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2.2 Instability damage and fracture

2.2.3 Porous plasticity

Ressuscitados (1936) tem óbvia alusão aos seringueiros. Mas, ao mesmo tempo, alude a outra falange de ressuscitados (apesar de estes não serem o alvo do título): os índios. Essa primeira e forte dicotomia só pode ser compreendida com uma análise, parte por parte, do romance.

[71] O capitão José Alves Ferreira, dono do seringal Santa Clara, no Iaco, afluente do Purus, é o personagem central da trama de Ressuscitados (Romance do Purus). Entre outras características de seu perfil, o narrador diz que

[...] guardava no físico algo de turco, tal a força muscular, de holandês na conta azul dos olhos claros, rasgados e perfurantes, de árabe na projeção, [...] e, de preto, no cabelo escuro, anelado, quase em caracol, segura revelação afer dum longínquo tataravô da costa d‟África.” (MORAIS, 1936, p. 7).

José Alves sintetiza certa miscigenação étnica, gravando um tipo comum da composição etnológica brasileira.

Logo no primeiro capítulo, os índios canamaris estão em contato direto com o seringal do capitão José Alves. Mantêm boa relação com o coronel de barranco. É natural a aparição de indígenas. Na narrativa, paira uma noção de estrangeiridade do indígena em sua própria terra, provavelmente instalada pelo discurso colonial. Nessas primeiras décadas da República, o centro do poder interessa-se pela integração nacional, explorando regiões desconhecidas ao Norte. Nesse processo, o índio figura como ícone social e da nacionalidade.

Os jornais e outras publicações da época demonstram esse interesse, como se reporta o prelúdio deste capítulo. Em parte, Raimundo Morais confabula algo que sequer poderia ser vivenciado por uma estratégia oficial, como a Comissão Rondon, que redundou na criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI, 1910), bem como em pesquisas antropológicos de Roquete-Pinto.

Quando reproduzida, a fala portuguesa do indígena soa como um estrangeiro ao tentar falar a língua do outro. Trata-se de uma abordagem menos eufórica do que aquela promovida por muitos românticos no século anterior ao de Raimundo Morais e até mesmo por arroubos realistas ou transfigurativos de Mário de Andrade.

A presença indígena marca o fluxo principal do romance, uma vez que a história se desenrola a partir da índia recém-nascida adotada pelo coronel José Alves Ferreira. A índia não era dos canamaris, mas sim uma ipurinã furtada. Esse grupo étnico é citado por Euclides da Cunha no tópico “Os caucheros” do capítulo “Terra sem história (Amazônia)” de À margem da história. Euclides apenas definia os ipurinans como “inofensivos”.

A índia raptada foi “batizada” com o nome de Corina. Esse simples motivo narrativo demonstra a (in)consciente imposição civilizatória sobre os indígenas,

[72] ocorrida desde tempos imemoriais. Só que, nesse período, a força da oficialização da redescoberta do indígena torna esse processo civilizatório um caminho sem volta, ainda mais pelos novos sentidos civilizatórios empreendidos pela máquina subcapitalista do ciclo da borracha.

Na fase final da literatura indianista no período do Império, David Treece (2008) verifica um retorno ao indianismo trágico da primeira fase romântica, cujo principal representante é Gonçalves Dias. A constatação de Treece liga-se à tese indianista que perpassa Ressuscitados:

[...] É quase como se, ao revisitar mais uma vez a história genocida dos anos coloniais, esta última geração estivesse, à própria maneira, desmascarando o idealismo conservador da mitologia alencariana de Conciliação que ajudara a sustentar a auto-imagem e a legitimidade do Império. (TREECE, 2008, p. 292)

Raimundo Morais não tem a pretensão de retomar Alencar, mas o faz inconscientemente, na forma de domesticação indígena. Em algum nível de análise, o valor lendário de Ressuscitados compromete sua prosa com a de Alencar.

Inicialmente, existe uma relação pacificada entre os indígenas e os seringueiros, sem qualquer conflito civilizatório. Genoveva, filha do Pará, fazia o papel de mãe. Educava a índia dentro da cultura paraense. Os costumes, cantigas, lendas dessa parte amazônica permeavam a vida da pequena Corina.

Depois de 8 anos, José Alves decidiu mandar a “filha” para a casa de uma família de Belém, a fim de que se educasse em um colégio. A moça começou a falar francês, inglês, alemão, espanhol e latim. Enviava várias cartas a José Alves. Interessava ao coronel de barranco mostrar aos visitantes militares, bacharéis ou engenheiros, as correspondências e as fotos de sua pupila: “– Realmente, diziam, a jovem é estudiosa. Quanto à beleza não se discute. Tem linhas de branca, donaire de ariano; e poses, toiletes de gente da cidade, elegante, fechavam as respostas.” (p. 14)

Como amazonólogo, o narrador forjado por Raimundo Morais preocupa-se em registrar a história amazônica, como ocorria com Alberto Rangel. A poiesis da representação encontra-se com a diegesis. Um desses dados aparece ao final do capítulo 1 com o personagem português João Lúcio de Azevedo. Esse personagem da vida real escreveria Os Jesuítas do Grão-Pará (1901). Existe um interesse forjado, como se forja a própria ficção, em aproximar a narrativa ficcional histórica da narrativa que se quer somente histórica.

[73] Raimundo Morais e Alberto Rangel apoiam-se bastante em outros escritos. A teia da intertextualidade se faz em evidências explícitas. O nível textual da história bruta, não lapidada ficcionalmente, aparece com naturalidade. Essa forte característica positivista adentra a análise feita por Astrid Erll (2011) sobre a “condensação”, como principal característica da obra literária, nessa tentativa de transmitir ideias do passado, o que, para o memorialismo, assume o papel de um palimpsesto. Mas não se pode forçar um desejo memorialista em Morais. Naquele período, tanto Morais quanto Rangel praticam o que se chamou de “protomemória”. No caso de Morais, como se sinalizou de início, trata-se da (proto)memória do indianismo dos seringais.

Em resumo, o primeiro capítulo de Ressuscitados coloca os principais problemas presentes no enredo da narrativa: i) a índia adotada pelo coronel de barranco; ii) a índia aculturada nos moldes da educação globalizada; iii) a riqueza gomífera conquistada por José Alves.