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Moralismo na Política Brasileira: a perspectiva sociológica

Na tentativa de uma contextualização histórica do lugar do moralismo na política brasileira, o capítulo anterior fez uso de uma perceptiva teórica da Ciência Política, analisando momentos em que o processo de moralização da política se apresentou com protagonismo significativo no nosso cenário político. Compreender o udenismo e suas questões intrínsecas – sobretudo o discurso de combate à corrupção, sua principal expressão – nos possibilitou perceber como o moralismo, enquanto um processo que busca modificar a balança de poder é capaz de desmobilizar ou de manter a força política de certos grupos. Essa perspectiva teórica trouxe ferramentas que permitem a compreensão das origens e permanência do moralismo no debate político brasileiro. Tais Ferramentas serão imprescindíveis para análise dos discursos coletados durante esta pesquisa, e discutidos nos capítulos posteriores.

Diante do exposto, o presente capítulo pretende acrescentar a essa forma mais estabelecida de analisar o problema do moralismo, o viés da ciência política, um olhar sociológico. A interpretação sociológica aqui proposta concorda com a perspectiva da Ciência Política na medida em que esta aponta os processos de moralização da política como propulsores de um discurso calcado na antipolítica. Porém, diferente dessa perspectiva que acredita que os debates políticos não devem ser pensados na dimensão do moralismo, a análise sociológica trata a moralização da política como um conjunto de ações que envolvem regras, controle, consenso e conflito. Segundo essa perspectiva, o moralismo pode ser um elemento fundamental para compreender a organização, os valores e as práticas sociais no cotidiano das instituições e na constituição da vida política (Brito, 2014).

Assim, propomos aqui uma análise do moralismo sob o viés de uma sociologia bourdieusiana, adequada para explicar os processos que transformam debates políticos em discursos de valores e virtudes que correspondem a interesses específicos e são capazes de interferir na dinâmica do campo do poder e seus subcampos. Tal análise é essencial para compor o conjunto de ferramentas que permite uma reflexão sobre os discursos de valores e virtudes manifestos nas entrevistas realizadas para esta pesquisa. A partir destas questões, além de uma discussão sobre a Sociologia dos Campos de Bourdieu (1983; 1992; 2001; 2003; 2007; 2011), também serão consideradas neste capítulo algumas colaborações de Grun (2011) para a Sociologia dos Escândalos, que

40 analisa como, diante da guerra cultural provocada nas disputas pelo poder e por capital cultural, o escândalo aparece como uma estratégia dos grupos em oposição para modificar suas posições no campo do poder.

Serão analisadas também as contribuições de Souza (2011; 2012), que argumenta que o discurso moral expresso no debate político converge para a naturalização das desigualdades no Brasil. Por fim, para compreender o processo de construção de um discurso que tem atraído diferentes grupos de diferentes camadas sociais, como o discurso anticorrupção. Também para refletir sobre a dinâmica entre ideias e práticas, faremos uso do trabalho de Anderson (2008), que mesmo voltado a estudar o nacionalismo por um viés cultural, nos possibilita, numa dimensão micro, um entendimento do processo de criação de mitos e valores capazes de organizar pessoas. O conjunto destas discussões somadas às reflexões do capítulo anterior compõe o arcabouço teórico analítico do objeto de pesquisa desta dissertação.

2.1 O Campo do Poder e o Campo da Política: Sociologia de Bourdieu

Para compreender o moralismo como uma estratégia capaz de interferir no campo do poder, se faz necessário um esclarecimento sobre a teoria dos campos de Bourdieu e suas questões intrínsecas. Assim, este tópico tratará do conceito bourdieusiano de campo, sobretudo nas discussões em torno do campo do poder e da política. Bourdieu (1983) entende as relações de poder, claras ou opacas, conscientes ou não, como inerentes a todas as relações humanas e a todos os campos que constituem o espaço social. Para o autor, os campos são plurais e constituem os mundos possíveis no meio social em que vivemos. Pode-se compreender um campo como um espaço estruturado de posições em que seus agentes concorrem por troféus específicos, a partir de regras específicas (Bourdieu, 2003).

A teoria dos campos bourdieusiana nos mostra que os campos têm suas próprias hierarquias, princípios e regras e são definidos pelas tensões e conflitos que os delimitam. Os campos são construídos por uma série de relações ou de oposições entre atores sociais que os compõe, e são caracterizados por espaços sociais, em certa medida restritos, que comportam ações coletivas e individuais seguindo alguma normatização específica criada e transformada de forma constante por estas ações. Há semelhanças entre as estruturas dos diferentes campos, como por exemplo, a luta pelo poder entre

41 seus agentes expressa nas disputas por legitimidade, domínio, autoridade e autenticidade no campo (Bourdieu, 1983).

Diferentes campos se relacionam e com isso criam espaços sociais mais amplos que sofrem influência e influenciam ao mesmo tempo (Bourdieu, 2003). De acordo com o exposto, um campo pode ser compreendido como um espaço social que tem múltiplas dimensões de relações sociais entre agentes que compartilham interesses comuns. Estes agentes disputam posições específicas, embora não tenham as mesmas competências e recursos. Dessa forma, o campo pode ser concebido como um espaço das práticas, de disputa entre dominantes e dominados, já que quem tem mais recursos e mais competências consegue posições superiores a quem não tem (Bourdieu, 1983).

Há nos campos uma disputa entre os agentes que têm um maior acúmulo de poder, ou capital, para interferir na dinâmica do campo; ou seja, para definir e redefinir quais as regras, as hierarquias, os prêmios e limites de cada campo. Os agentes dominantes buscam estratégias que possam conservar ou tornar superiores suas posições de interesse, enquanto os agentes dominados buscam abandonar e também tornar superiores suas posições, geralmente, fazendo uso de estratégias de subversão (Bourdieu, 1983). Assim, é possível afirmar que a estrutura de um campo é um estado de relação de forças entre agentes engajados na concorrência pelo poder. Para um esclarecimento mais amplo, Bourdieu compara um campo a um jogo:

Efetivamente, podemos comparar o campo a um jogo (embora, ao contrário de um jogo, ele não seja o produto de uma criação deliberada e obedeça a regras, ou melhor, a regularidades que não são explicitadas e codificadas). Temos assim móveis de disputa que são, no essencial, produtos da competição entre jogadores; um investimento no jogo, illusio (de ludus, jogo): os jogadores se deixam levar pelo jogo, eles se opõem apenas, às vezes ferozmente, porque têm em comum dedicar ao jogo, e ao que está em jogo, uma crença (doxa), um reconhecimento que escapa ao questionamento [...] e essa colusão está no princípio de sua competição e de seus conflitos. Eles dispõem de trunfos, isto é, de cartas-mestra cuja força varia segundo o jogo: assim como a força relativa das cartas muda conforme os jogos, assim, a hierarquia das diferentes espécies de capital (econômico, cultural, social, simbólico) varia nos diferentes campos (Bourdieu; Wacquant, 1992, p. 73-4.)

Assim, percebemos que o objetivo do jogo é a conservação ou acúmulo da maior quantidade de capital possível, para que assim as posições sejam definidas e redefinidas constituindo os limites de um campo específico. Os campos são resultados de processos de diferenciação social, de diferentes formas de ser e de conhecer o mundo. O que os sustenta são as relações de forças entre seus agentes (grupos, indivíduos, instituições).

42 Quem está em posições de dominação procura por estratégias de conservação de seus capitais e quem está em posições de dominado, procura transformar as regras do campo com estratégias de subversões que podem levar, por exemplo, ao descrédito dos capitais que sustentam a força dos dominantes. Está em jogo é a disputa pelo monopólio da autoridade, que traz consigo o poder de ditar as regras e repartir o capital específico de cada campo.

A compreensão dos campos só pode ser completa se entendermos a ideia particular de capital desenvolvida por Bourdieu: algo acumulado por transações de investimentos que possibilitam a extração de lucros (mas que vão além da noção econômica de lucro, tendo em vista que cada campo produz um capital particular). O capital confere ao seu acumulador opções de realizar aplicações rentáveis, conforme Bourdieu é “um conjunto de direitos e preempção sobre o futuro” (Bourdieu, 2001, p.275). Bourdieu distingue tipos de capital imprescindíveis para as disputas nos campos, um deles é o capital econômico que é formado por diferentes meios de produção como trabalho, fábricas, terra, formado também pelo conjunto dos bens econômicos, como renda, patrimônio e bens econômicos (Bonnewitz, 2003).

Outro tipo é o capital cultural, que Bourdieu utiliza para analisar situações de classe na sociedade, uma vez que em certa medida o capital cultural caracteriza subculturas de classe ou de frações de classe. Assim, o autor verifica nos gostos, valores, estilos, etc. as distinções que decorrem das condições de vida das diferentes classes. As especificidades das condições de vida de cada classe moldam suas características e contribuem para distingui-las. Numa explicação simplificada, o capital cultural diz respeito ao conjunto das qualificações intelectuais transmitida a um ator pela família ou pelo sistema escolar. Estas qualificações servem como uma distinção entre quem as possuem ou não e o valor que elas têm numa sociedade. O capital cultural pode aparecer no ator em forma de facilidade ao se expressar em público, que se deve ao estado incorporado deste capital como disposição duradoura do corpo. Pode aparecer também em estado objetivo, como um bem cultural que o ator tem acesso, como por exemplo, a posse de obras, quadros. Assim como pode aparecer em estado institucionalizado, sancionado socialmente por instituições, como os títulos acadêmicos, por exemplo (Ibidem).

Além do capital econômico e cultural, Bourdieu também distingue o capital social que constitui o conjunto das relações sociais que um indivíduo ou grupo dispõe. Ter capital social significa trabalhar na criação e manutenção das relações, ou seja, ser

43 sociável, fazer e receber convites, ter lazer em comum com outros atores. Há também o capital simbólico que está ligado à honra e ao reconhecimento, uma vez que a condição da efetivação deste capital se dá quando o seu valor é reconhecido socialmente:

O capital simbólico – outro nome da distinção não é outra coisa senão o capital, qualquer que seja a sua espécie, quando recebido por um agente dotado de categorias de percepção resultantes da incorporação da estrutura da sua distribuição, que quer dizer, quando conhecido e reconhecido como algo óbvio (Bourdieu, 2003, p.145).

Assim, o conceito de capital simbólico não se restringe apenas ao capital econômico, mas fundamenta-se no acúmulo dos diversos tipos de captais. A noção do capital simbólico está atrelada ao atendimento de expectativas coletivas, já que só há capital simbólico se ele for reconhecido por outros como um valor. Sendo o agente ou grupo que detém o capital simbólico, o que tem prestígio social, o que tem honra. Além do entrelace entre às noções de campo e capital na sociologia bourdieusiana, há ainda a noção de habitus como parte importante destas chaves conceituais. Conforme Bourdieu, o habitus “é um conhecimento adquirido e também um haver, um capital [...] que mostra a disposição incorporada” (Bourdieu, 2001, p. 22) de um ator em sua ação. “Habitus são princípios geradores de práticas distintas e distintivas [...] eles estabelecem as diferenças entre o que é bom e mau” (Ibidem). O autor explica que o habitus aparece nas preferências e opiniões dos agentes sociais, constituindo um senso prático, uma forma de sabedoria prática que direciona ações e escolhas dos agentes sociais (Ibidem). Assim, o habitus é um princípio de classificação incorporado pelos agentes sociais a partir das estruturas sociais que orientam suas ações.

As chaves conceituais da Sociologia de Bourdieu servem de direcionamento para as discussões deste tópico nas questões que envolvem o campo do poder e da política. A teoria bourdieusiana afirma que o poder perpassa todos os campos e relações sociais. Uma vez que o campo é estruturado a partir das relações de poder, traduzida numa oposição de forças entre dominantes e dominados conforme o capital próprio que compõe o campo. O campo do poder, que é diferente do campo político, pode ser concebido como o espaço de relações de forças entre os tipos diferentes de capital ou entre agentes que dispõem de um dos diferentes tipos de capital para dominar o campo. Dessa forma, o campo do poder aparece na teoria dos campos como o campo dos campos, por perpassar todos os outros e ser o espaço central das sociedades

44 contemporâneas, já que é no campo do poder que as elites dos diferentes campos sociais se encontram e competem pelo monopólio do seu capital específico (Bourdieu, 1983).

Esclarecidas as questões centrais da teoria dos campos, assim como concepção de campo do poder, é possível prosseguir para discussão do campo político. Bourdieu (2011) explica que falar de campo político significa falar que tal campo é um “microcosmo”, ou seja, um pequeno mundo social que tem autonomia relativa no interior do grande mundo social (Idem. p.195.).

Bourdieu afirma que, assim como nos demais campos, há no campo político um grande número de relações, ações e processos que estão no mundo global. Porém, dentro deste campo, processos e fenômenos aparecem de uma forma particular, daí a ideia de que um campo é um microcosmo autônomo, por ter suas próprias leis, princípios e regras de seu funcionamento, dentro de um macrocosmo social. Nesse sentido, o campo político é um lugar onde agem critérios de avaliação próprios e que não teriam validade no microcosmo ou campo vizinho. O campo político poderia ser descrito “como um jogo em que o que está em disputa é a imposição legítima dos princípios de visão e divisão do mundo social” (Idem. p. 206).

Qualquer agente que ingressa no campo político se compromete a se eximir de certos atos que não sejam compatíveis com sua dignidade sob pena de escândalo (Idem. p.196). O campo político pede uma conversão de seus agentes, uma transformação, que mesmo não apresentada como tal é imposta, e seu não acatamento resulta em fracasso e exclusão. Assim como o campo religioso, o campo político é separado entre os profissionais e os profanos, sendo os profissionais os que têm posições de dominantes do campo e os profanos as posições de dominados.

Bourdieu sugere que as condições sociais de possibilidade de acesso a esse campo (como, por exemplo, tempo livre, educação) mede o quanto os seus agentes do campo são dotados de excedentes econômicos que lhes permitem distanciar-se de atividades produtivas (Idem. p.196). Estas condições também indicam o potencial de exclusão deste campo, uma vez que nem todos os agentes da sociedade podem se distanciar de atividades produtivas, assim como nem todos que precisam se dedicar a estas atividades, podem juntamente se dedicar ao campo da política. Essa dificuldade se dá pincipalmente pela falta de excedente econômico, que auxilia na dedicação a este campo.

As condições sociais do funcionamento do campo político (um lugar onde só quem possui excedentes econômicos teria condições de acesso) faz parte de um jogo

45 particular em que outras pessoas são excluídas. Desse modo, o campo político paira sobre uma exclusão e um desapossamento (Idem. p.197). Para o autor, uma das virtudes da noção de campo político é esclarecer que algumas ações realizadas por pessoas “que estão no jogo” tem seu princípio no próprio campo político. Por exemplo, usar a frase “eu trabalho em seu favor”, amparada na ideia de representação política, é o mesmo que dizer: “eu sou seu porta-voz e não expresso meus interesses próprios, pois tudo o que faço é representar você”. Porém, conceber o espaço político na lógica de um campo, nos permite perceber que as pessoas que o compõem podem falar e fazer coisas determinadas não pela relação com seus representados, mas pela relação com outros membros deste campo:

Dito de outra forma, a noção de campo relativamente autônomo obriga a colocar a questão do princípio das ações políticas e obriga a dizer que, se queremos compreender o que faz um político, é por certo preciso buscar saber qual é sua base eleitoral, sua origem social..., mas é preciso não esquecer de pesquisar a posição que ele ocupa no microcosmo e que explica uma boa parte do que ele faz (Idem. p. 199).

Com isso posto, é importante ressaltar que um campo é necessariamente um campo de forças e um campo de disputas para transformar as relações de forças. No campo político, como em qualquer outro campo, a ação de quem os compõe é determinada por sua posição na estrutura da relação de forças. Nesse sentido, conforme Bourdieu, uma das transformações mais importantes das relações de força no campo político diz respeito ao fato de que agentes que poderiam se considerar (ou serem considerados) como expectadores deste campo passaram a ser seus agentes principais. Por exemplo, os jornalistas e os especialistas em pesquisa de opinião (Idem. p. 202).

Para Bourdieu, a descrição do campo político atualmente necessita da inclusão das categorias dos jornalistas e pesquisadores de opinião como seus agentes, uma vez que “reconhece-se a presença ou existência de um agente em um campo pelo fato de que ele transforma o estado do campo (ou que, se o retiramos, as coisas se modificam significativamente) ” (Idem. p. 202). Assim, Bourdieu percebe que há algo particular no campo político, pois devido à representação de pessoas não participantes do campo e da inclusão dos jornalistas e pesquisadores de opinião, este nunca poderá ter uma autonomia completa, pois está diretamente ligado à sua clientela, “os leigos”, que têm o voto como última palavra nas disputas entre os membros do campo político.

46 Dessa forma, é possível entender que o principal elemento em jogo nas lutas políticas é a enunciação e imposição dos “bons princípios de visão e divisão de mundo”. Afinal na perspectiva de Bourdieu, a política é uma luta em prol das ideias, uma disputa intelectual, onde uma ideia particular forte funciona como força de mobilização: “se o princípio de divisão que eu proponho for reconhecido por todos, se meu nomos se tornar o nomos universal, se todos virem o mundo como eu o vejo, terei atrás de mim toda a força das pessoas que compartilham minha visão. ” (Idem. p. 203). As lutas políticas são lutas entre os agentes políticos que competem pelo monopólio da manipulação legitima dos bens políticos e têm como objetivo dominar o Estado, pois este em alguma medida poderia apaziguar a luta, tendo em vista que as “verdades” do Estado são, ao menos no discurso oficial, impostas como interesses universais. Percebe-se então que lutar pelo monopólio da divisão e visão do mundo social opõem indivíduos que possuem poderes e capitais desiguais.

A partir dessa exposição, a sociologia bourdieusiana nos permite perceber que num ambiente de lutas simbólicas há opositores que possuem armas, capitais e poderes desiguais. O poder político é um capital de reputação, que se relaciona com a notoriedade, precisa ser conhecido e reconhecido “é um capital simbólico ligado à maneia de ser conhecido” (Idem. p. 204). Por isso os jornais de televisão e os especialistas em pesquisa de opinião têm um papel muito importante no campo político, por garantir conhecimento e reconhecimento dos agentes, também por ter possibilidade de interferir nesse conhecimento e reconhecimento de acordo com seus interesses diante da disputa por posição dentro do campo.

Vemos então que as lutas políticas envolvem disputas intelectuais e princípios de visão e de divisão do mundo social. Essa reflexão, que é fruto e se une às chaves conceituais da sociologia bourdieusiana, nos possibilita avançar no objetivo deste