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Forholdet mellom mors og fars arbeidstid

Arbeidstid blant par av foreldre

3.2.6. Forholdet mellom mors og fars arbeidstid

É na Idade Média que o medo e o sentimento de horror aproximam-se definitivamente da religião ao associar a fé a conceitos como o respeito, a devoção e a humildade, dogmas incontestáveis para a moral do bom cristão. Em um mundo moralista por excelência, o mal sempre foi instrumento importante de aproximação entre as esferas natural e sobrenatural, pois, mesmo sendo um conceito abstrato, o mal possui o poder de manter uma ordem dogmática, sem a qual só haveria castigo e condenação eterna.

Fundamentalmente, o catolicismo medieval era calcado no Sagrado, aspecto no qual o fiel poderia se apoiar para tentar escapar das mazelas do Juízo Final. Se, na tradição Clássica, os gregos distinguiam deuses e homens prioritariamente pela particularidade da imortalidade, para os cristãos do medievo nada poderia ser mais distante e temível do que o Sagrado.

Antes de colocar em pauta a gênese da filosofia cristã na Idade Média, é necessário uma pequena ponte rumo a uma aproximação com o termo Sagrado.

Segundo Mircea Eliade:

Uma verdadeira experiência religiosa é um encontro com o sagrado, a qual se estabelece no âmago do indivíduo. A ligação com o sagrado ocorre na forma de uma experiência mística, única e repleta de mistérios, incompreensíveis à razão. (ELIADE, 2010(a). p. 18)

O caráter irracional do fenômeno religioso acarreta uma espécie de nulidade do indivíduo, ou seja, um tamanho sentimento de impotência e de inutilidade da figura humana que o sujeito passa a sentir-se completamente vulnerável, enquanto tenta entrar em contato com o Sagrado através de ritos, buscando a salvação, especialmente na Idade Média, e o conforto espiritual.

A força do Sagrado na Idade Média era tão intensa que, aliada ao terror apocalíptico que tomava conta das comunidades, em um contexto sustentado pela fé cristã, propiciou um período imenso de pessimismo e medo desenfreado, atrelado à religião e ao próprio futuro da espécie humana.

Mas havia um apocaliptismo mais generalizado. Encorajadas pelos pregadores itinerantes carismáticos tão característicos da Idade Média, as

pessoas eram pessimistas quanto ao futuro da espécie humana em geral, mas se dispunham a levar em consideração suas próprias almas. Se o fim do mundo poderia acontecer a qualquer momento, era vital estar preparado para encontrar o Criador; daí o impulso em direção à penitência, à peregrinação e, em particular, ascetismo pessoal. Esta expectativa gerou uma esfera de puritanismo e evangelismo, condicionando a reação das pessoas a circunstâncias específicas. Concentrava sua atenção na vitória sobre o pecado e nos princípios da fé, na pureza pessoal e numa rejeição das coisas do mundo. (RICHARDS, 1993. p. 15)

Os princípios do Cristianismo baseados portanto, na auto punição e na aversão às coisas do mundo, promoveram a combinação entre idolatria e temor de forma a contaminar grande parte das religiões ocidentais, posteriores à era Clássica. Com isso, o horror e a ansiedade gerada por ele, converteram-se em sentimentos tão presentes na Humanidade quanto as paixões derivadas do amor e do ódio.

Em primeira instância, seria absurdo pensar que uma religião que prega a existência de um salvador pudesse manter seus fiéis em tamanho estado de tensão permanente. No entanto, é válido pensar que o medo de uma conspiração sobrenatural para a condenação de almas era justamente a teoria necessária para sustentar a importância da Igreja como conector ao Sagrado. Pensando bem, caso o diabo e outros demônios menores tivessem sido totalmente vencidos por Jesus, então a Igreja perderia sua utilidade.

Assim, por mais que o homem estivesse conectado com vertentes do Sagrado desde seu estágio mais primitivo, foi sob as influências da Idade Média que esse conceito estampou seu significado na atualidade, delineando junto com ele a máxima do mysterium tremendum (OTTO, 2005, p. 23).

O mysterium tremendum é aquele mistério que causa arrepios e que se relaciona com o terror místico. Segundo Rudolf Otto, esse é um sentimento que vem do espírito, mais forte do que qualquer tentativa de descrição, e que vibra em emoções em torno de ritos e monumentos religiosos. Isto é: um agente inerente à conexão com o Sagrado.

Essa sensação profundamente arrebatadora, que se manifesta na alma diante das formas e ritos religiosos, está intrinsecamente relacionada ao mistério2, ou seja, a uma das matérias-primas fundamentais para a proliferação da cultura do sobrenatural. O mistério é “aquilo que está escondido, o que não é manifesto,

aquilo que não é nem concebido, nem compreendido, o extraordinário e o estranho” (OTTO, 2005, p. 22), todos os aspectos que corroboram para o

sentimento de medo e para a situação de horror, tal qual é conhecido atualmente, inclusive em termos ficcionais.

Para Rudolf Otto, o conceito de mistério assume uma aura puramente positiva quando está relacionado à religião. Apesar desse ponto de vista é possível considerar uma veia de negatividade nessa relação, a partir do momento em que ela suscita relações estrambóticas entre fé e castigo, ou seja, adoração e temor.

Caso assim não fosse, Otto não indicaria, em sua teoria um nexo entre o “misterioso” e o terror místico (OTTO, 2005, p. 23), ou seja, o terror advindo do mistério, tenha esse conteúdo misterioso a forma que tiver, por exemplo, demônios, anjos e outras criaturas.

Deste terror na sua forma bruta que apareceu originalmente como o sentimento de alguma coisa de ‘sinistro’ e que surgiu como uma estranha novidade na alma da humanidade primitiva é que procede todo o desenvolvimento histórico da religião. Aqui está a origem dos ‘demônios’ e dos ‘deuses’ e de tudo o que a ‘percepção mitológica’ ou ‘imaginação’ produziram para objetivar este sentimento. (OTTO, 2005, p. 24)

Sendo assim, há como concluir que não poderia haver combustível mais eficiente para o medo do que a imaginação relativa a toda sorte de perigos e influências maléficas. Se Deus era o senhor do universo, então o Diabo era “o

príncipe do mundo” (NOGUEIRA, 2002, p. 41), uma influência que espreitava o

ser humano comum a todo o tempo. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

2 “O sentimento que provoca pode espalhar-se na alma como uma onda apaziguadora, a que se segue então

a vaga quietude de um profundo recolhimento. Este sentimento pode assim transforma-se em um estado de alma constantemente fluido, semelhante a uma ressonância que se prolonga durante muito tempo, mas que acaba por extinguir-se na alma que retoma o seu estado profano. Também pode surgir bruscamente na alma com choques e convulsões. Pode levar a estranhas excitações, ao inebriamento, aos arrebatamentos, ao êxtase. Tem formas selvagens e demoníacas. Pode degradar-se e quase confundir-se com o arrepio e o pasmo de horror experimentado diante dos espectros. Tem graus inferiores, manifestações brutais e bárbaras, possuindo uma capacidade de desenvolvimento com que se refina, se purifica, se sublima. Pode transformar-se no silencioso e humilde estremecimento da criatura que fica interdita…em presença daquilo que está, num mistério inefável, acima de toda a criatura”. (OTTO, 2005, p. 22).

Quanto mais belo e doce fosse um aspecto da vida, sob a superfície, o Demônio sordidamente trabalhava e espreitava, para agarrar o desavisado. Demônios entravam na mente dos homens e os deixavam loucos. Enxameavam como moscas em volta dos leitos de morte, na tentativa de tomar posse das almas dos moribundos. Todos os acontecimentos para os quais não havia explicação eram preferencialmente atribuídos a eles. Não causa surpresa que essa coletividade cristã vá se tornar, poucos séculos mais tarde, terrível e furiosa. Indignada por se sentir tão fraca em face do poder dos demônios, ela vai persegui-los de todas as maneiras e em todos os lugares. (NOGUEIRA, 2002.p. 42)

A guerra sobrenatural que ocorria fora das vistas humanas, proporcionava às sociedades ocidentais uma espécie de histeria coletiva em função do pecado e o consequente medo do Juízo Final, tempo em que, finalmente, todas as almas teriam seu destino selado, de acordo com a conduta moralista e religiosa. A mesma sobrenaturalidade incompreendida que motivava os rituais arcaicos passou a ser um fator institucionalizado, de forma que o homem medieval vivia muito mais a serviço do que não podia ser avistado, do que em função da realidade da vida.

Interessante notar que a porta de entrada para Deus era o espírito e exigia esforços tremendos para uma tentativa de conexão com o Sagrado, enquanto o Diabo atuava sobre o corpo, valendo-se dos desejos e atitudes mais corriqueiros. Indiscutivelmente, a ação do Diabo era muito mais palpável e perceptível que a de Deus, o que obrigava o homem a continuar exaustivamente lutando contra seus instintos para combater o Diabo e salvar sua alma. Essa era uma combinação que exacerbava o medo e a imaginação em torno dos perigos que rondavam a todos instante.

Portanto, com base nas explanações de Rudolf Otto e conscientes da trama ardilosamente sobrenatural da Igreja medieval, é possível concluir que, não por acaso, a ansiedade e o temor constante pela iminência do castigo divino que a acompanhava eram as ferramentas empregadas pelo Catolicismo para garantir sua soberania através da conversão dos homens à religião.

Somos levados a restituir em toda a sua coerência e suas mais amplas dimensões o Medo sentido pela civilização europeia no início dos tempos modernos e antes da descoberta do ‘inconsciente’: ao ‘temor’, ao ‘pavor’, ao ‘terror’ e ao ‘sobressalto’ suscitados pelos perigos exteriores de toda natureza vindos dos elementos e dos homens juntaram-se dois

sentimentos não menos opressivos: o ‘horror’ do pecado e a ‘obsessão’ da danação. (DELUMEAU, 2003, p. 12)

Com o propósito de manter a religião como esteio da sociedade e da moralidade, a Igreja Católica estimulou um sentimento de pavor, resultante da culpabilização e da danação, uma espécie de reação inevitável ao ato pecaminoso que distanciaria a alma humana do seu Criador. Em alguns casos, uma imoralidade coletiva poderia gerar tal distúrbio na razão de Deus e na ordem sobrenatural, que flagelos irrecuperáveis poderiam ser impingidos aos humanos. Daí surge o terror relativo à constante iminência da fome generalizada ou ainda de pragas, pestes, guerras e até o inevitável dia do Juízo Final.

Tal como o cristão o concebem, o pecado não é de fato nada mais do que uma destruição da ordem divina. Assim, o homem destrói ao pecar, algo que ele não pode recriar, como não teria sido capaz de criar. A própria retidão de sua vontade era uma graça; ele a perdeu por sua falta. [...] Mais, ainda, ofendendo a Deus em suas obras pelo pecado, o homem ofende um ser infinito. [...] O cristão se encontra situado assim numa ordem em que a própria moralidade natural pede uma ordem sobrenatural como seu complemento necessário. (GILSON, 2006, p. 416)

Prioritariamente caracterizada pela falta de espaço ao individualismo, a vida na Idade Média sufocava o indivíduo em prol da coletividade, “o que é

compreensível numa época em que a motivação primária era a defesa e resistência a ataques vindos de todos os lados” (RICHARDS, 1993. p. 18). Esse

era um cenário social que favorecia a instituição da autoridade inquestionável e que valorizava, acima de tudo, a fidelidade do indivíduo à comunidade. “A tônica

da Idade das Trevas era a obediência e a fé inquestionável na autoridade” (RICHARDS, 1993. p. 18).

Mas, no século XII, um movimento em direção à argumentação e ao pensamento minimamente lógico levou o homem comum a buscar a autocompreensão, num claro instinto de atender aos mínimos anseios pessoais e desejos individuais. Impotente diante de tal revolução comportamental, a Igreja instituiu a confissão individual em substituição às audiências em praças públicas e, por consequência, as penitências tornaram-se maneiras de o homem tratar de seus arrependimentos diretamente com Deus. O autoconhecimento tornou-se a

tônica da vida religiosa e a posição ajoelhada, com as mãos unidas, tornou-se a nova forma de o indivíduo reverenciar o Sagrado (RICHARDS, 1993).

O efeito dessa nova visão de mundo foi um dramático conflito sob o qual o indivíduo estava subjugado: a elevação do espírito versus a saciedade da carne; o celestial versus o mundano; a salvação versus a condenação. É desse conflito que a mulher é irremediavelmente atrelada à figura do Diabo e, portanto, na esfera terrestre, nada poderia ser mais temível que a figura feminina e os perigos que ela representava. Apesar de o pecado ser um estigma carregado pela mulher desde o Antigo Testamento, com Eva, e no Novo Testamento, com Maria Madalena, é na Idade Média que elas passam a ser verdadeiras agentes do mal. Inicia-se aí a carnificina de milhares de mulheres acusadas de bruxaria.

Incorporando, pois, todas as crenças da Antiguidade, amplificado pelo discurso da Igreja, o Diabo preside a vida da comunidade cristã. Em toda parte se vê o diabólico, o mundo inteiro é por ele invadido. E sua vítima é, por excelência, a mulher. Porque a mulher está mais predestinada ao Mal do que o homem, segundo os textos bíblicos. (NOGUEIRA, 2002. p. 42)

A guerra à mulher tornou-se o símbolo do exacerbamento do pensamento do eclesiástico medieval. Apesar de o medo da mulher ter múltiplas raízes tanto em termos psicológicos quanto históricos e religiosos, é na era cristã medieval que ela torna-se uma questão iminente. Certamente que o sexo masculino sempre flutuou entre a completa atração pelo sexo oposto e outros sentimentos diametralmente opostos ao primeiro, acarretando atitudes violentas contra a mulher bem como sua segregação por muitos séculos, especialmente em sociedades patriarcais como a existente na Europa medieval.

Vale ressaltar que na Idade Média não poderia haver desgraça maior para uma mulher do que a beleza física, considerada uma bandeira a favor da sexualidade, um pecado por excelência. A mulher bonita carregava a verdadeira face do Demônio na Terra. A histeria era tamanha com relação a isso que muitas mulheres eram consideradas bruxas somente por serem possuidoras de um físico atraente.

A seguir, apresenta-se um cântico de Grignion de Montfort, através do qual é possível exemplificar como a mulher era considerada “provedora do

produzidos para que os fiéis pudessem entoá-los com frequência, de forma que esse tipo de expressão artística caracterizava-se por possui função semelhante a dos sermões.

“Mulheres belas, rostos formosos Como vossos encantos são cruéis! Como vossas belezas infiéis Fazem parecer criminosos! Pagareis por essas almas Que fizestes pecar

Que vossas práticas infames Fizeram afinal cambalear. Enquanto estiver na terra, Ídolos de vaidade,

Eu vos declaro a guerra, Armado de verdade.”

(MONTFORT apud DELUMEAU, 1989. p. 321)

FIGURA 8 - A Mulher, o Diabo e o Espelho

Enquanto a mulher expressa sua vaidade ao cuidar da aparência (longos cabelos sempre estiveram associados à figura feminina da maneira mais devassa possível), o Demônio a observa com a cauda voltada para ela em posição ereta e com a língua lascivamente projetada para fora. Não há reflexo da mulher no espelho, ao contrário, a imagem projetada é a da cauda do Demônio sugestivamente ereta e voltada para sua face. Ao contrário do que se poderia esperar, ela não percebe a estranha presença ou, por outro lado, estaria tão acostumada com a presença do Mal que não consegue discerni-la.

A demonização da figura feminina faz emergir mais uma questão relevante da Idade Média: o Anticristo.

O Anticristo, cuja vida era uma paródia da Cristo (nascido judeu, o Anticristo faz sua entrada em Jerusalém, reúne discípulos e realiza milagres), era um agente do Diabo, o qual, acreditava-se desviaria os cristãos do bom caminho, perseguiria os fieis e governaria como um tirano até que o próprio cristo viesse em socorro da espécie humana na hora do juízo final. (RICHARDS, 1993. p. 14)

Assim como o retorno de Cristo, o retorno do Anticristo era perigo iminente e que, diga-se de passagem, era muito mais provável do que o do Salvador, em vista das incessantes investidas do Diabo contra a espécie humana. Teoricamente, a chegada do Anticristo representaria o último estágio antes do juízo final.

A atração exercida pela mulher e a relação sexual advinda do envolvimento natural entre os sexos, além de remeter à expulsão do homem do Paraíso, representava a forma mais efetiva para o retorno do Anticristo, isto é, o nascimento do filho e/ou representante do Diabo pela via mais plausível: o ventre feminino.

Todas essas questões levaram a castidade e a virgindade a tornarem-se os valores mais purificadores da figura feminina. Entre os dois extremos, encontrava- se o casamento, no qual a mulher rendia-se à depreciação do corpo e da alma, acarretando mazelas a ela e a toda a Humanidade, por permitir a consumação do pecado sexual. Ao casamento associava-se o conceito de animalidade e perversidade. Já à virgindade ou à viuvez, atribui-se a divindade e a santidade.3

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FIGURA 9 - Demônios auxiliam na concepção do Anticristo. De um folheto alemão Der Entchrist -

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Enfim, percebe-se que a presença do Diabo, a demonização da mulher e a iminência do Anticristo corroboravam com a atmosfera de sobrenaturalidade que oprimia o cotidiano medieval. Fomentada pelo pensamento religioso, a imaginação em torno daquilo que não se podia ver, mas que pautava a vida naqueles tempos, fazia emergir o medo como a tônica da crença religiosa. Todos os aspectos misteriosos que traziam o perigo para junto da Humanidade eram colapsados em duas grandes questões: a condenação da alma e o juízo final, que apesar de serem derivações do mesmo tempo, representavam a condenação individual e a coletiva, respectivamente.

A essência da conexão entre o homem e o Sagrado era o sentimento de horror e através desse sentimento, a moralidade, fruto da correta conduta cristã, passou a representar a questão fundamental para a religiosidade na Idade Média. Através do pecado, o homem perdia a condescendência divina e sua ligação com o Sagrado estaria, então, definitivamente abalada. Em consequência, estaria tudo ou todos com suas almas irremediavelmente condenadas.

1.1.3. As imagens no Renascimento e no Romantismo: o aparato simbólico