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Numerical model troubleshooting

4.2 Numerical study

4.2.2 Numerical model troubleshooting

Em Manaus, o português Manuel da Hora indica a José Alves os problemas da contabilidade do Sta. Clara. Constâncio, o guarda-livro, roubava descaradamente o saldo. Depois, descobriu-se que Constâncio Corumba era um estelionatário e falsificador. O falso guarda-livros não concretizava nenhum dos investimentos a que aconselhara José Alves. Com isso, A. Bernaeaud & Comp., a companhia de aviamento, não lhe dava mais crédito. Vislumbrava, então, a falência próxima. Corina começa a se interessar cada vez mais pela natureza, recebendo explicações de Tucuxí. Enquanto isso, José Alves firmava acordos e negociações de crédito com outros coronéis da região.

A narrativa literária parece servir como estudos de temas amazônicos e não exatamente como produto que se quer reconhecido como literário. A abundância de elementos narrativos contrasta com a narrativa de Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos. Na mesma toada, Peregrino Jr., Oswaldo Orico, Francisco Galvão, Adonai de Medeiros, Aurélio Pinheiro, Ramayana de Chevalier constituem a congregação de escritores amazônicos cujas narrativas documentais se assemelham à de Raimundo Morais.

Corina decide fugir e voltar para sua tribo. Seu bilhete de despedida toca em problemas das relações étnicas entre a índia ipurinã e o barão cearense. Corina não levara qualquer roupa em sua fuga. Após revirar as coisas da ex-esposa, José Alves encontra uma tanga de barro marajoara e um retrato de Cauré, o tuxaua dos ipurinãs. Do ciúme, nasceu o delírio de José Alves. Pensa em vingança. Revirando mais uma vez as

[87] coisas de Corina, depara-se com um retrato pintado por ela em que aparecia abraçada a Cauré. José Alves não vê alternativa que não seja a vingança.

É bem provável que o nome ocidental de batismo da índia ipurinã seja para enfatizar uma característica do francesismo da belle époque amazônica. No entanto, não se pode deixar de chamar atenção para a semelhança do nome Corina com a tribo de índios Kurina. E quem dá maiores informações sobre essa tribo é Darcy Ribeiro. A partir das explicações de Darcy, pode-se perceber uma maior voltagem no arranjo lendário de Raimundo Morais. Veja-se: “Os índios Kurina do rio Gregório, que tinham recebido amistosamente os primeiros invasores brancos, sofreram tamanhas violências que se afastaram de todo o convívio, travando uma guerra cruenta aos brancos.” (RIBEIRO, 1996, p. 69)

Essa característica dos Kurina configura justamente a tendência de Corina após sua aproximação com a antiga tribo. A fuga de Corina contava com o apoio de sua tribo. Japiim e Cauré comandava o grupo. Corina é recebida por uma música em tom merencório. Cauré apresenta-lhe tudo o que compunha a maloca. A descrição do totem, do tabu, da culinária... Ao catar piolho da cabeça de Cauré, comia a iguaria. Participa com seu noivo da dança tribal. Corina alerta Cauré sobre a mais do que provável vingança de José Alves. Cauré afirma possuir um ódio horrível pelo ressuscitado. Uma semana depois, dois seringueiros espiões são capturados pelos ipurinãs. Ao verem Corina, surpreendem-se com sua beleza. Como resposta à morte dos espiões, os seringueiros do Sta. Clara empalaram dois homens ipurinãs.

Com a safra de borracha, Zé Alves investiu tudo em material bélico, comprando inclusive dinamite. Em seus planos macabros, o patrão notava o desinteresse de seu povo pelo caso. Bento do Riacho do Sangue recebe um violento murro no queixo ao chamar Corina de “fêmea de soldado”. Para animar seus homens, Zé Alves prometia que as fêmeas ipurinãs seriam as presas de guerra: “[...] A notícia correu célere em todo o Iáco. Rio sem mulheres, vazio de saias, como aliás todo o Alto Amazonas nos seus primitivos núcleos de povoadores, o maior prêmio que se poderia oferecer aos flagelados jejunos de fêmeas seria pois uma companheira.” (p. 290)

Até os índios canamaris, tradicionais inimigos, juntaram-se à tropa de Zé Alves. Nem mesmo a presença do Padre Leque dissuadiu o impertinente dono do Sta. Clara. Depois de mais de 30 anos de serviços, Tucuxí e mãe Genoveva despedem-se do patrão e partem rumo ao Pará. Ambos temem a morte de Corina.

[88] No caminho dos expedicionários de José Alves, o canto do acauã (totem dos ipurinãs) e da matintaperera sinalizavam o mau-agouro. O coronel de barranco era assessorado pelo cacique dos canamaris. Entre balas e flechas, em pouco tempo, duzentos dos quatrocentos expedicionários tinham tombados, mortos. O pânico tomava conta de todos os sobreviventes, ainda mais sem a munição para contra-atacar. José Alves começa a temer seu fim. Pensa em trespassar uma flecha com curare no peito. Mas decide convocar Cauré para uma batalha final. No desafio, José Alves rompe a carótida do indígena. Corina flecha o ex-marido no peito. Corina apelou, em vão, para Tupã, rogando um milagre, a fim de ressuscitar o indígena. Para José Alves, a bela ipurinã reservou o seguinte tratamento:

[...] Corina deu um salto de onça e veio sobre o morto espumando raiva e ódio. Pegou no cano do rifle descarregado que lhe estava junto, e transformando a carabina em acha, desfechou, com todas as forças de seus músculos, um profundo golpe no crânio do marido. Logo os miolos escorreram. A cara se lhe transformou numa posta sangrenta. Corina vibrou-lhe ainda outro golpe, pisou-lhe o rosto, cuspiu-lhe, apostrofou-o. Estava horrivelmente sinistra. [...] (p. 317-18)

O caráter sinistro de Corina remete à ideia de heroísmo, tão caro a um romantismo datado. Mas a heroína Corina nada se assemelha a uma Iracema. Seus embates não visam qualquer heroísmo. É como um gesto de resistência contra os protagonistas de uma história que atropela os interesses dos habitantes naturais da região. O ciclo da borracha, como outros ciclos econômicos amazônicos (das drogas do sertão, do cacau, do ouro, das hidrelétricas), promoveu suas catástrofes étnicas contra os índios.

Essa conflagração beligerante do final do romance remete-se, ainda, à memorialística da cabanagem representada em Os Selvagens, de Francisco Gomes de Amorim. A selvageria não se associa imediatamente à figura do indígena. Fica a sensação de uma duplicidade e ambiguidade no símbolo da selvageria. Os ditos “civilizados” cometem suas selvagerias, assim como Corina se transfigura completamente. Esse barbarismo e infernismo continua nas trilhas da literatura amazônica, não sendo de exclusividade de Alberto Rangel. É possível notar uma coesão interna dentro do sistema literário amazônico. As memórias recuperadas ou simplesmente ocasionais ajudam a compor a tradição literária amazônica, mesmo que num indianismo ainda pouco considerado no quadro geral da historiografia literária brasileira.

[89] Hemming (1983, p. 276) dá conta de que os barões da borracha bolivianos, em pleno Madeira, empregavam a força de trabalho indígena. Por outro lado, nos primórdios do ciclo, Henri Condreau narrara conflitos entre os seringueiros e os índios, como atesta Hemming:

[...] The rubber men were terrified of forest Indians and, when attacked, immediately ran off, allowing the Indians to take their guns and boats. Higher up the Xingu, acculturated Juruna attacked a seringal, but pretended to be wild Suyá to avoid reprisals on their village.9 (HEMMING, 1983, p. 303)

Em O Seringal e o seringueiro, Arthur Ferreira Reis (1953) traz outras observações sobre os conflitos entre seringueiros e índios. Mas, talvez, os relatórios do Serviço de Proteção aos Índios a que se refere Darcy Ribeiro (1996, p. 61) sejam mais contundentes ao demonstrar a beligerante relação entre seringueiros e índios. Provavelmente, pela tentativa de um lendário indígena alencariano, Raimundo Morais não tenha dado a devida densidade aos embates ferozes e às guerras silenciosas travados nos seringais entre os indígenas e os seringueiros. Mas deixou, em sua obra ficcional e na memória amazônica, esse capítulo de desavenças étnicas cruciais para explicar parte do Brasil amazônico de hoje.