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Depois de extensa e cansativa divagação naturalista, retorna-se ao conflito entre Serafim Baraúna e D. Cecilio Castañeda. Agora, o leitor está diante das primeiras movimentações do conflito territorial e diplomático.

A batalha campal entre os exércitos dos coronéis movimenta também a narrativa, dando unidade ao processo de narração. Um dos resumos possíveis das primeiras cenas pode ser o trecho:

O cenário da selva era bem adequado à façanha da caterva de bandoleiros; o teatro selvagem requeria esses atores selvagens. O espetáculo, fora a mecânica de Winchester, reproduzia iniciações humanas do período quaternário... (p. 314).

Tal trecho aproxima-se da narrativa de Os Sertões (1902). Apesar da individualização do personagem, tanto Euclides quanto Rangel sobem o discurso para a coletividade. Com efeito, aparece um sentido nacional mesmo nas coisas aparentemente regionalizadas, como na barbárie em vias de realização do enfrentamento entre forças humanas de caucheiros e seringueiros.

Pouco tempo do início do conflito direto, o cangaceiro Pinga-fogo, representante do Coronel Baraúna, se defronta com o temerário boliviano D. Cecilio. Essa luta “personalizada e singularizada”, como escreve Rangel, pode ser elevada a outra condição: “E, por cima dos dois indivíduos macilentos e suados, campeavam

[57] respectivamente duas soberanias, representadas por duas árvores, duas conquistas, duas raças, duas fronteiras e duas pátrias.” (p. 315). É o confronto entre nações.

Pleno de significado, esse combate entre o cangaceiro Pinga-fogo e D. Cecilio acirra os ânimos dos adversários:

[...] Os quadrilheiros inimigos, acompanhando as peripécias do encontro, não se evitavam mais. Eram simples comparsas quedos na mesma galeria. Tinham os olhos cravados nesse duelo horrível em que se resumia o encontro longo, coletivo e disperso da aurora. (p. 316). Há um pacto silencioso entre os combatentes. Essa passividade pode ser levada historicamente para o problema de como cada população entendia ou permanecia ante a luta pelo território do Acre.

Sem trabalho literário exaustivo do narrador rangeliano quanto à batalha épica, o que poderia, sem dúvida, dar mais força à narrativa, chega-se ao final com o nordestino Pinga-fogo vencendo o confronto nos seguintes lances:

Quando o boliviano, premido por um torcilhão mais caloroso, se ajoelhou ofegante, o Pinga-fogo com as unhas das mãos entupia-lhe as órbitas e garrotava-o. [...] O Pinga-fogo, afastando os facões enristados, que se preparavam a sarjar e mutilar o vencido, reclamou um bocado de cipós. Ataram o boliviano ao longo do pau, que lhe serviu de encosto, e que o tornava portátil, imobilizando-o. O herói da jornada apoiou o pé, com desassombro, no peito cabeludo de D. Castañeda para consertar a alpercata e aguardar as decisões de vindicta do Baraúna, senhor de baraço e cutelo... (p. 317)

Por determinação de Baraúna, conduz-se o corpo de D. Castañeda até o poste oficial da demarcação. Pinga-fogo teria a honra de degolar o estrangeiro inimigo. A descrição do instante crucial mostra os horrores sanguinários da conturbada situação fronteiriça brasileira:

O prisioneiro, peado de pés e mãos, foi arrastado para o poste oficial da demarcação. Sobre o topo esquadriado abriram-lhe o pescoço, de carótida a carótida. O sangue bofando das artérias irrigou o toro, num duplo esguicho quente e vermelho. O caule maldito da laurantácea, talhado na sua forma regulamentar de prisma e orientado para um norte duvidoso, ficaria intangível. Restos haviam de reforçar a guarda à inviolabilidade da planta de sangue e de martírio, que o alemão deixou de catalogar... (p. 318-319)

As contradições da narrativa de Alberto Rangel em seus arremedos positivistas deixam de lado a suavidade da memória do eldorado presente até então em boa parte da poética amazônica, como nas narrativas de João Marques de Carvalho, José Veríssimo ou Rodolfo Teófilo. O caráter embrutecido e infernista do conflito vencido por Pinga-

[58] fogo dá a tônica de como a literatura amazônica de Rangel configura a memória fronteiriça amazônica do início do século.

A brutalidade ensandecida por um promissor pedaço de terra, produtor da melhor qualidade de borracha, não aparecerá mais nas narrativas ficcionais amazônicas, com esse mar de sangues e essa tentativa epopeica.

Em “Contra os caucheiros”, Euclides da Cunha mapeava os conflitos no Alto Purus, confrontando as forças dos caucheiros com a dos jagunços:

Além disto, as forças para repelir a invasão já ali se acham, destras e aclimadas, nas tropas irregulares do Acre, constituídas pelos destemerosos sertanejos dos Estados do norte, que há vinte anos estão transfigurando a Amazônia. [...]

Para o caucheiro – e diante desta figura nova imaginamos um caso de hibridismo moral: a bravura aparatosa do espanhol difundida na ferocidade mórbida do quíchua – para o caucheiro um domador único, que o suplantará, o jagunço. (CUNHA, 1975, p. 152-153)

Em À margem da história, Euclides retoma o tema dos caucheiros, tendo em vista sua visita aos limites incertos que separam a Amazônia brasileira do Peru. O narrador forjado por Euclides, a certo ponto de sua abordagem, desbanca para o relato literário, quando caracteriza o cauchero como um humano coisificado, mais um traço de ruína da modernidade na selva amazônica: “[...] Esta cousa indefinível que por analogia cruel sugerida pelas circunstâncias se nos figurou menos um homem que uma bola de caucho ali jogada a esmo, esquecida pelos extratores [...]” (CUNHA, 1999, p. 51)

A memória fervilhava no discurso crítico. Essa memória da constituição das fronteiras amazônicas, como um campo de disputas nacionais, servirá de pouco insumo para a literatura brasileira, sem fortalecer esteticamente uma narrativa histórica a respeito desses fatos. Veja-se, por exemplo, a esquecida “revolução acreana”, coordenada pelo caudilho Plácido de Castro, que pouco ou nada de terrível, dramático ou trágico, legará à literatura nacional. Na protomemória do ciclo, Alberto Rangel recordará brevemente de Plácido no conto “Um conceito do Catolé”, de Inferno Verde (1908).

Ainda em relação às fronteiras, não é difícil comparativamente aproximar essas narrativas de Rangel com um anseio de visconde de Taunay em A retirada da Laguna 1869). Os motivos fronteiriços estão no horizonte desses escritores do início do século, embora Taunay esteja falando das fronteiras mato-grossenses e da Guerra do Paraguai.

[59] De certa forma, essa conquista possui um legado progressista, ao gosto do positivismo de época. Em “Rios em abandono” (1908), Euclides já havia discutido os limites do Purus, uma das principais rotas comerciais daquele Oeste nacional: “[...] precisamos incorporá-lo ao nosso progresso, do qual ele será, ao cabo, um dos maiores fatores porque é pelo seu leito desmedido em fora que se traça, nestes dias, uma das mais arrojadas linhas de nossa expansão histórica.” (CUNHA, 2000, p. 144)

Não se pode deixar de acrescentar que o “conto épico” de Rangel enquadra-se num dos gêneros da memória. Astrid Erll (2011, p. 148), ao estabelecer a intersecção de gêneros, especialmente os narrativos, para o encontro entre literatura e memória, exemplifica como o gênero épico possui a capacidade de apresentar a origem e singularidade de um grupo étnico. A formação do Acre está diante dos olhos do leitor pela lente narrativa de Alberto Rangel. As precariedades de formas, de personagens, o excesso de positivismo, destoam do quadro maior do épico processo de luta entre seringueiros e caucheiros, porém essa instabilidade formal pode refletir também a instabilidade histórica inaugurada pelo ciclo da borracha, no que tange às relações internacionais e sul-americanas.

Essa pode ser uma representação sobre a qual a literatura deambulava na antevéspera do modernismo, como ressalta Dimas (1994). E é certo que essa representação provocaria um novo olhar para o Brasil amazônico, especialmente pelo filtro literário. Esta simplória epopeia debilitada indicará uma nova epopeia, que certamente não foi escrita pelos primeiros modernista nem pelos últimos. A epopeia amazônica seria escrita a ferro e fogo ao longo do século 20, em seu conjunto de narrativas, sendo que boa parte passaria por esse capítulo engasgado na memória cultural amazônica que é o ciclo da borracha.

Outras manifestações desse capítulo da história acreana se sucedem aqui ou acolá na literatura amazônica. Em Gleba tumultuária (1937), de Aurélio Pinheiro, aparece o conto “Zé Américo”, que é um misto de herói e monstro da revolução acreana, como escreve Djalma Batista (1938). Numa outra linha, mas que mostra a “transmissão protomemorial”, pode-se encontrar no nordestino Francisco Pereira da Silva (1958) um ufanismo progressista, por exemplo, no “Poema dos acreanos”6, retratando a revolução acreana:

[60] [...] Trazendo desfraldado um trapo verde-amarelo,/Onde uma estrela de sangue acena o caminho da glória!...”/São agora os indômitos acreanos!/[...] E vencem cantando – feridos, desnudos, famintos, alegres,/Conduzindo o Brasil vitorioso à Bolpebra!// - “Nós somos o Brasil dos seringueiros do Aquirí! [...] “Acreanos!... Nós somos o destino/De um povo infante, inquieto, em marcha ascensional...//Com a nossa valentia e o nosso sangue,/Entre fuzilarias e clamores,/Estamos modelando e repolindo,/Para que brilhe tanto quanto as outras,/Entre fulgurações e glórias, sobre a terra,/A estrela que faltava na bandeira do Brasil! (SILVA, 1958, p. 189-190)

É um misto desses desencontros nacionais que se encontra em Alberto Rangel em “O marco de sangue”. Desde Inferno Verde (1908), Rangel, com seu espírito positivista, pretendeu elaborar sua “enciclopédia amazônica” por meio de histórias curtas. No conto em tela, pode-se vislumbrar certa síntese de inúmeros temas que passavam por sua ótica diante do ciclo da borracha em movimento.

Por trás da disputa pelas fronteiras econômicas da borracha, encontra-se a literatura a travar mais uma de suas lutas para manter viva a memória. O que se pode chamar de protomemória do ciclo da borracha é esse caráter de síntese em Rangel e também em Euclides, em que se pode encontrar de tudo um pouco sobre a Amazônia atravessada pelo ciclo da borracha. “O marco de sangue” apresenta a figura dos seringueiros, do coronel de barranco, das casas aviadoras, do cientista interessado nos mistérios da Amazônia, na tentativa de traduzir a realidade selvagem da floresta, o conflito por terras...

Essa protomemória é que vai ajudar na construção do nacionalismo pela via amazônica. O Brasil amazônico começa a se descobrir para valer a partir do que o ciclo da borracha dá a ver sobre a Amazônia de modo insistente, seja pela via político- econômica, seja pela via literária. São essas frestas que descortinam as agruras ambientais, sociais e históricas daquela metade do Brasil.