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Tunnelling in CT scans and improved numerical model

4.2 Numerical study

4.2.4 Tunnelling in CT scans and improved numerical model

A narrativa inicia-se com um fato histórico em referência: a queda do velho Lemos, que governou a capital de 1897 a 1911. À época senador, sua oligarquia fraquejou diante da revolta popular e dos apoiadores de Lauro Sodré em 29 de agosto de 1912 (CRUZ, 1963). Trata-se de um rompimento com o período áureo da borracha, o qual se refletia com alguma euforia na narrativa de Raimundo Morais. É tempo do intenso declínio. Benedito Nunes aduz a seguinte explicação:

Cumpre-nos abrir um parêntese sobre esse panorama. Quem lê Belém

do Grão Pará, como o romance dos Alcântara (o casal seu Virgílio / D. Inácia e a filha Emilinha), lê a inteira cidade dos anos vinte, tal como a tinha deixado, após o inicio da decadência econômica consequente à crise da borracha, que culminara em 1912, as reformas do Intendente (prefeito) Antônio Lemos. (NUNES, 2004, p. 17) Com essa efeméride, a da queda do velho Lemos, a família Alcântara muda-se para outra rua. D. Inácia vivia um “ostracismo”. Em comparação com os Resendes, lemistas, estavam bem melhor. O casal Alcântara engordava. Comemorava, com a ironia de d. Inácia, a localização da moradia, apesar de d. Inácia atribuir azar ao número 160 da casa.

Nesse quadro de mudanças e incertezas, narra-se o momento em que a negra d. Amélia, acompanhada de sua prima Isaura, combina a hospedagem do filho Alfredo na

[100] casa dos Alcântaras. O narrador Dalcídio Jurandir mantém seu ciclo romanesco em funcionamento, levando a história de Chove nos campos de Cachoeira (1941) para o centro urbano belenense.

D. Inácia questiona a personalidade do menino: “- Gosto dos que têm cabeça. No mal ou na ambição, mas cabeça.” (JURANDIR, 2004, p. 47). D. Inácia recorda-se do filósofo e professor Farias Brito que frequentava sua antiga casa. A dona da casa entedia ser um engano acreditar que de um anjo nasceria um bom homem. O pessimismo andava à solta.

A presença da vida cotidiana da família Alcântara marca a nova époque. É o esforço do narrador dalcidiano, desde Chove nos campos de Cachoeira, em deixar as marcas cotidianas da vida. As falas pretendem marcar a identidade daquela gente.

Em comentário curto, o narrador metaforiza a relação da família com o passado: “E em Belém, em volta do piano inútil, aquela família, três gordos, como se a recordação do passado os engordasse cada vez mais.” (p. 114). A família de gordos contrasta com a decadência. Como item cômico, tem-se que o banco do piano não suportava o peso de Emília. Mas, não se pode enganar com a estética do romancista Dalcídio. Ele não antecipa, por exemplo, o lado sardônico de um Márcio Souza. Pelo contrário, de algo simples, Dalcídio puxa uma situação política, quando comenta a situação do piano ocioso dos Alcântaras: “[...] A queda do velho Lemos havia lhe interrompido as aulas.” (p. 75)

A geração dos dois tempos históricos infunde na narrativa uma fixação de memória familiar eivada de memória política. E esse é só o começo do romance. Muito mais virá, adensando o posicionamento político dos personagens e do próprio narrador. Constitui um traço que se junta ao comparativismo da narrativa de Dalcídio com o modo de narrar do ciclo nordestino de 30.

O mito da borracha não se despega da memória de Virgílio Alcântara, o patriarca da família, alterego de uma memória coletiva, porém com uma visão crítica da posição ocupada socialmente: “Não lhe havia dado vertigens o lemismo, isso que não. Nem aquela altura de preços da borracha quando só na Amazônia havia borracha para o mundo.” (p. 61)

As ruínas deixadas pela tempestade da borracha continuam no discurso, no pensamento de Virgílio:

[101] Na rotina da capatazia, diante do cais murcho, as “gaiolas” em seco e os armazéns fechados, seu Virgílio foi se convencendo de que tudo aquilo não viera apenas da queda da borracha. Mas de que mal? Ambição? Imprevidência? Castigo de Deus? Obra do estrangeiro? A cidade exibia os sinais daquele desabamento de preços e fortunas. Fossem ver a Quinze de Novembro com os seus sobrados vazios, as ruínas d‟A Província, os jardins defuntos, a ausência da cal e do brilho nos edifícios públicos e nos atos cívicos. O São Brás era mesmo agora um Partenon. Ingleses haviam levado para o Ceilão as sementes da borracha. Mas isso não foi em 1878? (p. 63)

Lemos representava, para as mulheres, a causa de tudo. Essa causalidade política tem seu reflexo na construção da narrativa, como se assinalou anteriormente. Imaginavam que, com a manutenção do Senador, continuaria o luxo da belle époque. A imagem de uma Veneza amazônica amalgama-se ao período. A distância temporal do princípio de um novo mito do comércio internacional, com a plantação de seringueiras no sudeste asiático, manifesta a ingenuidade do personagem em relação aos mecanismos da globalização.

Em novo núcleo narrativo, com as personagens das casas da Gentil, tem-se mais algumas impressões sobre o ciclo da borracha. D. Amália representa esse momento: “Então, depois do jantar, d. Amália, seca e engelhada, anunciou que fora descoberto afinal de onde haviam saído as sementes de seringueira levadas para a Inglaterra. [...]” (p. 64). Deixa-se explicitada uma indagação em relação a Virgílio: “- Até quando Alcântara continuará no outro tempo?” (p. 65). Refere-se ao tempo de fartura da borracha.

Ao final do primeiro capítulo, é possível aduzir à crítica literária que a prosa ficcional de Dalcídio Jurandir, em profundidade desligada da mitologia do ciclo da borracha, embora não apague suas consequências para a história, especialmente em um das principais cidades da bellé époque amazônica, abre uma nova picada ficcional para os literatos da região, com olhar menos lendário e extasiado para o ciclo, sem qualquer esquecimento de ordem histórica, mas com uma consciência crítica cada vez mais aguçada.

Na fala de seu Alcântara aparece o descontentamento, agravado com a crítica ao imperialismo inglês:

– O inglês fez o que bem quis. Nos explorou com a navegação, com o porto de Belém com um contrato de 99 anos. Pelo contrato, aqueles armazéns tinham de ser de cimento... Tu fizeste? Lá estão... E por cima nos rouba as sementes de seringueira. O que chega aí é sobejo de circo. (p. 153)

[102] Falava-se de uma “cidade desaparecida”. Essa lamentação continuará sob outro ângulo no discurso de Coronel de Barranco (1970), de Cláudio de Araújo Lima. Esse lamento confronta duas nações no mercado internacional, uma de longa tradição imperialista e a outra periférica, explorada à exaustão pela primeira. Em Virgílio, tem-se uma memória de lamentações e críticas.

A decadência do Pará é evidente: “– A estrada caindo aos pedaços... este Pará é só ferro velho mesmo, disse tranquilamente o seu Alcântara [...]” (p. 141). Esse novo momento contrasta frontalmente com o do tempo de Lemos. Ao final do século 19, como narra Ernesto Cruz, “Belém prosperava, modificava-se, tornando-se uma cidade atraente e maior empório comercial do vale” (CRUZ, 1945, p. 216). Sobre o intendente Antônio Lemos, comenta Cruz: “Com apurado gosto, tratava de embelezar a cidade, contratando técnicos, criando ambiente para essas realizações através de incentivo aos artistas e de prodigalidades, que o fizeram notável na sua época.” (CRUZ, 1945, p. 217). A memória familiar desses tempos áureos alcança os Alcântaras a todo instante.

Nos primeiros passos do romance, a memória serve de espaço para o mecanismo de compulsão por um fenômeno não permitido objetivamente, que é a repetição histórica. Assim, o recalque em sentido freudiano desvela personagens com anseios sociais realizados apenas no nível do pensamento interior, enquanto a exterioridade da vida aponta para problemas sociais aparentemente insolúveis ou de difícil reparação.

Dalcídio utiliza-se de uma memória de linhagem modernista dentro da ficção nacional. Trata-se da memória como veículo utilizado pelos prosadores modernos de nossa literatura, recuando até Machado e saltando na direção da geração de 30. É uma memória em que não se esconde a dimensão do humano em face da vida material. E que não encobre a fração política e histórica que assombra a individualidade.

As ruínas do ciclo da borracha a todo instante fazem esse movimento assombroso nos personagens, especialmente naqueles que gozaram do ciclo, como d. Inácia e Virgílio. Inácia provavelmente se destaca, em razão de suas discussões políticas e por alimentar o sonho de um retorno (repetição) do passado. Por outro lado, num antagonismo muito fecundo, a figura de Virgílio representa o cearense que parte para a Amazônia em busca do eldorado, como o “paroara”. Após o primeiro ciclo, sente o desejo de retornar à terra natal. É o sentido negativo dessa repetição histórica. E sua memória se encaminha nesse negativismo.

[103] A partir desses trechos, nota-se o que Aleida Assmann (2010) identifica como a família e seu sítio privilegiado de transmissão memorial. Essa memória familiar demonstra uma ruptura clara com a outra memória histórica. No caso em tela, avalia-se até mesmo a ruptura estética no que se refere a novas formas e perspectivas de se narrar fatos relacionados ao ciclo da borracha. Dalcídio é um sinal de que a literatura se modifica na paisagem amazônica, apesar de uma longa tendência positivista inaugurada por Euclides, Rangel e continuada, por exemplo, por Raimundo Morais. A memória familiar representará um novo instante para essa transmissão da memória por meio da ficção realista.