Na metade do romance, a partir do capítulo 22, a família Alcântara muda-se para um casarão arruinado e abandonado da Estrada de Nazaré, onde um antigo comerciante português enriquecera nos tempos da borracha. De um lado, D. Inácia e a filha Emília transbordavam otimismo em relação à mudança; por outro, Virgílio (com vontade de retornar ao Ceará) e Alfredo (com saudades da vida em Cachoeira) não aprovavam a transferência de endereço.
Em pequenos detalhes, como no transporte dos poucos pertences no raiar do dia, revelam-se sinais da decadência social do grupo familiar: “Realmente, a mudança foi muito cedo, com extrema precaução, para que a Estrada de Nazaré não ficasse a par do
[111] verdadeiro estado social da família Alcântara. Só uma coisa foi à tarde, pelas cinco: o piano.” (p. 309). O fato de o piano ser transportado à tarde, como símbolo de um estrato social superior ao que os Alcântaras ocupavam, é uma marca das aparências sociais trazidas desde a belle époque, como denuncia e reflexiona Virgílio: “[...] Que significação tinha para ele, para seus melhores desejos, aquela época do lemismo, aquele lar próspero, esta fictícia casa de Nazaré?” (p. 407)
Nesse ponto do enredo, intensifica-se a movimentação dos revoltosos do Guamá, especialmente com a relação entre Etelvina e um dos rebelados. D. Inácia mantém-se atenta a todas as notícias sobre o temido bando do Guamá. Naturalmente, D. Inácia e Sr. Lício comparam essa aparente revolução social na periferia de Belém com a Cabanagem. Pelo jornal, outra revolta entra em cena: a do Forte de Copacabana no Rio de Janeiro.
No capítulo 29, D. Inácia pede para que Alfredo leia as notícias sobre a tomada do Forte pelo governo. E, mais uma vez, a inocência do menino Alfredo se confunde com problemas mais densos da memória política paraense e brasileira. Mas o próprio menino do caroço de tucumã percebe como esses tempos conturbados política e socialmente são tempos de ruínas: “Desde Cachoeira até a casa dos Alcântaras, se sentia carregado de ruínas, querendo livrar-se delas.” (p. 361)
A memória do narrador revela um tempo histórico de forte crise, não circunscrita apenas à situação periférica de Belém ou à revolta do Forte de Copacabana. A crise se alastra para várias esferas, mas há tentativas de solução, pelo menos do ponto de vista discursivo. Em conversa com seu Lício, o personagem Virgílio pensa numa possível solução para a crise econômica da Amazônia: “[...] Mas plantar e criar era a solução da crise na Amazônia. Soubessem, por exemplo, aproveitar a mandioca do Acará, a chamada pescada branca, a melhor mandioca do mundo: dava uma farinha que era um biscoito [...]” (p. 374)
Sr. Lício realiza uma ação política mais contundente, ao escrever contra a plutocracia no jornal O Semeador, distribuído entre operários. Dessa perspectiva, o comunista Lício pensa numa revolução social a partir da conscientização da massa operária, para uma possível tomada de poder. A narrativa recupera a memória de sua juventude na militância política:
[...] Ah, quantos anos mentido „naquilo‟, mas poucas tinham sido as horas de verdadeiro perigo, de conspiração, de sair assim na rua e
[112] desatarraxar as armas. Festas de 1º de Maio no Teatro da Paz? Greves na estiva, dos carroceiros, dos tipógrafos? Sim, que tinha havido uns barulhos... Reuniões no Luna? O Semeador, quando saía? Pouco ou quase nada escrevendo, puxava os assuntos, castigando a plutocracia. (p. 401)
Sr. Lício espelhava-se em outras experiências de revolução social pelo mundo, como sustentação para seu posicionamento político:
[...] O certo era que o Luna se agarrava às suas ideias e à correspondência com Portugal e Espanha e nunca com França, Itália e Rússia. A Rússia. A Rússia? Que era na Rússia? Um acontecimento pelo fundo das coisas andando por dentro do mais misterioso do povo?” (p. 401)
Enquanto o comunista sonhava com a solução de uma crise social, representada por greve de operários e as revoltas do Guamá, Virgílio e D. Inácia acirram sua crise familiar, que não se desgarra da crise maior instalada pelo fim dos tempos da borracha. Virgílio recorda-se de d. Inácia na Liga Feminina:
Escutando a mulher, Virgílio Alcântara deixava-se levar para o passado, quando os capangas caçavam a oposição a pau, a tiro e a piche e traziam, tão cordeirinhos da Liga Feminina, os embrulhos de bandeiras, medalhas com retratinhos do Senador e outro teréns cívicos de d. Inácia. (p. 409)
Essas crises em consonância podem surgir a partir da memória de uma edição antiga do Folha do Norte de 1918 sobre a greve dos trabalhadores da Pará Eletric, companhia dominada por ingleses. A crise da borracha não se desfilia das outras crises históricas, como uma memória política em alto grau de condensação no arranjo do enredo: “[...] O inglês não tinha feito desandar a borracha, levado as sementes para o Ceilão? Ah, enquanto a borracha subia, subia a Inácia e o inglês na exploração do porto, da luz, do bonde. E ele, Virgílio Alcântara, na Administração, subia.” (p. 410)
Em uma das discussões do casal, no auge da crise familiar, o casarão arruinado da Estrada de Nazaré range como se fosse desabar: “[...] Todos, em silêncio, escutavam. Emília some-se no quarto. D. Inácia examina a sala, a saleta, fecha o piano. Nada viu nem ouviu e exclama: – Desabe, essa desgraça, a sorte dos Alcântaras é estar sempre na hora que desaba.” (p. 448)
O Círio de Nazaré não escapa às crises acumuladas: “Crise grande no Pará, por isso muita família do interior, dos lugares mais distantes, não podia vir nem para o dia do Círio [...]” (p. 453). Em meio às comemorações do Círio, Virgílio encontra-se alucinado, pensando na Inácia da época de Antônio Lemos: “[...] Irrompia nele o
[113] Virgílio que deveria ter sido, agarrando mulheres nas procissões, levando Inácia para a casa do Senador, falando: – Esta mulher, aqui está. Gozei ela e lhe trago a sobra, faça dela uma cortesã, mande depois para os prostíbulos.” (p. 488). O ápice das alucinações de Virgílio vem de seu encontro com uma ex-prostituta dos anos da borracha, o que lhe permite novas memórias daquele tempo:
Recordou os tempos que viajava, ah, rio Amazonas, tempos!
– Vi queimar dessas notas. No fósforo. Vi. Viajei num navio que era de ofender a Deus, de jogo, bebida, homens com mulher. Deus não via? Vi queimar. Uma vez me atirei em cima da mão de um seringueiro que fazia isso, completamente bebo. Queimei foi mea mão. Meu Deus, aquilo? Tinha de ter um fim. Deus não via? O Cão soprava. Sabe que eu até fui pro meu camarote e rezei? Rezei, pois me creia. E eu me lembro de um deles, que até se fosse pobre podia ser uma boa pessoa, mas entulhado como estava de dinheiro... Ele me dizia, a mão dele me alisando o cangote: “Puta, tu tens o rosto de pele de borracha suando. Tens um rosto de pele de borracha nova, mal saindo da defumação.” Dizia aquele nome da gente, mas sem propósito de ofender, ou dum desbocamento, mas por um carinho, como se dissesse: “minha flor”. Esse homem, eu soube, se acabou na boca do rifle lá pelo Acre, eu soube depois. Acre ou Solimões, Sebastiana? Não me lembro bem. E o sr. agora, por que esse acesso de queimar a nota? Minha mão já virou fósforo? (p. 498)
Diante de inúmeras crises em andamento, o casarão parece não aguentar o peso de tantas desordens e ruínas, despejando a família gorda dos Alcântaras, o que acaba afetando outros três personagens. Mas Libânia, Alfredo e Antônio parecem não se coadunar com o modus vivendi de Virgílio, Inácia e Emilinha. O desabamento iminente do casarão com cheiro de borracha põe em apuros uma família socialmente identificada com a periferia do Guamá, mas que sustenta os artifícios e as ruínas da Belém belle époque dos anos do senador Antônio Lemos. Há um visível choque político-social provocado por uma narrativa fundada em uma memória representada por diferentes vozes, todas elas herdeiras das ruínas da borracha.