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A perspectiva literária em terceira pessoa não se concentra em Dalcídio. Suas realizações estéticas transitam ora pela primeira, ora pela terceira, o que determina novos rumos para a prosa do período histórico em que se insere. Por outro lado, Dalcídio parece apostar na força dessa transição entre primeira e terceira pessoa, embora a memória narrativa conserve-se mais do lado da terceira.

Essa oscilação entre terceira e primeira pessoa do discurso narrativo, insurge-se com mais clareza, a partir do capítulo 3, com a chegada de Alfredo a Belém, vindo da cidade de Cachoeira do Arari, no Marajó.

Para espanto e desconforto do jovem, a embarcação atraca ao lado do Necrotério, próximo ao Ver-o-Peso. Duas paixões apertavam-lhe no peito: a cidade de Cachoeira e Andreza. Personagens de Chove nos campos de Cachoeira (1940), primeira obra do Ciclo do Extremo Norte, voltam a aparecer nas lembranças de Alfredo, como a Dadá (irmã de Lucíola).

Desde sua chegada à capital paraense, Alfredo não podia se conter diante das novidades da urbe:

[...] Deixou-se caminhar pela pracinha deserta, entregue ao seu deslumbramento. E livremente estaria pronto para exclamar de novo sobre o que visse, pedras da rua, o teque-teque com o seu armarinho às costas, tabuleiros de pupunha, quiosques, o que ia vendo, pela

[106] primeira vez, homens em bicicletas, colegiais, engraxates, meninos tão sozinhos, donos de seus pés, a apanhar bonde, e bichos, lojas, aqueles anúncios, ah, grandes, por cima das casas. E de um fundo de mangueiras, se entreviam pedaços de telhados e cores de palacetes, sobradões, a estátua... [...]

Circulou o olhar pela pracinha, passou à porta dos sobrados de fundo escuro, meio úmidos e mofentos, com cheiros remotos de prosperidade e vinagre recente. [...] (p. 82)

Alfredo esforçava-se em fugir da matutice: “Compreender a cidade, aceitá-la, era a sua necessidade. Ser amado por ela, saboreá-la com vagar e cuidado, como saboreava um piquiá, daqueles piquiás descascados, cozidos pela mãe, receando sempre os espinhos.” (p. 85)

De dentro do bonde com a mãe, afunda-se na paisagem de Belém, passando pelo Teatro da Paz, Largo de Nazaré, Basílica, velhas samaumeiras. Nas menores coisas, como na “senha da passagem do bonde”, surge a capital paraense. Lucíola e Mariinha ligam Alfredo novamente a Cachoeira: “Seu olhar, memória e imaginação em nada se fixavam.” (p. 95). Chega, finalmente, no 160 da Avenida Gentil Bittencourt. Na sala, pela primeira vez, vê um piano. Ao lembrar novamente de Mariinha, emociona-se. Conhece d. Inácia, Emilinha, Libânia. Da janela, viu um trem pela primeira vez: “[...] Em vez de barcos, da „Lobato‟ e da „Guilherme‟, passavam trens. Vinha, com efeito, morar à margem de outro rio?” (p. 97)

Barbosa e Mãe Ciana eram os padrinhos de Alfredo. O padrinho era aviador do Baixo Amazonas, com comércio na 15 de Novembro. D. Amélia esperava que o filho morasse com o padrinho na época dos estudos. No entanto, as relações da família com o padrinho se desfizeram. Em parte, o fato deveu-se à derrocada do ciclo gomífero, como comenta Major Alberto, pai de Alfredo: “– É o que dá quando se vai atrás das tetas duma árvore. Mamasse nas vacas e não nas seringueiras. Pensava que a borracha esticava sem rebentar um dia?” (p. 99)

D. Amélia e Alfredo visitam a antiga casa do padrinho Barbosa. Alfredo ativa a memória dos velhos tempos ao ver o gramofone, o ganso, a menina do tapete. No reencontro, o padrinho não foi tão amável como se esperava. Em uma cena do jantar, retorna-se ao tema da borracha:

Foi um instante, temperou a garganta, curvou-se sobre o prato. Comendo com uma inesperada rapidez, passou a ignorar a comadre, o afilhado, o ganso que entrou, faminto. Alfredo via-lhe os óculos pousados na mesa, a mão trêmula no talher, o alvo colarinho gomado, todo o remanescente alinho dos tempos da borracha. (p. 102)

[107] Apesar de contrariado, Alfredo permanece uma tarde com o padrinho. A imaginação do pequeno de Cachoeira não apaga o período da borracha: “Já na rede armada a um canto da varanda, Alfredo imaginava o padrinho, mais magro, tossindo na casa vazia, na boca do gramofone. Mordeu o beiço, repetindo: „tempo da borracha‟. [...]” (p. 103). O padrinho é mais um dos que saíram do Ceará para tentar a sorte entre os seringais.

O efeito estético da passagem do ciclo venturoso para o ciclo de decadência deixa imaginações representadas por Alfredo, principalmente quando parece flutuar entre Belém e Cachoeira do Arari.

Alfredo sente a dor de se separar da mãe. É sua passagem entre a infância e a juventude. Essa transição configura-se num nível de tensão de outras dialéticas vivenciadas por Alfredo, entre o rural e o urbano, a periferia e a metrópole. A Amazônia passa por transformação semelhante. O ciclo da borracha representa a inocência infantil, enquanto o período histórico subsequente exigirá seu paulatino amadurecimento social, com dificuldades prementes.

As suposições e recordações de Alfredo sobre a vida no chalé de Cachoeira se transformam em narrativa lírica em Dalcídio. Pelo cheiro da rede lavada pela mãe, não podia esquecer-se de suas origens. Depois dos primeiros aguaceiros, do barulho do trem, Alfredo pensa em encontrar um carocinho de tucumã, o mesmo que alimenta suas fantasias em Chove nos campos de Cachoeira.

Nessa mistura de memória e narração, a perspectiva do narrador se embaralha, intencionalmente, com a do personagem, o que não é raro de se encontrar no tecido narrativo, o que denota uma confusão de vozes narrativas entre o narrador e Alfredo: “[...] A família Alcântara não acolhia um menino especial e sim este caboclinho que sou euzinho, cabeça rapada, sobrinho de Isaura, a costureira, e esta, filha da tacacazeira do canto na Quintino.” (p. 113)

A oposição entre a casa dos Alcântaras, urbana e periférica, e o chalé, interiorano e periférico, perpassa o pensamento do menino do caroço de tucumã. A comparação entre Belém e Cachoeira aprofunda reflexões no âmbito social:

[...] Queria achar uma parecença entre as pessoas de Belém e as de Cachoeira. As fisionomias até que pareciam-se, mas jeitos e conversações tão diferentes. E as casas da cidade? Janelas fechadas, persianas, os fios de luz e delas saía uma gente apressada sem nunca dar um bom-dia a ninguém. Como as pessoas na cidade se

[108] desconheciam! “Abram as janelas, casas. Tão juntas, e parecem de mal, tão distantes umas das outras, se cumprimentem!” (p. 115) Alfredo funciona como um vaso comunicante entre as duas realidades sociais. Sua crítica à cidade pretende ser menos citadina, pelo fato de ser um migrante saído de Cachoeira. Sua visão está embotada e confusa, o que gera incertezas quanto a sua permanência nesse ambiente novo.

Os mitos e lendas amazônicas aparecem nas recordações de Alfredo, como contraste para uma vida urbana a qual pouca importância dá à imaginação, à fantasia:

[...] E lá vinha o tio com as estórias: o mar da Contra-Costa laçando os veleiros com o rabo das cobras-grandes, as trovoadas fazendo pião de um navio. A cabeça do Amazonas metia-se pelas entranhas do monstro oceano, lançando-lhe lama, limo, raízes, troncos, náufragos, ilhas, lendas e o feixe de seus rios. E agora o tio soldado: “Tio, vem depressa. Quero o meu tio da Contra-Costa.” (p. 116)

A utopia da borracha não perde fôlego, mantém-se viva como um mito em seu eterno retorno:

[...] E o Colégio? Onde um colégio em Belém, assim como tanto tanto maginou em Cachoeira? Se de repente subisse o preço da borracha e logo seu padrinho Barbosa, curado do pulmão, montasse o seu armazém? Um ganso novo, novo tapete, casa pintada, colégio para o filhado. (p. 116)

A borracha ainda significa esperança de uma modernidade possível, realizável, embora em franca decadência.

Na casa dos Alcântaras, Alfredo identifica-se com Libânia, a criada cabocla semianalfabeta. Mas, por vezes, Alfredo enchia-se de orgulho por se manter acima de Libânia, dentro da casa dos Alcântaras: ele, estudante; ela, apenas uma serva. Ao mesmo tempo, saíam à rua juntos.

Flanando por Belém ao lado de Libânia, vai ao Largo da Pólvora. Identifica os lugares de antigas fotografias: Teatro da Paz, Grande Hotel, estátua da República, Cinema Olímpia. Na Serzedelo Correia, Alfredo identifica o edifício d‟A Província, queimado, junto com o poder do velho Lemos, a grande mágoa de d. Inácia. Lemos detinha a propriedade do jornal “A Província do Pará”.

Em pouco tempo, diante de tantas novidades, não sentia mais saudade de Cachoeira: “Belém tomava conta dele, envolvia-o com suas saias que eram aquelas mangueiras-mães, carregadas.” (p. 152). Porém, por vezes, Alfredo experimenta a crise da inadaptação à vida na grande cidade: “Andava naqueles dias mais insatisfeito com o

[109] estudo, saudoso do carocinho, cheio duma solidão em que se via sumido, triturado por trens, bondes, carroças, pregões, apitos, vozes das professoras, algazarra dos colegas, brigas entre Isaura e Emília.” (p. 209)

A fantasmagoria da borracha persiste no ambiente urbano: “Ao descer o bulevar, pelos sobrados escuros que ainda cheiravam a borracha, pensava no padrinho Barbosa.” (p. 152). No capítulo 11, em um episódio banal, quando Alfredo apanha um passarinho que cai de uma árvore, ao lado de uma casa com vasta muralha, de onde sai uma ex- artista de teatro, pode-se observar mais do funcionamento da memória sobre a época da borracha. D. Inácia explica a Alfredo que essa ex-artista é mulher do ex-Governador:

– [...] A borracha fez do Besouro um senador. Depois um Governador. Essa peça chegou aqui numa zarzuela. Não fala com ninguém na rua. Sai na rua como entrava no palco.

– Mas francesa?

– Por que francesa, hein, meu sem-vergonha? Espanhola, é a senhora Mercedes com as suas plumas de garça e o seu ex-Governador. Artista de zarzuela. (p. 151)

A cidade de Belém cresce e se multiplica aos olhos do flâneur Alfredo. Suas relações com os Alcântaras, Libânia e Antoninho realizam-se com essa estreita sintonia com o movimento urbano. O mecanismo estético da memória realiza-se por um narrador que oscila sua voz entre vários personagens, apesar de se concentrar em Alfredo, o herói do Ciclo do Extremo Norte.

Marshall Berman (1993), com argúcia crítica, observa como o Fausto de Goethe, em sua crise de modernidade, retoma a memória da infância como escape e florescimento para a vida exterior, dos embates com o mundo material. Os símbolos da infância ou adolescência em Alfredo são forjados nesse olhar aparentemente “inocente”. Esses símbolos de meninice são características de uma “metamorfose”, a própria metamorfose de transformação dos ambientes paraenses e do quadro nacional a partir dessa perspectiva belenense. A estética goethiana recebe de Berman o seguinte comentário:

[...] Na visão de Goethe, porém, as rupturas psicológicas da arte e do pensamento romântico – em particular a redescoberta dos sentimentos da infância – podem liberar tremendas energias humanas, capazes de gerar amplas doses de poder e iniciativa a serem desviados para o projeto de reconstrução social. (BERMAN, 1993, p. 46)

Da ótica dalcidiana, Alfredo nasce da decadência de uma época romântica do fausto do ciclo da borracha. Após esse romantismo, é tempo de reconstrução, de

[110] renascimento... E nem mesmo a criança possui um olhar inocente. Daí, o sentido do romance de formação em Dalcídio Jurandir. Alfredo não precisa retomar em memória a infância, a não ser se considerar que o narrador pratica um memorialismo, adotando, como é o caso, formas verbais que nos levam a essa crença, uma vez que fala sempre de um passado e conjuga pouco o verbo do presente.

De modo comparativo, em Terra de Icamiaba, Abguar Bastos (1934), companheiro geracional de Dalcídio, utiliza-se historicamente do olhar infantil (mas não menos consciente, o que revela o olhar do narrador e não do personagem) nas figurações que Bepe faz de Belém, com descrições sumárias sobre a cidade, especialmente no capítulo 3. Em Menina que vem de Itaiara (1963), Lindanor Celina (1917-2003) possui parte dessa perspectiva.

Com a figura do menino de Cachoeira envolto nas contradições de Belém pós- borracha, Dalcídio não esconde uma dupla memória: i) a de quem vivenciou o apogeu do ciclo da borracha, como representado por Virgílio e Inácia, e que sonha com o retorno do fausto gomífero; ii) e a da geração crescida durante a decadência econômica e social da antiga e suntuosa Belém, como é o caso de Alfredo, que pode se desvencilhar do recalque da geração anterior.

Entre memória e pós-memória, o discurso narrativo de Belém do Grão-Pará constrói-se por percepções marcadas pela rememoração da época de ouro do ciclo e pela impossibilidade de sua realização em um novo contexto histórico. A meninice de Alfredo está embotada desse dilema crucial.