2.2 Instability damage and fracture
3.2.1 Numerical models
Completando sua formação belenense, Corina encaminha uma epístola saudosa a José Alves, exigindo sua presença em Belém. Com a vazante, em pleno verão, o dono do Santa Clara viajaria em uma balsa. José Alves levaria Tucuxí, o maior conhecedor da natureza amazônica. Constâncio Corumba, o guarda-livros, assumiria as funções de gerente do seringal na ausência do proprietário. Dentre os presentes para Corina, estavam “objetos comprados a um contrabandista boliviano que andara por ali”.
Essa passagem simples de referência ao “contrabandista boliviano” pode evidenciar literariamente como se dão as relações fronteiriças das populações amazônicas e o perfil social de cada uma, especialmente no arcabouço histórico do ciclo da borracha.
[76] Quando se põe em movimento a balsa, Raimundo Morais sinaliza um paradoxo amazônico: “Era a mercadoria conduzindo o mercador, a indústria levando o industrial, o produto transportando o produtor” (p. 44). Havia um sistema avançado de exportação da borracha em período de seca. As navegações pelos rios da região interessam ao narrador. A dormida na viagem se fazia nas praias, onde se podia encontrar “rastos de índios”. Mas, pela narrativa, José Alves parecia lograr a simpatia das “malocas do Purus”. A violência dos índios catianas é comentada por dois seringueiros.
Ao longo da viagem, José Alves tinha os pensamentos voltados para Corina. O narrador descreve o rio Acre com laivos de infernismo. José Alves encontra-se com o coronel Crescimento Lambança. Na sequência, conversa com o Barão Lexandre e Dr. Carmo Veras. Este último explica a existência dos fósseis no Purus, com retorno à história dos naturalistas na região:
[...] correm em lugar antigamente habitado por animais paleozóicos. Os naturalistas que têm andado por aqui registram o fato. Barbosa Rodrigues, por exemplo, descreve o Purussaurus, por ele encontrado. Braner assinala outro animal de vastas dimensões no Pauiní. No Aquirí, os arqueólogos levantaram o esqueleto dum grande bicho. (p. 60)
Ao lado da memória naturalista, surge a preocupação quanto à globalização amazônica, que aparece na conversa sobre o preço da borracha. A presença estrangeira torna-se mais evidente: “[...] Para a companhia inglesa do Amazonas que possuía o Princesa Isabel. Isto sem falar nos doze grandes Vaticanos holandeses de mil toneladas cada um.” (p. 61). Tudo isso se explicava pelo seguinte: “[...] Era a megalomania de novos ricos. Julgavam que a sua importância social lhes seria aferida pelo caráter de armador. Evocavam milords ingleses viajando nos próprios iates.” (p. 61). A economia governa os destinos do mundo:
[...] Reproduzia-se paradoxalmente no Purus o que sucedera no Madeira, onde a empresa construtora da Estrada de Ferro que havia de ligar Porto Velho a Guajará Mirim importava, para atravessar a floresta mais rica de essências do globo, dormentes da Austrália. Questão de pura economia. (p. 62)
A violência global é denunciada dentro dos seringais. Em sua fala, o Barão explica: “[...] É o muito dinheiro que faz isso...” (p. 63). Nesse contexto, o narrador salta a coesão do processo narrativo para adentrar questões diplomáticas entre Brasil-Bolívia, mais pacíficas do que a pequena batalha representada em Alberto Rangel no conto “O
[77] marco de sangue” (de Sombras n’água). A narrativa permanece numa instabilidade, talvez ocasionada pelo próprio momento histórico do ciclo.
O principal fato da alteridade nacional dentro do romance liga-se à dinâmica da educação cultural da índia ipurinã Corina. O personagem Dr. Carmo Veras traça um pequeno quadro:
[...] Não só é linda, volveu o interpelado, como inteligente. Nunca pensei que os ipurinãs fossem tão belos e superiores, mentalmente falando. A moça discorre sobre tudo. Principalmente em assuntos [de] raças americanas e história precolombiana. É professora na matéria. Quem me dera saber o que ela sabe sobre as civilizações antigas do nosso continente. E, por sobre tudo isso, elegante, de cunho parisiense. (p. 65)
O ideal parisiense compõe o novo perfil da índia, transformada pela acelerada mundialização de formas impostas pelo (re)nascente capitalismo do século 20. O enquadramento no perfil globalizante possibilita a todos, independente da raça ou etnia, aspirar a uma condição considerada “superior”, ainda mais num período belle époque. Corresponde a um dos traços da atmosfera “parisiense” de Belém, o qual, depois da queda da borracha, será parcialmente rompido, como se verá em Dalcídio Jurandir.
Na saída pelo Purus, várias localidades se sucedem aos olhos do coronel José Alves. A geografia interessa para a narrativa, mesmo que não interfira diretamente no andamento do enredo. Nesse caudal, está a poderosa companhia inglesa de navegação. Essa aparente invisibilidade do império inglês em águas amazônicas é desvelada pela narrativa. Dentre o comércio da navegação, encontrava-se a lancha do capitão Hoeffner, “um teuto vermelho como camarão frito e que se encontrava há muitos anos mourejando no Purus” (p. 71).
Nessa mesma linha da inserção civilizatória da Amazônia no mundo globalizado, o personagem José Alves faz uma pausa no barracão do comendador Hilário Álvares. Em rápida descrição, o narrador resume a figura do comendador:
[...] O chefe da casa, comendador Hilário Álvares, possuía fina ilustração. As filhas, umas educadas na Europa, outras em Belém, como sucedia à caçula, interna do Colégio do Amparo, falavam francês, inglês, espanhol; bordavam, pintavam, esculpiam. Ali se discutiam questões literárias, políticas, econômicas e religiosas. No gabinete de leitura encontrava-se pequena biblioteca, além de revistas européias e americanas. Parecia uma gota de civilização caída em plena jangla. Por todas estas cousas chamavam ao comendador Hilário Álvares: Caboclo Real. (p. 72)
[78] Matilde, uma das filhas do Caboclo Real, havia chegado há meses de Paris. Apresentado a José Alves o solar, Matilde mostra-lhe uma foto em que aparece Corina. Hilário Álvares surpreende-se ao saber da origem indígena da ipurinã Corina. Os modos franceses estão carregados dentro do casario de Hilário. José Alves comete várias gafes à mesa, por desconhecer esses modos. Essa simples cena pitoresca mostra a distância entre José Alves e o barão afrancesado Hilário. O humor, como perspectiva de leitura histórica de cenas dos coronéis de barranco, se adensará em Cláudio de Araújo Lima e, mais intencionalmente, em Márcio Souza.
Após deixar o barracão, seguindo pelo baixo Purus, José Alves observa o velho português Luiz Gomes: “No dia seguinte botaram a prancha em S. Luiz do Cassianá, do velho português Luiz Gomes. Riquíssimo, possuindo latifúndios maiores que países europeus, quase todo o Ituxí lhe pertencia. O Mamoriá também. [...]” (p. 75)
Em sua chegada a Manaus, a mistura de nacionalidades está no porto:
[...] Às três da tarde amarravam à bóia de Manaus. Muitos paquetes e gaiolas surtos no quadro: da Booth, da Red Cross, do Lloyd, italianos, fluviais. As catraias se acercavam do Rio Tapajós. Limpas, remadas por morenos portugueses, tostados ao sol, rondavam o navio. Conhecia-se-lhes a nacionalidade pelo sotaque: Voa biagem? Quére um vote? Aquí é o Patêsca. Benha no Famalicão, coronele. Algumas traziam bandeiras à popa com o sinal da casa comercial, do hotel, dos armadores. (p. 77)
A literatura documenta o encontro de nações na Amazônia proporcionado pelo período histórico do ciclo da borracha. Em seu instante de predomínio, a borracha amazônica era cobiçada por todo o mundo. Já no porto de Manaus, José Alves recebe uma oferta alemã por seu produto: “– São cem contos limpos que o sr. recebe já, sem trabalho maior que os meter no bolso, dizia um deles, alto, louro, de óculos, evidentemente alemão.” (p. 77-78). É uma cópia reduzida do mercado mundial a se realizar nas entranhas da floresta.
João Afonso, gerente da firma A. Berneaud & Comp., faz as vezes de anfitrião, guiando e hospedando José Alves por Manaus. A hospedagem ocorre na Cabeça de Porco, onde se pode livremente gozar dos prazeres sexuais. O coronel de barranco não se dava a esses propósitos. Mais à frente, João Afonso comenta sobre a separação do Território do Acre:
– Que havia de verdade sobre tudo isso?
– Sei não, respondeu José Alves. Boliviano por ali é como farinha. A mode vem soldado muito lá de cima. Ouvi estas cousa na boca do
[79] Acre do Barão Lexandre Liveira Lima8. No Iáco mesmo, que eu saiba,
não há nada. No meu rio só se fala na alta da borracha. O seringal de Sta. Clara, este ano, vai dá leite que nem vaca da ube grande. É borracha de pagode. (p. 80)
Logo na sequência, o interesse desvia-se novamente para Corina. João Afonso trata novamente Corina com elogios relacionados à sua imersão na cultura francesa:
– Ah! V. não é capaz de calcular como se transformou aquela criatura. Nem parece índia. Na conversa, nos modos, nas salas, nas danças, na cultura é uma parisiense. Gosta muito de falar francês. Vive na casa de João Lúcio. A instrução que recebeu é primorosa. (p. 81)
Ato contínuo, João Afonso fala da possível negação de seu caráter indígena: – O senhor vai ficar admirado. A transformação é completa. A ideia que ela transmite é de ser filha duma alta civilização, amando as modas, as artes, a religião cristã, os métodos e os costumes das grandes metrópoles. Talvez nem queira que se diga ser ela indígena. Deve ter profunda ojeriza a tudo que é aborígene. (p. 82)
Há um novo tratamento, por conta de toda a transformação histórica, para a questão indígena na literatura amazônica e brasileira, abandonando argumentos dos romances indianistas amazônicos Simá (1857), de Lourenço da Silva Araújo e Amazonas, e Os Selvagens (1875), de Francisco Gomes de Amorim.
A bordo do navio inglês Augustine, José Alves parte para Belém. A embarcação parecia levar passageiros de todo o mundo, especialmente portugueses. Ao reencontrar Corina, José Alves sentia como se abraçasse uma namorada e não uma filha. Essa nova vida ao lado de Corina começa com uma mudança, assinalada na fala de sua pupila: “[...] Seringueiro é gente muito atrasada. Amanhã nós vamos comprar um canotier igual ao do senhor João Lúcio.” (p. 127)
Nessa viagem de José Alves rumo a Belém, com passagem por Manaus, ocorre o deslocamento do campo para a cidade. É a saída da floresta para a entrada na metrópole. Essa experiência pode ser avaliada como o afluxo de mercadorias para o universo global. A oposição entre rural e urbano perpassa a história do ciclo da borracha, assim como outra parte da economia brasileira de base ruralista (café, cana-de-açúcar, cacau). A lógica do sistema econômico não se altera, apenas possui suas variantes.
José Alves não conhecia ainda a capital paraense. O português João Lúcio, autor de Os Jesuítas no Grão-Pará, transforma-se em personagem da ficção. Ele levaria José Alves para um passeio de conhecimento da urbe. João Lúcio narra fatos históricos do
8 Um dos primeiros coronéis de barranco da região. Era conhecido como “Barão da Boca do Acre”.
[80] período colonial amazônico. Mostra os principais pontos turísticos e arquitetônicos. No Arsenal da Marinha, ficam críticas ao descaso da República com a armada e com a construção de navios. Diante da Igreja das Mercês, tem-se a informação de que lá Corina se crismara, o que agrava o processo civilizatório pelo qual ela passara desde sua chegada no barracão do Santa Clara.
Raimundo Morais e Alberto Rangel têm forte vinculação com os dados históricos da região amazônica. O positivismo exigia a confabulação histórica. A voz do narrador se coaduna com a voz do historiador. A contextualização histórica reconstrói significados para o entendimento do lócus amazônico.
Nessa descrição histórica da capital, aparece “o grande político do Norte”, o senador Antonio Lemos, no comentário de João Lúcio:
– Este homem é que tem feito tudo pela capital paraense. Onde se encontrar um aperfeiçoamento, uma nota estética, um fulcro de beleza, aí está seu dedo privilegiado pelo bom gosto e pela arte instintiva. Sem pontos de referência para formar a sua educação, como seriam os museus, os monumentos, os teatros, os arcos triunfais, as pontes formidáveis, os palácios, as exposições de belas-artes, consignou João Lúcio, ele possui o sentimento inato das realidades universais, do progresso do mundo. Uma página de jornal, uma fotografia, uma revista, transmitem-lhe o sentido vivo do que deve fazer e do que deve adotar. (p. 136)
O político visionário não pode perder o bonde da história. Deve estar em contato com o progresso do mundo. Compara-se o perfil de Antonio Lemos ao do Pensador de Manaus, o governador Eduardo Ribeiro. As perseguições políticas sofridas por esse dois ganham conotação internacional. João Lúcio comenta o enforcamento do Pensador em um mosquiteiro:
– Pois este daqui [Antonio Lemos], acrescentou João Lúcio, qualquer dia vai também pra corda. A corrente que o contraria já é tremenda. Não se pode ter merecimento neste vale de lágrimas. Aqui, em Lisboa, em Paris, em Londres, em Berlim, em Nova York, o sujeito botou a cabeça de fora, mostrou inteligência, força de vontade e espírito de trabalho, já sabe, vão com ele ao fio do mosquiteiro... (p. 137)
Essa aparente miscelânia narrativa defende a tese de uma transformação inevitável nos modos de José Alves após seu novo contato com Corina. E pouco a pouco essa virada na narrativa acontece, para, depois, ocorrer uma reviravolta em que as posições dos personagens no início da narrativa são de alguma forma retomadas, mas em outro contexto.
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