2 Snelda-prosjektet: prosess og kontekst
2.2 Andelslagets grupper
Herman Hertzberger (2006)14 em seu livro “Lições de Arquitetura” pro-
põe uma discussão acerca do domínio público e privado, no qual su- gere que os conceitos de “público” e “privado” sejam compreendidos em termos relativos. Segundo Hertzberger (2006), público e privado, quando interpretados em termos espaciais, podem ser traduzidos como coletivo e individual.
Num sentido mais absoluto, podemos dizer: pública é uma área acessível a todos a qualquer momento; a responsabilidade por sua manutenção é assumida coletivamente. Privada é uma área cujo acesso é determinado por um pequeno grupo ou por uma pessoa, que tem a responsabilidade de mantê-lo. (HERTZBERGER, 2006, p.12).
Por outro lado, Hertzberger aponta que a extrema oposição entre públi- co e privado conduz a um clichê que seria “a suposta oposição entre o geral e o específico, o objetivo e o subjetivo” (HERTZBERGER, 2006, p.12), colocando excessiva ênfase nestes dois pólos. Entretanto, para ele o que realmente interessaria ao arquiteto seria algo que há em co- mum a essas duas esferas, ou seja, as relações humanas. Logo, o autor propõe entendermos o conceito de “público” e “privado” em termos relativos, considerando também uma série de outros fatores espaciais, que são específicos e importantes para o ato de projetar, como a aces- sibilidade, responsabilidade, propriedade e supervisão.
[...] os conceitos de ‘público’ e ‘privado’ podem ser vistos e compreen- didos em termos relativos como uma série de qualidades espaciais que, diferindo gradualmente, referem-se ao acesso, à responsabilidade, à re- lação entre a propriedade privada e a supervisão de unidades espaciais
específicas. (HERTZBERGER, 2006, p.13).
Um exemplo disso são os indivíduos ou grupos que se apropriam de parte do espaço público para interesses próprios, o que mostra que
14 HERTZBERGER, Herman. Lições da Arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Esta obra foi publicada original-
demarcações territoriais podem sofrer caráter temporário quando se é considerado o uso (HERTZBERGER, 2006, p. 16). O autor menciona que, ao projetar a arquitetura e os espaços, é preciso ter consciência das demandas territoriais e possibilidades de acesso e assim fazer uso de arranjos e articulações de formas, materiais, luz e cor, entre outros itens, que busquem expressar o caráter de diferentes ambientes, gra- dações territoriais e graus de acesso aos espaços, contribuindo assim para uma maior consciência de uso. O autor esclarece que a planta de arquitetura pode funcionar como uma espécie de mapa que mostra a “diferenciação territorial”, conforme as gradações de acesso e demar- cações de área específica, contribuindo para a divisão de responsabili- dades e identificação do caráter dos espaços.
Ao marcar as gradações de acesso público às diferentes áreas e partes de um edifício em uma planta, obtemos uma espécie de mapa mostran- do a ‘diferenciação territorial’. Este mapa mostrará claramente que as- pectos de acesso existem na arquitetura, quais são as demarcações de áreas específicas e a quem se destinam, e que espécie de divisão de responsabilidade pode ser esperada no que diz respeito aos cuidados e à manutenção dos diferentes espaços, de modo que essas forças pos- sam ser intensificadas (ou atenuadas) na elaboração posterior da planta.
(HERTZBERGER, 2006, p.21). Tendo isto em vista, Hertzberger (2006, p.40) apresenta a noção de “inter- valo” em arquitetura, apresentando-a como um conceito chave para se estabelecer a relativização entre demarcações territoriais distintas, em- bora contíguas. O “intervalo”, além de transição, também indica um am- biente de “acomodação” e “socialização”, possibilitando oportunidades para atividades e relações humanas acontecerem; como por exemplo, uma área coberta antes do acesso a uma edificação que pode ser um lugar de espera e ponto de encontro. Outro exemplo seria uma soleira, que delimita a transição do interior e exterior, e simultaneamente, pode ser um local de recepção ou despedida. E complementa argumentando que sugestões espaciais adequadas no projeto, como articulações de espaço junto às entradas, podem estimular “a expansão da esfera de influência pessoal, e deste modo, a qualidade do espaço público será consideravelmente aprimorada no interesse comum” (HERTZBERGER, 2006, p.40). Pode-se dizer que o autor apresenta o conceito de “inter- valo” como uma possibilidade de não apenas relativizar, como também articular demarcações territoriais distintas.
O conceito de intervalo é a chave para eliminar a divisão rígida entre áreas com diferentes demarcações territoriais. A questão está, portanto, em criar espaços intermediários que, embora do ponto de vista administrativo possam pertencer quer ao domínio público quer ao privado, sejam igualmente aces- síveis a ambos os lados, isto é, quando inteiramente aceitável, para ambos os lados, que o ‘outro’ também possa usá-lo. (HERTZBERGER, 2006, p.40). Gehl (2006)15, da mesma forma, menciona a ideia de “intervalo” ao
discorrer sobre as “zonas de transição” no âmbito do urbanismo, cujo conceito parece semelhante. Seriam transições suaves e fluidas, ou áreas que apresentam limites flexíveis, possibilitando assim uma cone- xão física e visual entre público e privado, interior e exterior.
[...] limites flexíveis – em forma de zonas de transição que não são nem totalmente privadas e nem totalmente públicas – muitas vezes poderão atuar como elementos de conexão, tornando mais fácil, tanto física como psicologicamente, os moradores e atividades de ir e vir entre os espaços públicos e privados, entre o interior e exterior. (GEHL, 2006, p.125, tradu-
ção nossa).
Alexander (2013)16, por sua vez, apresenta o conceito de “transição” por
meio de estratégias de projeto de arquitetura. Segundo ele, é possível adotar muitas formas físicas para “transições”, como por exemplo, em espaço intermediário interno que leva para uma segunda entrada; ou uma curva que direciona a determinado percurso, e no decorrer deste caminho existem jardins que intensificam a ”transição” até a chegada; como também diferentes materiais, elementos e mudanças de textura ao longo do passeio, que podem funcionar como “transições”.
A experiência da entrada em uma edificação influencia a maneira como você se sente dentro dela. Se a transição é abrupta demais, não há a sensação de chegada e o interior da edificação não consegue ser um espaço sagrado e protegido. (ALEXANDER, 2013, p.549). Alexander também menciona a “transição” associada às entradas, con- tribuindo para uma sensação de chegada, como também na forma de um pátio. Segundo ele, as pessoas precisam de espaços ambíguos entre interior e exterior que funcionem como áreas de “transição” e que permitam sair com naturalidade para o exterior. Entretanto, o autor res- salta que estes espaços, para serem efetivamente utilizados, precisam estar condicionados a outros fatores como, por exemplo, ao número
15 GEHL, Jan. La humanización del espacio urbano: la vida social entre los edifícios. Barcelona: Reverte, 2006. Esta
obra foi publicada originalmente em 1971, com o título em dinamarquês: Livet mellem husene, 1971.
16 ALEXANDER, Christopher. Uma Linguagem de Padrões: A Pattern Language. Porto Alegre: Bookman, 2013.
Esta obra foi publicada originalmente em 1971, com o título em inglês: A Pattern Language: Towns, Buildings, Construction.
de aberturas em lados opostos que possibilite deslocamentos e visuais para o exterior.
Segundo Alexander (2013), também é possível se obter uma “transição” na interface da edificação com o exterior, na criação de nichos como abrigos, com assentos para permanência de pessoas. O autor conside- ra que, quando a interface entre a edificação e exterior é feita de maneira adequada, conformando uma “zona de transição”, ela pode aumentar a conexão entre interior e exterior, incentivar os cruzamento dos limites espaciais e o deslocamento através dessa zona. Assim como permite o desenvolvimento de atividades variadas ao redor ou dentro deste espa- ço que se intensificam quando este é mais humanizado. (ALEXANDER, 2013, p.754).
Pode-se dizer que o conceito de “transição” abordado por estes auto- res, também remete à ideia do “entre” na arquitetura. Segundo o dicio- nário Aurélio (2010), o significado de “entre” equivale a “relação de lugar no espaço que separa pessoas ou coisas”. Em Dicionário Metápolis de Arquitetura Avanzada17 podemos encontrar algumas definições contem-
porâneas para o “entre” na arquitetura que podem contribuir para esta discussão. Segundo Morales (2000):
Em arquitetura, o ‘entre’ concentra seu interesse por aquele que media, que é a arquitetura da relação e da tangência. Seria o urbanismo dos sistemas abertos, seria a arquitetura sem limites, desprovida de fecha- mentos, aberta as fenomenologias da paisagem, mas também seria a ar- quitetura da conjunção com o mínimo e sem interesse [...] Seria a direção ideal de um projeto contaminado pelo meio que o rodeia. Origina-se ali onde (ou a partir de) as condições não são precisas, se não ambíguas, confusas, desviadas, híbridas, incertas. (MORALES, 2000, p.194, tradu-
ção nossa).
Por esse aporte, o “entre” na arquitetura está relacionado a um espaço de mediação e conexão, que é aberto, contaminado pelo meio, porém também é um espaço ambíguo e confuso. Pode-se perceber a menção ao “espaço aberto” e arquitetura sem limites, desprovida de fechamen- tos. Em definição complementar, Gausa (2000, p.194) menciona que o “vazio” não necessariamente é um espaço residual, uma vez que “o vazio não separa, então, senão une” e que este pode articular caminhos, acessos e estabelecer conexões.
17 GAUSA, Manuel et al. Diccionario metápolis de arquitectura avanzada: ciudad y tecnología en la sociedad de la
Entre dois não é, necessariamente, um espaço residual (o vazio entre dois volumes próprios da arquitetura e do urbanismo modernos) senão que, nas geometrias complexas, pode ser um lugar substancial: o lugar onde a geometria “inspira e expira”; um lugar de ambiguidades sincróni-
cas. Uma almofada elástica estrutural. Interessa, de fato, essa capacidade de juntar o vazio intersticial implícita em tais configurações irregulares. É possível ritmo entre o ocupado, o omitido, o entrelaçado: completos, vazios e ligações (ou articulações), ou seja, superfícies, pontos e linhas que se interpelam em sequências e combinações espaciais. O vazio não separa, então, senão une. É um grampo entre acontecimentos que enlaça, já que o próprio vazio é o que permite articular caminhos, suportes e acesso, produzindo malhas – ou canais – de conexão; reais ou virtuais. (GAUSA, 2000, p.194, tradução nossa). Neste sentido, este parece ser o papel do “espaço intersticial” e “espaço aberto”, enquanto “transição”, que está sendo considerado nesta pes- quisa: o espaço que pode articular e integrar a arquitetura ao espaço urbano, estabelecendo conexões. Entretanto, este espaço tem limites, configurados pelos elementos arquitetônicos e/ou urbanos, e não são totalmente fechados. Com isso, cabe recorrer à definição de “aberto” nas palavras de Gausa (2000, p.17, tradução nossa):
Aberto é não-fechado, não-concluído, não-confinado. Aberto é indetermi- nado – não-determinado e não-terminado-. [...] Aberto por exteriorizado. Relacional. [...] Aberto, também, por dialogante. Por não essencial. Por não onívoro. Por alterável. E contaminável. Disposto ao intercâmbio. Gausa menciona a noção de “aberto” associado à ausência de “fe- chamento”, porém também menciona características como relacional, intercâmbio e diálogo, que pressupõe a associação e relação entre di- ferentes elementos. Com isso, entende-se que o “espaço aberto” pode ser um ambiente de diálogo entre distintas demarcações territoriais. Desta forma, propõe-se retomar o debate sobre a relação entre espaço público e privado, e entre interno e externo, no qual o conceito de “inter- valo”, “espaço de transição” e agora “espaço aberto” se inserem como espaços relativos e ambíguos, porém também podem ser espaços de articulação e intercâmbio. Neste debate, insere-se também outro con- ceito que seria o de “espaço coletivo”, que para alguns autores substitui a noção de “espaço público”, uma vez que a apropriação e uso dos espaços tornam-se dinâmicos na cidade contemporânea.
Segundo Soriano (2000), nos dias atuais, a relação entre propriedade e uso desapareceu. Logo, o espaço antes denominado como “público”
agora pode ser denominado por “coletivo”. O autor menciona que es- paços de propriedade privada são absorvidos por usos públicos, bem como espaços de propriedade pública são usados de forma privada, tornando-se necessária uma nova modalidade: o “espaço coletivo”, no qual a reunião de pessoas é o que há em comum.
Espaços de propriedade privada são usados de maneira pública (centros comerciais, aeroportos...) e vice-versa, espaços públicos são absorvidos por usos particulares. Apareceria uma nova modalidade que é o coletivo, o uso de uma ampla reunião de indivíduos, se converte a sua única ca-
racterística constante. (SORIANO, 2000, p.203, tradução nossa). Para Gausa (2000) o “espaço coletivo” também pode ser denominado por “espaço relacional”, no passado denominado por “espaço público”. Segundo ele, este é um espaço aberto ao uso, à interação e apropria- ção, relacional e cúmplice, porém pode ser mutável e precário, mas que conduz a uma cidade mais alegre e excitante.
Um espaço autenticamente coletivo aberto ao uso, ao desfrute, ao es- tímulo, a surpresa: a atividade. A indeterminação do dinâmico, do inter- câmbio entre cenários ativos e transeuntes-usuários-atores-ativadores. [...] Um espaço relacional, pois, cúmplice. Não só para o passeio, mas para o estímulo pessoal e compartido. Um espaço coletivo, desinibido, otimista, relaxado – em muitos aspectos cambiante, mutável, precário e reversível – para uma cidade definitivamente mais alegre e excitante que elegante (GAUSA, 2003, p.204, tradução nossa). Solà-Morales (2008)18, por sua vez, propõe uma reflexão acerca do que
se pode entender por “espaço coletivo” na arquitetura contemporânea, porém trazendo um aporte do campo do urbanismo para o campo da arquitetura, considerando o caráter urbano destes espaços.
Segundo Solà-Morales, a partir do final do século XIX, a distinção entre espaço público e espaço privado ocupou lugar de destaque no pensa- mento urbanístico sobre as cidades ocidentais, o qual buscava dar maior valor à esfera pública. Barcelona foi um exemplo de desenvolvimento em direção aos espaços públicos, principalmente a partir de 1978, com a chegada do governo democrático. O investimento em parques e pra- ças maiores, além de vazios antes obsoletos, fortaleceram a imagem da cidade e dos próprios espaços públicos, de domínio, propriedade e desenho municipal.
18 SOLÀ-MORALES, Manuel de. De cosas urbanas. Barcelona: Gustavo Gili, 2008. O texto Espacios Públicos/ Espa-
Em contrapartida, Solà-Morales (2008) questiona a falta de propostas no âmbito privado que poderiam ocasionar o que ele denominou por hipertrofia dos próprios espaços públicos. Fazendo um paralelo, na re- alidade brasileira, pode-se dizer que a situação é inversa, onde há uma hipertrofia dos espaços privados, uma vez que é dada maior ênfase à esfera privada e privativa. Segundo Solà-Morales, a importância dos espaços públicos não deve estar associada a sua extensão e dominân- cia em relação ao privado e sim a sua contribuição para que o espaço privado adquira caráter público, urbano e coletivo.
Certamente, a importância do espaço público é independente se este é mais ou menos extenso, quantitativamente dominante ou protagonista simbólico; pelo contrário, é resultado de referir entre si os espaços pri- vados fazendo também deles patrimônio coletivo. Dar caráter urbano, público, aos edifícios e lugares que, sem ele seriam somente privados, esta é a função dos espaços públicos; urbanizar o privado: ou seja, convertê-los em parte do público. (SOLÀ-MORALES, 2008, p.187, tra-
dução nossa).
Para Solà-Morales, os espaços coletivos contemporâneos compõem os elementos estimulantes da vida cotidiana e do tecido urbano das cidades atuais. São eles espaços ambíguos, intermediários, nem pú- blicos, nem privados, ou ambos ao mesmo tempo. Segundo ele, a boa arquitetura é aquela que consegue dar valor público ao privado e desta forma transporta significados e valores sociais, que são qualidades as- sociadas ao modo de ser “urbano”.
O espaço coletivo é muito mais e muito menos do que o espaço público, sem limitá-lo a propriedade administrativa. A riqueza civil e arquitetônica, urbanística e morfológica de uma cidade são seus espaços coletivos, todos os lugares onde a vida coletiva se desenvolve, representa e recor- da. E, talvez, cada vez mais, cada dia mais, estes são espaços que não são nem públicos nem privados, mas ambos ao mesmo tempo. Espaços públicos absorvidos por usos particulares, ou espaços privados que ad- quirem uma utilização coletiva. (SOLÀ-MORALES, 2008, p. 188, tradução
nossa).