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Se Jesus faz-se chamar de Filho do Homem, é em primeiro lugar, acredito, por causa de um texto de Ezequiel (33, 1-11) que reserva ao “Filho do Homem” uma missão de advertência bastante comparável ao que os Evangelhos conferem a ele próprio 412.

A figura do filho do homem é importante para Girard? Sim. A convicção teológica de que Jesus entendeu a sua missão a partir da imagem do filho do homem de Daniel com suas devidas variações é importante para a tese girardiana. Pois, o Filho do Homem, do Novo Testamento é um bode expiatório. Mas o Filho do Homem é o Filho de Deus, o Messias redentor. Vítima pura e inocente. Não um bode expiatório alienado, ou seja, inconsciente que se submete à pressão coletiva assumindo uma culpa que não tem. Jesus, Filho do Homem, é alguém que caminha livremente para o Gólgota, capaz de dar a vida por amor. “Pois o Filho

do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos” (Mc 10, 45).

O mecanismo vitimário condenou o Filho de Deus como um malfeitor da sociedade, considerando-lhe um blasfemador público e agitador político. Aceitando a condenação injusta, o Filho de Deus, na função de Filho de Homem sofredor, revela ao mundo sua inocência e a falsidade dos perseguidores: a humanidade inteira em todas as épocas sabe que Jesus é inocente e que os perseguidores são culpados. A identidade do Filho do Homem

411 Cf. SEGALLA, Giuseppe. Evangelo e Vangeli: quattro evangelisti, quattro vangeli, quattro destinatari.

Bologna: Edizioni Dehoniane, 1993. p. 165.

412 GIRARD, René. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo

neotestamentário: paixão-glorificação, morte-ressurreição revela o Reino de Deus, perdoa e redime a condição humana. Sobretudo, revela o amor incondicional de Jesus pela humanidade. Esse amor tem sua expressão máxima na cruz. Diante da mensagem do Filho do Homem exige-se uma decisão: aceitá-lo ou rejeitá-lo. Aceitá-lo significa segui-lo como discípulo no caminho da vida, buscando imitá-lo no amor. O discípulo é alguém que escolheu o mimetismo da vida, ou seja, seguir Cristo, esforçando-se para viver os valores do Reino de Deus.

Jesus obedece até o fim uma exigência de amor que afirma provir do Pai e que é dirigida a todos os homens. Jesus é, portanto, o único homem que atinge a meta designada por Deus a toda a humanidade, o único homem nesta terra que nada deve à violência e suas obras. A apelação do Filho do Homem corresponde também, a esse cumprimento por Jesus de uma vocação que é a de todos os homens 413. Concluímos que a figura do Filho do Homem, que no Antigo Testamento, está ligado apenas ao tema da glória, sem a conotação de sacrifício, tem a missão de instaurar a justiça. Indiscutivelmente a imagem do Filho do Homem foi importante no sentido que Jesus deu à sua missão e à sua identidade. A grande novidade do messianismo de Jesus é a dimensão do sofrimento, da humildade e da humilhação. O poder e a glória do Filho do Homem se revelam plenamente na miséria da cruz; paradoxalmente, na hora onde Jesus parece ser destruído e silenciado para sempre, a sua glória se manifesta plenamente. A superação do sacrifício antigo, a destruição do reino de Satanás, se dá no sacrifício da cruz; na entrega gratuita e generosa de Si mesmo como dom de amor pelo mundo. A profissão de fé do centurião romano nos mostra a verdade do Messias sofredor: 414 “De fato, este homem era Filho de

Deus” (Mc 15, 39).

O Messias sofredor e glorioso que morre na cruz é a expressão de um amor sem fim. Amor que se entrega totalmente, sem se poupar e sem retribuir a violência com violência e sem instituicionalizar a violência como salvação. Não perpetua a cruz, mas a destrói pela ressurreição. O Filho do Homem ao aceitar a condição de bode expiatório na cruz dos romanos destrói o sacrifício antigo. Não é a tortura da cruz que salva, mas o amor daquele que aceita até a tortura e a humilhação da cruz para realizar o projeto do Pai. Pela ressurreição do Messias sofredor, Deus rompe os grilhões do sistema sacrificial; Jesus não permanece “bode expiatório”. O Filho do Homem, bode expiatório na cruz é glorificado pelo Pai, através do Espírito Santo. A glória do Filho do Homem não é dada pelos sacrificadores como na religião

413 GIRARD, René. Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo: a revelação destruidora do mecanismo

vitimário. São Paulo: Paz e Terra, 2009. p. 260.

414 Cf. MOLTMANN, Jürgen. O Caminho de Jesus Cristo: cristologia em dimensões messiânicas. Petrópolis:

mitológica. Mas, pelo Pai que dá vida ao corpo morto do Filho pela ressurreição. A violência do mundo fez de Jesus um bode expiatório. Ele aceita humildemente essa humilhação, sem raiva ou agressividade; se entrega pacificamente como um cordeiro a ser imolado, não retribui violência com violência. Sua pureza e sua inocência revelam o amor de Deus e mostra para o mundo que os motivos da condenação são mentirosos. Pela glorificação da ressurreição somos regenerados do pecado, ou seja, do mal projetado sobre o próximo, somos redimidos não pela cruz ou pelo espetáculo da morte do bode expiatório, mas pela ação de Deus que faz a vida vencer a morte. A última e definitiva palavra sobre o homem e sobre o mundo não é dada pelo sistema sacrificial da religião mitológica. O círculo interminável do bode expiatório é rompido pela decisão irrevogável de Deus de transformar a morte em vida 415. Concluímos que Jesus morto na cruz como bode expiatório e cordeiro de Deus é o Filho do Homem torturado na cruz e glorificado pelo Pai. O Deus de Jesus, Filho do Homem, nos liberta da religião mitológica do bode expiatório e de toda forma de sacrificialismo.

6 Servo de Iahweh

O termo “ebede”, em hebraico, significa servo. Aparece também fora do Deutêro- Isaías e indica em primeiro lugar uma situação relacional; relação de subordinação ao superior. O termo servo é usado também para o escravo do rei, ou para o próprio rei, quando é vassalo de outro rei. O termo “ebede de Iahweh” tem um sentido religioso: nos salmos referindo-se a pessoa que prega; Moisés é chamado servo do Senhor quarenta vezes, Davi trinta vezes. Na literatura deuteronomística aparece no plural “os seus servos”, indicando os profetas 416.

Os capítulos 40-45 de Isaías chamam a atenção pela importância que adquiriram na história do judaísmo e também do cristianismo. São textos conhecidos com o nome de

cânticos do servo. Nesses textos se reflete o eco do sofrimento presente e a esperança da libertação futura. A experiência do exílio empurra o profeta a identificar uma nova esperança mediadora da salvação divina; esta não será mais concretizada na pessoa do rei ou do sacerdote, mas na figura do profeta, chamado a carregar o peso dos pecados do povo e a interceder pelo mesmo. Ao término da missão é chamado a oferecer a própria vida em prol do

415 Cf. SUSIN, Luiz Carlos. Sacrificialismo e cristologia: a violência da cruz. In: ASSMANN, Hugo (org.). René

Girard com Teólogos da Libertação: um diálogo sobre ídolos e sacrifícios. Petrópolis: Vozes; Piracicaba: UNIMEP, 1991. pp. 245-247.

416 Cf. BONORA, Antonio. Servo da Isaia a Gesù. In: MARTINI, Carlo Maria. et al. La Storia di Gesù. Vol. VI.

povo. O ambiente profético individua uma personagem que traz consigo os sinais da eleição divina, do sofrimento pelos pecados alheios e da sucessiva glorificação. O Deutêro-Isaías conseguiu admiravelmente esquecer a si mesmo individuando um profeta futuro que concretizaria as esperanças escatológicas que animavam o povo no exílio e no pós – exílio 417.

O primeiro cântico do servo (Is 42, 1-4): fala da missão do servo; o segundo cântico (49, 1-6) fala da resposta do servo, o terceiro Cântico (50, 4-9) apresenta a lamentação do servo e o quarto cântico (52, 13-53; 1-12) mostra a vitória do servo. A descrição do servo atinge o ápice da doação e do sofrimento: o servo silencioso e dócil do primeiro cântico se torna cansado e humilhado no segundo cântico, maltratado no terceiro e desfigurado pelo sofrimento a ponto de perder a aparência humana; pelo sofrimento de caráter físico e moral, devido ao desprezo dos homens. O sofrimento do servo é vicário, deve aceitar a morte para realizar o plano de Deus. No quarto cântico se apresenta a vitória e a glorificação do servo. Vários interrogativos surgem destes textos e são de ordem histórica. Como individualizar o servo? Qual a interpretação e a utilização feita pelo Novo Testamento? Para alguns é uma personagem individual, para outros é uma personagem representativa do povo de Israel. A questão é difícil de solucionar, faz-se necessário uma interpretação elástica que englobe os dois aspectos.

Outro problema fundamental para a teologia é o modo como Jesus compreende o servo. Jesus foi interpretado pelos seus contemporâneos como um profeta, ainda que jamais se identificasse como tal. Preferiu e privilegiou a figura do servo para explicar sua missão. O termo servo desaparece na passagem dos Evangelhos para as cartas até ser substituído pelo título Filho. Entretanto, Jesus interpretou sua missão, paixão e morte à luz da figura do servo de Iahweh 418.