.

O ideal socialista já havia falhado quando Klier produziu seu filme. O estado (o filme foi produzido na, então, Alemanha Ocidental) estava interessado não na liberdade do povo, mas em seu controle. Klier optou por denunciar a falta de privacidade e liberdade dos cidadãos das grandes cidades, utilizando o próprio aparato tecnológico estatal para isso. O gigante assumiu a subjetividade do olhar cinematográfico para que a audiência compreendesse o poder das máquinas de vigiar, presentes até mesmo em espaços privados. A câmera de vigilância é a protagonista da obra, registrando os acontecimentos incessantemente. O espectador é convidado a assistir um reality show e se torna cúmplice na vigilância do outro.

Hoje, O gigante talvez não pareça, à primeira vista, um filme tão impactante por conta avanços tecnológicos e mudanças de estilo das produções audiovisuais. Porém, as questões levantadas pela obra há trinta anos, relativas à intervenção do estado na privacidade dos cidadãos, continuam pertinentes, especialmente na era pós- Snowden. Um outro ponto a ser observado é que a televisão adotou a prática de divulgação (ou produção) de vídeos de vigilância em programas policiais e de entretenimento. Ainda, os dispositivos móveis atualmente permitem a captura de cenas privadas e públicas – com ou sem permissão dos indivíduos registrados – e sua distribuição em tempo real, o que abre precedentes para novas discussões acerca do assunto tratado pelo diretor alemão nos anos 1980.

Um homem com uma câmera e O gigante são classificados como sinfonias visuais, devido à montagem que dá o ritmo em ambas as narrativas. As cenas do cotidiano – capturadas em locações e períodos diferentes – são organizadas em sequências de acordo com o movimento de cada uma e os intervalos entre si, proporcionando uma experiência de cinema. O resultado é que as duas obras

reverberam ainda hoje, não só na esfera da produção cinematográfica, mas também em questões de cultura e sociedade, rompendo com possíveis barreiras históricas, testificando a afirmação de Fischer em A necessidade da arte,

Toda arte é condicionada pelo seu tempo e representa a humanidade em consonância com as ideias e aspirações, as necessidades e as esperanças de uma situação histórica particular. Mas, ao mesmo tempo, a arte supera essa limitação e, de dentro do momento histórico, cria também um momento de humanidade que promete constância no desenvolvimento (FISCHER, 2010, p.17).

Quando obras como essas “começam a nos falar” (FISCHER, 2010), não há outra alternativa possível, senão não dar ouvidos.

REFERÊNCIAS

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Vídeos

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