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Na Revista da Semana, edição de 12 de julho de 1930, um certo Nonato Pinheiro lança tremenda maldição sobre Henry Wickham, o inglês responsável por contrabandear

[118] as sementes da hevea brasiliensis que seriam experimentadas em plantações do sudeste asiático. A morte de Wickham havia ocorrido em 28 de setembro de 1928.

Henry Wickham representava os anseios do capitalismo britânico. A domesticação de espécies com rápido retorno econômico, como era o caso da borracha amazônica, estava na cartilha capitalista. Em parte, Coronel de Barranco tem como estaca inicial esse mito, para desenvolver o restante de sua narrativa dramática.

A decadência da borracha, depois de seu período áureo, interessa como memorialismo para o momento de composição da narrativa. O romance histórico de Cláudio de Araújo não possui como única finalidade recontar a história sob outros vetores estéticos, mas enveredar por uma memória que tende para o autobiográfico, pela narrativa em primeira pessoa das experiências de um tal Matias Albuquerque. Esse modo de narrar configura o que Astrid Erll (2011, p. 153) define como modo mnemônico experiencial, ou seja, de uma “memória vivida”. Porém, no caso de Matias Albuquerque, pelo grau de ficcionalização, sabe-se que essa “memória vivida” é forjada.

O narrador preocupa-se em situar, marcadamente, o tempo e o espaço. Recua-se a meados de 1876 e localiza-se no Acre, entre o Madeira e o Tapajós. Cabe, imediatamente, reparar que Wickham, em 1872, lançara seus relatos de viagem, em sua primeira passagem pela Amazônia, em Rough notes of a journey through the wilderness, from Trinidad to Pará, Brazil by way of the great cataracts of the Orinoco, Atabapo, and Rio Negro. Nessa obra, é que o explorador inglês narra a pretensão de definir a base de suas operações entre os rios Tapajós e Amazonas, bem como nas proximidades da cidade de Santarém (WICKHAM, 1873, p. 138). A exemplo de Wickham, o narrador promoverá seu relato, contudo com uma inclinação para o autobiográfico.

Depois, no desenrolar do enredo, o tempo do narrador avança 50 anos, situando- se em 1926. O protagonista histórico Henry Wickham recebe uma descrição indireta:

[...] é como se ainda tivesse diante de mim o homenzarrão de olhos azuis, ruiva bigodeira caída sobre a boca enérgica, testa suarenta escondida sob o chapéu de cortiça, que acenava para os que iam continuar viagem no vaporzinho de bandeira inglesa, águas acima do rio Amazonas. (p. 4)

Amâncio, tio de Matias Albuquerque, deu hospedagem ao “cientista”. O narrador descreve Wickham como “exuberante de ânimo”. Seu cartão de visitas tinha os

[119] dizeres “Mister Wickham – „Henry A. Wickham, Planter”. Manteve diálogos com Wickham, mesmo com as limitações da língua, o que agradou ao inglês. Passou a acompanhar o “bife engraçado”. Expressão semelhante para definir os ingleses é utilizada por Alberto Rangel no conto “Os Wikings” de Sombras n’água (1913). E também não é difícil encontrar esse predicativo em Raimundo Morais. Trata-se de um pequeno traço da memória cultural do ciclo, reaproveitado por Araújo Lima.

Wickham não se despegava mais de seu interlocutor. E passava um dia inteiro na mata fechada, analisando as sementes das seringueiras. Contrasta-se o espírito cientificista, empreendedor do britânico, com a ignorância local sobre aquela riqueza natural:

[...] Horas e horas que ele gastou, empolgado, numa tarefa que eu não podia compreender. Colhendo bocados de terra, aqui e acolá, e que ia acomodando em latas de vários tamanhos. Enchendo frascos com água dos riachos e igarapés mais próximos. Raízes de plantas, que arrancava cuidadosamente, quase carinhosamente. E até alguns bichos da terra, além dos besouros e borboletas. Tudo que encontrasse a curta distância das seringueiras, que para mim não tinham real existência além do momento em que a faina extrativa se realizava. (p. 6)

Wickham interessava-se pelo trabalho de corte da seringueira pelo caboclo, acordando em meio à madrugada para acompanhar o trabalho no seringal. O inglês surpreendia-se com o fenômeno cultural que era seu interlocutor: “[...] um jovem de dezoito anos, perdido na selva amazônica, haver lido romances de Dickens e de Thackeray, e saber de cor alguns versos de Byron, uns poucos e os únicos, aliás, que eu guardara de memória.” (p. 6). Tio Amâncio nutria vaidade pelo sobrinho na maneira de falar a língua do explorador.

Dirigiram-se à barraca de Sandoval. Lá, o inglês pergunta sobre aquele estilo de moradia. Sandoval mantinha-se com sua aparência desconfiada. Matias tenta traduzir “estrada” para Wickham, estrada em que se havia sangrado mais de 90 árvores. Sandoval dizia não se importunar com a visita. Sua solidão fez-lhe colocar o nome do seringal de “Tristeza”. Matias sugeria a mudança de nome, ao que Sandoval retrucou: “– Nada, Seu Matias. Mudança de nome não dá pra mudar as coisas, não é mesmo?” (p. 10)

O interesse de Wickham prosseguia na descrição de detalhes: “[...] Já então, poucos metros adiante começava a coleta do látex nos galões, sob o olhar interessadíssimo do inglês, que o mirava atentamente. E cheirava-o. Procurava sentir-

[120] lhe a consistência, a viscosidade, o grau de elasticidade, entre o indicador e o polegar.” (p. 10)

Há sucessivas interjeições de Wickham sobre itens da cultura local: cachaça, sapo-boi, café. Sandoval pretendia apresentar ao inglês o processo de defumação. Além disso, mostra, ainda, um igapó, com um garçal espetacular. Presenteia o britânico com um galo da serra preso em uma gaiola. Nesse caso, o gosto pelo exotismo é alimentado pelos próprios amazônidas.

De volta ao barracão do tio Amâncio, Wickham toma o tacacá e o tucupi. Peixes e pato no tucupi eram servidos ao hóspede. Doces caseiros, de bacuri ou cupuaçu, compunham a mesa. Após a comilança, Wickham sugere a Matias que deixe o seringal e parta para a Inglaterra com ele.

Antes de partir, Wickham espera retornar a outra banda do rio, para encher sacos de sementes que pretendia levar para seus estudos em Londres. Tio Amâncio providencia um saco de serapilheira. Wickham diz ser insuficiente. Amâncio comenta: “ – Qual, Matias... Esse bife é doido.” (p. 19)

Amâncio propôs um passeio pelas margens do grande rio. Encontra exemplar da ave cigana. Wickham pretende provar a teoria darwiniana: “[...] disse-me que a cigana era a melhor prova de quanto estava certa a teoria de um sábio inglês, que provara estarem as espécies todas presas umas às outras, através de transições hoje quase impossíveis de encontrar.” (p. 20). E mais à frente, exclama: “– Ho! Darwin... Darwin... He is marvellous.” (p. 21). O narrador Araújo Lima pratica parte do positivismo de Alberto Rangel, ao retomar esse cientificismo. Não deixa de ser um memorialismo interliterário ou de cruzamentos estéticos sobre as ficções do ciclo da borracha, como se avolumará a partir da prosa de Araújo Lima. É o que se verá nos dois próximos capítulos.

Proposições naturalistas de Euclides e Rangel retornam ao discurso narrativo: [...] E exibindo-nos o estômago realmente desproporcionado do bicho, acabou de me perturbar com a revelação, que nem tive coragem de traduzir para o tio Amâncio, de que aquele incomensurável Amazonas era um pedaço de mundo que ainda não havia acabado de nascer. (p. 21, grifo nosso)

A narrativa de Cláudio de Araújo refaz o mito de um Amazonas como último capítulo da História Natural, ainda inconcluso, por sua infinidade de espécies naturais.

[121] Esse nascimento do mundo amazônico refere-se a um nascimento do conhecimento da civilização sobre a Natureza.

Os lances naturalistas continuam presentes na prosa de princípios dos anos 1970. Essa aparente ingenuidade narrativa está apenas enunciada. A enunciação pretende mais. A problematização literária do fato histórico começa a se agravar, apesar da narração simplória.

No florescente surgimento do ciclo, instala-se o seu futuro colapso, pelo despreparo dos produtores e da economia brasileira. Essa visão menos ingênua somente é possível pelo olhar da pós-memória, que possui relativa consciência de como se processaram os fatos históricos até a decadência da borracha amazônica. Mas é certo que Rangel, a seu tempo, parece antever esse período de decadência, como se destacou na análise do conto “O marco de sangue”, no primeiro capítulo desta tese.

Wickham recebe sacas de serapilheira. Em conversa com Wickham, Matias recebe mais um convite para passar uns tempos pela Inglaterra, para estudar escrituração mercantil. Entre outras benesses, poderia visitar outras cidades ou países: “Paris, então, era melhor não comentar, senão eu poderia ficar perturbado e até não mais suportar Londres.” (p. 23)

Propõe-se a tentação pela vida metropolitana. Diante disso, o contraste volta a aparecer, na divisão entre princípio e fim do mundo, civilização e anticivilização (amazônica): “Ouvindo falar assim, claro que não ficava insensível. Ao contrário, as perspectivas eram as mais sedutoras possíveis para um jovem, que pouquíssimo poderia esperar que a vida lhe desse, se se resignasse a permanecer naquele fim de mundo.” (p. 23)

Sandoval traz mais um pássaro raro para Wickham. Tio Amâncio não exigiu a participação de Matias e Wickham na comunhão dominical. Rosinha, sim, participa da missa, com o rosto envolto em um véu. O discurso religioso reforça a lógica do trabalho servil nos seringais:

Vibrante, exaltava a fé. Mas frisava que a fé, somente, não bastava. Era preciso a devoção cega ao trabalho, sem pensar nas recompensas materiais. A submissão aos senhores, mesmo dos que não fossem escravos. Porque os senhores, depois dos sacerdotes, eram os representantes de Deus na terra. Que pensassem bem nisto: O Senhor e os senhores. [...] (p. 26)

[122] O infernismo amazônico ronda a narrativa, manifestando-se em variações talvez não analisadas por Neide Gondim (1994), porque existe um infernismo manifesto nas práticas liberais e religiosas. No ponto alto da missa, o seringueiro Sandoval caminhou em direção ao altar e afundou o seu punhal no coração do padre. Pretendia assim quebrar o discurso da lógica escravista do ciclo gomífero? O leitor é convidado a se posicionar.

A religião na literatura dos ciclos ficcionais da borracha acumula-se em discursos desde Alberto Rangel (em “O Evangelho nas Selvas”, de Sombras n’água, 1913), Raimundo Morais (no processo educacional de Corina com as freiras de Belém em Ressuscitados), Dalcídio Jurandir (pelos personagens em meio ao tradicional Círio de Nazaré em confronto com o ateísmo do comunista Sr. Lício), para reafirmação de valores sociais próprios do ciclo e do pós-ciclo.

Tio Amâncio propõe que Matias comece uma nova vida, quem sabe, no Pará. Seu tio concorda com a possibilidade de seu sobrinho seguir com o inglês. Amâncio pretende também partir “deste lugar amaldiçoado”, para Belém ou Manaus.

Matias comunica a Wickham sua intenção de se juntar a ele na viagem de volta à Inglaterra. A missão de Wickham se desvela com clareza: “[...] Uma ansiedade que se concentrava em fazer levar para bordo as sacas cheias das sementes de seringueira. Tanto que, uma vez posta no convés essa carga, que eu não podia supor tão importante, ele se tornou absolutamente tranquilo.” (p. 29)

A biopirataria de Wickham não se restringe às sementes de seringueira:

[...] Uma porção de gaiolas de pássaros. Engradados de animais de pelo. Paneiros de frutas. Boiões de doces caseiros. Latas com plantas e flores silvestres. Caixas com amostras de terra. Os vários recipientes onde iam as minhocas, os gafanhotos, as borboletas. Tudo que colhera naquela manhã em que, pela primeira vez, penetrara comigo um trecho da mata, no dia imediato ao da chegada. (p. 30)

Matias embarca no Amazon. Wickham preocupava-se apenas com o transporte das sementes. Matias pensa muito em Rosinha. Reflete sobre sua decisão de entregar seu destino a um desconhecido. Durante a viagem, de passagem por Barbados, Wickham faz revelações sobre seu interesse pelo problema da borracha:

[...] aquela não havia sido a sua primeira incursão nas selvas amazônicas. [...]

Chegara até a Venezuela, lá pelas cabeceiras do Orenoco, por sugestão do que lera no trabalho de um outro inglês, Sir Josph Hooker, do

[123] Jardim Botânico de Kew. Mas as espécies de hévea, cujas mudas conseguira, não correspondiam exatamente ao que se considerava como a “borracha do Pará”, apesar de denominada no tal estudo como sendo a “heveia brasiliensis”, tipo que era, realmente, a preciosidade botânica. (p. 34)

A viagem de Wickham pelas cabeceiras do Orenoco encontra-se relatada em Rough notes of a journey through the wilderness, from Trinidad to Pará, Brazil by way of the great cataracts of the Orinoco, Atabapo, and Rio Negro (1872), inclusive com ilustrações produzidas pelo próprio autor.

Ao deixarem a Ilha da Madeira, continuam as revelações sobre a real missão de Wickham, que havia se interessado em plantar borracha desde 1860. Dois pensamentos confrontam-se e merecem um olhar arguto: o pensamento do colonizador e do colonizado. Posiciona-se, aqui, a dialética entre a sagacidade e a inocência:

Ora, plantar borracha – aí estava algo que eu jamais pudera imaginar. Pelo simples fato de que não haveria coisa menos fácil de entrar na cabeça de um caboclo amazonense que alguém houvesse, um dia, pensado em “plantar” uma árvore que, para nós, era o que havia de mais abundante e banal naquelas florestas. (p. 34)

Nem mesmo na Inglaterra levava-se a sério a ideia de se plantar uma árvore tropical silvestre fora de seu meio natural. Matias narra sua saga ao lado de Wickham no Jardim Botânio de Kew. Para a surpresa de todos, após quinze dias, algumas sementes começaram a germinar na estufa. A consciência de Matias molda-se às novas experiências: “Além de que, bem pesadas as coisas, constituía realmente um acontecimento paradoxal ter eu a atenção voltada para um fenômeno que, monotonamente repetido em torno de mim, desde que eu nascera, nunca tivera o poder de me preocupar.” (p. 36). E continua a reflexão de Matias:

Como pensar, aliás, na germinação das sementes de uma árvore, que só podia dizer-me alguma coisa à hora em que a machadinha lhe sangrava a casca e deixava escorrer o leite, que um pouco de fumaça solidificava e transformava em mercadoria capaz de ser trocada por dinheiro? (p. 36)

No fundo, Matias não acreditava na possibilidade de se “fabricar um arremedo ridículo da floresta de um seringal.” (p. 36). Em contraste à adaptação das sementes de seringueiras na estufa, Matias sentia a “saudade da pátria”, do clima e da comida. Logo vem outra revelação. As milhares de seringueirazinhas seriam levadas para Cingapura. E Wickham levaria Matias para assistir o processo de transplantação das mudas para o

[124] Oriente. Esse transplante daria início ao declínio da borracha amazônica, o que poucos coronéis de barranco entenderiam.

A memória ficcional possibilita a junção de capítulos históricos não muito bem conectados ou analisados. E é isso que o narrador de Cláudio de Araújo pretende. Em seu relato pouco realista e pouco consistente, sobre seu encontro com Wickham e sua viagem para o sudeste asiático, tem-se o ponto nodal de uma das explicações para o desbanque da borracha amazônica. É por assim dizer um retorno ao motivo crucial do mote literário do ciclo, visto de uma perspectiva incrustada no próprio ciclo, que era o internacionalismo da forma econômica. Em Márcio Souza, esse fenômeno de globalização será tratado esteticamente como “memória global”.