Arbeidstid blant par av foreldre
3.3. Avtalt arbeidstid og arbeidstidsordninger
3.3.3. Ukentlig arbeidstid
A Peste é sem nenhuma dúvida, entre todas as calamidades desta vida, a mais cruel e verdadeiramente a mais atroz. É com grande razão que é chamada por antonomásia de o Mal. Pois não há sobre a terra nenhuma mal que seja comparável e semelhante à Peste. (F. DE SANTA MARIA apud DELUMEAU)
A Idade Média foi um período histórico notadamente marcado pelo pessimismo e pela visão apocalíptica do mundo. Os séculos V a XV caracterizaram-se por uma atmosfera sombria que oprimia o cotidiano das comunidades, ao mesmo tempo em que torturava o homem individualmente, com angústias intermináveis e pavores incessantes. O que se tinha eram hordas de histéricos, angustiados, melancólicos e fanáticos que não se ocupavam de outro tema que não a sobrevivência em meio ao perigo iminente de castigos divinos e do fim da humanidade, isto é, o tão esperado, Juízo Final.
O temor, o espanto, o pavor, o terror dizem mais respeito ao medo; a inquietação, a ansiedade, a melancolia, à angústia. O primeira refere-se ao conhecido; a segunda, ao desconhecido. O medo tem um objeto determinado a qual se pode fazer frente. A angústia não o tem e é vívida como uma espera dolorosa diante de um perigo tanto mais temível quanto menos claramente identificado: é um sentimento global de insegurança. (DELUMEAU, 1989. p. 25)
Já ficou esclarecido que o pensamento religioso medieval exercia influência determinante para uma tal paranoia coletiva, muito arraigada na concepção da sobrenaturalidade e daquilo que ocorria fora das vistas humanas. Essa filosofia do horror que defendia a existência macabra de múltiplos perigos à alma humana, corroborava para que o medo no nível coletivo, e a angústia, no nível individual, se convertessem na força motriz da unidade, da ordem e, acima de tudo, da autoridade da Igreja Católica em toda a Alta Idade Média e em boa parte da Baixa Idade Média.
Apesar do papel preponderante da imaginação para sustentar a intrujice religiosa, alguns acontecimentos proeminentes da esfera da realidade conspiravam para o mau agouro que pairava sobre a Europa Medieval. É certo
que o sobrenatural permanecia sinistramente associado a esses eventos, mas de fato, as guerras, doenças, pandemias e a escassez de alimento que assolaram a Europa por décadas, nada tinham de invencionice ou imaginação fértil.
A Peste Negra ou Morte Negra como era conhecida, foi uma sucessão de epidemias em nível continental que, em quatro séculos, aniquilou entre 40% e 75% da população da Europa, dependendo da localidade.
Nenhuma região da Europa foi poupada pela Morte Negra. Um conjunto de doenças contagiosas (peste bubônica, pneumônica e septicêmica), que retornavam a cada 10 ou 15 anos, aniquilando por onde passavam não só os seres humanos, mas também os animais, as plantações, o mercantilismo, o cotidiano, o comércio e as economias locais. Em tempos de Peste, a necessidade de isolamento, a morte da força de trabalho, o fechamento dos portos e o abandono do espaço público, condenavam uma cidade a morrer juntamente com seu povo.
Durante pouco mais de um século, o retorno da Peste foi sinistramente ritmado: “as datas de epidemias na cidade parecem obedecer a um ritmo e
salienta-se um ataque por década: 1455-1457; 1466-1467; 1479; 1483; 1494- 1497; 1503; 1516-1517; 1521-1522”, (DELUMEAU, 1989. p.108). Delumeau cita,
ainda, uma análise de J. N. Biraben feita em um compêndio médico, sobre a situação da Peste na Europa:
Se se acompanha a história da Peste em uma cidade nessa época [...], constatava-se que ela causava, a cada oito, dez ou quinze anos, violentos surtos em que toda a cidade era atingida, perdendo até 20, 30 e mesmo 40% de sua população. Fora desses paroxismos, persistia em estado semi-endêmico, vagando caprichosamente de uma rua ou de um bairro a outro, sazonalmente, durante um, dois e até cinco anos seguidos, depois extinguia-se durante alguns anos. Reaparecia então sob essa forma ‘atenuada’ que precedia muitas vezes a forma ‘explosiva’ antes de segui- la. (BIRABEN apud DELUMEAU)
Jeffrey Richards exemplifica a situação calamitosa das populações europeias nos anos 1300, nominando os resultados de algumas das pestes que ocorreram naquele período:
A Peste Negra devastou a Europa durante o período 1347-9, dizimando, estima-se hoje, cerca de um terço da população. [...] Em 1361-2, uma segunda Peste (pestis secunda), atacou; entre 10 e 20% da população pereceram. Ela matou tantos rapazes que ficou conhecida como a ‘Peste
do Rapazes’ (pestis puerorum). Em 1369, a terceira Peste (tertia pestis) eliminou outros 10 ou 15% da população. A peste retornou ciclicamente a cada cinco ou dez anos no decorrer de toda a Idade Média. (RICHARDS, 1993. p.26)
A Morte Negra afetou profundamente a organização social da Europa Medieval. Por um lado, muitos homens ascenderam socialmente e fizeram fortunas. Por outro lado, havia uma escassez de mão de obra em quase todos os campos da economia, o que deu origem a uma luta entre classes, gerando revoltas sucessivas a partir do século XIII. Entretanto, a miséria, que, até então, havia marcado a Europa, foi dizimada com a existência de uma população reduzida: havia comida e trabalho para todos, e com a falta de mão de obra os altos salários passaram a predominar. Essa foi uma das principais influências para a decadência da figura dos senhores de terra. “As prestações em trabalho
foram substituídos por remunerações em dinheiro, e outras obrigações foram substituídas por pagamento em dinheiro e arrendamentos a longo prazo”,
(RICHARDS, 1993. p. 28).
Também o prestígio da Igreja e o poder do pensamento religioso sofreram com os efeitos da Peste. Talvez a Morte Negra tenha sido a grande responsável pela ascensão do individualismo espiritual que predominou no início do Renascimento, visto que a questão da salvação da alma, em período de mortes massivas, tornou-se mais importante do que nunca. Nesse sentido, o homem voltou-se para si, colocando em xeque a influência da Igreja como intermediadora entre as esferas celeste e terrena.
A organização da Igreja foi seriamente prejudicada pela destruição provocada pela Peste Negra. Muitos de seus melhores intelectuais morreram, e um grande número de párocos fugiu. Nessas circunstâncias, as pessoas buscavam em si mesmas a libertação espiritual. (RICHARDS, 1993. p. 27)
Ainda, a vida intelectual foi seriamente afetada pela Peste. “Vinte
universidades desapareceram entre 1350 e 1400” (RICHARDS, 1993. p.28), além
do grande número de mortes entre aqueles que possuíam nível educacional e eram produtores de pensamentos e conhecimentos, isso gerou a proliferação de novas ideias calcadas no conservadorismo e no ceticismo. Enquanto o ceticismo
crescia, o hedonismo corria solto pelas cidades, de forma que o pensamento corrente era o de que “se vamos morrer amanhã, devemos nos divertir hoje”. Com isso, a ordem social baseada nos dogmas cristãos se enfraqueceu cada vez mais, fazendo com que a Igreja passasse por um longo período de insurgências e questionamentos advindos de todas as camadas sociais.
Mas, acima de tudo, os efeitos da Peste influenciaram a maneira pela qual os homens encaravam a morte. Se, na era medieval, a morte foi envolvida pelo macabro e pelo sombrio, sem dúvidas, isso foi decorrência da malfadada Morte Negra.
Com relação à morte, a Peste Negra agregou outros fatores mais sinistros à questão da privação da convivência e da salvação da alma. Para o homem da Idade Média, o perecimento de uma pessoa tornava-se ainda mais terrível por estar acrescido da dor intensa do moribundo, do odor que encobria as cidades em decorrência do grande número de cadáveres, da putrefação do corpo resultante das doenças e do mau agouro repentino que se abatia em uma vida até pouco tempo tranquila e promissora. Nada parecia mais horripilante, sofrido e condenatório do que a morte em tempos de Peste.
Os aspectos estéticos inerentes à Peste Negra eram por si só assustadores: montanhas de cadáveres acumulados pelas esquinas e portas das casas; fogueiras incessantes para queimada dos corpos e para o afastamento dos maus espíritos; valas comuns com amontoados de corpos em estado de putrefação; ausência de vida no espaço público, rasgado, vez por outra por pessoas apressadas que se expunham para cumprir os compromissos inadiáveis e para adquirir suprimentos básicos; e a circulação dos médicos responsáveis por atender os doentes e tentar aplicar alguma ordem em meio ao caos.
De fato, nada poderia ser mais tétrico do que a presença dos médicos em tempos de Peste. Além da pouca efetividade de suas atuações, já que os medicamentos e as condições de higiene eram tão precários quanto ineficientes e a Peste era tão contagiosa quanto mortal, os médicos trajavam um tipo de indumentária que reforçava a situação agourenta na qual os atingidos pela Peste se viam envolvidos. Os costumes trajados pelos médicos incluíam uma máscara em formato de bico de pássaro, o que os associava à ideia de um corvo do mal
que rondava a cidade levando a morte através das casas, visto que, no mais das vezes, suas visitas eram sucedidas pela morte do doente.
FIGURA 16 - Gravura do Dr. Schnabel (“Bico”) de
Roma, Paulus Furst - 1656
Médico vestindo sua roupa de proteção típica dos médicos em tempos de Peste.
Os médicos que circulavam pelas cidades em tempos de Peste trajavam esse uniforme de proteção composto por um sobretudo que cobria completamente o corpo, luvas pesadas para evitar o contato com as mãos, chapéu, botas e um cajado que era utilizado para afastar as pessoas que dele tentavam se aproximar. Mais importante, os médicos também usavam uma máscara em formato de bico de pássaro, feita de couro, com buracos de vidro para os olhos. Esta máscara tinha a pretensão de funcionar como uma espécie de máscara anti-gás, tão comum nos dias de hoje, protegendo os médicos das contaminações pelo ar. Na parte interna dos bicos, os doutores colocavam ervas com cheiros fortes para aliviar o odor pútrido que assolava as cidades. A imagem dos médicos era muito mais aterradora do que reconfortante, ainda mais pela triste ineficiência pela qual estavam estigmatizados.
!
Um indivíduo contaminado pela Peste Negra poderia morrer em horas ou, na melhor das hipóteses, em dias. Nada podia ser feito para curar o doente, e o contágio se dava em escalas inimagináveis para os padrões atuais. Vale ressaltar que a peste bubônica, a principal doença da pandemia, era transmitida pelas pulgas que migravam dos ratos para os humanos e, a partir daí, circulavam por ruas, bairros e cidades inteiras, em decorrência das péssimas condições de higiene pessoal, independente da camada social. Além disso, as cidades eram tão sujas e com saneamento tão precário que os ratos procriavam aos montes, dificultando o controle da contaminação. Uma vez nos humanos, a Peste, em
qualquer uma de suas formas (bubônica, pneumônica e septicêmica), era transmitida pelo ar, através das tosses e espirros.
Tive muita dificuldade em mandar retirar cento e cinquenta cadáveres semi-putrefatos e roídos pelos cães, que estavam à entrada de minha casa e que nela já punham a infecção, de maneira que me via forçado a ir morar em outro lugar. O odor e o espetáculo de tantos cadáveres de que as ruas estão cheias impediram-me de sair há um bom número de dias, não podendo suportar nem um nem outro. Pedi um corpo de guarda para impedir que se ponham mais cadáveres nas ruas à minha volta. (Monsenhor BELSUNCE apud DELUMEAU, 1989. p.129)5
FIGURA 17 - A praga de Azoth (Die Pest von Azoth). Nicolas Poussin. 1630-1631
Com medo da contaminação e sem entender corretamente o sistema de propagação da doença, muitos recorriam ao isolamento completo e, quando algum habitante da casa morria em decorrência da Peste, seu corpo era simplesmente jogado à rua pela fresta da porta, daí o acúmulo desastroso de corpos que inviabilizavam as cidades e ajudavam a contaminar animais famintos. Outra questão importante era que as pulgas também infestavam os animas que, constantemente, eram sacrificados em meio ao espaço público, aumentando a deterioração do saneamento. Além disso, estrangeiros, forasteiros e judeus eram perseguidos por serem considerados os veículos de entrada da Peste na cidade. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
5 Delumeau cita monsenhor Belsunce para exemplificar o desalento que a certa altura atinge os moradores
sobreviventes das cidades atingidas pela Peste. Delumeau explica que: “O monsenhor Belsunce que não
quis de modo algum abandonar Marselha em 1720 – e o fez saber -, que viu morrer onze pessoas em sua casa, que confessava e consolava os moribundos ‘lançados para fora de casa e colocados entre os mortos sobre os colchões’, conheceu no entanto a fraqueza e o medo e, durante algum tempo, deixou de sair.”(DELUMEAU, 1989, p. 129)
Considerando outras doenças isoladas que agravavam o estado de saúde da Europa, como o tifo e a difteria, além da altíssima taxa de criminalidade em tempos de epidemia, e outras calamidades como fome e sucessivas guerras, pode-se imaginar o quanto era simples associar esse cenário de destruição e morte aos desígnios de Deus e à aproximação do fim do mundo.
Mais grotesco ainda é saber que em seguida ao abrandamento do contágio, hordas de flagelantes faziam procissão, tentando aplacar a ira divina (RICHARDS, 1993).
FIGURA 18 - Flagelantes – século XV
Sem o apoio do Papa Clemente VI, o Movimento dos Flagelantes foi criado por um grupo de fieis que acreditava que o auto-flagelamento seria o caminho para aplacar a ira de Deus, visto que para eles a Peste Negra era a resposta Divina contra os prazeres, as insurgências, os pecados e os desvios da raça humana.
A Peste Negra intensificou a preocupação medieval com as ‘quatro últimas coisas’, morte, juízo, paraíso e inferno. Ela teve um efeito marcante sobre a arte e a literatura, que se tornavam saturadas de imagens de dor e de morte. Peças de mistério com temas religiosos tornaram-se comuns e geralmente falavam sobre a decadência humana e os tormentos do inferno. (RICHARDS, 1993. p. 27)
Inspirados pela mitologia da Antiguidade e por passagens arcaicas do Cristianismo, passou a fazer-se referências à ira de Deus como sendo flechas de fogo ou envenenadas enviadas do céu. Inúmeras pinturas retratavam as flechas certeiras vindas do céu, atingindo os homens na Terra. Segundo, Delumeau (1989. p. 113), um dos mais expressivos é um afresco de B. Gozzoli, em San Gimignano (1464), que mostra Deus Pai lançando suas flechas envenenadas, a despeito de Jesus e Maria estarem ajoelhados em súplica.
As flechas de Deus eram uma metáfora poderosa de como os homens acreditavam estar sendo vítimas dos castigos celestes.
FIGURA 19 - The Triumph of Death – pintura em parede Palazzo Abatellis – Palermo - 1448
Além do caos que predomina nas duas obras, visão artística da calamidade na qual se encontravam as cidades quando atigindas pela Peste, dois outros fatores chamam a atenção por representarem uma uniformidade de pensamento na Europa entre os séculos XIV e XVI: a presença da morte que alveja os moribundos e as flechas que transpassam os corpos indistintamente.
As flechas de Deus sobre a Humanidade pecadora tornaram-se obsessão religiosa, popular e artística, de tal forma que São Sebastião tornou-se o santo salvador das mazelas da Peste por ter tido, ele próprio, o corpo transpassado por flechas e milagrosamente sobrevivido.
FIGURA 21 - Martírio de São Sebastião – Bartolomeu di Giovanni – 1500
O mártir São Sebastião em pintura da Baixa Idade Média, na qual é retratada sua execução pelos soldados do imperador romano Diocleciano. Abaixo, a visão renascentista do santo, que aceita resignado as flechas angelicais, enquanto, ao fundo, a cidade sofre com o caos típico dos tempos de Peste.
Com a visão das flechas de Deus, a Europa, abatida pela Peste Negra assumiu a condição de últimos dias, restando apenas a sorte de ser ou não encaminhado para o Paraíso. Em meio a esse sofrimento, a morte tomou contornos únicos, típicos da Idade Média, na qual a catástrofe, aliada à atmosfera macabra da Morte Negra, converteu a morte no tema mais sombrio e simbólico daqueles tempos.
Oriunda do século XV, a obra intitulada A morte na presença de Deus reúne as mais importantes concepções humanas relativas à morte, em voga na Europa medieval até aquele momento. Mais do que isso, a partir da análise dos elementos figurativos que a compõem, é possível considerar que ela delimite uma transição entre o pensamento da Alta Idade Média, sobrenatural e até certo ponto poético, de uma sociedade assolada pela pior fase da Peste Negra e o início do pensamento renascentista, rumo à modernidade e com foco na realidade e no esfera terrena.
FIGURA 23 - A morte na presença de Deus.
Deus e seu exército de anjos portam suas espadas com as quais transpassam os demônios e os moribundos. Enquanto Deus contempla, com certa compaixão, o estado de morte, um anjo trava sua batalha contra um demônio, que tenta arrastar um condenado.
Nessa obra, de cunho quase filosófico, é possível destacar:
⇒ Deus empunhando sua arma pontiaguda, tal qual as flechas envenenadas da Peste Negra e de São Sebastião;
⇒ A efemeridade da vida, representada pelo morto ainda com um semblante vívido; ⇒ A decomposição do corpo representada pelos ossos e crânios que anunciam o futuro do
defunto recente;
⇒ A eterna batalha do Bem contra o Mal, simbolizada por anjos e demônios;
⇒ A infindável questão da salvação e da condenação da alma, ou seja, Paraíso e Inferno; ⇒ O cuidado com o corpo morto, que descansa sobre uma túnica adornada com
elementos dourados e vermelhos.
Analisando a composição geral do quadro, é possível admitir que o homem, que se encontra envolvido por um fundo azul, repleto de anjos que defendem sua alma e observado diretamente por Deus, está em um processo de salvação, rumo ao Paraíso. Apesar da paz que caracteriza seu semblante e do afortunado além-morte que parece lhe esperar, não há como escapar da condenação do corpo que, em breve, estará putrefado. Os desígnos terrenos são terríveis, mesmo quando o destino da alma é ao lado do Bem.
1.2.2. Os Pensamentos em torno da Morte Laica: o perecimento do corpo e